Recordações da Casa dos Mortos

Recordações da Casa dos Mortos Fiódor Dostoiévski




Resenhas - Recordações da Casa dos Mortos


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Li 01/01/2014

Sob cegos e surdos aplicadores da lei
Como ler "dinamicamente" um livro desses, preocupar-me em ler 250 palavras por minuto de um texto que só superficialmente mostra ser um registro realista da vida dos condenados a trabalhos forçados na Sibéria, homens de cabeças raspadas, cobertos por trapos, cuja sopa tem, dentre outros ingredientes, baratas, dias e dias sem banho e de 100 a 1500 varadas ou chibatadas pairando sobre as costas...

Não pretendo aqui resumir o livro, embora saiba que mesmo de posse do enredo, cada leitor acaba construindo suas próprias impressões do lido... Escrevo para exorcizar meu impasse em meio as minhas recentes descobertas sobre a leitura dinâmica. Interessei-me por este assunto porque ler para mim é como respirar, não poderia ficar sem. Ser assim me deixa ansiosa: há tanta coisa boa para ler e o tempo, para quem tem de trabalhar na Educação é tão escasso. ( Digo 'tem' porque as pedagogias, a falta de indignação entre meus pares, o desrespeito pelos docentes e discentes, o número crescente dos professores que caem adoentados física ou emocionalmente, dentre outros, têm me deixado cada dia menos apaixonada pela profissão).
A leitura então, é para mim um oásis, um tempo só meu, longe da modorra, é ação, é sempre outra possibilidade... Ter nas mãos e diante dos olhos obras de arte ( não é todo livro uma, mas quando se tem a sorte de encontrar...)
A verdade, digo, a minha verdade, é que diante de textos que funcionam como um soco no estômago não dá para correr, a gente se ajoelha com as mãos no ventre e se ergue lentamente, à medida que o impacto e a dor se esvaem.
Como somos capazes de tanta crueldade... Por que foram parar lá... e esses médicos, passivos não questionam as ordens, de que adianta curar os sulcos das costas desse homem para que ele seja novamente feridos... Como puderam matar o pobre cachorro que tudo o que sabia era amar, para tirar sua pele... Então são esses os respeitados, os que caem de pé... Como podem viver tantos anos num ambiente tão asqueroso... tanta coisa correndo no meu pensamento e no meu coração... o inciso do artigo quinto que diz que no Brasil não haverá prisão perpétua nem trabalhos forçados vão ganhando outra grandeza. Tanta coisa correndo no meu pensamento e no meu coração, que me é impossível, correr com a leitura, contar quantas páginas faltantes para o final, chega-me a ser um desrespeito por quem soube criar algo tão impactante. Da mesa pro sofá, do sofá pra cama, daí pro chão... umas paradas aqui e ali para tomar fôlego, ou o sono que vem reclamar o seu tempo eu indo fazer um chá porque quero saber hoje e não amanhã como ficaram os que se atreveram a fugir da prisão recompor as emoções e os pensamentos. Chego á conclusão que haverá textos que lerei de uma tacada, só didáticos, informativos, são tarefa e não fruição. porém, haverá aqueles por quem me dobrarei reverentemente e sorverei demoradamente suas palavras porque são mestres, e se o são, é preciso que eu faça alongar nosso tempo juntos

São trezentas e dezesseis páginas de puro mergulho numa realidade atroz que bem se sabe, não é ficção. Homens, mulheres e animais vítimas da violência de que somos capazes. Só a águia que não. Quer saber por quê... reserve um tempo para ler essa obra, não dá pra sair dela incólume, é amor e ódio certos, é admiração e perplexidade pura diante de tal capacidade escritora. É boa literatura, profunda, ardida, vida.
Lari 17/12/2014minha estante
Nossa...seu comentário é profundo. Arrasou!


Lisboa 04/04/2019minha estante
Foi a primeira obra que li do Dostoieski e considero uma ótima obra introdutória justamente por isso, ''ler é como respirar'' e nesse livro simplesmente não conseguimos parar, o texto extenso e com palavras pouco usuais é equiparado com um texto extremamente cativante, e com os relatos, cruéis, desumanos, mas narrados com uma retórica poética incomparável. Primeiro de muitos livros do autor que ainda lerei, mas sem dúvidas, a obra que mais me impactou até agora.


Priscila 30/10/2019minha estante
Que resenha maravilhosa!




Marcos 05/10/2009

Uma experiência e tanto
O livro retrata as experiências de Dostoiévski nos tempos de prisão, narradas através de um romance fictício.

Por ser narrada de uma forma diferente, quase que como um diário, muita coisa interessante é descrita e é difícil fazer uma resenha. Mas o ponto forte, mais uma vez, são as análises psicológicas das pessoas e suas conclusões pessoais.

Alguns aspectos interessantes merecem comentários. A questão dos presídios é bastante atual, apesar de ser um romance do século XIX. O trabalho era obrigatório e a forma como era implementado fazia toda a diferença sobre a reabilitação do preso. Se usado como uma obrigação inútil, como por exemplo simplesmente carregar uma pedra de um lado pro outro, funciona como humilhação, punição desarrazoada, ninguém sai ganhando. Mas se o deslocamento desta mesma pedra for usado para um fim, se tivesse uma utilidade, como construir uma casa, o preso saía cansado, porém realizado. Infelizmente, o trabalho era usado mais com o intuito de punir o detento.

Falando em punição, o autor comenta sobre um ponto interessante. Uma mesma punição pode ter efeito em dobro, pois desconsidera quem é a pessoa punida. Enquanto a camada mais pobre da população se acostumava rapidamente com a nova vida (embora vivesse em sonhos loucos de liberdade), para os nobres a promiscuidade, a miscigenação compulsória de culturas, era uma punição extra. Por mais que os nobres tentassem se aproximar, a plebe não os reconhecia como seus iguais, chegando a reclamar se tentassem ajudar. Mostra como o preconceito é uma via de mão dupla.

Embora tenha sido comentado que o trabalho tem potencial de ressocialização, alguns indivíduos pareciam simplesmente sentir prazer no delito cometido e nele não viam nada de errado. Esta é uma questão ignorada no sistema atual, que trata estas pessoas da mesma forma que outras, que demonstram interesse em se regenerar.

A punição principal em forma de açoite mostrava um efeito considerável nos detentos. Era tudo o que mais temiam, a ponto de cometer novos delitos, só para ver a pena adiada, ainda que isso parecesse irracional, já que a pena seria ainda maior. Porém, o efeito que isso provocava nos carrascos era bastante negativo para a sociedade como um todo, chegando ao ponto em que se beneficiavam dos castigos aplicados.

Outras situações curiosas e até hilárias, como o teatro que montaram, o banho coletivo anual, as fanfarronices dos detentos, a tentativa de fuga e várias outras coisas mostram que uma resenha é pouco para qualificá-lo.
Bruna 01/10/2010minha estante
Ótima resenha, fiquei bastante interessada!


Marcos 07/10/2010minha estante
Que bom que gostou. Mas se for seu primeiro livro do autor, é melhor começar com um romance, como Crime e Castigo, ou Irmãos Karamázov.


Pablo Italo. 13/04/2011minha estante
vou procurar este livro gora mesmo. sua resenha foi perfeita


ju 01/03/2012minha estante
Estou lendo esse livro, ele realmente é muito bom, vale a pena.Já tinha lido crime e castigo e gostei muito, por isso comprei este também.



Marcos 01/03/2012minha estante
Se gostou desses, não deixe de ler "Os Irmãos Karamázov". Considero a melhor obra de Dostoiévski.


Wanderson 10/01/2015minha estante
Boa resenha, estou lendo essa obra e achando muito interessante. já li outras obras do autor e gostei muito.


sonia.pineda.944 20/11/2017minha estante
Marcos, fiquei interessada em ler Dostoiévski. Vou começar por 'Irmãos Karamázov' e depois 'crime e castigo', 2 clássicos do autor, e depois continuarei. Quero te perguntar sobre esta frase que li em outro livro de outro autor falando do Dostoieévski: " Uma experiencia de encantamento pode salvar uma criança". Você sabe me dizer em que obra está?
grata pela atenção
Sonia 20/11/2017




Glauber 12/01/2010

É Dostoiévski!
Não é a sua obra mais representativa, mas marca o início de sua melhor fase. Talvez não recomendada a quem nunca teve um contato com o autor, mas certamente aqueles que já passaram pelas grandes obras "Crime e Castigo", "Os irmãos Karamazovi" e "O Idiota" irão reconhecer: é Dostoiévski!
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Thiago 27/10/2012

Recordações da Casa dos Mortos é na literatura do russo Dostoiévski uma obra mais que autobiográfica. O livro narra às próprias experiências do autor quando esteve preso numa remota região da Sibéria condenado a trabalhos forçados em meados do século XIX.

Nesta obra anterior aos grandes clássicos do autor como Crime e Castigo, O Jogador, Memórias do Subsolo e Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski já nos apresenta a genialidade e características que marcariam suas futuras obras. Indivíduos profundamente torturados e um grande conhecimento da psicologia humana colocaram o autor entre os mais importantes romancistas do mundo. Ambientado dentro de um presídio, somos levados a conhecer o dia-a-dia e os dramas de uma prisão onde a tensão proporcionada pelo confinamento se manifesta nos inúmeros conflitos que surgem desta realidade.

Personagens marcantes e a descrição do ambiente claustrofóbico em que vivem os detentos fazem a história prender a atenção do leitor com profundas reflexões sobre o sistema prisional, a sociedade e os seres que a compõem. Obra importante e atual, apesar de ter sido escrita em 1862.
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Potterish 19/06/2012

Quem tem medo de clássico?
Resenhado por Thiago Terenzi

Pois este autor escreveu “Recordações da casa dos mortos”, um romance baseado em suas experiências enquanto viveu na sombria e gélida prisão de trabalhos forçados da Sibéria. Um enredo como este conseguiria facilmente atrair a curiosidade de qualquer leitor ávido por uma boa estória, certo? Mas este autor é Dostoiéviski e o livro é um dos maiores clássicos da história da literatura mundial. Alguém aqui tem medo de clássico?

Há quem sue frio quando ouve falar em Dostoiéviski, Machado de Assis, Cervantes, Tomas Mann, Kafka, Álvares de Azevedo, entre outros. Quando o professor exige a leitura de algum destes, um medo terrível adentra o corpo do aluno: é o Medo do Clássico.

Mas acalme-se! Nada está perdido – o clássico pode sim se tornar uma leitura interessantíssima. Há beleza – e muita! – nas palavras mofadas de um livro cânone. E digo com conhecimento de causa: já fui um desses que preferia jogar bola ou videogame ou entrar no MSN ou ir no cinema ou dormir ou assistir tevê… tudo, menos ler um Temível Clássico. Fui fisgado para esta que chamam de Literatura Erudita ao ler o livro que agora recomendo: “Recordações da casa dos mortos”, de Fiódor Dostoiéviski.

São sempre as mesmas as queixas quanto aos clássicos: a linguagem é dificílima; o livro não prende a atenção do leitor; são páginas e páginas de descrições chatíssimas, onde está a ação?…


PARA LER A RESENHA COMPLETA ACESSE: WWW.POTTERISH.COM/RESENHAS
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Jefferson 19/05/2014

Surpreendentemente fácil e fantástico
Alexandr Petrovicth, é um ex-nobre consciente de seu papel de preso, acusado por um crime que por alto seria o de ter assassinado sua esposa, mas em que momento nenhum o próprio personagem relata qual é o seu crime. Logo de início, Alexandr, em suas primeiras impressões, se surpreende, pois o presídio é o primeiro lugar em que vira quase duzentas pessoas alfabetizas juntas num mesmo local. Isso porque o presídio contava com presos políticos (nobres), militares e alguns civis alfabetizados.
O presídio em alguns aspectos tem as mesmas características que vemos em filmes e jornais, como presos separados por classes, raças, crenças e nacionalidades, suborno a guardas, contrabandos e claro uma força opressora de comando. Mas quando analisamos outros aspectos peculiares, lembramos que estamos na Sibéria em 1842. Os presos são acorrentados nas mãos e pés durante toda sua vida na prisão; eles não ficam em selas e sim em alojamentos; possuem animais de trabalho e até de estimação que chegam por vontade própria; e saem do presídio para realizar trabalhos forçados ou mesmo oficios que aprendem na prisão. A todo momento nos surpreendemos com a narrativa sobre o cotidiano e os locais onde os presos vivem e como vivem. Esse é um dos pontos que mais gostei na obra.
Quanto ao personagem, Alexandr é praticamente um fantasma, vagueia pela prisão, apenas a observar, é curioso e atento e ao mesmo tempo consegue se manter longe dos presos "comuns" que se separam dos "nobres". Para mim, o mais fascinante na obra é que ela não se baseia na vida de Alexandr, que aliás não sabemos nada! E sim na vida anterior dos outros presos, Alexandr, quase sem esperança e angustiado tem a necessidade de conhecer a história dos outros. É quando percebemos a principal característica de Dostoiévski, seus personagens são reais, o povo e os despercebidos são seus personagens e nos momentos de desespero, tristeza, raiva e raras alegrias partilhamos os mesmos sentimentos, pois nos sentimos próximos a eles.
Pra encerrar, um livro ótimo e totalmente recomendável.

site: alicenascorrentes.blogspot.com.br
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Patrícia 08/07/2009

Cansativo!
É duro dizer mas foi o único livro que não gostei de Dostoiévski e ainda não consegui terminar.
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Israel 07/09/2012

Uma das obras mais importantes do autor, RECORDAÇÕES DA CASA DOS MORTOS traz o personagem narrador Alexander Petrovich, condenado a cumprir pena por trabalhos forçados na Sibéria face ao assassinato de sua própria esposa.
O livro na verdade é uma versão romanceada do período em que o próprio Dostoiévski viveu na prisão, onde se viu envolvido com um levante chamado “Decembrista” que tinha o objetivo nada mais nada menos que derrubar o Czar Nicolau I, apesar do envolvimento do jovem Dostoiévski ser meramente intelectual e não ter nada de revolucionário.
Na obra, o autor envereda pela análise da relação entre as autoridades, os presos e o ambiente prisional, fazendo um vasto apanhado de situações vividas por ele e por outros no confinamento. Logo no princípio, o termo “Casa dos mortos” passa a ganhar sentido devido a condição a que os prisioneiros são submetidos. Dostoiévski, nos 10 capítulos do livro, aborda as primeiras impressões de Alexander, o relacionamento entre as castas na própria prisão (Alexander é um nobre) e o melhor: uma vasta sequência de histórias absurdas, profundas, traumáticas e horrendas tanto da sua própria vida, como da vida dos detentos ou do que ocorreu quando estavam em liberdade. Essas histórias dão ao livro um toque especial por passar a sensação de ler mini-contos dentro do romance.
A partir dessa história, o autor analisa o lado mais sombrio da alma humana, seja ela a alma do carrasco que aplica uma pena de 1000 chibatadas ou um facínora que matou a própria esposa, colocando-os numa mesma balança porém vendo-os sob perspectivas bem diferentes.
A edição da Nova Alexandria é primorosa. Foi traduzida direto do Russo por Nicolau Peticov, além de capa dura, papel Pólen Soft, fonte e espaçamento no tamanho adequado. Traz ainda como extra uma carta de Dostoiévski destinada ao irmão Mikhail, datada da época do fim do cumprimento da pena, onde o autor foi forçado a cumprir 1 ano de serviço militar obrigatório. Nessa carta, o autor implora ao irmão por dinheiro, conta um pouco sobre a vida na prisão, faz planos para a publicação de seus livros e em toda a carta, é comovente ver Dostoiévski implorar para que o irmão mande livros, sendo que em quase todos os parágrafos ele faz esse pedido alegando os mesmos serem a sua razão de existir.
RECORDAÇÕES DA CASA DOS MORTOS talvez seja um grande divisor de águas na obra de Dostoiévski, pois é muito provável que se não fosse essa experiência vivida na prisão, o autor não tivesse se tornado um dos maiores, se não o maior escritor russo de todos os tempos.
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Guting 06/01/2012

Pesado, mas necessário.
Um livro que faz sentir o mesmo que ele : denso, nebuloso, esperançoso e sempre nos envolvendo num mundo do qual poucos conhecem.... O mundo das pessoas presas, rejeitadas pela sociedade, onde tudo e nada podem acontecer. A riqueza de detalhes no modo de vida tanto dos presos quanto das pessoas comuns do país em questão é um dos pontos altos do livro.
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Alex0994 25/05/2012

Meu primeiro contanto com Dostoiévski foi através dessa obra. É uma leitura mais cansativa, de fato, porém é um bom livro, com uma história no mínimo curiosa e, Embora se trate de um livro escrito no séc XIX, o assunto se encaixa muito com vários aspectos do mundo atual.

Tal obra aborda temas curiosos e interessantes, como noção de justiça, preconceitos, arrependimento, a relatividade de um crime e da maneira com que uma punição atua sobre uma pessoa, a esperança no que diz respeito a liberdade de um detento, abusos por parte de autoridades, vícios, promiscuidade, etc.

O autor, em suma, tenta colocar em pauta a questão da humanidade nos detentos em geral. Um detento, independente do crime por ele perpetrado, não é um autômato, mas sim um indivíduo que sente, que pensa, que age e sobretudo tem sede de liberdade. A punição, embora deva ser aplicada, deixa de ser justa e passa a ser cruel a partir do momento que fere a qualidade de um detento como pessoa, consequentemente corrompendo ainda mais tal alma, ao invés de "reformá-la".
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Léo Araújo 26/10/2009

Polêmico!!
Nã há nada mais assustador do que olhar para si e ver a verdade que escondemos ao viver em sociedade.

Dostoiévski consegue desmistificar o conceito de liberdade nessa história verídica em uma prisão na Sibéria. Talvez o pior sentimento que exista é a falta de liberdade, em todos os sentidos. Nada de máscaras, nada de poses. Apenas o instinto de sobrevivência.

Nessa narrativa é possível se sentir inserido no ambiente relatado por Dostoiévski, onde o sentimento de insegurança, falta de liberdade, tensão e angústia vem à tona e permanece até a última página do livro.

É um livro que demonstra claramente qual o verdadeiro sentido de liberdade: física, emocional e mental.

Recomendo!
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André Goeldner 15/03/2011

DENSO, INQUIETANTE, HUMANO
Muito bom. Vale a pena.
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JJ 10/03/2017

Ler outro livro de Dostoiévski é como reencontrar um velho amigo. Por mais voraz que seja o leitor, dificilmente este autor russo passa menos de uma semana em nossa cabeceira - ou em nossas cabeças, dada a força de suas histórias. Mesmo assim, dos 17 livros lidos este ano, Recordações da Casa dos Mortos foi apenas o quinto mais demorado até agora.

Isto porque, em um ritmo de conversa, Fiodór conta meticulosamente o funcionamento de um presídio na Sibéria, baseado em sua própria experiência de vida. Não é à toa que ele é um dos meus autores favoritos. Dostoiévski une não só uma trama de qualidade com discussões e devaneios sociais fundamentais até hoje. Nesta obra, o foco no sistema carcerário, na efetividade da aplicação de penas duras (banimento, cruéis e de trabalhos forçados), aumenta o interesse de amantes do Direito, como eu.

O primor na escrita dispensa comentários. O ritmo da trama consegue se manter alto quase todo o tempo. Da chegada do autor da história à Sibéria, da divisão por classes, do fruto do trabalho reservado aos vícios, dos raros dias de banho e festas... Todos os pormenores ajudam a entender uma sociedade específica (a Rússia czarista do século XIX) sem deixar de ser fonte de argumentos para defender qualquer tese na área jurídica na sociedade atual.

Quando, em fls. 209 da edição lida, ele levanta bandeiras ao dizer "... esses cegos e surdos cumpridores da lei não compreendem nem percebem sequer que a aplicação literal da lei, sem a interpretação do seu sentido, leva a reações, dessa prática só advindo consequências piores..." nós entendemos porque Dostoiévski é tão fundamental como Montesquieu ou Ihering, além do flagrante caráter filosófico de uma obra desta magnitude.

Apesar disto, Recordações da Casa dos Mortos ainda se encaixa como obra pré-existencialista do autor, apesar de ser a última. Ele ainda se socorre a expressões como "inefável" e "acepção" de forma corriqueira, mas quem é fã interpreta isso como algo típico do nosso velho amigo. Ainda há espaço para momentos extremamente descritivos. No início da segunda metade da obra, quando o narrador vai à enfermaria e convive com a parte mais desumana do cárcere (roupas sujas, latrinas à noite para suas necessidades e os grilhões sem sequer um desaperto) a riqueza de detalhes faz parecer que ele escreveu a obra na própria prisão.

Porém, mesmo quando se socorre a narrativas mais diretas, como da realização de uma peça de teatro pelos detentos, o russo se mostra preocupado com aspectos internos do ser humano. Em fls. 160 da edição lida, por exemplo, ele finca que "... a tirania é um hábito, tem a propriedade de se desenvolver, e se dilata a tal ponto que acaba virando doença ...".

Quando decide concluir a história e pesa sua experiência no presídio - para ressuscitar da casa dos mortos - diz que se forçou a isso porque, se pudesse, escreveria cinco vezes mais. Mas, sabe que isso seria uma boa ideia?
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Gladston Mamede 15/01/2018

Ganhei esse Dostoiévski da Rita Caminhoto, amiga de Londrina. Não o leria, não fosse assim. E fui arrebatado pelo texto que é simplesmente irretocável. Romance? Não diria. Não há história, no sentido estrito do termo: não há fatos que se encadeiam, nada por supor ou esperar. São recordações sobre o cumprimento da pena de 10 anos pelo narrador, sem sequência cronológica certa: vão e voltam. Teria tudo para ser chato e ruim, mas é soberbo e delicioso de ler, mesmo com descrições excessivamente detalhadas de quase tudo: fui capturado pelo texto e não consegui parar de ler. Detalhe: um ensaio penitenciário fabuloso que poderia - e deveria - ser dado a ler aos alunos de Direito Penal, Processual Penal ou Penitenciário, tanto quanto o Marquês de Beccaria e seu "Dos Delitos e das Penas". Impressionante.
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