A casa da invenção

A casa da invenção Luis Milanesi




Resenhas - A casa da invenção


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Lucas 12/04/2015

Sem o jogo de conflitos nada poderá ser criado
O livro é de 1991, revisto e ampliado em 1997. Aparentemente a edição de 2003 reproduz a de 1997. Antes de qualquer coisa, é importante remontar à área da Cultura no Brasil da década de 1990, apesar de ser bem óbvio e infeliz a sua conjuntura nacional.

O autor esmiunça afinco os problemas sociais e políticos brasileiros que remetem à precariedade da área da Cultura de forma que as raízes de suas debilidades são claramente histórico-estruturais, levando-nos à Companhia de Jesus e os Jesuítas com o seus sistemas de ensino totalmente embasados na reprodução dos dogmas religiosos até o encantamento das autoridades brasileiras - acostumadas com a ideia de que Cultura é algo que significa persona culta e/ou que serve somente como um signo a ser esbanjado por um município letrado, mesmo que o próprio não faça uso desses espaços - encantamento perante os centros de Cultura surgidos na Europa na década de 1970, em especial o Centro Georges Pompidou de Paris.

É notório perceber que ocorre uma diferenciação conceitual entre bibliotecas públicas e centros de Cultura do lado de cá do Atlântico enquanto na Europa os centros de Cultura em ascensão não eram nada mais que bibliotecas públicas que absorveram todas as demais atividades e espaços culturais como teatro, museu, cinema, auditórios, bares, parques, anfiteatros etc.

Na contramão do desenvolvimento de seus espaços, as bibliotecas começaram qualitativamente a cair em queda livre (ou seja, a ficarem mais precárias do que eram) com o surgimento de centros de Cultura criados apenas como apetrechos simbólicos e por sentimentos de ter posse de algo que estava em pleno desenvolvimento na Europa. Uma antropofagia feito às pressas, sem informação e com total desconhecimento de causa. Primeiro veio a forma sem antes definir a função. Pior, sem considerar o que já existia.

O livro vem desmistificar o que são centros de Cultura e como as bibliotecas são peças-chave desses espaços, além de fazer uma análise muito interessante a respeito de como o Estado é autoritário com os espaços culturais ao aplicar uma certa uniformização e estabelecimento de padrões em algo que varia drasticamente de uma cidade para a outra. Não existe biblioteca pública padrão, ela é resultado da expressão e necessidades da comunidade que faz parte, assim que deve ser feito. Os resultados de uma política que exerce uma força esmagadora de cima para baixo, através de um Estado forte e extremamente centralizador, são drásticos e irreparáveis.

A comunidade que deverá fazer e sentir-se parte das bibliotecas/centros de Cultura, inclusive pertencer à gestão do espaço, com total liberdade de expressão. O livro é muito rico e traz muitas reflexões e mostra uma lucidez sem tamanho em uma sociedade que necessita cada vez mais de informação para alavancar o seu desenvolvimento e sua formação de identidade.

""É um paradoxo: quanto mais pobre é uma sociedade, mais necessita das palavras, das formas e da capacidade de inventá-las; e, por ser pobre, tem imensa dificuldade de produzi-las e torná-las fortes. É, ainda, fundamental que a expressão de uma sociedade se relacione e se integre nas palavras e formas que a humanidade em toda a história produziu. Esse é um processo que uma sociedade que se deseja autônoma deve conduzir: obter o conhecimento e criar novos é concretização de autonomia de um indivíduo e de um país”".

Os espaços culturais, pouco entendidos como tais pelos próprios bibliotecários que fazem parte de seu meio, não devem ser meros espaços de reprodução e imposição, pois desses já bastam a escola tradicional e os meios de comunicação em massa, mas, inevitavelmente, espaços de informar, discutir e criar, tais prerrogativas são essenciais para que ocorram conflitos de ideias, análises do meio em que se vive e revisão do que é considerado verdade, o inquestionável cede ao mutável, a imposição dá lugar à tomada de posição, não há formação sem informação, sem o jogo de conflitos nada poderá ser criado. Sem essa tríade - informar, discutir, criar - em sua missão as bibliotecas não conseguirão alçar voos mais altos no atual cenário em que o país se encontra.
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