Cela 108

Cela 108 André Cáceres




Resenhas - Cela 108


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Ana Luiza 29/12/2015

Resenha do blog Mademoiselle Loves Books - www.mademoisellelovesbooks.com
A HISTÓRIA

Ou você vive pela Pátria ou morre pelas mãos dela. Os poucos que se atrevem a questionar o Governo desaparecem, são escravizados ou assassinados. A Pátria é a única família que os cidadãos podem ter, tirados de seus pais assim que nascem, as crianças são “educadas” para obedecer e apenas aceitar tudo o que é imposto pela ditadura sobre a qual vivem.

A maioria das pessoas, no entanto, não percebe que vive sem liberdade alguma, ou tem medo demais de se manifestar. Dante nunca foi uma dessas pessoas. Sempre questionador, mesmo quando criança teve coragem de ir contra o sistema e, por isso, foi condenado a morte. Salvo por rebeldes, Dante se uniu ao movimento de resistência. Entretanto, após perder o amor da sua vida e ver a revolução pela qual lutara jamais acontecer, o jovem Dante fica ainda mais decidido a acabar com a Pátria.

Muitos anos depois, já um homem de meia idade, Dante ocupa um dos altos cargos do Partido único que governa a Pátria. Depois de tanto tempo calado, resistindo secretamente, ele finalmente poderá parar de fingir ser um cidadão conveniente a ditadura e será um dos principais personagens de uma nova revolução. Contudo, surge na vida de Dante uma mulher muito parecida com a qual ele tanto amou um dia.

Em nome da paixão, Dante acaba se entregando a esse relacionamento perigoso que pode colocar em risco tudo pelo qual ele e todos os rebeldes tanto lutaram. Mas, dessa vez, Dante está determinado a mudar as coisas e nada o impedirá de ser o homem que ceifará a vida do Presidente da Pátria. Entretanto, ao mesmo tempo em que se torna um herói, uma lenda, Dante sela o seu destino como o prisioneiro da Cela 108.

EXPECTATIVAS PARA A OBRA

Conheci Cela 108 após um contato do André Cáceres e já fui conquistada logo na sinopse. Por ser uma distopia, um dos meus gêneros favoritos, a obra já despertou bastante a minha curiosidade, mas foi saber que a história foi muito influenciada por 1984, um dos meus livros queridinhos ever, que me deixou maluca para ler Cela 108. E minhas grandes expectativas não foram decepcionadas.

A NARRATIVA E A TRAMA

Cela 108 intriga o leitor desde o prólogo, onde encontramos o prisioneiro da cela que dá nome ao livro prestes a se matar. Imediatamente fiquei sedenta para saber mais sobre o personagem, sobre o que o levara até ali, e é justamente o que o autor nos dá nas páginas seguintes.

Com o tempo cronológico bem marcado - afinal as datas são importantes, por exemplo, uma das revoluções acontece em 1984, uma referência clara ao livro de George Orwell-, podemos dizer que a obra traz três tempos psicológicos diferentes: a juventude, a idade adulta e a velhice de Dante. Eu amei que tenhamos acompanhado o protagonista por sua vida inteira, o que deixou o personagem ainda mais crível.

A escrita de Cáceres é boa. Adorei os capítulos curtos, que juntamente como a narrativa em terceira pessoa ágil, de ritmo cinematográfico, deixam a leitura rápida e movimentada. A trama foi bem construída e amarrada, apesar de alguns aspectos previsíveis, Cela 108 conseguiu me surpreender em diversos momentos.

Entretanto, achei o desfecho da obra muito acelerado. O autor inseriu um conflito interessante nos capítulos finais – quem realmente comanda as ditaduras? O governo repressor ou um pequeno grupo de pessoas privilegiadas? -, mas não o desenvolveu tão bem quanto poderia. Acredito que se Cáceres tivesse gastado mais três ou quatro capítulos com a questão, teria encerrado sua obra de forma perfeita e tornado-a muito mais rica. Contudo, ainda assim gostei do final de Cela 108, que contém pitadas de ironia e nos faz perguntar se existem finais felizes e revoluções verdadeiras na vida real.

OS PERSONAGENS

Dante me conquistou das primeiras às últimas páginas. É impossível não gostar do protagonista, que lutou sua vida inteira não em benefício próprio, mas pela liberdade de toda uma nação. É interessante acompanhar sua trajetória durante a vida e o livro. Dante, no final, é a representação personificada do próprio movimento rebelde. Ao o acompanharmos pelas diferentes etapas de sua vida: juventude, idade adulta e velhice, estamos presenciando também a evolução do movimento de resistência.


Quando Dante é jovem, as revoluções foram abafadas com facilidade, demonstrando que a organização rebelde ainda não tinha alcançado sua maturidade e se baseava mais em propostas idealistas do que práticas. Na meia idade, Dante protagoniza um plano mais bem elaborado e bem-sucedido, mas que não é totalmente concretizado, o que prova que o movimento rebelde já estava mais organizado, mais ainda assim faltava compreensão de alguns aspectos da vida e sociedade humanas, assim como restava alguns resquícios do antigo planos utópicos. Já na velhice. Dante ajuda a liderar um movimento que não pode ser freado, que conta com objetivos práticos e concretos, mas que, pela quase completa falta de uma base de valores, nos faz questionar se o movimento é verdadeiro, genuinamente revolucionário.

Os personagens secundários não foram tão profundamente desenvolvidos como Dante, mas conseguiram marcar presença e exercer papéis importantes na trama. Achei interessante como o autor mostra que não existe, verdadeiramente, heróis e vilões, que tudo não passa apenas de uma questão de perspectiva. Arthur, um amigo de Dante que traiu o movimento rebelde, foi um bom exemplo de que alguém pode fazer tanto mal quanto bem, apesar de que sua “redenção”, nos capítulos finais, não me convenceu muito.

A EDIÇÃO

Apesar da diagramação simples de Cela 108, não me lembro de ter encontrado nenhum erro durante a leitura. A fonte das letras em tamanho confortável deixaram a leitura ainda mais rápida, tanto que as páginas brancas nem chegaram a incomodar. Apesar de trazer alguns elementos que remetem a trama, como os dirigíveis, não gosto da capa de Cela 108, que é escura demais e pouco atrativa.

CONCLUSÕES FINAIS

Cela 108 é uma excelente distopia. Apesar das muitas referências a clássicos do gênero, como 1984 e Laranja Mecânica, o livro traz uma história e personagens únicos, que cativam e prendem o leitor do início ao fim. A leitura rápida e gostosa faz o leitor refletir bastante, ao mesmo tempo em que o entretém.

Os fãs de distopia vão amar a obra, mas todos que procurem uma leitura intrigante e questionadora com certeza gostarão da obra. Agradeço imensamente ao autor pela oportunidade de conhecer seu trabalho e espero ler mais dele em breve.

QUOTE FAVORITO

“O homem fitou-o friamente e Dante percebeu em seu olhar que não falava com uma pessoa comum. Ele não era qualquer um. Emanava uma aura de força e liderança, como se pudesse conduzir um exército sozinho.
- Eu não tenho nome. Já morri há muito tempo.” Pág. 45

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