Meia-noite e vinte

Meia-noite e vinte Daniel Galera




Resenhas - Meia noite e vinte


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Adonai 25/03/2020

Conexões que não dependem de internet
Um quarteto de artistas e escritores que fez sucesso com uma escrita original e uma expressão artística singular nos anos 90 passa por mudanças quando a internet se torna um fator-chave para os novos formatos de comunicação, consumo e de vida. Além disso, anos mais tarde, um dos integrantes é morto em um assalto. Os outros três vão ao enterro, cada um levando sua vida ao encontro de suas lembranças.

Um livro que aborda as relações escorregadias e complexas, tanto antes quanto pós internet, uma narrativa ao ponto melancólico, traçando os pontinhos de uma ilustração tensa sobre o que fazemos com a nossa vida, se vivemos como queremos e se a busca por algo só não é mais uma ilusão que nos carrega. Finalizei o livro pensando em uma questão: viver é deixar de fazer coisas?
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Daniel 04/10/2016

Depois da meia noite
“A fragilidade do homem era tocante. Milhões de anos de evolução desembocando em seres incrivelmente não adaptados ao ambiente do planeta, como demonstrava nosso sofrimento diante de mínimas alterações de temperatura (...), para não falar na ainda mais humilhante vulnerabilidade da nossa mente a qualquer baboseira, à ansiedade, à esperança.”



O que eu adoro na literatura é isso: que além de uma história, de preferência interessante e bem contada, tenha também reflexões, pensamentos que parecem ter escapado de nossas próprias mentes, tal a identificação que temos com eles. O enredo de três amigos que se reencontram após a morte de um amigo em comum parece simplesmente um pano de fundo para questionamentos que, querendo ou não, se impõe com o passar dos anos: para onde foram nossos planos? O que nos tornamos? A vida que temos hoje, que construímos para nós mesmos, é muito diferente daquela que sonhamos quando éramos jovens? E o mundo em que vivemos, vai acabar com o homem ou o homem é que vai acabar com o mundo?



Acho que Daniel Galera acertou demais nos três narradores maduros – uma mulher (Aurora), um gay (Emiliano), um homem (Antero, talvez o menos consistente ou carismático dos três) – com suas inseguranças, suas dúvidas e suas poucas certezas. Numa época de tanta informação e tanta opinião, é inevitável uma certa nostalgia com tempos analógicos, quando o futuro parecia mais promissor.



Achei que o livro poderia até render mais alguns capítulos... Com mais perguntas que respostas, talvez este livro frustre um pouco os leitores muito jovens e idealistas. Que esperem a maturidade chegar, para relê-lo com outros olhos, mais cansados, mais experientes e, quem sabe, esperançosos.
eduardo 04/10/2016minha estante
... obrigado, dani, por compartilhar seu olhar franco e terno sobre o livro. é meu próximo da fila e, mais que antes, estou ansioso para começá-lo.


Nanci 04/10/2016minha estante
Ótima resenha, Daniel.




marcioenrique 24/01/2017

um dos piores livros dele...
fraco.
Diego Lops 04/01/2018minha estante
Pra que se dar ao trabalho de resenhar, se for pra escrever isso?


David Atenas 02/04/2018minha estante
Diego Lops, deixe os outros escreverem o que quiser.
Você não é o autor da porcaria do livro, e mesmo se fosse não teria direito de censurar ninguém, seu LIXO!




Felipe.Tavares 19/07/2017

Que sono zZzZz
Criticar é sempre mais fácil que elogiar, então vamos lá.
O autor mistura vários temas considerados "polêmicos" (?!) e espera que assim tudo vai dar certo, não dá. Tem homossexualismo, masturbação, alcoolismo, fim do milênio, passeatas de 2013, apocalipse e por aí vai. No fim das contas ele cria uma teia que não chega a lugar nenhum e pior, deixa uma série de buracos na trama porque gastou as páginas e páginas se mostrando intelectual demais citando autores e seus livros, aromas de whisky e especificidades da cana de açúcar.
Primeiro (e último) livro que vou ler deste autor e nem adianta tentar me convencer do contrário.
Diego Lops 04/01/2018minha estante
Há livros bons e ruins. Mas há também leitores bons e ruins, estes bem mais numerosos.


Felipe.Tavares 22/02/2018minha estante
Ainda bem que vivemos num mundo em que cada um pode ter sua opinião, né? #paz


() 07/07/2020minha estante
É como dizem: criticar é fácil, difícil é fazer melhor.




Cheiro de Livro 24/10/2016

Meia Noite e Vinte
Daniel Galera é desses escritores que me conquistou de cara, foi amor à primeira leitura. Quando vi que ele tinha escrito um novo livro, “Meia Noite e Vinte”, fui logo comprar. A sinopse já me seduzia, grupo de amigos que tinha um e-zine no final do século passado se reencontra e relembra esse período da virada do milênio.

Tenho que dizer, antes de tudo, que faço parte dessa geração que estava nos seus 20 anos no inicio do milênio. A ultima geração que cresceu sem internet, sem TV a cabo, sem celular e que foi descobrindo as maravilhas do mundo conectado ao mesmo tempo que se tornava gente. Mesmo não tendo vivido Porto Alegre na virada do milênio, universo explorado por Galera no livro, vivi todo esse clima. Minha experiência com o tempo relatado faz toda a diferença na minha empatia com os personagens.

Aurora, Emiliano e Antero, todos entre seus trinta e quarenta e poucos anos, se reencontram em Porto Alegre no enterro de Duque, amigo morto em um assalto com quem eles produziam um e-zine Orangotango de 1998 até os primeiros anos do novo século. O livro é uma mistura de lembranças com a realidade de cada um deles. Deve ser muito mais legal para quem é de Porto Alegre, as referências são muitas a cidade de hoje e do passado, mas não ser de lá não é um problema.

Não é uma grande história, os outros livros de Galera são mais interessantes, mas tenho uma ligação afetiva com o universo que ele explora. Ajudou muito ter lido tudo pouco antes de um almoço com meus amigos de colégio. Não nos parecemos nada com o grupo mostrado por Galera e mesmo assim é impossível na fazer o paralelo. Aurora, Antero e Emiliano tem níveis de sucesso, frustração e fracassos em suas vidas, estão bem longe do que sonhavam quando escreviam no Orangotango. O livro é um misto de esperança e desilusão, de frustações e nostalgia. É interessante e ao mesmo tempo anda em círculos e não chega muito a lugar algum.

Tive a impressão que Galera queria revisitar aquele período de inicio de faculdade, de novas descobertas, do inicio da internet no Brasil e criou uns personagens para ilustrar o seu exercício de nostalgia. É um livro que fala para uma geração mesmo não sendo um grande livro. Toca apenas superficialmente em temas que mereciam ser melhor explorados. Comecei com uma expectativa muito alta, talvez. É um Daniel Galera, vale a leitura.

site: http://cheirodelivro.com/meia-noite-e-vinte/
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Thiago Maia 17/11/2016

Prosa de primeira
Daniel Galera se situa bem acima da média no painel dos autores brasileiros contemporâneos. Sempre atribuí o destaque sobretudo à fluidez pragmática de sua prosa, destituída de experimentalismos que tanto aborrecem e afastam leitores. Em “Meia-noite e vinte”, seu quinto título, o traço da agradável fluidez segue presente, enriquecido por uma recorrência de belas passagens que vem acrescentando cada vez mais densidade à obra do jovem escritor gaúcho.

A tal densidade, neste último livro, para mim, está mais ligada ao apuro na elaboração de frases e sentenças – leves e vistosas ao mesmo tempo – do que à temática em si: me parece superdimensionada a importância da revista literária online em torno da qual se ergue a trama, uma diabrura adolescente do fim dos anos 1990 cuja repercussão se estende até os dias atuais. Antero, um dos criadores, é reconhecido no meio da rua quase duas décadas depois; Duque, o principal nome da revista, é morto em uma tentativa de assalto e provoca algo perto de uma comoção nacional – fãs à porta do cemitério, agitação na imprensa e outros desmembramentos mais condizentes com a morte violenta de um ator de novelas, não de um escritor brasileiro marginal.

Mesmo a riqueza discursiva, ponto alto da obra, transparece certa inconsistência ao se dissolver na figura de três narradores: são todos muito bem articulados, precisos na transmissão de sensações e repletos de referências, mas faltam marcas que os caracterize individualmente e os diferencie um do outro de forma inequívoca e contundente, como se espera de vozes expressas em primeira pessoa.

Quando os protagonistas, na faixa dos 40 anos, se afastam um pouco de seus delírios de importância juvenil e se voltam às questões mundanas do presente, somos brindados com as melhores partes do livro. A descrição do trabalho de Aurora como pesquisadora da USP em genética da cana-de-açúcar é especialmente interessante e bem fundamentada.

Destaque também para a maneira com que certas intimidades são expostas, naturais, sem subterfúgios, em particular aquelas praticadas sob o anonimato da internet – além da sensibilidade de Galera de ter encarnado uma voz gay e um ponto de vista feminino sem decair num tom artificial e inverossímil.

site: www.thiagomaialivros.blogspot.com.br
Silvia 24/11/2016minha estante
To doida pra ler!


Thiago Maia 25/11/2016minha estante
Vale a pena!




Gu Vaz 20/02/2020

Caótico
O quê dizer de meia-noite e vinte? Talvez a principal ligação que o livro me permitiu tecer foi através de seus personagens, que são o foco central da trama e orbitam entre o passado nostálgico de uma juventude quase ingênua tão cheia de vontades e um presente melancólico replicado disposto em lembranças, afeições e carências em um grau que acompanha suas idades. Aurora, Emiliano, Antero e Andrei, amigos afastados pelo tempo e pela circunstância do medo, que partilham entre si uma crueza de pensamentos e ações, questionadores de uma época transitória e por si só avassaladora pré e pós internet não no que diz à mítica transformação física apocalíptica do século tecnológico, mas ao caos interno de cada um desses protagonistas; o fantasma que os assola e a intimidade frágil e profunda que compartilham como uma ferida que nunca sara e sempre incomoda. Se pudesse resumir o livro diria que ele é caótico, tumultuoso, melancólico, angustiante e cru da maneira estática que te paralisa entre conflitos, aflições de um passado e presente reais e o penoso palpável de uma sociedade.
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Aline T.K.M. | @aline_tkm 30/06/2017

Geração ICQ
Meia-Noite e Vinte é o sétimo livro do autor do incrível Barba Ensopada de Sangue. Aqui, ele traz a juventude desiludida dos anos 1990 enfrentando as questões da vida adulta, em meio às memórias de um tempo que não volta mais.

Três amigos se reencontram, após anos sem se verem, para o enterro do quarto integrante do grupo que eles um dia foram quando jovens. Entre o luto e os dilemas da vida atual, eles rememoram a juventude, vivida numa época marcada pelo boom da internet e por uma espécie de desesperança – de certa maneira, um presságio de tudo aquilo em que o mundo se tornaria nos anos que se seguiram.

Duque, ou Andrei Dukelsky é morto em um assalto nas ruas de Porto Alegre em janeiro de 2014. Escritor famoso, mas um tanto discreto, ele foi ao longo dos anos saindo do mundo online, deixando de atualizar algumas redes sociais, deletando seu perfil em outras, enfim, borrando seus rastros na web.

Sua morte prematura deixa inconformada uma legião de fãs e também uma esposa que não sabe muito bem lidar com o papel que agora esperam dela. Ela apenas trata de cumprir as orientações que o marido lhe havia deixado caso um dia acontecesse algo com ele: destruir seus manuscritos e apagar completamente todos os seus perfis online.

A tragédia também é responsável pelo reencontro de Aurora, Emiliano e Antero. Junto com Duque, quando jovens eles mantinham o e-zine Orangotango, que bombou lá no começo da popularização da internet, no final da década de 90. Deles, apenas Duque continuou no ramo da escrita. Emiliano foi para o jornalismo e, logo após a morte do amigo, acaba recebendo a difícil proposta de escrever a biografia de Duque.

Aurora seguiu a área de biológicas e vive uma estressante batalha acadêmica na universidade. Ela é apaixonada pelo que faz, mas sente certo vazio dentro de si e sofre para encontrar a medida entre a maturidade e a inocência dos tempos de garota.

Já Antero é um publicitário de sucesso que, na juventude, fez um vídeo que viralizou na web, garantindo a ele certo sucesso e moral com as garotas. Atualmente bem-sucedido, casado e com um filho pequeno, Antero tenta digerir o fato de que as coisas – e ele mesmo – já não são como nos tempos passados.

A narrativa sempre deliciosa do Galera aparece aqui repleta de referências aos anos 90 – quem foi jovem nessa época vai se identificar horrores!

A gente mergulha no mundo particular de cada um dos amigos e em suas lembranças com Duque. E também seguimos o início do processo de pesquisa de Emiliano para a biografia do amigo escritor, pesquisa que o levará a descortinar alguns fatos sobre Duque que o deixarão um tanto perturbado.

Um mundo em pedaços com um fim já profetizado, um bug que afetaria todos os computadores na virada do milênio, um presente sem muita margem para grandes perspectivas sobre o futuro. Quinze anos depois, a constatação de uma vida tão diferente e, ao mesmo tempo, tão ligada àqueles dias do passado. Dias de desilusão, mas dias de ouro.

Meia-Noite e Vinte traz, sim, um pessimismo em suas entranhas. Mas, no fim das contas, mostra que o que restou daquele mundo não são apenas cinzas e coisas mortas. Talvez haja, ainda, uma luzinha de esperança escondida nos lugares menos prováveis, especialmente dentro de cada um.

LEIA PORQUE
Escrita cativante + trama envolvente sobre pessoas, sobre uma época, sobre uma geração + referências que levam o leitor de volta à infância e juventude = livro arrasador, na certa! Taí a fórmula perfeita para uma leitura que vai te deixar tudo, menos indiferente.

DA EXPERIÊNCIA
Eu quis muito um Pense Bem, passei noites no ICQ, baixei músicas no SoulSeek... Isso é só para vocês terem uma ideia de como esse livro dialogou comigo. Leitura excelente!

FEZ PENSAR
O também sensacional A Maçã Envenenada, de Michel Laub, traz os anos 90 com uma pitada singular de pessimismo, mas com um quê de luz no fim do túnel. Um livro sobre memórias dolorosas, escolhas e extremos.

site: http://www.livrolab.com.br
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vinigiorge 12/10/2016

Daniel Galera em novo livro raso e sem clímax
Em Meia Noite e Vinte, podemos ver, sem dúvidas, um Daniel Galera ainda mais maduro como escritor e, firmando-se como um verdadeiro literato brasileiro contemporâneo. Apesar disso, acompanhando desde o início sua trajetória, esperava muito mais de Meia Noite e Vinte.
Há alguns aspectos muito positivos, como a construção da identidade das personagens, e há outros bons destaques sobre a própria narrativa. No entanto, depois de ler Barba Ensopada de Sangue, esperava um livro muito mais completo e fascinante -- o que fez deste novo um pouco decepcionante.
Talvez eu tenha criado muita expectativa e por isso ter me frustrado, mas o que senti ao ler é que há um gancho excelente para o livro, mas que foi explorado de forma muito superficial. É um livro que não sai do morno, não tem nenhum grande clímax. Se não fosse escrito por Galera, teria abandonado antes de concluir.
David Atenas 09/01/2017minha estante
Creio que não se deva criar quaisquer expectativas em torno da literatura do Galera.




Fernando.Trindade 29/05/2020

Livro moroso e cansativo (3,0/5,0)
Já havia lido outros livros do autor mas esse, em especial, me deixou decepcionado e quase abandonei a leitura.
Trata-se de um grupo de amigos que deixam de ser tão próximos e se reencontram quando um deles é assassinado.
O livro parece muito com uma crônica do cotidiano muito arrastada e bastante chata - é uma leitura bem regionalista.
Nota: 3/5
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Élinson 11/11/2020

aquele ardor repentino (...)
Bem, sou contemporâneo do autor e dos personagens. Morei lá e frequentei os mesmos lugares e ruas e sotaque. Moro hoje em dia em São Paulo então me relaciono ainda mais com personagem que é minha vizinha. E sou fã do Galera. Do jeito que ele escreve e por vezes traz poesia às linhas. Como alguns o fazem na mente.
Li várias resenhas de leitores que não gostaram. Total respeito e comprensão. E quem sabe o tempo os faz ler de outra forma. Como li.
Vi comentários de pontas soltas. Acho que o Meia Noite e Vinte, é tipo a vida: Cheia de pontas soltas. Cheias de sensações novas (e estranhas) quando o primeiro do teu grupo de amigos é morto. Ele que era um ídolo entre vocês. E esse tamanho estranhamento, te faz sentir tudo de novo à flor da pele, as memórias, o tempo de vida que te resta, as relações e teu entendimento sobre elas, tuas escolhas, tuas não escolhas...Eu adorei! E ainda por cima cada capítulo é narrado por um dos amigos, intercalando. E é tão bom ir vendo esses pontos de vista diferentes.
Para mim não faltou nada, está tudo ali, com doses cavalares de reflexão.

site: http://o-taberneiro.blogspot.com/
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Renata (@renatac.arruda) 30/11/2016

Daniel Galera busca inspiração nos tempos em que sua carreira estava no início, quando escrevia para o Cardosonline ao lado de Clara Averbuck, Daniel Pelizzari e outros, para mostrar o contraste entre uma geração que prometia muito e sonhava alto e o que de fato ela se tornou.

O livro mostra o ponto de vista dos personagens Emiliano, Aurora e Antero, basicamente refletindo sobre o passado e encarando o presente, que voltam a se encontrar quando o mentor do antigo grupo de juventude e escritor de sucesso, Andrei, é assassinado nas ruas de Porto Alegre.

Repleto de referências à segunda metade dos anos 90, alguns dos temas abordados refletem o nosso tempo e são quase 'Radioheadianos': alienação, tecnologia, solidão, relações líquidas, dinâmicas de poder e uma humanidade que segue rumo ao apocalipse. Apesar disso, há otimismo. 'Meia-noite e vinte' é mais dinâmico e direto do que 'Barba Ensopada de Sangue', mas mantém a sensibilidade e o olhar perceptivo do autor.

A Companhia das Letras fez uma playlist no Spotify para acompanhar a leitura, mas eu acho que é pra ler ouvindo o álbum Kid A, de Radiohead.

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Tsutsui Takaji 21/07/2017

O cotidiano de alguns minutos
A premissa do livro inicia-se com a morte de Andrei, o único de uma turma de "Comunicação" da década de 90 que seguiu a carreira de escritor. Junto com Aurora, Emiliano e Antero fundou uma fanzine no alvorecer da Era da Internet. Anos depois do projeto fadado ao fim, é morto em assalto e essa notícia é recebida com surpresa pelos três colegas. Uma narrativa em poucos capítulos, com pontos de vista alternando entre alguns que já foram próximos do escritor morto, povoada por técnicas sofisticadas, detalhes e um fluxo de consciência contínuo, explorando temas como sexismo, pornografia, alienação e amadurecimento (ou não), o quinto livro de Daniel Galera explora a própria geração, percorrendo as entranhas e fetiches de seus personagens.

Nos dois livros anteriores, Cordilheira e Barba Ensopada de Sangue - um romance que veio para agitar o cenário literário brasileiro, com marcas de regionalidade e pós-modernismo -, as principais características são uma firmeza literária ajuntada de temas não tão comuns, adicionados à um personagem "inadequado" e carismático. Embora os personagens desempenhassem grande parte do teatro desses dois, havia a presença de um roteiro que percorria toda a história. Em Meia-noite e vinte, esse roteiro é substituído por uma prolixidade experimental do escritor, que relatou que o projeto foi realizado em "explosões de criatividade" durante intervalos de outros projetos.

Talvez este simbolize uma mudança na trajetória do escritor, ou talvez seja só um relapso de liberdade entre romances mais densos. Invés de um arco de personagem mais bem construído, temos um relato quase do cotidiano, um ode ao próprio talvez. Dado certo momento, uma personagem diz que todos as reflexões filosóficas do mundo retornam para Mito de Sísifo, de Camus, o maior representante do absurdismo - onde temos Sísifo, o mito, erguendo sua pedra todo dia e sorrindo para o absurdo (resumindo quase ofensivamente). O principal instrumento literário, o fluxo de consciência, provém de outro romance que preza o herói do cotidiano; Ulisses.

As questões abordadas pelo livro são tipicamente pós-modernas; há solidão, há tédio, há metalinguagem. No entanto, o principal tema é uma juventude perdida, uma crueldade clássica, e também a relação dos personagens com essa perdição, com uma ansiedade quase infantil por um fim do mundo. Anos depois de terem atingido o ápice de suas vidas, os protagonistas ruminam memórias dos anos de e-zine e tentam vivenciar novamente o fim do milênio, seja com sexo, biografias ou exercícios físicos.

Os personagens de Emiliano e Aurora (que ecoa um pouco de Molly Bloom) são muito bem explorados, enquanto Antero é um poço de superficialidade (talvez proposital?), mas são todos ecos de uma geração que agora degrada-se no próprio anseio e fetiches, em conflito com a nova era. Antero, por exemplo, não corta seu cabelo curto desde a juventude, também é capaz de participar de uma manifestação ou fazer uma palestra sobre 120 dias em Sodoma - e o leitor é levado a questionar, se esse personagem que entramos em contato é ele mesmo ou um reflexo do que ele quer ser.

Temos também o deleite de aproveitar um Porto Alegre do passado e um Porto Alegre intermediário, junto com as manifestações de 2013, o que não deixa de ser uma satisfação, pois ainda há uma fantasia de que os grandes romances se passam fora do Brasil.

Embora empalideça um pouco ao lado de Barba ou Cordilheira e a prolixidade às vezes o prejudique, o novo romance de Daniel Galera é uma possível mudança para a escrita deste, mais experimental, mais estilosa, e é essencial para os seus fãs, nem que seja por pouco mais que vinte minutos.

site: http://uselesslyhysterical.blogspot.com.br/2017/07/meia-noite-e-vinte-resenha.html
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Luiza 21/04/2018

Sou suspeita para falar, pois sou fã de todas as obras do Galera. Porém, dentre todos os livros dele, Meia-noite e Vinte foi o que mais me deixou com a sensação de inacabado, apesar do autor ter utilizado o recurso de "final fora de hora" em outros livros. Os personagens são extremamente bem construídos, cada um com suas particularidades e excentricidades, cada um com uma visão de mundo e as narrativas distintas deixam bem claro cada personalidade.
A obra deixou um triste gosto de quero mais, com muitas pontas soltas e desfechos que poderiam ser muito mais desenvolvidos. Já estou sentindo saudade de Aurora, Antero e, principalmente, Emiliano.
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Achados e Lidos 22/01/2017

Dramas contemporâneos
Daniel Galera se tornou uma espécie de “fenômeno literário” brasileiro com Barba Ensopada de Sangue, lançado em 2012. Seu novo romance era aguardado, portanto, com uma expectativa enorme. Meia-Noite e Vinte confirma o autor como o expoente maior de uma safra de ótimos escritores como há muito não se via na cena literária brasileira.

O ponto de partida de Meia-Noite e Vinte é justamente a morte de uma espécie de alter ego de Galera, Andrei Dukelsky, descrito como “um dos maiores novos talentos da literatura brasileira contemporânea”. Mais conhecido pelo apelido, Duque foi morto de forma brutal, ao ter seu celular levado durante uma corrida pelas ruas de Porto Alegre.

A tragédia, que chega a Aurora por meio do Twitter, força a aproximação dela com os outros dois narradores do livro, Antero e Emiliano. Juntos, os quatro haviam escrito, na virada do milênio, um cultuado fanzine digital, chamado Orangotango.


O enredo é simples. Trata-se, essencialmente, do reencontro dos três amigos após a morte de Duque, o que os força a voltar a habitar o passado e, sobretudo, entender como chegaram ao presente e qual o futuro possível nas circunstâncias em que se encontram. O domínio de Galera sobre a narrativa, porém, faz com que esse seja um romance de portas abertas.

Cada personagem parece estar afundado em situações-limite. Aurora, uma pesquisadora da área de botânica razoavelmente bem sucedida, é ameaçada de não ser aprovada em sua qualificação de doutorado na Universidade de São Paulo por um professor abusivo. Seu choque com a morte de Duque a encontra em uma Porta Alegre caótica, com ares dignos de Saramago, o que exacerba seu pessimismo com a humanidade.

A fragilidade do homem era tocante. Milhões de anos de evolução desembocando em seres incrivelmente não adaptados ao ambiente do planeta, como demonstrava nosso sofrimento diante de mínimas alterações de temperatura ou falta de substâncias, uma vulnerabilidade humilhante a todo tipo de condição atmosférica, exposição a materiais e outros organismos, para não falar na ainda mais humilhante vulnerabilidade da nossa mente a qualquer baboseira, à ansiedade, à esperança. Éramos inadequados àquela natureza. Não espantava que desejássemos destruí-la.
Em um estado semi-depressivo, vivenciando apenas relações online, Aurora começa a questionar também os limites da ciência – e, automaticamente, de seu papel no mundo. Sua pesquisa sobre a percepção da passagem de tempo pelas plantas, que ao fim poderia até acelerar a produção de alimentos, começa a lhe parecer um problema em si. A terra, na sua avaliação, chegou a um ponto em que mais capacidade de vida significa fim mais próximo:

O ser humano não seria o primeiro organismo a ensejar o próprio genocídio por excesso de vantagem evolutiva, nem nisso éramos especiais.
Antero, um autocentrado diretor de uma agência de publicidade famosa, parece ainda preso em seus experimentos na adolescência, quando escrevia de forma transgressora para o Orangotango. Seu discurso vazio em um TEDx sobre a mídia e a produção de conteúdo capaz de conquistar massas de consumidores é, de certa forma, um reflexo irônico da tentativa de intelectualizar esse meio, disfarçando seu objetivo principal: vender.

Encarregado de escrever a biografia de Duque, Emiliano é um jornalista solicitado, mas que vive uma vida de certa forma decadente, desregrada, sem quaisquer amarras sentimentais.

Por todo o romance, está latente uma sensação de mal estar com a modernidade, uma percepção muito forte de que algo saiu fora do eixo no mundo. Ao dialogar com as manifestações de junho de 2013, um movimento ainda em digestão pela sociedade brasileira, Meia-Noite e Vinte escancara o mau humor que parece ter dominado as relações sociais desde então, uma espécie de azedume que advém de sonhos dilacerados.

Antero relembra a passagem de 1999 para 2000, quando havia a expectativa de um bug nos computadores que causaria panes globais, e que não deu em nada.

Quinze anos depois, o que começava a espalhar seus tentáculos pela sensibilidade de gente adulta e esclarecida como Aurora era outra coisa, uma angústia diferente da tensão pré-milênio. A nova angústia era essa expectativa difusa de um sufocamento vagaroso e irreversível, após o qual não restaria nada.
O estado de espírito dos personagens é algo como uma ressaca moral da década anterior, que se iniciou com as possibilidades abertas pela internet e por um pais que também parecia ter saído do limbo social e econômico. De repente, essa geração parece ter caído na real de que ainda estamos presos a um país capaz de retroceder décadas em um par de anos. Em um mundo que pouco faz para amenizar esse sentimento de fim iminente.

Há também uma forte tensão sexual entre os personagens, uma espécie de desejo latente que pode rapidamente caminhar para o mundo das possibilidades materiais. Uma espécie de espelho para o passado, que pode lhes permitir ser mais honestos com eles mesmos do que hoje, quando já se tornaram maduros o suficiente para construir defesas contra os instintos.

É esse sentimento que faz com que Emiliano não consiga recusar a proposta de escrever a biografia do amigo morto. Duque era avesso a redes sociais, mas depois de sua morte, descobre-se que tinha uma vasta presença online. Sua vida online lhe sobreviveria, e deixaria inclusive algumas respostas sobre o ar misterioso que envolve sua morte.

O leitor, porém, encontrará poucos respostas para seus questionamentos. Meia-Noite e Vinte é um livro conciso, mas que ao mesmo tempo pincela uma gama vasta de assuntos. Com esse livro, Galera também se aproxima de um autor que é sua referência assumida, David Foster Wallace, e seu realismo misturado com fluxo de consciência. Como não poderia deixar de ser, já estamos esperando o próximo livro de Daniel Galera. .

site: http://www.achadoselidos.com.br/2016/11/03/resenha-meia-noite-e-vinte/
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