LTI - A Linguagem do Terceiro Reich

LTI - A Linguagem do Terceiro Reich Victor Klemperer




Resenhas - LTI - A Linguagem do Terceiro Reich


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Júnior 13/09/2012

Atual
Klemperer é preciso em suas analises e espantosamente contemporâneo em suas conclusões e indagações. Para os fascinados por este árduo período da história, entender a dinâmica do nazismo é algo fundamental, e este livro nos proporciona detalhadamente as consequências dos detalhes no governo de Hitler.

Os estudos do autor estão intercaladas com inúmeros relatos pessoais que impressionam e tornam a dissertação mais real do que já se possa imaginar. É incrível como, por diversas vezes, Klemperer tira conclusões que imaginamos só vir à tona no pós-guerra globalizado.

"Parece-me que no futuro, quando se falar em 'campo de concentração', a referência será, exclusimente, à Alemanha de Hitler, somente à Alemanha de Hitler."

Leiam... nada mais a dizer.
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JB 08/09/2011

Lingua Tertii Imperii - Parte 1
Victor Klemperer era um judeu alemão "assimilado" (convertido ao cristianismo), professor de filologia, marido de uma "ariana", sobrevivente do Holocausto, uma mente inquieta que mesmo em meio à destruição que o rodeava, às humilhações a que era sujeito, a vida difícil do trabalho e das Jundenhaus (casas judaicas) fez um cuidadoso e extenso trabalho de anotação, um diário, dos aspectos mais importantes no que se referiu à manipulação da língua alemã por aquele regime que se instalara em 1933.
A leitura desse livro desperta uma imediata relação com 1984 de George Orwell, sendo que é imediata a relação da LTI com a Novilíngua orwelliana. Se ela não é a construção absolutamente nova como proposta em 1984, o regime nazista apropria-se inicialmente da língua para jogar todo seu peso na doutrinação, alienação, na coquista das mentalidades, dos termos, da ideologia.
É todo esse contexto que Klemperer explora com rara maestria. Indentifica as raízes do nazismo no romantismo alemão, no sentido que essa corrente literária deu ao mundo "Volkish", ao binômio elementar terra e sangue, à pretensa supremacia do rural sobre o urbano, da assimilação crescente do ideário nazista à partir das palavras e expressõs que resignificaram (evito dizer corromperam) a língua alemã, de forma a, no limite, constatar que as próprias vítimas assimilaram a LTI e a usaram.
Ao contrário do que se possa imaginar, o livro que tinha tudo para ser massante é de uma leitura instigante e de profundo interesse para quem goste compor o grande panorama de uma das ideologia totalitarista que marcaram a história do Século XX.
No entanto, o grande serviço que esse livro nos dá, além do conhecimento do período nazista , nos permite pensar não apenas o uso da linguagm em nosso cotidiano, seja nos aspecto político como nas mais diversas áreas da vida social.
Indispensável!
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Marc 28/10/2018

“Dizia a mim mesmo: tu ouves com teus ouvidos e tu vês o cotidiano, justamente o cotidiano, o corriqueiro, o que é comum, exatamente tudo o que é despojado de heroísmo, de brilho...” (p. 423).

Grandes livros tem a capacidade de nos fazer enxergar coisas que se tornaram naturais em nosso dia-a-dia, gerando estranhamento e questionamento. Imagine um livro de um filólogo sobre a linguagem cotidiana sob o domínio nazista, a quantidade de dados que ele pode ter levantado. A citação, que mostra a intenção do autor, define também o campo em que ele vai buscar esses dados. Embora a política seja feita nos gabinetes, nas salas de reunião, ela se espalha por toda a sociedade, modifica padrões de pensamento, expressões, a maneira como as pessoas entendem seu tempo e umas às outras.

Durante a leitura tomei consciência que o estudo da linguagem cotidiana, ou melhor, da linguagem de determinado momento e suas transformações é essencial para qualquer um que deseje pensar a história e a sociedade. Muitas vezes a simples modificação no sentido de palavras e expressões, assim como a substituição de alguns termos, já é suficiente para indicar algo mais profundo na psique de uma época. Não basta retornar a significados originários das palavras e comparar com o que significam hoje para dizer que houve um desvio; é preciso acompanhar como essas mudanças ocorrem e com que velocidade, porque algumas vezes isso acontece em períodos muito curtos, evidenciando alterações bruscas no imaginário social.

Não posso deixar de recordar o primeiro autor que chamou minha atenção para esse fenômeno: Castoriadis, o psicanalista e marxista, autor difícil e frequentemente colocado como um teórico abrangente, capaz de incorporar novos pensadores e dar fôlego às ciências humanas. Não é verdade, claro, ele apenas tentava adequar a interpretação marxista a novos tempos, propondo, curiosamente, uma nova linguagem para sua área. Enfim, esse autor, já no fim de sua obra mais importante, “A Instituição Imaginária da Sociedade”, comenta que o significado das palavras é como magma, onde uma camada se sobrepõe a outra até chegarmos ao significado presente. Com isso ele queria demonstrar que o estudo da história é fundamental para esclarecer o momento atual, pois o que vemos geralmente é efeito de superfície e esconde uma história insuspeita, sendo necessário escavar bastante. Não é exatamente nesse sentido que Klemperer está pensando, porque mesmo que as palavras e conceitos disseminados em uma época tenham uma história rica, o presente, por si só, já é uma interpretação – e quem garante que voltar às origens é mais legítimo do que olhar para o que está presente agora?

Não vou entrar nessa discussão, extensa e enfadonha, sem contar que está muito além do que eu poderia escrever aqui, embora valha o registro a quem se interessar.

O período nazista, desde as primeira manifestações na década de 20 até à Segunda Guerra Mundial, foi de modificações extremas na linguagem cotidiana. A velocidade com que as mudanças aconteciam permitia somente a observadores mais atentos perceberem o que estava se formando. No entanto, por várias vezes o autor se recorda da mudança no entendimento de palavras, mudanças radicais, mas que passaram sem ser notadas, tamanha a força com que esses eventos nos tomam. Muitas vezes somos completamente incapazes de reagir contra alterações na consciência, aceitando passivamente, inconscientemente, melhor dizendo. O problema é que muitas vezes essas mudanças não significam uma alteração positiva em nosso modo de pensar, mas são inseridas por um grupo que toma de assalto o imaginário social e impõe sua linguagem, o que leva toda a sociedade a acatar seu pensamento, mesmo sendo contrária a ele inicialmente. Temos exemplos notáveis em nosso país sobre diversas expressões que modificaram o entendimento das pessoas sobre temas importantes. Um exemplo catastrófico: cerca de dois anos antes da eleição de 89 a Rede Globo começou a usar o termo “marajás” para se referir a funcionários públicos e políticos que gozavam de super salários. Até hoje essa é uma realidade de nosso país, mas o termo desapareceu completamente e ninguém parece muito preocupado em combater essa situação; mas em 1989, Fernando Collor soube usar a seu favor uma novidade que ninguém parou para pensar de onde havia surgido e por quais motivos estava sendo tão discutida.

O termo “marajás” era tão perfeito por trazer referências a algo arcaico, fortunas incalculáveis, desigualdade, ou seja, tudo contrário ao espírito do novo Brasil, que se pretendia moderno e democrático. Teoricamente o povo havia assumido seu destino com o movimento “Diretas Já”, que jogou a última pá de terra no governo militar; era inconcebível que houvesse num país que imaginava estar tomando o rumo certo, finalmente, essa herança imperial. Agora imagine o poder desse termo numa situação em que o imaginário social estava voltado para afirmar o futuro, o avanço. Nossa Constituição entrava em vigor e mesmo sendo novinha, descobrimos (ou melhor, jornalistas “investigaram e descobriram”) o passado no seio do Estado, no funcionalismo público. Uma casta de privilegiados que estava minando a democracia e a igualdade tão desejadas. Luiz Inácio e a esquerda culpam a Rede Globo e a edição do debate até hoje, mas a verdade é que não teriam chance. Havia um único mal e Fernando Collor soube se colocar como o único capaz de derrotá-lo. Ele era o vencedor desde o início. O importante concorde-se ou não com o breve retrato da época que fiz, é que uma palavra, se bem trabalhada, pode mudar radicalmente a percepção de milhões de pessoas sobre um evento e direcionar o imaginário social, a opinião pública, para um lado ou outro.

Arriscaria dizer, com base na leitura, que geralmente é conseguindo mudar o sentido do que estava sendo visto com naturalidade, sem criar alarmes, o que geraria desconfiança, que um grupo político consegue sucesso em sua empreitada. Os nazistas souberam modificar a realidade a seu favor dessa forma: havia uma porção de novas palavras, de novos sentidos para as que existiam, e isso destruiu o entendimento tradicional da realidade que os alemães possuíam. Klemperer chega a dizer que a própria história da língua alemã permitiu que isso acontecesse, porque não houve grandes oradores que dominassem a retórica em seu passado. A língua alemã não possuía, por assim dizer, anticorpos contra a retórica, contra seu uso manipulativo e emotivo. É uma hipótese interessante, devo dizer. Como quase tudo é linguagem, e aquilo que não é acaba sendo transmitido pela língua também, a capacidade de dominar signos e atribuir significados é bastante importante.

Seguindo nessa direção, o autor mostra como a LTI era pobre, repleta de metáforas toscas, mal elaboradas e que reduzia o humano a números ou maquinário. A grande obsessão, por assim dizer, era transformar o orgânico em máquina, que era visto como exemplo de perfeição no funcionamento. Mas tudo isso só funcionava porque havia um fundo amplamente emocional nas falas dos nazistas. Pode parecer contraditório, porque pensamos em máquinas como algo frio e sem sentimentos, mas na verdade as duas coisas são perfeitamente acomodáveis. Um ser humano que funcione como máquina pode sentir imenso amor por sua pátria, por seus símbolos e se sentir confortado fazendo parte de uma organização assassina como a SA ou SS. Tudo funcionando perfeitamente bem era um motivo de inclusão, de orgulho.

Essa nova linguagem, tal como aconteceu na URSS, que também pretendia criar um novo homem para um novo mundo, era um passo necessário e inevitável no entendimento dos nazistas. Ao mesmo tempo em que ela permite sua ascensão ao poder, já introduz a transformação de toda a realidade, um novo mundo produzido à luz do dia, para quem soubesse compreender. Seria impossível criar esse homem se ele continuasse com os padrões de pensamento de épocas passadas, daí a importância de atacar seu pensamento antes de tudo. É por essa razão que os nazistas desprezavam tudo que lhes parecia intelectual, porque levantar dúvidas expunha a fragilidade do novo mundo e era preciso antes de tudo acreditar. O autor mostra como intelectuais, pessoas dedicadas ao questionamento rigoroso e metódico, suspenderam sua atividade mental, colocando a pura crença fanática em seu lugar. Quando questionadas sobre o absurdo de sua fé sem limites, às vezes se aborreciam, em outras eram irônicos, mas jamais deixavam o conforto de sua crença. Não é preciso dizer que o emocional, mais uma vez, apesar da imagem racional do maquinário perfeitamente ajustado que a sociedade havia se tornado, dominava amplamente a mente das pessoas, impedindo que exercessem suas faculdades racionais e questionassem o regime.

Lembrei que há algum tempo uma notícia me chocou, como um autêntico sintoma dos tempos que vivemos. Uma universidade decidiu ensinar afro-matemática, seja lá o que isso for. Esse é mais um exemplo de como grandes livros servem para nos fazer enxergar melhor a realidade e compreender certos eventos. Também é de conhecimento geral que existem disciplinas como história e outras voltadas ao público negro, algo como ensinar o ponto de vista das vítimas. O perigo implícito nesse tipo de atitude, onde supostamente a verdade da violência e da submissão só pode ser percebida por aqueles que a viveram tem um gosto de política racial que não pode ser ignorado. Nunca soube que a educação servia para formar algozes de negros, homossexuais ou mulheres, mas a ideologia política dominante em nosso país começou a investir diretamente na formação de pessoas que só saibam repetir sobre violência, racismo e machismo, entre outras coisas. O resultado já se faz sentir, evidentemente, porque abundam livros e artigos usando termos como “lugar da fala”, “empoderamento”, “Cis-gênero”, “mainsplaning”, etc. Todos esses termos, além de muitos outros que passamos a ouvir todos os dias e não damos atenção, vão compondo um imenso mosaico ideológico, transformando o solo onde pisamos e conformando o pensamento a um habitat exótico, onde tudo que se sabe não é mais útil ou desejável, sendo abandonado como um arcaísmo, preconceitos oriundos de uma época totalmente ultrapassada.

Aquele que consegue modificar a linguagem cotidiana, o que significa alterar o imaginário social, molda o debate político. É por essa razão que se criou todo um aparato que pretende culpabilizar, como se cometesse um crime horrendo, às pessoas que não seguem a linguagem do politicamente correto, porque elas estão escapando, conscientemente ou não, do domínio ideológico.
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