Hot Sul

Hot Sul Laura Restrepo




Resenhas - Hot Sul


3 encontrados | exibindo 1 a 3


Suzi.Shiro 29/02/2020

Interessante
A história é densa, um tanto morosa em algumas partes, mas após a metade a história avança com um ritmo mais investigativo, dando vazão na leitura. Os capítulos são intercalados entre os
acontecimentos de uma presidiaria, um professor/escritor e seu pai.
As histórias dos 3 personagens se cruzam quando o pai recebe uma correspondência destinada ao filho, onde Maria Paz, a presidiária conta sua história, seus sonhos e decepções em solo americano e tem esperança de que o escritor a ajude a transformar em livro. Conforme o pai investiga sobre Maria Paz, descobre alguns fatos sobre seu filho e também sobre a vida clandestina e submersa existente nos EUA, assim como acaba envolvido em uma trama policial.
Curiosidade: a autora dedica seu livro a Javier, um preso latino que ela não conhece pessoalmente, mas com quem ela se corresponde ou correspondeu por 20 anos, o que a ajudou a desenvolver a história.
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Nadja Moreno - Blog Escrev'Arte 04/09/2016

Muito bem construído!
Hot Sul é um livro denso e profundo acerca da vida, do quotidiano e das pessoas que estão sempre em busca de autoafirmação neste mundo cada vez mais estereotipado e egocêntrico, embora a evolução indique que deveria ser diferente. É também um livro denso e arrepiante sobre serial killers e as capacidades humanas, até onde um psicopata pode chegar e as consequências de seus atos. É denso não só pela escrita, um tanto morosa nos dois primeiros terços mas totalmente envolvente e arrepiante em todo ele, mas também pelo que trata e a forma com que trata.

Há uma crítica nada velada em suas páginas. A América do Norte, que a princípio deveria ser o local onde os sonhos se realizam, acaba sendo o local de profundo martírio, desilusão e falta de reconhecimento para as centenas de milhares de latinos que por lá desembarcam cheios de esperança. É um tanto incômodo enxergar este sentimento que, mesmo que o saibamos, nem sempre o vemos escancarado como nestas páginas. Faz uma referência interessante sobre a questão da “limpeza”, visto que a maioria dos imigrantes acabam assumindo este tipo de trabalho nas residências e empresas dos americanos. Nestas páginas a autora faz uma crítica quanto a este aspecto através de nuances de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) ligado à mania de limpeza.

Critica também veementemente o sistema carcerário quando o detento é estrangeiro. Desde a questão da comunicação em língua local obrigatória até o descaso, descuido e atitudes que beiram o crime quando se trata da saúde destes detentos. Nenhuma destas críticas soam como argumentação adicionada à história nem parece algo pedante. Tudo acontece no meio da narrativa toda e a crítica surge entrelaçada aos relatos da vida de Maria Paz, ora feitos por ela mesma em seu manuscrito, ora feitos por pessoas que o Sr. Rose interpela para saber mais sobre esta enigmática mulher, ora feitos pelas anotações de Cleve. O livro transita entre tempos muito bem, fazendo com que o quebra-cabeças seja montado na mente do leitor e ele possa ver todo o conjunto da história sob diversos ângulos e nuances.

A protagonista desta história é Maria Paz, detenta, acusada de matar seu marido. A forma com que a conhecemos é única e interessante. Ela conhece Cleve quando este vai dar aulas de Escrita Criativa no presídio. Algum tempo depois, quando as aulas já não existem e nem tampouco Cleve, o Sr. Rose, pai de Cleve recebe um manuscrito. Era Maria Paz apresentando sua autobiografia. E foi com esta autobiografia um tanto quanto “conversante” que a conhecemos. Praticamente vemos sua alma, devido aos sinais e breves comentários inseridos neste manuscrito. Nele Maria Paz desnuda a alma e posso dizer que ela se materializa na mente do leitor de forma tão bruta que quase sentimos seu hálito, como que sussurrando suas histórias em nosso ouvido.

O início da trama remete ao thriller, visto que apresenta flashes de acontecimentos que lá na frente farão sentido no conjunto da obra. Eu particularmente gosto muito destes inícios que soam um tanto fragmentados, mas que deixam janelas abertas que fazem o plano de fundo da obra. A dinamicidade ideal para começar uma obra de mais de 500 páginas!

Inclusive, o thriller está muito presente nestas páginas, afinal há assassinatos, há a investigação do Sr. Rose para conseguir que o filho lhe fale mesmo após sua morte, há toda uma trama intrincada de ciúmes, possessividade e psicopatia que vai se revelando aos poucos e chega ao seu ápice lá pela terça parte do livro. Neste ponto o livro se transforma em um thriller dos bons, depois de dezenas e dezenas de páginas apresentando este quotidiano controverso e difícil. A obra se transforma e vamos entendendo os detalhes de tudo o que foi apresentado até então e notamos que há muito mais por detrás daquilo que víamos. A balança enter o thriller e o quotidiano está espetacularmente equilibrada. O thriller faz par com a “vida real” de Maria Paz, de Cleve e de Sleepy Joe e presenteia o leitor com muito conteúdo. Autores como Laura Restrepo afirmam o nome deste blog… Escreve com arte, sem dúvida!

Em suma, posso dizer que Hot Sul é um livro composto por vários livros, várias histórias, todas elas visceralmente interligadas. O leitor deve ler com calma e atenção as trezentas páginas iniciais, para poder saborear com toda intensidade tudo o que acontece nas duzentas páginas seguintes. Tudo faz sentido, tudo é interligado, tudo contribui para que o leitor se deleite com tamanha capacidade criativa da autora. É um livro espetacular.

Em se tratando de edição, a Bertrand Brasil segue sua tradição, com uma obra séria, bem feita, cuidadosa. Páginas em papel Pólen, margens e fonte adequadas para longas leituras, tradução e revisão cuidadosas. Faz jus à qualidade da trama. Enfim, recomendo fortemente a leitura de Hot Sul!

site: http://www.escrevarte.com.br/2016/09/resenha-hot-sul-de-laura-restrepo-bertrand-brasil.html
Isabela 26/06/2017minha estante
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Maria - Blog Pétalas de Liberdade 08/09/2016

Muito mais do que eu imaginava
"- O que quero que saiba, senhor Rose, é que o perigo está por perto. Tem estado vagando por aqui. E talvez tenha entrado nesta casa." (página 324)

A história é contada basicamente sobre três pontos de vista: o de Cleve Rose, um jovem escritor de histórias em quadrinhos, que foi trabalhar como professor de escrita criativa num presídio feminino chamado Manninpox, o de María Paz, pseudônimo escolhido por uma jovem nascida na Colômbia mas que morava há um bom tempo nos Estados Unidos e que estava presa em Manninpox, e o de Ian Rose, pai de Cleve.

Cleve procurava estimular suas alunas a escreverem, e foi especialmente importante para María Paz, para que ela pensasse sobre sua história. O rapaz tinha ido morar com o pai para se reaproximar dele, já que, por causa da separação de Ian e de sua esposa, eles ficaram um pouco afastados. A relação dos dois parecia ir bem, até que Cleve morreu (isso acontece bem no começo, no segundo capítulo, então, creio que não vá comprometer a leitura de ninguém). Abalado pela morte do filho, Ian começa a tentar saber mais sobre ele, já que o tempo que passaram juntos foi muito curto, e descobrir mais sobre María Paz, a aluna favorita de seu filho, parece ser uma forma de manter Cleve vivo em sua memória, especialmente quando Ian recebe um manuscrito de María, onde ela conta sobre sua vida na esperança de que Cleve pudesse transformá-lo em livro.

"É preferível que lhe dê um nome de flor, que disso ela gosta; das flores, das pedras, das árvores, de tudo o que está semeado, preso na terra, o que permanece em seu lugar e não se move nem vai embora. Ponha Violeta, que é uma flor esquiva e temperamental. Assim é ela, minha irmãzinha, tímida, mas terrível. Parecem coisas opostas, tímida e terrível, mas não são, combinam bem com a personalidade da minha irmãzinha. Acho que Violeta lhe cairia bem porque é um nome doce, quase silencioso, e ao mesmo tempo está a apenas um N de violenta." (página 48)

María tinha uma irmã, Violeta, e um marido que já foi policial, Greg; por que ela teria ido parar no presídio de Manninpox? Qual teria sido o seu crime? Como e quando Ian encontraria María? Durante a leitura, essas questões vão surgindo e se resolvendo, mas o que lhes garanto é que "Hot Sul" é um livro cheio de surpresas, onde é impossível prever como as histórias dos protagonistas vão se encontrar.

"Em algum momento tiraram minha foto, a famosa foto de frente e de perfil dos presos, e me deram um número, o 77601-012. Eu lhe asseguro, mister Rose, que naquele momento, senti que talvez fosse me salvar. Pelo menos já tinha um número, estava anotada em algum registro e se um dia Violeta perguntasse por mim lhe diriam que não era culpa minha que não tivesse voltado a visitá-la. Se sumirem comigo, pensava, terão de prestar contas a alguém, será aberta uma investigação sobre essa 77601-012 que está em algum lugar.
A foto que tinham acabado de tirar seria minha garantia de sobrevivência." (página 238)

O que me fez querer ler "Hot Sul", além do título e da capa interessantes, foi o fato de ter sido escrito por uma autora latino-americana, e eu tenho tentado, sempre que possível, ler mais do que é produzido pelos sul-americanos. O tema da imigração, especialmente para os Estados Unidos, o tal sonho americano de fazer fortuna lá, que muitas vezes é só uma ilusão, e a vida nos presídios também são temas que me interessam e são abordados na obra. Porém, "Hot Sul" foi muito além do que eu esperava; em determinado momento, até parecia que tinha virado uma história de terror (como comentei lá no Instagram, e isso foi bem depois daquela parte, também no segundo capítulo, em que o rosto de um homem é arrancado).

"Cozinhei com emoção, quase com lágrimas nos olhos, juro, é uma verdadeira cerimônia isso de preparar a sua própria comida em terra estranha, é algo patriótico, como cantar o hino ou içar a bandeira, você sente que aquilo que está fervendo na panela é você mesma, seus antepassados, sua identidade." (página 189)

Eu gostei do livro e é uma leitura que recomendo; talvez pela resenha eu não consiga passar a dimensão surpreendente que a história toma, e nem é algo que eu de fato queira fazer, pois quero que vocês também possam se surpreender quando estiverem lendo. Ainda assim, preciso ressaltar que não é um livro que vá ser lido rapidamente, pois é grande, com capítulos longos, e os parágrafos também são extensos (talvez seja uma característica da literatura sul-americana, como acontece em "Cem anos de solidão"). Confesso que, para mim, o clímax da história pareceu chegar antes da hora, fazendo com que uma cena muito aguardada acabasse não sendo tão impactante assim, fiquei querendo algo mais no "embate entre o bem e o mal", algumas palavras ficaram por ser ditas, o capítulo final não foi tudo o que eu esperava. De qualquer forma, reafirmo que é uma leitura interessante por trazer personagens bem construídos (meu preferido é o Ian Rose) e falar sobre o que há de ruim e de bom nas pessoas, com seus sonhos, seu desejo de vingança, seus erros e acertos, sua humanidade.

Sobre a edição: capa bonita, páginas amareladas, alguns erros de revisão, margens e espaçamento de bom tamanho e letras um pouco menores do que os últimos livros que li.


site: http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/2016/09/resenha-livro-hot-sul-laura-restrepo.html
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