A arte de produzir efeito sem causa

A arte de produzir efeito sem causa Lourenço Mutarelli




Resenhas - A Arte de Produzir Efeito sem Causa


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Thais 14/03/2021

Uma letargia delirante, sufocante e perturbadora. São essas palavras me vêm à mente quando penso sobre este livro.

Narrado em terceira pessoa, ele conta a história de Júnior, um homem de quarenta e três anos que repentinamente entra num quiprocó com a esposa (a mulher o trai com o amigo adolescente do filho). Ele abandona o emprego e então busca abrigo no apartamento do pai, que tem como inquilina uma jovem chamada Bruna, uma estudante de artes e por quem Júnior desenvolve uma espécie de paixonite.

Sem dinheiro para mais nada, Júnior começa a extrair grana dos pertences da jovem. No entanto, não há reflexão moral, de ordem ética ou existencial por parte do narrador em nenhum momento. A linguagem é crua e as frases são secas e curtas.

Mergulhado num tédio e vazio existencial crescente, ele vê seus dias se repetindo numa espiral de acontecimentos que se resumem a idas a padarias e botecos (onde começa a se afogar na bebida) e no retorno ao velho sofá da sala. É de lá pra cá, de cá pra lá, sucessivamente. Até que... Júnior começa a receber misteriosos pacotes anônimos com recortes de velhas notícias envolvendo o escritor William Burroughs, que matou a mulher acidentalmente durante um "brincadeira" com uma arma de fogo.

A partir desse evento, Júnior é arrastado pelas horas e dias, perdendo-se num labirinto psicológico (representado pelos desenhos que começa criar obsessivamente) sem vislumbrar uma saída (e ele não parece se importar em encontrá-la). E não vou me estender aqui, para não dar spoiler.

Particularmente, achei que faltou um pouco de ironia (e até humor) para atenuar o ritmo da história em alguns momentos (chega a ser um pouco cansativa), e que passa a se tornar cada vez mais sombria, caótica e asfixiante, e que nos leva (e traga) junto com Júnior para um labirinto aparentemente sem saída.

Resumo da ópera: uma história bem contada, com algumas passagens e descobertas surpreendentes, apesar dos pesares.
Italo 14/03/2021minha estante
Um humor não diminuiria o peso dessa espiral caótica que o personagem vai caindo? Interessante serem recortes de notícias do Burroughs, tudo a ver, e esse elemento da narrativa: a paranoia e obsessão.

Eu gosto de personagens assim e histórias assim. Me lembra muito Thomas Pynchon. Me lembra também House of Leaves.


Thais 14/03/2021minha estante
Também pensei nisso em relação a uma dose de humor, mas é que há uma sucessão de acontecimentos que se repetem e se repetem, ad nauseam, então, num determinado momento, é exaustivo mesmo. Mas já é bem intencional, eu acho. Há uma série de referências no livro (Kafka, pra citar mais um exemplo), o que também me agradou.


Italo 14/03/2021minha estante
Devo procurar. Talvez você se interesse por Crônica da casa assassinada do Lucio Cardoso. Tá saindo uma reedição agora em abril.


Thais 14/03/2021minha estante
Esse do Lúcio Cardoso não conheço. Vou atrás, sim, obrigada.




Leo Villa-Forte 01/10/2009

A arte de produzir a boa bagunça
Peguei o livro de Lourenço Mutarelli prevendo uma experiência nova. Lourenço e seus backgrounds: quadrinista, roteirista, ator, não escritor-escritor. O livro e suas impressões: desenhos, gráficos, palavras, letras coloridas e misturadas, textos , frases curtas, pontuação onipresente.
Chico Buarque gostou. Algo tem.
"Será que é bom?", minhas mão transmitiam caladas enquanto se demoravam no pegar daquele livro. Bom ou não, sabia que tinha que testar. Se não gostasse, pelo menos saberia não gostar daquilo direito. E nesse caso, o livro em si é bem bonito, cairia bem na estante. E nesse caso, de eu não gostar, pelo menos teria contato com um modo incomum de escrever e de editar: textos com intervenções, rabiscos de canetas reproduzidos no papel, as páginas do livro feito páginas de caderno, o livro do personagem surgindo no livro do autor. Tudo isso já valeria a pena, caso eu não gostasse.
Não foi o caso.
"A arte de produzir efeito sem causa" é um quebra-cabeça dos bons.Quem tem a cabeça quebrada é Júnior (a do leitor, depois de algum tempo, o livro só ajuda a consertar). É dele a cabeça que Lourenço abre numa cirurgia delicada e e em nenhum momento rebuscada (como nos fazem acreditar os bons médicos). O leitor é levado a escorregar numa espiral de encontros e desencontros pensamentais, porém, não por isso sentimos um peso excessivo na carga de interioridade do personagem. Grande dialoguista que é, o jogo de Lourenço é com o modo como as palavras se relacionam com o mundo concreto que as dá suporte (ou é o contrário?). A crise de Júnior não é com ele mesmo, é com o que vem de fora, é com o que chega até ele, com o que lhe contam, com o que bate à sua porta. É com o efeito que o mundo pode provocar.
Júnior sofre uma bagunça das brabas, enquanto o leitor sofre uma das melhores.
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pierrealmeidaba 21/10/2020

Mutarelli entrega numa narrativa em terceira pessoa, a linha tênue entre a sanidade e loucura de Junior, personagem central da história. Com um texto simples e ao mesmo tempo denso, caótico, o autor nos leva a mergulhar de cabeça em um enredo completamente viciante e perturbador.

"A Arte de produzir efeito sem causa" certamente entrou para a minha lista de melhores leituras de 2020. Recomendo a leitura.
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Maeve 05/03/2009

Gostei da linguagem, das idéias, dos personagens, mas tuda fica muito em aberto. Penso que o objetivo do autor foi me fazer questionar minha própria (in)sanidade, algumas passagens me provocaram ao extremo. Ótimo, já tenho um pezinho na esquizofrenia mesmo, embarquei fácil, mas faltou aquele pedacinho de ordem no caos....é absolutamente pessoal, mas gosto quando os absurdos fazem sentido, melhor, gosto dos argumentos do absurdo para justificarem seu sentido!!
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Élida Lima 04/03/2009minha estante
quantas estrelas?




Alê 12/01/2021

Terror psicólogico de qualidade
Mutarelli tem o dom de nos deixar desconfortáveis com seus personagens crus e sem firulas, é uma das coisas que mais amo na escrita dele e que não falta aqui. A atmosfera claustrofóbica que vai sendo criada dentro daquele apartamento, a paranóia que vai crescendo juntamente com a bomba relógio que o personagem principalmente vai se transformando faz desse um dos melhores terrores psicológicos. O final PRA MIM foi genial, daqueles que vc termina o livro prendendo a respiração. Essa edição ainda conta com o roteiro do filme "Quando eu era vivo" que foi adaptado do livro.
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gfelitti 01/12/2009

o texto mais perturbador que li em 2009. de longe.
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Nadja Moreno - Blog Escrev'Arte 04/02/2014

A mente humana nua e crua.
A Arte de Produzir Efeito sem Causa é um livro embrenhado na mente humana. Retrata, através de Júnior, a sequência de acontecimentos que podem levar um homem à bancarrota, sejam estes acontecimentos de origem natural ou casual ou acidental ou individual. Sejam estes acontecimentos produzidos por desconhecidos, por nós mesmos, pelas pessoas em quem confiávamos ou ainda por causa dos microrganismos que vivem por aí.

Através das páginas vamos nos embrenhando na mente perturbada de Júnior. A cada página vamos descendo as escadas da consciência junto com ele, e aqueles leitores mais aficionados e que incorporam o personagem podem ter a necessidade repentina de um cigarro, um café ou até de um bom médico. Tudo vai se desfazendo e se consumindo de forma a não reconhecermos mais o Júnior da primeira página, ainda que ele já esteja, logo ali, perdido e desestabilizado.

O livro é quase todo escrito por pequenas frases. Penso que esta narrativa contribui ainda mais para a sensação que ele passa de estarmos lendo a mente de Júnior, mesmo que não seja narrado em primeira pessoa Uma mente cheia de nada e de tudo, tende mesmo a pensar muito e em muitas coisas ao mesmo tempo, o que torna a sequencia curta, quase como que um soluço.

A construção dos personagens é fabulosa. Além de gostosos figurantes como os porteiros do prédio, somos apresentados a algumas figuras muito marcantes.

Sr.José (Seu Zé) é o absorto embora preocupado pai de Júnior. É em sua casa que o filho busca refúgio quando se vê perdido. Durante o tempo em que Júnior vive com ele, vamos percebendo que o Sr. Zé vai se tornando o companheiro e preocupado pai dos filhos insanos. Não entende o que acontece, mas está lá

Bruna é a universitária hóspede de Sr. Zé. Uma luz no fim do túnel. Uma mente sã e equilibrada neste meio de instabilidade. Quando Bruna aparecia, o livro se tornava normal e sereno. Válvula de escape de primeira linha.

Júnior. Bom, Júnior é o retrato do medo de todos nós. Ou melhor, o assombro de todos os que temem perder a normalidade da vida de uma hora para a outra, de forma sequencial e sem volta.

A diagramação do livro é incrível. A capa, as páginas azuis que o apresentam, os diagramas desenhados a cada início de capítulo Tudo, exatamente tudo está ligado ao enredo todo. À medida que lemos, vamos percebendo que tudo isso é um retrato. Os riscos, as marcas, os rabiscos, tudo faz parte da história. As páginas rabiscadas no meio do livro são um presente à parte. É como estar sentado na mesa de café do pequeno apartamento de Sr. Zé. Além disso tem as bordas externas arredondadas, o que dá um aspecto de agenda, de diário, de algo mais pessoal do que as linhas retas das edições comuns de livros. Não se podia esperar coisa diferente do artista multifacetado Lourenço Mutarelli.

Se você quer um livro intenso e que ataca sua mente, leia A Arte de Produzir Efeito sem Causa. Não espere por fios soltos que se amarram majestosamente no final. Não, quem dá as amarras em alguns pontos é você, leitor. Leia e tire suas próprias conclusões. Não é um livro comum nem básico. Há que se ter uma mente astuta e até um pouco doida para desmascará-lo.

Ao longo da história Mutarelli insere alguns elementos sombrios que perpassam sutilmente as páginas. Nesta resenha eu abordo pouco este lado, porém o filme Quando eu era Vivo, baseado nesta obra e lançado no último 31 de janeiro, retrata o lado mais fantasioso e assustador do enredo.

site: http://escrev-arte.blogspot.com.br/2014/02/resenha-arte-de-produzir-efeito-sem.html
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Tamara 17/03/2021

O nome do livro já diz muito bem como que a história vai se desenvolver. Esse livro foi uma releitura pra mim. Não acho que gostei tanto como gostei da primeira vez, mas continuo achando um livro muito bom. Ele te deixa curioso e apreensivo. Vale lembrar que tem uma adaptação chamada "Quando eu era vivo", que também é o máximo.
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Lucas.Marques 23/03/2020

Pior final de todos os tempos...
Terror psicológico bem escrito. As vezes, fiquei agonizado com a escrita da autor (aparentemente, a ideia é essa, passar uma sensação de agonia). Ainda não acredito nesse final (que me deixou bravo e puto, inclusive achei que o ebook que comprei na Amazon estava faltando páginas, mas não. O final é ridículo mesmo).
Nota: 3 de 5
Felipe.Lopes 05/07/2020minha estante
Seu comentário respondeu minha pergunta. Obrigado.




Thiago Donato 06/04/2021

Perturbador, caótico e envolvente
Confesso ter procurado tal obra após conhecer a sua versão cinematográfica, e de início posso afirmar, são amplamente diferentes. O autor nos trás a história de Júnior, um homem de meia idade, que após um fim abrupto do seu relacionamento procura o pai ao mesmo tempo em que sua depressão alfora, aos poucos vamos conhecendo fragmentos do seu passado onde sua mãe e seus costumes bruxos são frequentemente citados. O texto, apesar de curto, é extremamente denso e cheio de referências a Borroughs, contraditório autor norte americano que apesar de incômodo, nos prende até o fim mesmo que em certo ponto ele se torne repetitivo. A leitura nos enlouquece e3nos incomoda juntamente com o protagonista, que em sua letargia deixa aos poucos de é visite como ser, passando a ser um nada, sem identidade. O final é totalmente aberto, mas de clara interpretação, fazendo uma alusão típica ao cinema clássico brasileiro, boa leitura.
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Ana Ramos 08/12/2015

VIsceral
Eu entendo os 8 abandonos que constam aqui. Eu mesma passei por momentos de muita angustia ao ler o livro, parecia ate que a perturbada era eu.
O livro nos faz sentir nas entranhas o desgosto de Jr , o avanço da "doença", o mal estar.
Achei visceral!! Acaba meio assim, te deixando no ar, precisava de mais? Ou nao? Deixa pro mundo das ideias.... Segundo livro dele q eu li, so tenho vontade de ler mais.
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jota 16/02/2016

Kafka (ou Dostoievski) nos trópicos?
Tive vontade de ler O Cheiro do Ralo, também de Mutarelli, mas acabei vendo o filme (de 2006) tempos atrás, que ficou bom porque tinha um bom diretor (Heitor Dhalia), Selton Mello como protagonista e humor negro como tema.

Este livro também virou filme (Quando Eu Era Vivo, 2014), sem o mesmo sucesso daquele e preferi ler o livro, especialmente por conta do título: A Arte de Produzir Efeito Sem Causa. E, sendo um pouco maldoso, o título me pareceu melhor do que a própria história de Júnior e sua loucura.

Quem mandou assistir ao Fantástico quando pequeno, ver “matérias sensacionais sobre o mundo do oculto”? Ou comer carne suína mal cozida, quando se sabe que podemos contrair cisticercose, como explica a Sênior, o pai de Júnior, o médico do serviço público, “um oriental mal-humorado”?

Agora os vermes podem estar devorando seu cérebro e Júnior ainda por cima ouve vozes de criaturas estranhas, diabólicas, que lhe ordenam matar pessoas: “ Ele sabe que deve obedecer a suas ordens.” E por aí vai. Será que Júnior, no pouco que lhe resta de lucidez, se disporá de fato a assassinar o próprio pai e também Bruna, a moça que aluga um quarto na casa de Sênior? Ou tudo não passa de caraminholas em sua cabeça?

Não, essa história de Mutarelli não é ruim, mas da próxima vez, em vez de ler o livro de alguém que parece influenciado por Kafka e Dostoievski, como sugere a Companhia das Letras em seu site, não seria mais recomendável ler então as obras do tcheco e do russo? Mesmo porque o autor citado incessantemente aqui é William Burroughs e seu livro Almoço Nu.

Lido entre 02 e 15/02/2016.
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@mi.chxl 03/02/2015

O livro e inquietante e denso. Apesar de algumas partes soarem um pouco ingênuas, como a cena na casa de praia que mais parece que foi tirada de conto erótico barato, o livro em sua maior parte consegue maravilhar com o poder descritivo e te leva facilmente para o universo instável e totalmente conturbado da personagem. Vale a pena.
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Mlimafox 12/03/2015

A fina barreira entre a sanidade e a loucura.
Logo após terminar de ler "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa" do Lourenço Mutarelli, não pude evitar de traçar um paralelo imediato com outra obra que sempre permeou minhas leituras, a clássica história em quadrinhos "A Piada Mortal" escrita pelo Alan Moore e ilustrada magistralmente pelo Brian Bolland. Como não associar essa história de mergulho na insanidade com a teoria do Coringa sobre a fina barreira que separa os pessoas ditas sãs dos loucos. Não querendo estragar a história pra quem não leu, a teoria do Coringa é simples, ele diz que a única diferenca entre uma pessoa sã e uma pessoa louca é um "dia ruim" e essa obra mostra como isso pode ser verdade, ou não.

Em sua escrita crua, simples e direta, Mutarelli te leva a uma viagem a psiquê de Júnior e como ele rompe essa fina barreira da sanidade. Quem é louco? Quem é são? O sobrenatural existe? ou não? Acreditar em algo, faz isso se tornar real? Uma palavra pode enlouquecer? Loucura pega? Leia e descubra.

site: https://www.facebook.com/mlimafox/posts/10203465641512999?pnref=story
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