A Licitude dos olhos

A Licitude dos olhos Tere Tavares




Resenhas - A Licitude dos olhos


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Krishnamurti 10/08/2016

UM OLHAR QUE NOS FALTA
PREFÁCIO
A primeira impressão que nos assalta ante a leitura de uma obra como esta é a de que se trata de uma autora que se deleita com o fantástico. Entretanto seria imperdoável precipitação considerá-la assim. A favor dos apressados está o fato de que a vida rotineira que vivemos vai cada vez mais estreitando nossa capacidade de imaginação a ponto de que tudo que não nos é cotidiano, aparece a nossos olhos como anormal ou fantástico. É preciso outros olhares.
Nas narrativas quase não existe o fundo duma sociedade real. O problema é de ordem inteiramente individual, descrevem ou pensam a evolução espiritual das personagens, existindo todos os acontecimentos e todo o ambiente apenas em função das mesmas, para enriquecê-las e encaminhar essa formação. Emerge daí aquela eterna busca de um absoluto que nos satisfaça dando-nos a razão de ser da vida. Não há clareiras óbvias nesses textos introspectivos por excelência, tudo é dito numa prosa plena de poesia.
Esta a chave para sentir esta autora que vai descobrindo sentidos em cada imagem. Portanto, suas personagens não são comuns. Não são comuns porque ricas de anseios e se consomem na inquietação de fazer da vida alguma coisa que tenha sentido e grandeza. Não são comuns finalmente, porque só é comum o conformismo acomodador, satisfeito de si mesmo e do ambiente.
Quem são afinal esses seres que em face de suas complexas personalidades e dos antagonismos do universo interior, comportam de um lado o intelecto e a razão, e do outro, forças da intuição e dos impulsos instintivos? Aqui o anseio da solidão, ali o desejo de compartilhar, noutro ainda a inquietação do andarilho. São seres humanos em busca de uma solução de harmonia para esses múltiplos polos iguais e contrários do Eu. A autora, através das personagens, busca o auxílio do mundo exterior e descobre-o na natureza onde melhor se espelha a tensão e o equilíbrio entre as forças do universo. E é aí que encontra algumas das mais belas imagens correspondentes para os profundos e antagônicos questionamentos.
A peculiar prosa de Tere Tavares não se adequa a quadros esquemáticos, bom que assim seja, pois do contrário, se lhe retiraria o vigor de um elemento que não se pode sequer fazer análise: a imaginação. A imaginação criadora que aponta para uma verdade bem sabida e pouco exercida. Cada um deve fazer por si o próprio caminho, um caminho que passa necessariamente pelo intercambio dialético entre espírito e realidade.
O homem do início do século XXI vive uma época brutal, na qual, logo acima das necessidades imediatas de ordem material, a sociedade se aplica a assegurar a continuidade ininterrupta do divertimento. Uma época de profunda desmoralização da inteligência e das disciplinas abstratas (humanidades), submetidas às mais crassas exigências do utilitarismo e da profissionalização, o que vale dizer: degradação espiritual. Estamos totalmente dirigidos para fora de nós e, paradoxalmente vivemos esta ânsia de urgência inexprimível, este desejo ardente por uma renovação e uma nova ordem social.
Que faremos nós? Nós que já conhecemos tantas decepções, nós que já nos criamos e nos destruímos tantas vezes? Alguém escreveu esta verdade: “podemos entender-nos reciprocamente, mas interpretar apenas a nós mesmos”. E Fernando Pessoa cunhou um verso que pergunta: “de que vale o teu mundo interior que desconheces?” Eis aí, certamente, a solução verdadeiramente transcendente que enobrecerá e iluminará nossas almas. Reconhecer a primazia do espírito humano. Em nosso olhar interior há uma beleza esperando para ser lapidada, é o que este livro nos ajuda a enxergar.

Krishnamurti Góes dos Anjos
Escritor
Tere Tavares 25/08/2021minha estante
Prazer imenso ser lida por ti, Krishnamurti Góes dos Anjos. Muito obrigada.


Tere Tavares 25/08/2021minha estante
Ei-nos frente a mais uma obra de Tere Tavares, autora, entre outros, de ?Vozes & Recortes? (Editora Penalux) e ?A Linguagem dos Pássaros? (Editora Patuá).
Plasticidade é o que brota de ?A Licitude dos Olhos?. Um quadro de textura delicada, cores, semitons, profundidades surpreendentes. Assim leio estes contos. Na capa, um ramo de olhares, signos que nos veem e propõem: vejam-me/leiam-me. Aberto o livro, desfolham-se as páginas, uma sucessão de telas envolventes. O leitor é tragado para telas-textos que descerram um mundo natural e onírico, numa epifania em meio a folhas, plantas e flores. Os personagens, gemas, emergem das águas, saem do solo, hastes que se prolongam e ganham o linho, o tecido do papel. E, em uníssono com a autora, um dos personagens diz: ?A arte é arte apenas quando emociona.? (?A fluidez ou?). Linguagem é jogo de dizer, isso se torna cristalino na escrita de Tere, pintora e escritora, que exercita seus dons com singularidade, como se lê em: ?Pintou alguns mares, e, quando desistiram de ficar presos na tela, olharam-na com gratidão (...). E se foram, porque já nascidos, libertos no conceito dela?. (?De antes ou depois de todas as dimensões?). Tere cria um universo sinestésico, onde florescem perfumes, cores, visões, águas, palavras e epifanias.
No texto-tela de Tere Tavares, palavras, brotadas do chão, explodem nas páginas-folhas, nutridas de seiva e decantadas pelo Tempo. Sorver o sumo é a tarefa ? doce e cálida ? que lhes proponho, leitores. O convite está feito: ?O teu tempo é de olhos. Vê então?. (?Khanti?). Armem-se de olhos de ver e ler. Mil olhos, miríades nos miram. Andarilha, Melra, A Mulher da Capa. Eis a autora, seus pincéis, lápis, personagens e os olhos ? lícitos.

Claudia Regina Manzolillo Madeira
Escritora, RJ


Tere Tavares 25/08/2021minha estante
Aos olhos, todo pensamento e sentimento é lícito

Vivian de Moraes

?A licitude dos olhos? (Penalux, 2016), é um livro de contos que tratam das pequenas e das grandes questões pessoais no mesmo nível. Nele, o autor não vai encontrar historiazinhas água-com-açúcar, tampouco grandes histórias aflitivas. O foco dos narradores desses contos é o indivíduo na sua mais franca observação do eu e do que está em volta.
Os nomes das personagens são sugestivos, a maioria estrangeiros, e há até um caso de anagrama, como duas que se revezam num conto (?Espelho?) chamados ?Maria? e ?Airam?. Mas a valorização dos nomes conta pouco, no final das contas, para as outras narrativas ? é claro que um espelho possa transformar um indivíduo no seu duplo invertido, grande sacada do conto. Mas as pessoas retratadas no cotidiano de pensar e sentir poderiam ser Maria, Airam, Bento ou qualquer outro.
O leitor desta resenha pode estar pensando: ?Mas que tipo de livro, é, então, este?? É um livro moderno na sua convicção de ser fluente na linha dos pensamentos e na lida dos sentimentos, sem peripécias que configurem enredos, no estilo de prosa poética. Cada personagem se basta, olhando-se ou olhado pelo olho nesta ?Licitude?.
Nesse livro, cuja capa exibe muitos olhos (criados pela autora, que também é artista plástica), é lícito não somente ver, mas principalmente ver. A primazia do olhar interno de cada personagem assim é dada por cada narrador ao leitor, que, lendo fluentemente cada conto, vai deparando com a beleza de tudo o que é expresso nos textos:
?Vê, nas pupilas cuja cor o sol revela, afastadas as purezas incertas da noite não dormida pelos olhos descidos do rosto no teu rastro sem caminho ? compreende o quanto de luz molha e bendiz a visão que te esculpe a rota.?
Esse trecho de ?Kanthi? mostra como esse conto faz uma metalinguagem a partir do título do livro: o mesmo olho que é visto, também vê! O conto todo segue esse estilo.
Vale lembrar que na sondagem das personagens em sua luta diária cabe também uma aproximação da autora com a espiritualidade, esse tema que entre nós tem sido subestimado e considerado até pouco artístico. É uma ousadia da autora, sim, mas de forma discreta demais, ou seja, o leitor ateu não vai se incomodar com a forma que tomam os textos.
Para concluir, vale observar (como os olhos lícitos) que o texto tem grandes tiradas sobre a vida, como em ?Fragmentos?: ?A solidão não é uma opção casual, mas um processo de criteriosa escolha.?

Vivian de Moraes é escritora e autora dos livros ?Sonetos Sombrios?, ?Poemas e Canções?, ?haicais/ vivian/ de Moraes? e ?As sete cores do carneiro? de forma independente. O quinto livro, ?Desconstrução?, foi lançado pela Editora Patuá em novembro de 2015. Em seguida, participou do livro ?Atibaia: uma cidade, vários olhares?, de crônicas. Lançou ?Veneno!? (Penalux), livro que organizou, em maio deste ano. ?Satan me tirou para dançar? está no prelo, também pela Penalux. Publica no blog viviandemoraes.blogspot.com.




Penalux 18/12/2017

Em uma busca íntima por plenitude, os personagens de Tere Tavares empreendem os seus esforços em direção à aproximação com a natureza, enxergando-a como paisagem contemplativa capaz de gerar epifanias que auxiliam no descobrimento da verdadeira essência humana.
Em “A licitude dos olhos”, os personagens por meio da escrita poética de Tere, refletem à cerca do significado da vida, deste modo, os acontecimentos externos servem apenas com plano de fundo complementador do grande enredo íntimo dos personagens. A natureza, quando observada, serve como cenário e companhia dos protagonistas, e também, como modelo explicativo para as questões humanas.
Facilmente, o rótulo de escritora fantástica paira sobre a escrita de Tere, porém, é necessário reconhecer que a força imaginativa da escrita da autora, amplifica o potencial de aproximação com o íntimo dos seus personagens. Reflexões sobre o significado da arte, sobre o caráter da morte, vão se tecendo a cada sopro de reflexão associado ao pensamento dos seus protagonistas.
Situações externas, como a presença de um morador de rua, maltrapilho, surge como curto enredo, cujo sentido maior, é despertar a contrariedade de um narrador-personagem, impressionado com o universo, e pisoteado, internamente, pela situação externa adversa que lhe dispara a volatilidade dos pensamentos.
Com esta mistura de prosa poética, “A licitude dos olhos” permite o vislumbrar do mundo íntimo de personagens sempre em busca de satisfação e de respostas para as ambiguidades dos seus seres divididos entre razão e emoção.
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