O Pai Morto

O Pai Morto Donald Barthelme




Resenhas - O Pai Morto


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Karamaru 14/01/2019

O PESO DA PATERNIDADE
Escrever sobre "O pai morto" é muito perigoso, pois se está diante de uma obra cujo foco está no trabalho com a linguagem, e não no enredo; na verdade, tem-se aqui um não enredo, e sim, parafraseando uma assertiva pynchoniana, um conjunto de alfinetadas literárias, longas metáforas, metáforas de metáforas, arengas, paródias... enfim um "barthelmismo".

Narrar o trajeto do Pai morto - que era bem vivo! - ao suposto Velo (uma espécie de fonte da juventude) é quase um pretexto para Barthelme exercer seu ofício criativo com a linguagem, estilhaçá-la e reinventá-la em seu grau máximo.

Por isso, talvez, "O pai morto" exija uma leitura ao mesmo tempo atenta e descontraída - atenta, pois há alguns jogos linguísticos bem sutis, muitos paradoxos e sugestividade; descontraída, porque é assaz lúdica e humorada.

Se fosse apenas por tais aspectos, já se teria um grande livro. Mas o livro consegue desenvolver outra camada: a da crítica. Sem dúvida, não fui capaz de apreender todos os juízos que o autor exerce ao longo do livro; creio que muita coisa esteja atrelada a um contexto sincrônico à produção da obra.

Contudo, é possível perceber o constante questionamento feito à cultura patriarcal, a diversas formas de opressão e controle que, mesmo mortas (silenciosas), são capazes de resultados atrozes.

É um livro curto, de ritmo e leitura lenta. Mas mordaz, ultramoderno, singular. Uma leitura diante da qual não se fica indiferente.

"Para encontrar um pai perdido: o primeiro problema de encontrar um pai perdido é perdê-lo de uma vez por todas. Muitas vezes ele sairá vagando de casa e se perderá. Muitas vezes ele permanecerá em casa mas ainda estará 'perdido' em todas as acepções genuínas do termo, trancado dentro de um quarto do segundo andar, ou dentro de uma oficina, ou na contemplação da beleza, ou na contemplação de uma vida secreta." (p. 188)
Lopes 24/01/2019minha estante
Ahhhhhhhh, ótima resenha!!!!


Karamaru 24/01/2019minha estante
Ahhh, obrigado, querido!




Lopes 14/01/2019

| As dobras presas |
Se com Beckett podemos importar a linguagem para uma metáfora onde no centro de sua planície encontra-se diversas pontas, dobrando, assim, a própria linguagem em tantas outras dobras. Com Joyce, a partícula se torna reflexo específico da linguagem, suas mínimas estruturas rompem o todo e enclausura a ficção em demandas do moderno. Essa base matemática se predispõe em Donald Barthelme em seu gesticulado “Pai morto”. Uma ode à linguagem, à leitura, aos artistas. À arte: dando um passo adiante no descrever de uma escrita explicitamente engenhosa, que martela em diversos assuntos atrozmente, assegurando suas variante. Em Beckett, novamente, podemos referir que as dobras da linguagem foram pregadas por uma agulha, quentíssima. Em Barthelme, o que irá juntar as dobras será uma cola. Sua escrita é rasante, ácida, profundamente caleidoscópica nos tipos de assuntos e suas descrições e a junção de Wittgenstein com Maurice Maeterlinck em um universo corado de psicologia e pós-modernismo literário. O confronto moral é mortificado e extraviado, escorrendo a sangue para ressurgir numa fênix capaz de anular, por um breve período, a presença materna e capacitar nossa sistemática paternidade ficcional. Ao derrotar, pela via do desgaste sensorial dos temas abordados, o pai, matando-o antes de cada velório seu, estimula uma presença sem alinhar rostos, marcando um embaçamento que se mistura com a nitidez da narrativa cômica. Aliás, o cômico brota de forma corriqueira e transversal, que logo se adapta quando a compreensão de uma narrativa, que parece teatro, diálogos esparsos, estrutura fragmentada, se faz-se visível. Tudo que é visível predominou um dia às escondidas, precisando ser despertada. A leitura de “Pai morto”, é esse desafio interior, em que o livro não se mostra uma obra-prima, mas seu condutor, um gênio.
Karamaru 24/01/2019minha estante
Adorei a sua também! Sempre brilhante nas resenhas




Paulo Sousa 21/12/2018

O pai morto
Lista #1001livros
Livro lido 2°/Dez//57°/2018
Título: O pai morto
Título original: The dead father
Autor: Donald Barthelme (EUA)
Tradução: Daniel Pellizzari
Editora: Rocco
Ano de lançamento: 1975
Ano desta edição: 2015
Páginas: 260
Classificação: ???
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"Ele tem raiva de ter sido pequeno enquanto você era grande, mas não, não é isso, ele tem raiva de ter sido indefeso enquanto você era poderoso, mas não, não é isso também, ele tem raiva de ter sido contingente enquanto você era necessário, não é bem isso, ele está louco da vida porque enquanto ele o amava, você não percebia (pág 196).
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A história é surreal: um cortejo para enterrar o Pai Morto, figura gigantesca que possui uma perna mecânica e não está totalmente convencida sobre o fim de sua existência. Através de cabos de aço, os responsáveis por carregar o pai são Thomas, filho que lidera o grupo, e sua namorada Julie. Juntam-se ao cortejo Emma, amante de Thomas, e o alcoólatra Edmundo, o outro filho, além de operários que ajudam no transporte ? e demandam melhores condições de trabalho.
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Durante a jornada, O Pai Morto ?mesquinho e tirânico ? questiona frequentemente sua morte física, elucubrando possibilidades para permanecer neste mundo.
Como se fosse um ?todo poderoso?, ele tem a capacidade de matar animais e os próprios filhos, embora esteja sendo carregado por eles para um funeral.
São essas contradições nas relações entre pais e filhos e, num plano mais profundo, certa veneração ao existencialismo, as principais marcas desta obra, tão engraçada quanto desafiadora.
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Não lembro de ter lido nada do tipo antes, um livro contendo tantos estilos literários, quebras de fluxo narrativo, expressões inusuais e dilemas existenciais ora sérios, ora pilhéricos e que, apesar de rir em várias partes indiscutivelmente risíveis, não mina em nada a complexidade do livro. Apesar dos tantos adjetivos achei um livro mediano, embora tenha certeza da releitura num momento oportuno. Se o escritor David Foster Wallace tinha Barthelme entre seus escritores prediletos, é porque há sim qualidade nessa prosa singular. Vale!
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Adriana Scarpin 30/07/2016

Espécie de irmão menos bem humorado de Hilda Hilst e onde ambos são filhos de Samuel Beckett, Barthelme nos traz uma história arquetípica cheia de experimentalismo de linguagem, mas que infelizmente não chega à excelência de seus pares.
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Renata (@renatac.arruda) 19/02/2016

Clássico pós-modernista dos anos 70 e inédito no Brasil até o ano passado, O Pai Morto não é para todos os gostos: apesar de seu humor pastelão, a estrutura não tem uma definição clara, e seu experimentalismo pode assustar os desavisados que chegam buscando um livro convencionalmente cômico.


A história acompanha o trajeto de um cortejo levando o velho Pai Morto, uma figura gigantesca, ridícula e violenta, ao mesmo tempo mundana e sagrada que apesar de morta, não age de acordo. O Pai Morto é arrastado por cabos por homens liderados por seu filho, Thomas, e sua namorada Julie. Sendo um Pai Morto, ou um arquétipo paterno, que está morto mas nem tanto, pode-se dizer que esta é uma história de parricídio; um parricídio necessário: estando já velho demais, lascivo demais, violento demais, é hora do Pai Morto ser enterrado de vez.

Leia mais no Prosa Espontânea: http://prosaespontanea.blogspot.com.br/2016/02/o-pai-morto-donald-barthelme.html
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