Mentiras de Verão

Mentiras de Verão Bernhard Schlink




Resenhas - Meia-Noite na Austenlândia


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Fábio 03/09/2016

De Pilatos a Raskólnikov

Bernhard Schlink entrou para a minha lista de escritores contemporâneos prediletos logo que li “O leitor” – seu romance mais conhecido, e também um dos meus livros mais queridos. O estilo elegante e sóbrio do autor, que alia uma linguagem enxuta e direta com sutis delineamentos psicológicos dos personagens, é de uma beleza literária notável. Minha admiração por Schlink apenas cresceu à medida que eu lia os demais livros dele, até que me deparei com o recente “Mentiras de verão”, obra de contos que evidencia o talento narrativo do autor também em textos relativamente curtos.
Como nos romances, os contos de Schlink são impregnados de questionamentos existenciais e individuais que dão às ações dos personagens uma dimensão mais complexa do que aparentam superficialmente. Em “Mentiras de verão”, especificamente, os personagens têm de lidar não apenas com suas mentiras, mas com a delicada rede de ilusões – conscientes ou não – resultantes de suas escolhas. Invariavelmente, essas tentativas de manter tais ilusões acabam envolvendo e magoando outras pessoas e são os desdobramentos decorrentes disso que tornam cada um dos sete contos deste livro tão únicos e, talvez por isso mesmo, inquietantes.
Em “Baixa estação”, conto que abre o livro, um músico em férias, parece encontrar o grande amor de sua vida, mas aos poucos é confrontado com as diferenças entre seu mundo e o da mulher que ama. Posteriormente, defrontado com a necessidade imperativa de optar por uma mudança em sua vida (a vida pacata e parcimoniosa com a qual se adaptou) para se enquadrar no novo universo que se descortina à sua frente, ele começa a construir uma frágil rede de omissões e mentiras, na tentativa de alcançar alguma estabilidade entre as vidas contrastantes que se lhe apresentam.
“A noite em Baden-Baden” apresenta um conflito aparentemente simples acerca de fidelidade e confiança. De modo paradoxal, este conto me fez lembrar do seriado “Tell me you love me”, da HBO, no qual um casal está em constante atrito porque o homem é, por assim dizer, bastante sincero em relação às suas tendências à infidelidade, o que continuamente exaspera a mulher. No caso do conto, ocorre algo quase inverso: o homem deixa de se explicar para a namorada, deixa/esquece de compartilhar com ela a sua vida (uma vez que estão sempre viajando, separados pelas circunstâncias) e, somado a isso, há a evidente instabilidade emocional do casal, tanto acerca dos próprios sentimentos quanto nas perspectivas para o futuro alimentadas por cada um.
“A casa na floresta” é meu conto predileto deste livro: por si só ele já garantiria a inserção do livro entre meus favoritos. Aqui um homem amoroso (escritor, marido e pai) decide passar uma longa temporada com a esposa e a filha na tranquilidade de uma casa longe dos rebuliços urbanos. Embora a família, a princípio, se adapte bem àquele novo estilo de vida, o homem passa a criar a ilusão de que deve manter sua família ali, em segurança, sem as preocupações e tumultos da vida moderna. Deseja manter a filha – ainda criança – longe das drogas e da violência da cidade; deseja igualmente manter a esposa – que também é escritora, e de grande reconhecimento junto ao público – longe das pressões e do assédio da imprensa. Ele passa, então, a elaborar pequenos e engenhosos embustes, a fim de manter sua família ali, isolada do resto do mundo, dos vizinhos e dos amigos. Embora se possa dizer que ele faz isso com as melhores intenções possíveis, o corrobora o dito de que de boas intenções o andar de baixo está cheio: prova disso é que o homem acaba perdendo o controle sobre suas próprias mentiras, resultando no desfecho imprevisível e triste da história.
“O estranho na noite” tem um quê de thriller: durante um voo, um passageiro ouve de um companheiro de viagem uma história mirabolante sobre amor, viagens exóticas, máfia, perseguição policial, prisões e assassinatos. A vida do narrador (que conta a história em 1ª pessoa) e a desse passageiro cruzam-se algumas vezes depois disso ao longo dos anos e a dúvida sobre a inocência ou culpa do estranho passageiro nos eventos que contou acompanha o narrador até que eles se reencontram pela última vez.
“O último verão” é, a meu ver, o conto mais melancólico do livro. Nele, um senhor com câncer em estado terminal tomou a decisão de suicidar-se com um “coquetel médico” em breve, tendo em vista que as dores que sente estão cada vez mais insuportáveis. Entretanto, ele deseja viver um último verão com sua família amorosa (que desconhece a gravidade do seu estado e sua decisão), dedicando-se a tarefas agradáveis e amenas junto dos filhos, esposa e netos (algo que ele considera “os ingredientes da felicidade”). Neste caso, as mentiras se constroem através da omissão, até que as coisas fogem do planejado e ele sente o peso esmagador de suas mentiras e as mágoas suscitadas por elas.
“Johann Sebastian Bach em Rügen” aborda o melindroso relacionamento entre um filho e seu pai. Já adulto, o filho deseja “conhecer” seu pai, o qual embora presente fisicamente, sempre foi uma figura ausente e distante em termos de comunicação e diálogo. Para tentar sanar esse vácuo entre eles, o filho convida o pai para uma viagem na qual passa a ter um vislumbre mais profundo da figura paterna, de seus sonhos, planos e ilusões ao longo da vida.
“A viagem para o sul” é o conto que encerra o livro. Nele, uma senhora idosa desperta, certo dia e se dá conta de que deixou de amar sua família. O amor simplesmente passa a ser um conceito estranho para ela. Contudo, ciente do amor – agora unilateral – dos filhos e dos netos por ela, a senhora passa a mentir, a fingir que os ama, embora não consiga sustentar isso por muito tempo. Uma de suas netas a convence a fazer uma viagem, tanto literal quanto figurativa, a seu passado, no qual ela não apenas lança um novo olhar sobre eventos dolorosos vivenciados na juventude como também se livra das amarras de suas próprias ilusões amargas.
Depois de me estender tanto, vejo que ainda assim não consegui abarcar todo o fascínio proporcionado por essa antologia. De Pilatos a Raskólnikov... escolhi este título para a resenha por “sugestão” de um personagem que menciona tais ícones da dualidade verdade/mentira. E de fato, os personagens de Schlink se veem presos constantemente no dilema de encararas verdades (a começar por uma forma de defini-la) ou viver no comodismo inerte da mentira. Entretanto, se os mesmos personagens desejam lavar as mãos de sua culpa, suas consciências frágeis e perturbadas exercem proporcional peso nas decisões deles, ainda que sem o radicalismo do machado ensanguentado e incriminador.
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ViagensdePapel 29/08/2017

Lançado em 2010 e publicado recentemente pela Editora Record, Mentiras de verão é um livro de contos escrito pelo autor alemão Bernhard Schlink. Quando vi que a obra estava entre os lançamentos, não hesitei em solicitar para resenha, pois O Leitor, romance muito aclamado do autor, é um dos meus livros favoritos. O romance foi adaptado para os cinemas e estrelado por Kate Winslet, que levou o Oscar de melhor atriz por sua excelente atuação, e Ralph Fiennes.

Diferente de “O leitor“, Mentiras de verão é um livro de contos. São sete histórias, de aproximadamente 40 páginas cada, que apresentam variados personagens e também diversos tipos de mentiras. Além disso, as histórias se passam durante a estação mais quente do ano. Apesar de terem o mesmo fio condutor, os contos são bem diferentes um do outro. Em “Baixa Estação”, por exemplo, conto que abre o livro, conhecemos um homem que é arrebatado por um amor que se desenvolve em suas férias. Depois de fazer inúmeros planos com a mulher amada, que mora em outra cidade, ele volta para casa e não consegue se desfazer de sua rotina, de seu cotidiano.

No conto que se segue, intitulado “A noite em Baden-Baden”, um casal se vê prejudicado pelas mentiras que permeiam a relação e que impedem que o relacionamento siga adiante. Nos outros, há um homem que mente para a esposa e para a filha e deixa que sua obsessão tome grandes proporções; um senhor que está no fim de sua vida e toma uma grande decisão sem comunicar à família; um filho que faz uma viagem com o pai idoso em busca de respostas; e uma senhora, que deixou de amar os filhos e os netos, e não para de se perguntar como sua vida teria sido se tivesse seguido outros caminhos.

A narrativa fluída do autor e os capítulos curtos que dividem cada conto fazem com que a leitura seja bem envolvente e rápida. Além disso, ainda que em poucas páginas, as histórias e os personagens são tão bem construídos que dão a sensação de que os fatos estão se desenrolando diante de nossos olhos. Os personagens são muito reais. Os contos expõem o interior de cada um, revelando seus medos e preocupações, intrínsecos à nossa realidade. Outro ponto positivo da obra é que o autor surpreende a cada história, já que não é possível decifrar o que irá acontecer no fim de cada conto.




Leia a continuação da resenha, acesse o link abaixo:

site: http://www.viagensdepapel.com/2015/06/13/resenha-mentiras-de-verao-de-bernhard-schlink/
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