Onze

Onze Bernardo Carvalho




Resenhas - Onze


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MR.Santi 19/01/2015

Linhas invisíveis
“Um fio vermelho invisível que conecta os que estão destinados a conhecer-se, independentemente do tempo, lugar ou circunstância. O fio pode esticar-se ou emaranhar-se mas jamais se quebrará”. Esta é a antiga lenda chinesa do Fio Vermelho do Destino (Akai Ito). O romance Onze (1995), de Bernardo de Carvalho, também possui um fio conector invisível e segue o mesmo padrão.
Bernardo de Carvalho é carioca. Nascido em 1960, é escritor e jornalista. Debutou sua carreira literária em 1993 com seu único livro de contos, Aberração. Possui dez romances publicados, entre eles, Nove noites (2002), que lhe rendeu o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, e Mongólia (2003), que recebeu o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte e o Prêmio Jabuti.
Em Onze, Carvalho une, em única diegese, personagens totalmente díspares. Um pintor holandês; um menino que não consegue ler os artigos definidos; onze pessoas em um sítio no interior do Rio de Janeiro; onze pessoas envolvidas em um acidente no aeroporto de Paris.
Tudo se inicia no sítio. Onze pessoas brincando de morto-vivo. Não são crianças; são homens e mulheres, casados, com filhos; apenas vivendo pela tradição familiar. E um rapaz deslocado, convidado por um dos membros da família, seu amigo. A história começa a tomar forma. Seus passados e presentes vão se desenhando aos poucos, página a página. As brigas e alegrias, sorrisos e lágrimas começam a ser compreendidos. De repente, uma quebra. Os onze são interrompidos pelos “Gritos do Rio de Janeiro”.
E assim surge a história do “o a e o o e o e” e do menino que não consegue lê-lo. De repente a crítica social, a bruta realidade, a sobriedade marcante do menino de sete anos, morador de uma favela do Rio. E assim surge a história da arte e do artista. De repente, a brutalidade e a dureza, a arte pela arte e a indiferença do projeto social do artista holandês. A realidade martelando seu “tudo será contra você”. O menino vê o artista como um deus. O artista vê os meninos como ferramentas. O menino deseja matar seu deus.
Depois de muitos projetos, depois de sobressair-se aos outros, a raiva do menino torna-se nítida. De repente, uma quebra. O artista desaparece. De repente, nova quebra. Inicia-se a história de um crítico de arte cego. Surgem, então, as primeiras conexões, as coincidências, fio condutor de todo o romance. O passado do artista começa a ser desvendado através do relato de outro personagem.
De repente, quebra. Estatísticas sobre a AIDS em Nova York tomam a cena. Começa a história da fotógrafa. Um relato extremamente subjetivo, massacrado pela realidade que o cerca. Através dela se vê novos traços da história do artista. Até que surge o jornalista. Sua história é narrada até que chega o herdeiro. Então, os órfãos. Então, o mendigo. Então, uma aidética. Então, o aeroporto e um funcionário. Somados ao crítico cego, que lá estava por coincidência, com dois amigos, onze.
Carvalho digressiona e confunde, mostra mais e menos ao mesmo tempo. Histórias concomitantes e complementares fazem de Onze uma obra única que se aproveita das coincidências em presente, passado e futuro para criar uma narrativa fantástica e crível. Ficção que é reflexo direto da condição humana, do que é viver em um mesmo planeta com outras sete bilhões de pessoas. Reflexão sobre a realidade em um tempo em que a proximidade tecnológica e o distanciamento afetivo são crescentes.
Carvalho aposta nos vínculos; nas sutis junções e na aleatoriedade. Um cenário em constante mutação, no qual não se sabe o que é centro e o que é periferia; no qual todos são o centro e todos são periferia. Uma história em que todos são tudo e nada ao mesmo tempo. E assim como na lenda do Fio Vermelho do Destino, cada gesto e cada ato torna-se causa de efeitos diversos em tudo, e o que parece ser o mais individual e subjetivo, acaba por tornar-se o mais coletivo.

site: https://prosaicu.wordpress.com/
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