O Mulato

O Mulato Aluísio Azevedo




Resenhas - O Mulato


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Jonara 15/04/2010

O Mulato conta a história do amor proibido entre Ana Rosa e Raimundo, o mulato (que não sabe que é mulato). Se passa em São Luís - Maranhão e foi escrito em 1881. Raimundo havia sido mandado estudar na Europa, e retorna aos 26 anos para a província, para resolver negócios de seu pai, que havia morrido. Ele não sabe nada sobre seu pai ou sua mãe, e ao chegar na cidade, não entende porque as pessoas o tratam de forma tão estranha e preconceituosa. Ana, sem saber de sua origem se apaixona por ele, mas o romance é proibido por todos da família e pelo padre. O cônego Diogo é um FDP de primeira, que além de ter sido amante da mulher do pai de Raimundo, também é um chantagista e cúmplice de assassinato, um mau caráter abominável, que é tido por todos como um santo. A mulher do pai de Raimundo não é sua mãe, nota-se. A verdadeira mãe foi a escrava Domingas, que foi torturada pela mulher do pai, num acesso de ciumes. A pobre escrava ficou louca. Seu pai era um português que vivia fugindo dos escravos revoltosos, e um belo dia acabou assassinado, mas não foi por um escravo. Confuso? Não, é que estou jogando as informações a esmo... o livro é interessante, e coloca Raimundo como uma vitima de sua própria cor. Ele até tem possibilidade de fugir do seu destino, mas se deixa ficar na odiosa província, vai se deixando dominar pela preguiça... As pessoas que habitam a cidade são as mais chatas, irritantes, carolas e preconceituosas possíveis, e o convívio com elas é uma decepção atrás da outra... mesmo assim ele fica, as vezes movido por uma razão que ele próprio não entende.

O livro é bom, mas tem umas partes meio chatinhas... confesso que pulei varias partes que o Freitas explica as festas do Maranhão e outras coisas... eu tentei, mas o cara é chato demais! Também achei que o livro acaba meio de repente. Mas ainda assim é um bom livro, pra entender um pouco das origens do preconceito e mesquinharia dos brasileiros.
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Felipe 24/12/2020

Apesar de defeitos, uma grande indicação.
Entre fins do século XVII e início do século XIX, o Maranhão e, em especial, a sua capital São Luís vivenciaram um intenso crescimento econômico, sobretudo após a intensificação da cultura algodoeira. À época, São Luís era a quarta capital mais rica do país, atrás unicamente do Rio de Janeiro, de Salvador e de Recife. Em paralelo, no século XIX diversas teóricas tornam a ganhar corpo no ocidente. Naquele período, o mundo acadêmico passa a estimar a cientificidade e a se afastar de postulados teológicos e metafísicos.


No cenário descrito, o Brasil ainda era constituído por instituições como a monarquia e a escravidão. Elas passaram a ser consideradas como empecilhos para que o Brasil crescesse. Ideias positivistas, evolucionistas e darwinistas impulsionavam ideias republicanas e abolicionistas. Nesse contexto, Aluísio Azevedo concebe “O Mulato”, obra que inaugura o Naturalismo no Brasil. Além da escravidão e da monarquia, na referida obra a influência excessiva do clero e a sociedade retrógrada de São Luís foram alvos de críticas pelo autor.

Na capital maranhense São Luís, Manuel Pedro da Silva, conhecido como Manuel Pescada, era um trabalhador português de 50 anos de idade. Com a sua ex-mulher Mariana Alcântara, tem a sua filha Ana Rosa. Mariana defendia que o casamento deveria levar em consideração os sentimentos humanos, enquanto que Manuel Pescada era a eles alheio.

Antes de se casar com Manuel Pescada, Mariana Alcântara se apaixonou por José Cândido de Moraes e Silva, também conhecido como Farol. Com ele também tentou se casar, em vão. Mariana segredou a Ana Rosa sobre os seus sentimentos em relação a Farol antes de falecer.

Após a morte de sua mãe, Ana Rosa cresceu em meio a desvelos insuficientes de seu pai e ao mau gênio de sua avó. Ana Rosa era bonita e seu corpo exibia boa forma para os padrões da época. Durante a sua adolescência, caprichos românticos lhe ocorreram, influenciada pelos livros que lia. Assim como sua mãe, defendia o casamento por amor.


Ana Rosa tornou a alimentar um amor não correspondido, o que chegou a afetar a sua saúde, trazendo preocupações a Manuel Pescada. Em paralelo, Raimundo, o protagonista da história, chega a São Luís após concluir estudos no exterior. Muito se especulava sobre Raimundo. Ele era filho de uma escrava com um português que enriqueceu com o tráfico de escravos. No curso do enredo, Raimundo e Ana Rosa se apaixonam. Manuel Pescada não admite que sua filha se envolva com Raimundo em virtude de sua mãe ser uma escrava. Em decorrência disso, Ana Rosa e Raimundo passam a viver um amor proibido.

“O Mulato” pode haver sido uma leitura obrigatória durante a sua vida escolar ou uma obra presente em algum edital de um vestibular tradicional que você já prestou. Tive a sorte de nem um desses ser o meu caso. A leitura obrigatória é um enfado e, para mim, uma das maiores inimigas da consolidação do gosto por ler.

conclua a leitura da resenha no blog. Caso tenha gostado e deseje ler resenhas nos mesmos moldes, siga o seguinte perfil no instagram: @literaturaemanalise

site: https://literaturaeanalise.blogspot.com/2020/12/resenha-o-mulato-aluisio-azevedo.html
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Fran RW 30/05/2012

"O Mulato" - Aluísio Azevedo
A Verdade Gera Protestos

Certamente, pelo fato de seus pais não terem se casado formalmente e portanto terem sido alvo de escândalo na conservadora sociedade maranhense do século XIX, Aluísio Azevedo dedicou boa parte da vida a escrever romances que criticam e mostram com franqueza o lado preconceituoso da sociedade em geral.
Este livro é um deles. Nele percebe-se o desprezo contra o negro, existente de forma muito mais presente que nos dias atuais, no Maranhão daquela época.
A obra conta a história de Raimundo, um jovem filho de um comerciante português e de uma escrava. Sem lembrar-se dos pais, ele decide deixar Portugal - onde recentemente formou-se em Direito - e regressar ao Brasil para visitar o tio, irmão de seu pai.
Chegando aqui, apaixona-se e é correspondido por Ana Rosa, sua prima. O amor dos dois, porém, possui grandes obstáculos e geral desaprovação. Motivo: Raimundo é descendente de escravos, isto é, possui origens negras e segundo o tio, portanto não poderia casar-se com a prima. Sua persistência, no entanto, leva seus inimigos a proporcionarem-lhe o mais cruel dos castigos.

Por mostrar esta triste verdade, essa história causou enorme polêmica na época de sua publicação.

Achei o livro interessantíssimo. Gosto de romances como este, que mostram não aquele amor perfeito, que sempre tem um final feliz ou em que os vilões pagam caro pelo que fizeram - mas a realidade nua e crua, tal como ela é, goste o leitor ou não. Isso é prestar um "serviço comunitário" quando se escreve. Mostrar aos voluntariamente cegos que a realidade nem sempre é tão bela e os desfechos da vida real muitas vezes não são felizes, como preferíamos que fossem.


(20/02/2011)



pessoalmentefalando.blogspot.com
Luciana 23/05/2012minha estante
Muito boa sua resenha, foi um dos primeiros livros da nossa literatura que li e um dos que eu mais gosto com certeza.
Na época que li eu acho que estava na quinta ou sexta-série e tinha medo da capa, vc acredita? rsrsrs
Mas mesmo assim, me encantei com a riqueza de detalhes e o modo como Aluísio Azevedo escreve.


Fran RW 25/05/2012minha estante
Kk. Também já tive medo de certas capas. ;D

Que bom saber que tu gostou tanto do livro mesmo o tendo lido quando era criança. É difícil fazer as crianças gostarem de livros assim.




Gleisson 02/10/2020

Sobre o autor: Aluísio Azevedo arranha a profundeza da intelectualidade quando escreve esse livro. Cada extensa frase é propositadamente para cansar o leitor desacostumado com o estilo descritivo natural. "Naturalmente", diria o seu Raimundo.
O romance tem um estrutura penetrante, cada elemento está bem colocado, cada lembrança tem um fundamento e uma comparação com as ações que estão acontencendo, como as representações do inconsciente sobre o sonho, coisa que ele faz facilmente, inclusive em outros romances como Casa de Pensão. Além do mais, algumas cenas são "pitorescas" e um pouco engraçadas(engraçado sutilmente). Enfim, gosto muito do livro e do autor, amigo íntimo quase. Recomendo ler se gostar do estilo e do escritor, elemento indispensável para ler este romance.
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EduardoCDias 14/11/2021

Racismo
Um clássico que permanece muito atual ao explorar o racismo, mesmo passando-se no séc. XIX, antes do fim da escravidão. Um mulato, filho de uma escrava, apaixona-se por sua prima branca, tendo que lutar para conseguir seu amor.
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Bia 20/04/2021

Resumo esse livro em: puta merda, atemporal.

Aluízio Azevedo traz como protagonista Raimundo, doutor, rico e que estudou em Coimbra. Mas nós não sabemos muito do passado dele, sabemos que ele é "mulato" (essa expressão é pejorativa, mas é da época).

Raimundo sofre tanto com o racismo que ele nem mesmo percebe de início, Aluízio traz personagens temerosos a Deus, até mesmo um padre que são extremamente racistas e que detestam Raimundo unicamente por sua cor.

Se até hoje existe uma dificuldade enorme de se falar sobre racismo, Aluízio meteu o pé na porta e destrinchou toda a hipocrisia da época.

Ele ainda faz minuciosas descrições de costumes e eventos da época, além de expor como a sociedade via o papel da mulher no casamento e em como o clero era cúmplice e apoiador dessa sociedade racista. Atemporal, atemporal, que escritor foda.
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EXPLOD 09/08/2015

Impactante
“O Mulato”, obra literária de 1881, é peça inaugural da escola naturalista no país. Há diversas passagens que claramente demonstram essa qualificação, no entanto, não são passagens que superem a crueza e vitalidade comparativa e metafórica existentes em “O Cortiço”. Ao contrário desta outra obra sua, o autor concentra quase toda a estória numa única situação/problema: o romance que passa a existir entre Raimundo e Ana Rosa, prima sua. O final, apesar de eu já ter conhecimento do desfecho mesmo antes de fazer a leitura, é, apesar de ser até previsível tendo em conta o autor e a escola literária, surpreendente. Em simples e poucas frases é impactante, até mesmo para quem não costuma gostar de romantismos, e por tudo que se passou na estória, é no mínimo impactante. Isso pode ser explicado, por outro lado, em razão da abrupta transição entre vida e o acontecimento maior que envolve a personagem principal e que dá nome ao romance, pois a partir de então passa-se a descrever o que aconteceu depois de forma resumida, já no fim mesmo.

Como eu já tinha ouvido falar, a demonstração de amor realiza-se por reações corporais. Mas não é nada muito revelador como ocorre em “O Cortiço”, que já me é exagerado. Tanto que acontece algo com Ana Rosa que o leitor nem espera, por não ter existido um indício que indicasse maiores considerações.

Importante dizer que o ambiente é São Luís do Maranhão, e isso é muito revelador sobre Aluísio Azevedo.

Há uma passagem em que Freitas conversa com Raimundo, a fim de demonstrar seus conhecimentos, sem modéstia, e nisto se demora tanto que talvez o autor o tenha feito propositadamente para o leitor sentir o mesmo desprazer de Raimundo em ouvir tanta conversa besta. Ainda assim, Freitas, não sendo, no fim das contas, um verdadeiro reflexo da sociedade racista, tem muito em conta e consideração “o mulato”.

O que achei mesmo interessante foi que Aluísio Azevedo concentrou a figura do preconceito e da maldade consequente e típica do período em personagens femininas. Diogo, como cônego, representa uma forte crítica, mas não me impressionou tanto quanto o número de mulheres “criadas à moda tradicional do Maranhão”, comparativamente aos homens, possuindo desprezo e até ódio pela raça negra.

Raimundo, ao contrário de muitas ilustrações que representam o mesmo em várias capas de livros em outras edições, não é visivelmente um homem de muita “cor”; até seus olhos são azuis. Mas muitos conheciam sua origem, filho de escrava com português casado.

Aluísio Azevedo tratou muito bem a temática do racismo, tanto que, mesmo quem não queira pensar muito sobre essa questão passa a, mesmo inconscientemente, como foi o meu caso, refletir sobre o preconceito racial em nosso país e sobre os direitos. Afinal, quem, no Brasil de hoje, não possui sangue de origem negra correndo em suas veias, nem que ao menos remotamente?
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Sunamita.Silva 25/04/2021

Aloísio
Um dos meus livros favoritos da vida! Tem ironia e comicidades únicas de Aloísio.
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Fábio 20/03/2019

“Que tenho eu com o preconceito dos outros? Que culpa tenho eu de te amar?”
“(...)riam-se a bom rir, apesar da profunda tristeza do crepúsculo, que nesse dia não vestira as galas do costume.”

Às vésperas da abolição da escravatura, O Mulato (1881) é considerado o percursor brasileiro do movimento Naturalista. Nesse movimento as características da sociedade são descritas de forma analítica, quase científica. No Brasil a tese naturalista se foca nas mazelas socais sob o olhar do determinismo. Em O Mulato, o determinismo racial é a grande tese a ser provada.

O livro também expõe, entre outras análises, o descompromisso do clérigo e a sátira à antiga sociedade maranhense. Um cidadão do século XXI pode analisar com frieza os “romances teses” propostos pelos naturalistas e avaliar sua validade. Porém, o brasileiro contemporâneo que (re)visitar O Mulato entrará descrições de uma sociedade repugnantemente atual. A corrupção clerical abafada e as mortes mal investigadas nos remetem a temas atuais como: o “Inquérito papal contra os diversos casos de pedofilia” por fim sendo investigados graças ao esforço do Papa Francisco e o questionamento de “Quem matou Marielle?”. Definitivamente, O Mulato é um clássico brasileiro.

Por fim, Aluísio Azevedo nos brinda com um final que só os autores naturalistas podem nos dar: um final natural. Um final que nos choca por ser real, que acontece mais frequentemente na realidade que na literatura. Um final com a capa do padecimento, mascarado de dor. Um traje completo para o dissabor que, às vezes, a vida nos proporciona.


[fabio9430@gmail.com]
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Afranio.Cunha 28/11/2020

Excelente
Um livro muito bem escrito que destaca um período histórico do Brasil que em certos locais ainda não passou. O racismo ainda está terrívelmente presente. Personagens bem construídos. Aluísio Azevedo escreve sobre coisas cotidianas e por isso é tão genial.
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Físico 16/11/2020

Excelente leitura
Uma excelente leitura que nos traz os costumes do povo maranhense na segunda metade do século XIX, bem como seus males: racismo, xenofobia e farisaísmo por parte de autoridades religiosas . De um modo geral, a obra conta a história de Raimundo (um mulato que não se reconhece como mulato) e seu romance "proibido" com sua prima Ana Rosa, em razão dos preconceitos raciais da sociedade da época. A leitura é bem interessante e me agradou bem mais que a outra obra do mesmo autor "O Cortiço".
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Bruno Mancini 23/04/2021

Clássico de literatura
Importante conhecer está obra para aprender mais sobre a nosso idioma.
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Rafael Mussolini 30/07/2020

O Mulato
"O Mulato" do Aluísio de Azevedo (Centaur, 2013) é o segundo romance de Aluísio e foi escrito no ano de 1881. A obra é considerada um marco do início do naturalismo no Brasil, mas até ser alçada a posição tão importante, só podemos imaginar toda a polêmica que o livro causara na época. Aluísio escreveu um romance que fala dos desafios de um amor impossível e para isso construiu um retrato da população maranhense da época e do nosso país que passava por processos políticos importantes e que daí a alguns anos iria abolir a escravidão. "O Mulato" é um ótimo exemplo para analisarmos como um livro se torna clássico, pois trás consigo a perenidade de uma história que nos ajuda a pensar a própria trajetória do Brasil e que possui passagens que se tornam atuais para os tempos de hoje. Lendo "O mulato" percebemos vários fatores que fazem com que o racismo ainda seja algo tão presente na nossa sociedade e como ele se instaurou nos modos de vida dos brasileiros como algo natural.


Não consigo falar mais sobre essa obra sem antes pensar quem foi Aluísio de Azevedo. Ele é sem dúvida um dos meus escritores clássicos favoritos e a cada livro que leio fico muito surpreso com sua destreza em contar uma história que consegue retratar o Brasil utilizando da beleza e arte que é a literatura. Aluísio conta a história do país dentro das suas histórias e sem didatismo. As vivências do autor são impressionantes pelo seu contato constante com as artes e com sua dedicação à própria formação, aos estudos.

"Da infância à adolescência, Aluísio estudou em São Luís e trabalhou como caixeiro e guarda-livros. Desde cedo revelou grande interesse pelo desenho e pela pintura, o que certamente o auxiliou na aquisição da técnica que empregará mais tarde ao caracterizar os personagens de seus romances. Em 1876, embarcou para o Rio de Janeiro, onde já se encontrava o irmão mais velho, Artur. Matriculou-se na Imperial Academia de Belas Artes, hoje Escola Nacional de Belas Artes. Para manter-se fazia caricaturas para os jornais da época, como O Fígaro, O Mequetrefe, Zig-Zag e A Semana Ilustrada. A partir desses “bonecos”, que conservava sobre a mesa de trabalho, escrevia cenas de romances."

Com sua bagagem de caricaturista, jornalista, romancista e diplomata, Aluísio foi uma importante voz abolicionista e sua atuação incomodava e desafiava inclusive os padres e as paróquias da época que eram a favor da manutenção da escravidão. Em "O Mulato" encontramos no padre Diogo a representação desse tipo de religioso que enquanto ora, escraviza, que enquanto prega os ditames da Bíblia, tortura.

Aluísio insere contexto histórico nos diálogos de seus personagens e na voz do narrador como se tivesse contando um caso corriqueiro e com isso cria panoramas muito ricos de estudo. Em "O Mulato" ele faz um manifesto contra a escravidão e o preconceito racial. Para isso expõe toda a mediocridade da província do Maranhão com seus tipos e costumes mais hipócritas diante de um país que estava mudando, e de uma sociedade que não queria perder seus privilégios de senhores, de donos de pessoas e de almas.

Raimundo, o nosso mulato, é um jovem que chega ao Maranhão depois de muito estudar, de viver em vários lugares e países diferentes e se tornar um homem distinto e culto. Ele chega ao Maranhão movido por interesses econômicos em relação aos bens que seu pai deixou, mas também com a intenção de desvendar uma dúvida que sempre o acompanhou: quem era realmente seu pai, como ele morrera, e sua mãe, porque ninguém a menciona? Raimundo está em busca do lugar que nasceu e de sua história e quando chega a casa de seu tio Manuel, que foi quem ajudara a cuidar de seus bens, acaba encontrando também o amor na figura de sua prima Ana Rosa. Ana é uma mulher branca e Raimundo é um mulato, filho de homem branco com uma negra escravizada. Esse fato faz com que o amor dos dois se torne algo impensável para o Brasil daquela época.

Enquanto vamos conhecendo as personagens e vamos descobrindo junto com Raimundo os detalhes sobre a história de seus pais e os mistérios que os levaram a morte, também vamos conhecendo o Maranhão rural e os preceitos e preconceitos que dominavam naquela época. O livro consegue mostrar tanto as mazelas da região em relação à hipocrisia, desigualdade social e ao preconceito racial, como também nos mostra o Estado, que até então era uma província e sua riqueza cultural, através da música, da culinária, das festas tradicionais, entre outros detalhes que enriquecem muito a obra.

"Os corretores de escravos examinavam, à plena luz do sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas, batiam-lhes com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, como se estivessem a comprar cavalos."

Nas figuras da avó de Ana Rosa, a Maria Bárbara e do religioso cônego Diogo, o autor explora um perfil que era muito comum e que também demonstra o poder que a igreja e a religião possuía para manutenção de uma sociedade escravocrata. Maria Bárbara é a personificação da devota que é vista por todos como exemplo de fé e que também, como dito na obra "dava nos escravos por hábito e por gosto."

"Quando falava nos pretos, dizia 'os sujos' e, quando se referia a um mulato dizia 'o cabra'. Sempre fora assim e, como devota, não havia outra: Em Alcântara, tivera uma capela de Santa Bárbara e obrigava a sua escravatura a rezar aí todas as noites, em coro, de brações abertos, às vezes algemados."

Sendo assim, após a verbalização de Raimundo sobre seu desejo de se casar com a prima Ana Rosa, um grande drama se estabelece na família e na província. É interessante como Aluísio de Azevedo explora as questões raciais pelos olhos do mulato Raimundo, quando o mesmo descobre que o único impedimento para que se case com Ana é a cor de sua pele. Raimundo passa a revisitar sua vida e a inclusive questionar qual a valia de ter se tornado um homem rico, inteligente e distinto, uma vez que sua descendência é quem definirá sua posição social.

"O mulato" é um romance grandioso. Aluísio foi corajoso ao bancar uma história que poderia ter causado a sua morte, sendo que o próprio autor passou a ser conhecido após a publicação do romance como "Satanás da cidade". "O mulato" inovou por ter sido lançado em uma época de fortes clamores pela abolição, por expor as corrupções da igreja, por criar um vilão que era um padre inescrupuloso, por apresentar uma personagem feminina, a Ana Rosa, de maneira incomum para a época, sem o medo de expor a sua sensualidade em relação aos seus desejos em relação a figura de Raimundo, por trazer o preconceito racial como temática estruturante da obra. Leiam Aluísio de Azevedo, leiam clássicos, leiam literatura nacional.

site: https://rafamussolini.blogspot.com/
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Fefa 14/11/2019

Importante
O Mulato de 1881 do escritor Aluísio Azevedo, após sua publicação, foi extremamente rejeitada pelo Maranhão, terra natal do autor, por conter sucessivas críticas à sociedade do estado que se dizia religiosa, direita e santa; mas às escuras mostrava-se hipócrita, vaidosa, amante dos julgos e mentiras, preconceituosa e escravocrata. Aluísio já esperava tal reação, porém foi alvo de tamanho ódio que passou a viver no Rio de Janeiro onde morava seu irmão, Artur Azevedo.


O livro foi escrito na época do Realismo e Naturalismo e resgata em geral um pouco o Romantismo, logo conta com uma escrita rica em detalhes que enaltecem como um todo a natureza e a índole humana. Essas reforçadas descrições deixam a leitura um pouco cansativa e lenta, porém se paciente, a experiência é prazerosa e admirável.


A narração se passa em São Luís do Maranhão e conta a história de amor entre Raimundo ? formado em direito, filho de um branco chamado José da Silva e a escrava Domingas, um homem viajado, de princípios e grande conhecimento, que apesar de possuir tantas qualidades e ser branco, é alvo de baixos preconceitos e lixado de tantos nomes pelo simples fato de ter mãe negra e nascido escravo ? e sua prima Ana Rosa ? filha de Manuel Pedro e a falecida Mariana, menina religiosa e de grandes paixões e anseios pela futura casa, marido e filhos.


A trama é desenvolvida pela dúvida de como Raimundo reagirá ao descobrir suas origens e como isso afetará sua vida e suas relações com a população de São Luís os quais (exceto Ana Rosa) têm noção de seu obscuro passado, e se, no final de tudo, ele e a moça conseguirão celar no sagrado matrimônio seu amor mútuo com a aceitação ou não dá família patriarcal e prejulgativa de Anica.


Achei simplesmente incrível como o autor escreve, fiquei muito apaixonada pelos personagens e a capacidade dele de construí-los tão bem. A única coisa que me desagradou foi o fato do leitura ser muito cansativa. Por mais que a história cative o leitor e desperte curiosidade, ele demora muito para contar as coisas que ocorrem e enrola muito, me senti em alguns momentos em um jornal da Record kkk. Mas fora isso agradeço porquê expandi meu vocabulário e minha interpretação textual, kisses. Além disso, a história se desenvolve de uma forma incontrolável, com uma surpresa a cada página e um final que eu já esperava, mas mesmo assim me emocionou muito. Enfim, minha nota é 4,5/5.
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