Filhas de Eva

Filhas de Eva Martha Mendonça




Resenhas - Filhas de Eva


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Elidiane 04/11/2016

No seu mais novo livro, Filhas de Eva, Martha Mendonça usa seu talento como jornalista, para identificar os casos mais curiosos e os transforma em literatura.
Na obra, temos reunidos 18 contos que esmiúçam os sentimentos e vidas de mulheres singulares. A autora extrai do trivial e do corriqueiro belos contos. Características que muito me agradam nos contos, principalmente quando aborda o mundo feminino, como por exemplo, Antes que Seque, de Marta Barcellos e Ela e Outras Mulheres, de Rubem Fonseca.
Martha mostra a variedade e diversidade do mundo feminino, do inicio ao fim do livro, afinal o conto que abre o livro é sobre Eva, a primeira mulher do universo. E o conto que o encerra é do ponto de vista de uma mulher morta. Nas poucas 128 páginas têm amantes, românticas, mocinhas e senhoras, compulsivas por comida, amores obsessivos, noivas, etc. É impossível não se identificar com alguma personagem, em seus defeitos e profundezas do ser.
“De um folego só, prometeu a si mesma:
aquilo nunca mais. Nunca mais beijo sem paixão,
flor sem perfume, desejo contido ou falso perdão.
Nunca mais valores caducos, regras retrógradas,
amor sem tesão ou viver sem razão.” Página 76
É um livro curto e leve, os contos são rápidos, mas com muita qualidade literária. Comecei a ler no ônibus voltando para casa e terminei na mesma tarde. Martha Mendonça dá vozes a mulheres desconhecidas, e passa longe de nos definir em estereótipos e clichês. Recomendo.
“Na pia, em frente ao espelho por pura necessidade, passou removedor de maquiagem nas dores, gel redutor nas angustias, loção fixadora nos nervos, creme esfoliante nas culpas, adstringente nos erros, hidratante no nó da garganta- e então chorou, borrando o rosto o corpo e o espirito.” Página 90

site: http://decaranasletras.blogspot.com.br/2016/07/resenha-184-filhas-de-eva-martha.html
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Hel 31/01/2017

Filhas de Eva - Martha Mendonça
"Nasci suja de sangue, mas de outro tipo. O vermelho da urgência da criação do mundo, da reprodução da espécie, da dor de ser a segunda, a coadjuvante, a frágil – e, ainda assim, ser o espaço humano desse repetido milagre que, depois de mim, não vai mais parar de acontecer, todos os dias, todas as horas e minutos, para sempre.
Assim, já formada e deformada pela falta de infância, aprendi logo que eu era a culpada. Pelo que houve e pelo que não houve: pelos barulhos e pelos silêncios; pela beleza e pela feiura; pelo passado e pelo futuro. Pelo desejo." (p. 5)

***

O trecho acima faz parte do conto que abre o livro Filhas de Eva, publicado pela editora Record e escrito por Martha Mendonça, uma das autoras no site Sensacionalista.
Intitulado Eva, este foi o conto que mais me chamou a atenção, não só por ser uma espécie de prelúdio dos contos que o seguem, mas também pela forte carga reflexiva que contém. Se pararmos para pensar na figura de Eva, aquela que detém o "pecado", veremos o quanto do julgamento feito a ela ainda cabe às mulheres atuais: somos secundárias, como já cunhado por Simone de Beauvoir, o segundo sexo. Ainda, somos sempre as "culpadas" pelo desejo que causamos no homem, eternamente julgadas "pela beleza e pela feiura" que carregamos. Somos frágeis, mas, ao mesmo tempo, temos que ser fortes. E é sobre mulheres, assim, de carne e osso, que Martha escreve em seus contos; protagonistas capazes de despertar no leitor sentimentos como empatia, mas cada qual com sua idiossincrasia. Não é difícil se identificar com algumas das mulheres dos dezoito contos que compõem o livro. A compulsiva, a apressada, a obcecada, a doméstica, a indecisa, a noiva e a amante, entre outras, são nuances das mulheres que somos e que conhecemos.

"Estava cansada daquele trabalho. Estava cansada do marido. Só não estava cansada dos filhos, porque isso seria pecado. Fechou os olhos e se forçou para pensar coisas boas: sol tão forte que arrepia a pele, primeiro dia de férias, só sinais verdes no caminho de casa, gol aos quarenta e cinco do segundo tempo, achar dinheiro no bolso [...] " (p. 25)

Cada conto traz uma mulher diferente, mas todas são semelhantes: todas têm dentro de si um emaranhado de sentimentos. Cada qual a seu modo. Desde a impulsiva, que não consegue parar de comer, até aquela indecisa que não sabe se casar é o que quer mesmo para sua vida. Desde a que não sabe se está na profissão certa, até a que é obcecada por um homem a ponto de cometer uma loucura. Mulheres inseguras com a aparência, com os "quilinhos a mais". Mulheres revoltadas com sua situação, com o desprezo e a solidão. São todas mulheres possíveis.

***
Filhas de Eva é um daqueles pequenos grandes livros, cujas curtas histórias comportam um mundo inteiro. Nunca vi contos tão curtos serem tão significativos, e causarem tanta reflexão em pouco mais de duas páginas. Me identifiquei com muitas das personagens, mesmo não sendo mãe, ou esposa, ou amante, pelo simples fato de ser mulher e ter empatia pelas minhas iguais, ter a capacidade de me colocar no lugar delas. Além do conteúdo de qualidade, os contos são de leitura rápida, li em uma única sentada, e a diagramação é das mais agradáveis, além da revisão impecável.

"Por isso ela sempre gostou de gatos, seus companheiros de uma vida inteira. Seres que ela admirava, independentes, fortes, fechados em seus próprios interesses. Fiéis na solidão e no silêncio." (p. 99)

Me identifiquei muito com o trecho anterior, teria como não fazê-lo? Recomendo essa leitura para quem gosta de literatura sobre mulheres, textos curtos e incisivos, com uma pegada de crônica. As narrativas se alternam no estilo e na sensação que causam: alguns contos são divertidos, outros extremamente melancólicos, sem falar, claro, nos que possuem um veio mais crítico que, a meu ver, são os melhores. Acho que o momento é pontual para a leitura desse livro, digo, com a atual efervescência do movimento feminista. Acredito ser essa uma boa leitura para as mulheres que queiram se entender melhor e à realidade das outras já que, como eu disse, as protagonistas dos contos são todas mulheres possíveis, e, assim, exercer um pouco de empatia pelos sofrimentos e dilemas das nossas iguais.

MENDONÇA, Martha. Filhas de Eva. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2016. 127 p.

site: http://leiturasegatices.blogspot.com.br/
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