O Mundo Novo

O Mundo Novo Chris Weitz




Resenhas - O Mundo Novo


1 encontrados | exibindo 1 a 1


Reinaldo (Estante X - @reeiih) 12/06/2017

Um mundo novo.. mas clichês antigos....
Algumas vezes já me perguntei o que aconteceria se a humanidade fosse dizimada por alguma catástrofe biológica e poucas pessoas sobrevivessem. Bom, Mundo Novo tenta mostrar como poderia ser isso, mas no caso, se restassem só adolescentes. E devo dizer que não é algo muito “bonito” de se imaginar. Jovens vivendo em um mundo sem leis, regras ou qualquer força maior que diga o que é certo e o que é errado, lutando dia após dia para se manterem vivos, e pior, hormônios à flor da pele… já dá pra ter uma noção de como seria, não é?

A premissa do livro é interessante e já fazia algum tempo que eu queria lê-lo. Trabalhando temas críticos e polêmicos, como sexualidade, preconceito, machismo e deficiência tecnológica, Chris Weitz buscou uma forma de tornar o leitor mais consciente e crítico de sua própria realidade. É uma forma bem sutil de dizer “olha, tudo isso que você tem hoje, redes sociais, celular, gadgets, etc etc, um dia pode ser inútil e não vai te ajudar a sobreviver”. E prova disso é que em toda a trama há referências a tecnologias e objetos de consumo atual, sem mencionar que diversas vezes os personagens dizem o quanto o mundo de Antes era, em sua essência, sufocante, arrogante e depreciativo.

“Presas com fita adesiva ao pedestal, lembranças dos mortos. Fotos de mães, pais, irmãos e irmãs, animais de estimação perdidos. Aquilo que sua mãe costumava chamar de “fotos de verdade”, ao contrário dos arquivos digitais. Sobraram as cópias impressas, agora que milhões e milhões de recordações se perderam na nuvem. Um oceano de uns e zeros significando nada.”

A trama é narrada por Jefferson e Donna, intercalando os capítulos. Jefferson é o atual líder da tribo da Washington Square. Ele era irmão de Wash, e desde que a doença o levou precisa manter grupo unido. Mas ele não se sente tão seguro da tarefa, pois sempre viveu à sombra do irmão. Ainda que ele seja um garoto honesto e confiante de seus propósitos, não tem a mesma habilidade em comandar pessoas. Interessante notar que o personagem lida com vários conflitos internos e externos, característicos da adolescência. A questão da aceitação social ou de ser destaque no meio dos outros figuram a narrativa por grande parte.

Por outro lado, temos Donna. Ela tem uma personalidade bem distinta e isso é evidente não só pela forma como ela narra o livro, mas também pela forma como enxerga o futuro. Enquanto Jefferson quer encontrar uma forma de salvar a humanidade, para Donna tanto faz, está tudo perdido, então só importa viver um dia de cada vez, até o fim. Ela tem um ar de segurança e liderança mais característico do que Jefferson, mas por dentro seu peito é atormentado por dor, sofrimento e raiva. Ela não quer parecer fraca em nenhum momento, principalmente diante dos garotos, mas às escondidas, não consegue negar a sua decepção com a forma que sua vida terminará.

A disparidade entre os dois protagonistas reforça a minha ideia de que a tribo deles representa um tipo de utopia social. Um grupo onde homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, negros e brancos, todos tem voz. Ninguém é superior a ninguém, e qualquer um que tenha uma boa ideia de manter a sobrevivência é bem vindo ao grupo. Quem dera no mundo real fosse possível a sociedade aceitar as diferenças um dos outros e viver em harmonia. Mas veja bem, se por um lado esse grupo representa a sociedade ideal, por outro lado há grupos para representar a oposição: tribos machistas, racistas, territorialistas, opressoras, entre outras. Todos estão ali vivendo em um mesmo mundo destruído, cada um lutando por seu espaço. Acredito eu que isso faça uma grande analogia à nossa realidade, onde há diversos “grupos” lutando por seus interesses, em constante confronto ideológico.

“Eu pensava que Ele talvez tivesse se esquecido de nós. Perdido a humanidade no bolso. Mas agora sinto como se tivesse nos jogado fora. O mais longe que conseguiu.”

A problemática do livro se dá exatamente neste contexto: quando o pequeno grupo da Washington Square precisa sair de sua zona de conforto para buscar alternativas, vão encontrar vários obstáculos, e o que melhor para representar isso do que confrontos com tribos diferentes e perigosas? E porque usar adolescentes para tratar desse tema? Simples, eu diria. Os jovens representam as “armas” ideias para mudar a sociedade atual. Com eles pode-se ter a esperança de quebrar tabus, romper paradigmas e aos poucos, atingirmos mais um degrau de nossa constante evolução.

Nesse ponto eu gostei bastante do livro, pois ele possui uma temática muito próxima a da distopia, ainda que aqui não seja o caso. Enquanto a distopia apresenta uma problema dentro de uma sociedade organizada após um apocalipse, aqui mal temos a noção do que é sociedade. Há tribos, mas está mais para agrupamento de refugiados do que sociedade em si. Mas a trama não está longe de se tornar uma distopia, basta o autor querer mudar o foco da narrativa.

Entretanto, eu tive vários problemas com essa história. O background é bonito e interessante, mas o autor não aprofunda ela. As críticas sociais estão presentes, as metáforas estão ali, mas só são jogadas no ar e acaba por aí. A trama não vai além, não explora os conceitos, e fiquei bem chateado nesse ponto. Havia muito potencial, mas o autor passou por cima. O mesmo acontece com os personagens. Ainda que tenham personalidades distintas, elas não são aprofundadas, não são evoluídas. Mal conhecemos o passado de cada um, não há mudanças drásticas que tornem o personagem melhor. É como se o autor subestimasse a inteligência do leitor e tivesse medo de propor mais densidade à trama.

“O engraçado é que as pessoas pensavam que os livros eram tão inúteis, tipo, que o Kindle e tudo mais iam acabar com eles. E, agora que penso nisso, a ideia de acabar com os supostos livros antiquados de merda é meio babaca.”

Há outra questão também que são as contradições. O livro fala bastante sobre a liberdade e o repúdio ao preconceito e as antigas regras, mas em vários momentos há falas onde há preconceito racial ou sexista presente, bem como personagens que negavam essas atitudes, mas fazendo ou falando coisas com esse tom. Em dado momento do livro, notei inclusive que os personagens estavam um pouco estereotipados: o herói que não quer ser herói, o nerd que sabe tudo, o garoto malvadão que toca o terror, a garota com corpo sexualmente atraente, a oriental que domina uma arte marcial. Se a trama faz críticas a esses conceitos, qual o sentido de ter personagens que se caracterizam neles?!?

Outra questão que preciso falar é em relação a edição. A diagramação está muito boa, folhas amarelinhas e com fontes bem dinâmicas e atrativas. A leitura é super fluida e dá pra ler o livro todo em um único dia, se você tiver tempo. Ficou bem caprichado. Mas, a capa é algo que não consigo gostar. A ilustração é bonita, sim, mas não curti tanto assim. Não sei por qual razão a editora resolveu mudar da original para essa, mas eu realmente achei a mudança desnecessária. Talvez tenha sido alguma questão de marketing, público-alvo, quem sabe.

Mesmo diante dos poréns, fiquei curioso para saber o que virá no segundo. O final foi bem atropelado e até mesmo óbvio, mas nas últimas linhas há uma revelação que eu não esperava e que tem força para mudar tudo o que esse primeiro livro mostrou. Cabe agora ao autor ter trabalhado melhor a história e aprofundado ela. Pelo que já andei vendo em outras resenhas, é mais ou menos isso que acontece, então vou dar um voto de confiança.

site: http://resenhandosonhos.com/mundo-novo-chris-weitz/
comentários(0)comente



1 encontrados | exibindo 1 a 1