Primeiro Alcibíades - Segundo Alcibíades

Primeiro Alcibíades - Segundo Alcibíades Platão




Resenhas - PRIMEIRO ALCIBÍADES – SEGUNDO ALCIBÍADES


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Marc 24/09/2021

Existe muita controvérsia sobre os dois textos desse livro. Não se pode afirmar, com certeza, que tenham sido escritos por Platão. Estamos acostumados a um tipo de linguagem e condução de texto que são muito peculiares em Platão e aqui toda essa beleza, a utilização de mitos como forma de elucidação do pensamento, enfim, tudo isso parece deixado de lado. De certa forma, desde o início o texto parece bem esquemático, o que nunca acontece — mesmo que estejamos acostumados ao modo de escrever do autor, nunca parece artificial. Na edição que li, Carlos Alberto Nunes faz duas introduções bem interessantes expondo argumentos contrários e a favor dessa tese. Por isso, como não tenho competência alguma para julgar esse tópico, recomendo que o interessado procure saber a respeito, o que pode auxiliar na compreensão do texto, para quem deseja um estudo mais aprofundado. Por essa razão, fica mais fácil fazer um resumo do texto, porque a maior parte dele é composta pela preparação da proposta de Sócrates a Alcibíades, um dos filhos mais proeminentes da cidade.

Alcibíades se dedicava a assuntos públicos, sendo considerado alguém importante na tomada de decisões pelos políticos. Mas, como seria de se esperar, Sócrates vai mostrando que mesmo aqueles que se consideram especialistas nos assuntos de Estado pouco sabem deles. Quando perguntado sobre a essência da justiça, Alcibíades não consegue oferecer uma resposta que contente, mal consegue iniciar uma definição, para ser exato. E é assim com todos os temas que dizem respeito à vida pública, mas também aos de âmbito individual, que sejam a base para uma pessoa que domine seus impulsos e desejos e se apresenta na sociedade como uma personalidade verdadeiramente desenvolvida. Não é algo simples, embora seja um verdadeiro truísmo, é preciso arrumar a própria casa antes de se por a dar palpites na vida alheia e na condução dos problemas da sociedade. É a filosofia, com seu amor ao bem, ao belo e à verdade que pode fazer isso. Esse caminho, penoso e difícil, que não oferece recompensas materiais — o que afasta a maioria das pessoas logo de início — é o único capaz de retirar a humanidade do erro. E aqui, aproveito para desfazer um equívoco que sempre ronda os textos de Platão, devido a nossa consciência profundamente antirreligiosa.

A filosofia de Sócrates e Platão não é um modo de pensar laico, que despreza o saber advindo da religião. Quando dizemos que a filosofia deve buscar o belo, o bem e a verdade, estamos falando dessa dimensão, também. Eis o que pouco se fala nos cursos universitários por aí, mas que é fundamental para o entendimento de Platão: o humano é composto por uma infinidade de dimensões, mas todas elas estão sujeitas à verdade, ao belo e ao bem. Se não há harmonia com esses três princípios da construção do humano, ou seja, se a explicação do fenômeno despreza esses princípios, então ela é equivocada e cai no erro e na mentira. Assim, para retornar ao texto, se Alcibíades deseja se dedicar à política, ele aprenderá que qualquer decisão só será justa e correta se estiver em consonância ao que desejam e aspiram os deuses. É uma maneira de compreender a política que nos soa profundamente revolucionária hoje em dia, a capacidade de fazer algo de acordo com o bem e a verdade, com Deus.

Isso implica um aprendizado muito vasto, o aprendizado de uma vida. E não apenas isso, mas o desejo inflamado de conseguir descobrir o significado das comunicações dos deuses (que se dão sempre por símbolos, pois não compreendemos sua linguagem, que é perfeita), o que é muito difícil. É por esse motivo que Platão usa a linguagem do mito em seus textos, pois ele expande a compreensão, o sentido, não limita como a explanação racional. A linguagem simbólica é a única capaz de, se não dar conta de toda a perfeição, mas de ao menos lembrar os homens dessa existência. A polis está degenerada, com os homens fazendo coisas que desconhecem completamente, em completo desacordo com aquilo que desejam os deuses e que é sua verdadeira finalidade. A linguagem, portanto, é uma tentativa de recuperar esse elo, de fazer com que os homens recuperem esse saber e vivam da maneira mais aproximada possível ao bem.

Decorre disso que uma interpretação corrente sobre Platão está bastante equivocada. Quando se diz que Sócrates descobre a verdade no debate na praça pública, confrontando diferentes interpretações da realidade e chegando ao que ela é, quase que por somatória ou por um procedimento de descoberta de um denominador comum naquilo que cada um diz, não se pode estar mais enganado. A verdade não está na sociedade, não está na consciência individual, não é uma somatória de diferentes versões. A verdade está em um lugar que nos foi esquecido, pois a polis degenerou em promiscuidade com o poder e a vida material, sendo preciso um método de recuperação dessa ligação com a verdade e os deuses. Eis o motivo pelo qual, no texto, Sócrates mostra para Alcibíades que é preciso se retirar do barulho da praça pública por alguns momentos e estudar, se dedicar à verdade. Em hipótese alguma a verdade aparecerá do debate de ideias. Se esse é método (digo o debate) pelo qual Sócrates se faz presente na cidade, é apenas em função de que é preciso se comunicar com as pessoas de alguma forma, pois não há outra forma. O debate não é ainda o método de Sócrates e Platão, mas o chamamento, o alerta de que a verdade está em outro ponto, bem distante daqueles que dizem possuí-la.

Essa interpretação, bastante comum, com a qual eu aprendi Platão na universidade, diz que Sócrates ia burilando as definições à medida que ouvia seus interlocutores, mas jamais oferecia uma definição acabada dos temas que examinava. Ora, se ele não encerra a discussão é porque sabe que nem mesmo ele pode alcançar o entendimento completo sobre o que quer que seja. Mas ele não recolhe “fragmentos de verdade” no discurso alheio, porque sabe que cada um dos presentes sabe tanto quanto qualquer outro a respeito do que pensa saber. Ele sabe que não sabe, porque é impossível saber, é impossível alcançar a verdade em nossa consciência deturpada e distante da verdade; ele faz o possível e já é muito saber desse fato, dessa impossibilidade. Sua função é reconduzir os homens a esse caminho, nada mais. Assim, de acordo com o princípio geral do pensamento de Platão, o texto termina não com Sócrates dando uma definição da justiça e da sabedoria, mas convocando Alcibíades ao estudo, para não ofender os deuses em seu modo ineficaz de se dirigir a eles.
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