Se Eu Fechar os Olhos Agora

Se Eu Fechar os Olhos Agora Edney Silvestre




Resenhas - Se eu fechar os olhos agora


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Tarcísio 20/07/2010

Depois de um início meio sonolento e sem motivação, "Se eu fechar os olhos agora" pega ritmo e prende a atenção. Escrita de forma muito simples e direta, usando e abusando de diálogos curtos, a história é original e interessante.

Edney Silvestre, repórter da Globo, demonstra muito talento ao descrever as angústias, as curiosidades e a coragem de dois meninos de 12 anos junto a um velho que mora no asilo da pequena cidade do interior do Rio de Janeiro. Narrando a busca dos personagens pelo esclarecimento de um crime misterioso, o autor mostra com muita propriedade os hábitos e a cultura do Brasil da década de 60.

A leitura é agradável, leve, fácil e rápida. O final é muito prazeroso, não exatamente pelo que foi escrito, mas pela forma com a qual foi escrito.
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Jessé 09/05/2020

E se eu abrisse os olhos agora? O que eu perceberia?
Paulo e Eduardo descobrem um corpo morto na beira do lago. Eles estavam ali para brincar, mas acabaram se deparando com uma cena sangrenta e macabra de assassinato. A mulher assassinada era Anita, esposa do dentista da cidade. Duas crianças de cara com a morte, com a podridão da vida. Certamente eles não seriam os mesmos depois daquilo.

Junta-se aos dois garotos o velho Ubiratan, que mora no Asilo São Simão e não tem ninguém com quem conversar ou jogar xadrez, o que o obriga a escapar diversas vezes, pulando o muro da instituição, para ver algo de interessante na cidade. De modo muito inusitado, o velho e os dois moleques entram no arriscado empreendimento de tentar descobrir quem matou Anita, mas eles não esperavam que essa morte envolveria a elite da cidade e toda a classe política econômica que comandava aquele pedaço de terra.

Escrito de forma rápida e intensa, quase como um torpedo, o livro de estreia do autor Edney Silvestre nos presenteia com vários momentos belos e catárticos. Todas as personagens têm os seus esqueletos no armário. Todos os traumas nos são apresentados, ou melhor, são jogados na nossa cara. Em algumas ocasiões podem até causar desconforto, mas a crueza de tudo também encanta ao não nos poupar nenhum detalhe sórdido das pessoas que habitam aquela cidade.

Ao final, o livro é uma síntese da história do Brasil e seus sucessivos golpes, conchavos, lascívias e dissabores. É uma leitura que deixa um gosto amargo na boca. Porém, fica aquela esperança de que afeições verdadeiras e amizades reais possam ser maiores do que o horror espalhado pela humanidade. Ainda existem Paulos e Eduardos no mundo, felizmente.

site: https://sobreoquelievivi.blogspot.com/2020/05/se-eu-fechar-os-olhos-agora-edney.html
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Gustavo.Borba 24/01/2021

Só abrindo os olhos
#LivrosQueLi
 
Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre. Ed. Record. O livro relata a investigação do assassinato de uma mulher cujo corpo foi encontrado por dois meninos de 12 anos, que se juntam a um idoso de um asilo. Acompanhamos paulatinamente as descobertas desses inusitados investigadores, de forma que ficamos a todo momento imaginando quem teria cometido o crime, e quais as motivações. Nos sentimos instigados a todo momento com as novas descobertas. E também nos enojamos com o que as investigações revelam de tudo o que está em torno à vítima e às pessoas com quem ela se relacionava. Não pude deixar de pensar na alegoria sobre o Brasil, em que as elites governam, têm a posse de todas as fontes de riqueza, exploram o povo e ainda nos violentam, nos vilipendiam, nos retiram o direito à dignidade, nos assassinam e ainda saem ilesos de tudo isso. Também considerei como símbolo de um Brasil que se urbaniza e alimenta crenças em possibilidades de desenvolvimento os dois garotos protagonistas, inocentes diante do jogo sujo que os cerca, assim como associei o idoso investigador com uma esquerda militante (ele era partidário do PCB) que tenta expor as artimanhas de nossas elites, mas sempre presa às velhas metodologias do passado, sem se preocupar em realizar a necessária atualização, chegando sempre perto de desvendar o jogo que nos escraviza, sem conseguir alcançar sua meta. Enfim, gostei bastante da leitura, me estimulou a ler outros livros do autor.
 
#livros #ler #lendo #livro #euamolivros #euamoler #estantedelivros #leiamais #leitura #leituras #livrosemaislivros #lido #resenhadelivros #indicacaodelivros #lendolivro #lendoagora #resenhaliteraria #literatura #literaturabrasileira 
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gabi 21/03/2021

"os mortos não ficam onde os enterramos"
depois de um início um pouco monótono e desmotivador, o livro pega ritmo do meio para o final. a escrita é simples e direta, por isso a leitura não fica maçante em praticamente nenhum momento, e o autor (que também é jornalista) contextualiza MUITO bem a história no brasil da década de 1960.
depois de engatada, a leitura é rápida e fluida. edney silvestre escreve tão bem que o desfecho do livro é até relevado. fiquei imersa na história a ponto de criar minhas próprias teorias e suspeitar de vários personagens.
com exceção dos protagonistas, os demais personagens são machistas e misóginos. em diversas situações senti grande repulsa, tanto pelo crime em si quanto pela forma com que a vítima foi tratada antes e depois de morta. ainda que de uma forma velada, em uma análise sobre o contexto, é possível fazer recortes de raça, classe e gênero.
no mais, a história é muito bem amarrada. a partir de um certo momento, você fica mais intrigado em descobrir o porquê de anita ter sido assassinada do que por quem. é um livro que merece ser mais conhecido e divulgado.
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Lena 27/08/2020

Um livro que me despertou emoções boas e ruins, mas a experiência de lê-lo, foi maravilhosa. Descobri este livro por meio de um clube de leituras, do qual participo (@indiesbookclub); e tenho muito a agradecer a eles por terem me proporcionado a descoberta deste livro que já se tornou um de meus favoritos da vida. O melhor de tudo foi a possibilidade de discutir com amigos sobre o progresso da leitura, e compartilhar ideias e insights sobre a história. É um livro que tem muito a contar, e eu posso até dizer que é um livro sobre a sociedade brasileira e sua podridão... Essa nossa nação que nasceu do estupro, da corrupção, da violência e da exploração.
O mais lindo e tocante do livro, sem dúvidas, é a amizade de Paulo e Eduardo. Vemos a maneira como os dois compartilham as descobertas do mundo e a perda da inocência, e é muito fácil nos identificamos com os dois, pois quem nunca teve uma amizade de infância que nunca esqueceu e carrega sempre no coração?
Este livro tem tudo o que é necessário para se tornar um cânone de nossa literatura contemporânea e merece ser descoberto por mais pessoas assim como eu o descobri.
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Lucas S. 04/05/2021

O Brasil de 61 ainda é o mesmo do Edney de agora, e de seus seguidores
Aqui, Edney, um grande jornalista e prosador contemporâneo, disseca um tema batido mas não abatido, o da sociedade de espúrias à brasileira: traz corrupção, aliciamento político e comportamento cultural conservador expostos na década de 60, pré-ditadura, e décadas depois ainda vigente por aí, por aqui.

A trilogia que ele planejou, trazendo Paulo neste, Bárbara em "A Felicidade é Fácil" e os unindo em depoimentos da derroca diversas do Brasil em "Vidas Provisórias", e a mim lendo-os de trás pra frente (na época não sabia de suas ligações), confirma que tudo continua igual - não perde-se nada nem confunde-se -, seus temas recorrentes nas três obras permitem um acesso a mais, porém de menos quando mudanças ocorrem à uma nova ordem, revolta, golpe, e os dissabores egoístas humanísticos se sobressaem ao coletivo, ao utópico. Seus personagens presenciam tudinho. E por vezes, reproduzem. Ele, democrático e assertivo, escancara como o deve ser feito.

Os protagonistas Paulo e Eduardo, oferecem uma jornada típica de romance de formação (seus 12 anos não serão os mesmos), com ingredientes do policial (o que essa mulher assassinada fez ao Poder?) ao histórico (era um ex Rio capital), escritos com maestria pelo Edney - sério, seríssimo. Seu final, particularmente agridoce, mas sensível e sensato, denota tudo o que expus desde o começo da impressão, sua escrita, e, portanto, para nós, sua leitura, é síncrona com o Brasil do hoje, de Bolsonaros, de milícias, de negacionismo, da direita ininteligível exacerbada, do conformismo cultural em manter comportamentos e reproduzi-los mesmo depois de esmiuçados à nossa fuça. Aí é que tá, a literatura está pra expiar essas demandas, e que bom que existe um quinhão de pessoas que a valorizem. Leiam esses autores que nos querem bem. Esta é, ainda, sua melhora obra.
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Daniel.Faria 20/03/2011

Se eu fechar os olhos agora
Se Eu Fechar Os Olhos Agora é o primeiro romance do jornalista e escritor Edney Silvestre. A trama é muito interessante, se baseia entre o policial e o romance e tem como plano de fundo momentos históricos do cenário político e cultural do Brasil e do mundo.

A história se passa nos anos 60, em uma cidade da zona do café fluminense (RJ). Os dois principais personagens, Paulo e Eduardo, ambos de 12 anos de idade. Em abril de 1961, no dia em que Yuri Gagarin saiu da órbita terrestre, durante uma ida ao lago próximo a cidade, os dois encontram o corpo de uma linda mulher, morta e mutilada. Assustados vão a policia, onde acabam sendo tratados como suspeitos. São libertados pouco tempo depois, quando o marido da vítima, um dentista, velho e frágil, confessa o crime. A brutalidade do assassinado, a indiferença da polícia e a falta de lógica da explicação oficial para o crime intrigam os meninos. Tudo parece complexo demais, para ser solucionado rapidamente e da forma como foi feito. É nesse momento que os dois invadem a casa do dentista a procura de provas e em seguida conhecem um velho misterioso, ex-preso político da ditadura Vargas e dele os meninos ouvem um aviso que marca o começo de acontecimentos inimagináveis: Nada neste país é o que parece.

Paulo e Eduardo, que são amigos inseparáveis, decidem investigar o crime por conta própria e contam com a ajuda do velho Ubiratan. Em pouco tempo, entre pistas desencontradas, eles percebem que a jovem mulher tem uma estranha ligação com os homens mais importantes da cidade e um passado nebuloso e cheio de contradições. A cada passo da investigação as descobertas são ainda mais assustadoras e envolvem violência sexual, racismo, corrupção e alianças políticas, tudo se mistura, e se vêem em um grande cabeçalho.

Em uma época da vida, marcada por descobertas, em que o mundo se apresenta perfeito e sem manchas, Paulo e Eduardo encontram um caminho terrível e que marca suas vidas para sempre.

Em uma entrevista no Programa do Jô, o jornalista disse que passou com um esboço na cabeça durante 20 anos, porém não sabia como contá-la, pois o livro tem uma excelente narrativa, é como se fosse um dos meninos relembrando a história, passo a passo, detalhe por detalhe, e foi em uma certa ocasião que veio as seguintes palavras na cabeça do jornalista...."Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. Para um primeiro romance, na minha opnião o Edney se saiu muito bem, peca um pouco pelo time, pois ao mesmo tempo em que cadencia o texto, ao fim parece apressá-lo, porém nada que diminua essa trama ou a maneira como foi contada. A capa é do Henri Cartier Bressom, e segundo Edney, ela tem um caráter labiríntico e retrata exatamente a cena do crime. Espero que você tenha gostado, adquira o livro e descubra o desfecho desse quebra cabeças.
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Pedro Ivo 07/02/2010

O livro me ganhou no primeiro parágrafo.
Pelas entrevistas que o Edney Silvestre faz no seu programa da Globo News, eu esperava que ele tivesse algo a oferecer nesse seu primeiro romance. Mas fiquei positivamente surpreso, pois é muito melhor do que eu poderia esperar.
O livro é um policial, com uma trinca de detetives simpática e inusitada. Mas é antes de tudo uma crônica de costumes. Os personagens são muito bem construídos e cativantes - a um ponto que fica a vontade de saber mais sobre eles, até memso os cujas tramas são secundárias. É uma história sobre amizade, perda, passado e sordidez. Eu não esperava me emocionar e me emocionei.
Uma belíssima estréia. Recomendo.
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Jeffer 29/10/2010

Nada extraordinário
Um livro bem escrito mas não o considero tão bom ao ponto de figurar na minha lista dos 10 melhores já lidos. Apenas um bom romance policial, com uma pitada de fundo histórico, a là Jô Soares. Não creio q ireir relê-lo, então devo vender o meu exemplar breve.
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Luis 04/12/2010

Sob as bênçãos do Jabuti
A recente polêmica envolvendo o prêmio de maior prestígio da Literatura Brasileira, não pode nem deve, ocultar o fato primordial que marca a estréia de Edney Silvestre no mundo das letras : "Se Eu Fechar os Olhos Agora" é sim, um grande livro.
Para quem não está ligado no noticiário : O romance do jornalista conquistou o Jabuti 2010 na categoria ficção. No entanto, o prêmio para livro do ano ficou com "Leite Derramado", de Chico Buarque, que, ironicamente, havia perdido em sua categoria para "Se Eu Fechar..."
Em protesto contra essa aparente distorção patrocinada pelo regulamento, a Record, editora de Edney, decidiu não mais inscrever suas obras no Jabuti. Alegam que Chico , a despeito da qualidade de sua obra literária, ganhou o prêmio, muito mais por sua exposição midiática do que pelos méritos de seu livro.
Discussões à parte, o repórter da Globo, ao passar ao outro lado do balcão, mostra uma sensibilidade ímpar ao criar um trama policial diferenciada, sem abrir mão das ferramentas tradicionais do gênero, mas repleta de leveza e de uma aguda inteligência, demonstrada pelo autor em suas incursões televisivas, tanto na Globo (é titular do programa "Brasileiros" e tem um quadro no RJ-TV, aos sábados) quanto na Globo News (apresenta o Espaço Aberto- Literatura).
O livro conta a história de um assassinato no interior Fluminense (Edney nasceu em Valença) investigado por dois meninos de 12 anos, Paulo e Eduardo. A amizade dos garotos, em um momento decisivo da vida, traz à história um frescor juvenil que me fez lembrar as primeiras alegrias literárias, encarnadas, por exemplo, nas obras de Marcos Rey, editadas na saudosa Coleção Vaga Lume.
O pano de fundo histórico, o romance se passa em 1961, no breve Governo Jânio Quadros, e a presença de um terceiro personagem chave, o velho comunista Ubirajara, que auxilia Paulo e Eduardo na investigação, é o mote para a exposição de uma visão de mundo que marcou profundamente a geração de Edney. A utopia do progresso científico (vivia-se a euforia da corrida espacial) e social descambaria para a desilusão promovida pelos descaminhos da Ditadura.
Os diálogos curtos e as descrições precisas, talvez influência de sua rotina jornalística, dão agilidade às mais de 300 páginas que contam essa história envolvente e sensível. Como seu autor.
Sob as bênçãos do Jabuti, nasce um ficcionista.
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Albarus Andreos 05/06/2015

Como pode ter sido tão premiado?
Esse é um daqueles livros que comprei e que aguardou pacientemente na minha estante o momento certo de ser lido. Uma escolha para quando estivesse um tanto enjoado de tanta literatura fantástica. Algo para “desintoxicar” da magia e dos dragões. Uma edição simples, com capa comportada como deve ser com os livros do mainstream. Um nome de prestígio, já que Edney Silvestre, estreando na literatura, é repórter e apresentador da RGT. Além disso, o livro tem oportunos comentários estampados na contracapa, de gente como Luiz Ruffato e Lya Luft, recomendando-o. Tendo-se em mente que Se Eu Fechar os Olhos Agora (Editora Record, 2009) foi o ganhador do Jabuti e do São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante, ambos em 2010, a expectativa era imensa. Uma boa escolha, não é? Não. Estou muito decepcionado com o livro.

Para um autor estreante a narrativa de Silvestre é bem calhada. Tem até boa desenvoltura em certos momentos. Mas não deixa de ser o texto típico do autor inexperiente. Diálogos confusos (e não ligeiros, como diz um dos seus chapas de contracapa), decisões desajeitadas, personagens com atuações mornas e muitas vezes inverossímeis, uma história um pouco só interessante e excessivas intervenções contextuais, onde Silvestre se esforça demais para datar o livro no ano de 1961, através de intertextualidades, de objetos, usos e costumes do dia a dia da época. Isso é conveniente, mas o autor pesou demais a mão. O excesso de referências e sua profundidade torna a narrativa enciclopédica. Perde-se objetividade. A linha narrativa tem de ser deixada de lado para que se insira frases do tipo “...você sabia que, em 1937, fulano fez tal coisa...?”. Elas acompanham o leitor pelo livro todo.

Paulo e Eduardo são dois meninos de 12 anos que dão o azar de tropeçar (literalmente) em um cadáver, numa tarde de ócio em que preferiram matar aula a enfrentar o diretor da escola, devido a uma travessura. Foram até uma represa, numa cidadezinha do interior fluminense, e acabaram encontrando o corpo de uma linda mulher loura, esposa do dentista da cidade. Os dois meninos denunciam o achado à polícia e, insatisfeitos com a confissão do marido da defunta, acabam decidindo investigar os fatos por si próprios.

O autor começa querendo caracterizar os garotos, arredondando-os psicológica e socialmente mas, sinceramente, não consegui ver dois meninos distintos, por mais que um seja negro, de criação precária e descuidada, e o outro um rapazinho branco, com todas as características de um bom filho estudioso de classe média. Faltou habilidade para incutir essas características nos personagens. Então, ao melhor estilo “contar é mais fácil que mostrar”, Silvestre não consegue fazer Eduardo parecer diferente de Paulo, e os próprios diálogos, rápidos e sem mostrar quem é que fala o quê, criam um confusão enorme. Aliás, não vi sequer dois meninos ali. Crianças de 12 anos são arteiras, um tanto dissimuladas, brincalhonas, irresponsáveis, sei lá... Isso não aparece no texto. Paulo e Eduardo são idealizados, mal planejados como arquétipos. Não são pessoas.

E causa impressão por quê dois moleques iriam se meter a investigar um crime, assim, de uma hora para outra, após achar um corpo cruelmente mutilado. Você faria isso? Pense só, você, pré-adolescente, achando um cadáver faltando pedaços, no meio do mato... Por acaso seria crível que dissesse, “olha, vamos investigar esse assassinato!”? Não há fantasia que resista à realidade. Faltou ao autor criar o clima em que essa decisão poderia ser uma aventura para os dois meninos, hiperativos, sem nada para fazer, ou inteligentes, nerds à procura de ação, sem se preocupar com mais nada, pura inconsequência, um ato que lhes mete os pés pelas mãos...

Na boa, se eu encontrasse um cadáver no mato eu ficaria uma semana sem sair de casa, tendo pesadelos todas as noites, achando que o assassino viria atrás de mim também, sei lá... Só eu sou cagão? Por isso, na minha opinião, o escritor falha na etapa de dar motivos plausíveis para que um fato tão sem noção pudesse se tornar o motor da narrativa. Que a assassinada fosse uma parente amada platonicamente por um dos meninos, ou a ex-namorada de um artista de rádio popular, ou alguém que um dia tivesse salvado o cachorrinho de um deles de ser atropelado... Melhor ainda se fosse tudo isso junto. Faltou uma boa razão para garotos bobocas se tornassem heróis de um livro. Lição de casa, Edney Silvestre: leia mais Stephen King (O Corpo – Coletânea Quatro Estações, de onde se originou o filme Conta Comigo, dirigido por Rob Reiner, 1986).

Como pequenos ladrões, Eduardo e Paulo, invadem a casa do dentista para procurar provas (oi?). Lá encontram um velho de cabelos brancos que também não tem nada melhor para fazer... (OI?). Essa cruzada de caminhos com o velho invoca a clássica Jornada do Herói, de Joseph Campbell. Edney Silvestre tinha que inserir um “mentor” para os dois, que pudesse servir de escada, para inserir explicações, ajudar nas deduções e criar missões, afim de termos conteúdo. Nada melhor que um misantropo, morador de um asilo de velhos, para poder misturar drama à inconsequência infanto-juvenil.

Só que de cara os dois meninos, após invadirem a casa do dentista durante a noite, vão roubar um hábito de padre para o velhote se disfarçar e visitar um orfanato (mal se conhecem!), onde a defunta teria passado sua infância, e depois invadem sorrateiramente a prefeitura, pelo telhado, à procura de documentos... Juro que achei que estava lendo uma obra do mainstream, mas do jeito que se mostra parece que é uma história de ninjas. O autor força demais a barra.

Em certo momentos Silvestre se acha “o Saramago” e mete os diálogos no meio da narrativa, sem travessão, misturados ao texto do narrador. Noutros, usa os travessões normalmente, e ficamos sem entender o que levou à mudança. Pura falta de coesão textual. Em alguns trechos ainda, usa pontos finais como milho jogado num galinheiro, ao léu. O que é que Silvestre tem contra a boa pontuação?

No meio do livro o autor decide revelar o nome do velho do asilo, que passa a ajudar ativamente os dois meninos na investigação do crime. Seu nome é Ubiratan. Ficamos sabendo que foi um cozinheiro em uma escola de Pernambuco, é comunista, sua esposa foi estuprada e morta pela ditadura de Getúlio Vargas. E o nome de Getúlio é citado em várias oportunidades, talvez uma fixação do autor com o tema, já que não há razão para invocá-lo tantas vezes na trama, sendo que uma coisa não tem nada a ver uma com a outra. Se queria escrever sobre Getúlio, deveria ter feito isso e pronto. A história em si prescinde de tantas referências a esse respeito.

É de se notar a erudição de um simples cozinheiro. O arquétipo pode e deve ser expandido mas... Se o cara é um cozinheiro, tem-se em mente um “tipo” e suas características quotidianas vem imediatamente. Então, se ele é culto, conhece história, gosta de ópera, ciência de foguetes ou engenharia genética, o autor deve reservar um tempo para explicar como ele possui esse conhecimento em especial. Silvestre não o faz, como se fosse a coisa mais comum do mundo um cozinheiro ouvir uma ópera e já identificar se é Verdi ou Puccini. Ficaria mais crível se fosse um professor, ao invés de um operário de ofícios. Um mínimo de pré-conceito facilita a vida do leitor. E, não! Ópera não é e nunca foi, em 1961 ou agora, uma coisa popular, que qualquer peão conhece.

O clima de complô generalizado com o prefeito, o diretor da escola, o bispo e outros poderosos, todos mancomunados, é excitante mas parece um tanto irreal também. Tem-se que criar uma pano de fundo convincente. O dentista assume o crime como se não fosse ele, mas não tivesse alternativa, e não é um crimezinho qualquer, é assassinato. Trinta aninhos de cana! Todo mundo que tem algum poder parece saber a “verdade” que só o leitor ainda não sabe, todos estão imbuídos, de alguma forma, em botar a panos quentes o assassinato da esposa do dentista. Como se fosse um clube secreto de nazistas, uma seita satânica ou algo do tipo. Por quê? Que encobrissem uns aos outros até aceito, já que eram deturpados sexualmente, mas o texto extrapola. Por que permitiriam ser fotografados se se importassem em ser reconhecidos? Que babaquice sem sentido! Mais sem sentido ainda o final, quando ficamos sabendo quem foi o assassino.

O processo de identificar a vítima, sua história pregressa, até que é bom, existe uma boa escrita que surge aqui e ali, bons parágrafos mais para o final, depois das resoluções do plot. Mas até aí, conclusões são tiradas de fatos inconclusivos como que por mágica, e Eduardo ficar corrigindo o português de Paulo como se fosse um professor e o outro “Oh! Obrigado amigo!”? Nada a ver! Que crianças são assim? E faltou tensão ao texto, faltou o clima de thriller americano, pontas soltas aqui que fossem bem amarradas lá na frente (e foram muito mal amarradas, por sinal), algo de Truman Capote. O péssimo final, quando todos os fatos são explicitados, lembra uma história em quadrinhos de super-heróis, em que o vilão, tendo o herói sob seu raio laser mortal, fica vinte minutos explicando todas as suas maldades e porquês, em vez de acabar logo com o trouxa.

Se Eu Fechar os Olhos Agora é um livro policial sem se render ao gênero, envergonhado de pertencer a ele (preconceito?), mas sem conseguir se livrar do enquadramento. Nem aqui nem lá, retido no limbo dentre realidades.

Deu. Preciso urgentemente de um livro de fantasia (para desintoxicar). A maioria deles traz enredos melhor planejados e mais críveis. E viva o Jabuti e o Prêmio São Paulo de Literatura! Faça-me o favor...

site: www.meninadabahia.com.br
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Lara 15/07/2020

A leitura é instigante. Além da história ser incrível e trazer vários ensinamentos sobre desigualdade social, ainda dá uma aula de história sobre o Estado Novo, Era Vargas e ditadura. Você se apega desde o primeiro momento aos personagens. Com certeza será aquele livro de cabeceira que você relê várias vezes e não cansa.
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Paula 16/08/2013

Mais que um romance policial
Todos os elogios a Edney Silvestre por "Se eu fechar os olhos agora" são muito bem vindos: tive uma bela surpresa com este livro, como há muito não tinha com um autor brasileiro recente.
Já expressei aqui minha predileção pela prosa poética, mas resolvi sair do costumeiro e encarar um romance policial de ritmo acelerado, pois há muito tinha ouvido que Edney Silvestre não só era um jornalista excepcional, mas um autor digno de atenção.
No início do livro, somos impactados por uma cena na qual dois amigos acham o corpo brutalmente assassinado de Anita, uma mulher aparentemente comum e excepcionalmente bonita. A partir disso e gradualmente - e aqui chamo atenção para a habilidade de Edney de apresentar os fatos necessários na hora exata para manter o suspense -, somos apresentados a Paulo e Eduardo, ambos adolescentes de 12 anos de famílias distintas unidos por uma amizade invejável. Paulo, menino pobre, negro, acostumado a uma inferioridade imposta por um pai severo e um irmão vazio e vaidoso. Eduardo, de família distinta, branco, inteligentíssimo, sensível. É assim que ambos inicialmente são descritos; superficialmente. Por ser ambientado num Brasil dos anos 60 - JK, crescimento de indústrias, êxodo rural, desigualdade -, os contrastes acima eram de fato relevantes. Com a ajuda de Ubiratan, idoso residente em um asilo, os dois amigos vão em buscam de pistas que possam desvendar o assassinato da jovem.
Engana-se, porém, quem pensa que esse é um romance puramente policial. Muito pelo contrário; Edney evidencia muito mais a questão psicológica do amadurecimento dos personagens do que qualquer interrogatório. Comecei a leitura achando que a narrativa da perspectiva das crianças pudesse atrapalhar a profundidade da história, mas felizmente me enganei profundamente. Acompanhamos justamente o abandono da inocência de um mundo justo fantasiado na cabeça dos jovens para a percepção de um Brasil cheio de falhas, no qual o poder prevalece ante a qualquer outra questão.
O livro traz denúncias sociais, um recorte histórico muito bem feito e ilustrado - no qual ficção e realidade se mesclam - , o questionamento da democracia, a questão do machismo muito bem levantada, dentre outras abordagens.
Quando me aproximei do final, confesso que senti que o romance perdeu um pouco de seu ritmo e me vi confusa com algumas questões de parentesco embutidas na história. Edney, porém, retomou minha atenção com um final muito interessante (e passível de arrancar umas lágrimas), o que me fez dar 5 estrelas pro livro.
Recomendo muito. Escrita não muito rebuscada, ritmo bom, história muito bem construída.
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Jessica Becker 03/05/2019

Se eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre
Em meados do início de abril deste ano vi a chamada de uma minissérie nacional que seria exibida na tv aberta e fiquei bastante curiosa. Ao pesquisar mais sobre ela, vi que era inspirada num livro de autor nacional e que havia recebido o Prêmio Jabuti de melhor romance de 2010 e o Prêmio São Paulo de Literatura, como melhor livro de autor estreante. Isso despertou ainda mais minha atenção e fui atrás do livro para que pudesse iniciar sua leitura de imediato.

"A vida adulta lhes parecia distante, cordial e luminosa - e não o mundo brutal onde seriam lançados naquela manhã."

Livro de estreia do autor e jornalista Edney Silvestre, Se eu Fechar os Olhos Agora se passa no ano de 1961 numa pequena cidade da zona do café no Estado do Rio de Janeiro. Na obra, os amigos inseparáveis Paulo e Eduardo fogem da escola para nadar no lago da região e se deparam com o cadáver de uma jovem que fora brutalmente assassinada e mutilada. De início o delegado suspeita dos dois garotos, mas logo são liberados pois o dentista, marido da vítima, assume a autoria do crime. Os dois meninos, percebendo que o velho não teria condições físicas de matar alguém, desconfiam que ele está mentindo para proteger o verdadeiro assassino e decidem investigar por conta. Com a ajuda de Ubiratan, um senhor que mora no asilo da cidade, Paulo e Eduardo vão aos poucos descobrindo os segredos em torno de Anita e quão cruel e sórdido pode ser o mundo adulto.

"Quantas pessoas existirão como dona Madalena e o menino das formigas? Aqui, perto de nós? No município? No estado? Nos outros estados? Elas vão ao médico, quando têm uma doença? Vão ao dentista? Tomam remédios, quando precisam? Têm dinheiro para comprar remédio? Se dona Madalena morrer, quem vai cuidar do menino? Ou ele é que cuida dela? Quem é ele? Por que estava ali? O que ele disse para nós? Ele disse como se chamava? Nós lhe perguntamos como se chamava?"

Se eu Fechar os Olhos Agora é uma obra densa, com várias camadas, e que vai muito além de "quem matou Anita". Fala sobre problemas que eram comuns na década de 60 e que sobrevivem até os dias de hoje, problemas como racismo, abandono, violência física, sexual e psicológica contra a mulher, corrupção e relações de poder. Também fala sobre o fim da inocência e a transição para o mundo adulto, quando o mundo justo e belo fantasiado pelos garotos é substituído, aos poucos, por uma realidade asquerosa e subversiva. Tem como cenário um Brasil que está se transformando social e economicamente e como protagonistas dois meninos cujas famílias são o oposto uma da outra: Paulo é negro, pobre, órfão de mãe e sofre agressões físicas e psicológicas do próprio pai enquanto Eduardo é branco, com melhores condições financeiras, e que recebe grande suporte da família. É preciso ter estômago - e certa idade - para ler determinados trechos do livro, pois os detalhes das agressões sofridas por Paulo e, principalmente, os detalhes da vida e morte de Anita, são perturbadores e revoltantes.

Além do livro, gostei muito da minissérie exibida recentemente na Rede Globo. Apesar de contar com vários personagens e subtramas inexistentes no livro - criados para preencher todos os 10 episódios -, os detalhes relevantes e a forte crítica social foram mantidos.

"Existem muitas maneiras de matar uma pessoa. Aparecida foi destruída muito antes que a assassinassem."


site: https://www.acervodajess.com/blog/se-eu-fechar-os-olhos-agora-de-edney-silvestre
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Adriano 10/03/2021

Ótimo!
 início de ?Se eu fechar os olhos agora?, romance do jornalista e escritor Edney Silvestre, dá ao leitor, primeiro, a impressão de estar diante de um livro infanto-juvenil, por apresentar os dois protagonistas, Eduardo e Paulo, garotos de 12 anos de idade, no momento em que fazem mais uma de suas travessuras, matando aula para nadar em um lago; depois, o livro dá uma guinada e o leitor se vê enredado em uma trama policial: os garotos encontram, nas imediações do lago, uma mulher morta a facadas. Mas, na verdade, e apesar de haver em ?Se eu fechar os olhos agora? uma espécie de aura juvenil e de uma investigação ocupar grande parte do livro, o que se tem diante dos olhos é um romance de formação.

Ambientado na década de 1960, em Valença, pequena cidade fluminense ? terra natal do autor ?, ?Se eu fechar os olhos agora? é o primeiro livro de ficção de Edney Silvestre, que tem várias outras obras publicadas ? de crônicas e coletâneas de entrevistas. Um dos personagens, já adulto, é a voz que dá início ao livro: ?Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos louros cabelos dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito?.
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