Vozes anoitecidas

Vozes anoitecidas Mia Couto




Resenhas - Vozes Anoitecidas


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Renata CCS 27/07/2016

Um escritor com vários universos dentro de si.
.
“A minha consciência tem milhares de vozes, e cada voz traz-me milhares de histórias.” (William Shakespeare)


Mia Couto é um poeta, antes de qualquer coisa. E mais uma vez fiquei fascinada com a forma poética com que Mia maneja a prosa em VOZES ANOITECIDAS, seu livro de estreia na prosa.

É uma coletânea de breves histórias com personagens improváveis e, ao mesmo tempo, palpáveis, de tão reais. Os relatos são, de fato, vozes que vão anoitecendo, narrativas de um país devastado no pós-guerra, um povo aflito, que sofre por medo da pobreza, dos campos minados e, em alguns pontos, por medo de suas próprias origens e tradições.

Juntamente com tudo temos, naturalmente, as fortes impressões deixadas pela língua falada, em pleno ofício de auto-criação: concebendo novas palavras e usando as já existentes em contextos novos e inesperados. Em todas as narrativas, o que mais emociona é a língua, o brincar com as palavras. A escrita de Mia não é apenas bela, mas dá a impressão de ter sido encaixada, palavra por palavra, cada fragmento em seu devido lugar.

Ao ler Mia Couto, o leitor percebe a beleza nos detalhes, saindo da leitura com um novo olhar sobre o uso das palavras, sobre o quanto elas podem voar mais alto. E não há lugar melhor para ir que não seja através dos olhos de um escritor como Mia.

Um livro onde as emoções humanas são pintadas de uma beleza profunda, onde saímos de nós e nos encontramos nas dores e alegrias de outros.

Mia escreve em estado de glória.
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Alexandre Kovacs / Mundo de K 15/06/2016

Mia Couto - Vozes Anoitecidas
Editora Companhia das Letras - 152 páginas - Lançamento 17/10/2013.

Publicado originalmente em 1987, "Vozes Anoitecidas", foi a primeira coletânea de contos de Mia Couto. Na época, já conhecido como jornalista e poeta, ele surpreendeu público e crítica com as doze narrativas deste livro, onde já estavam presentes todos os elementos que marcaram o estilo único do escritor moçambicano ao longo de sua carreira que culminou com o recebimento do prêmio Camões em 2013. Aqui encontramos o exercício de recriação da linguagem e a invenção de palavras que lembra muito o nosso Guimarães Rosa, utilizando uma mistura de poesia e sonoridade do português coloquial da África, sempre norteado pela preocupação com os problemas sociais que ficam evidentes quando se faz a ligação entre a rica tradição do folclore e a dura realidade atual das ex-colônias. Como bem definiu o poeta conterrâneo José Craveirinha no prefácio à edição portuguesa, "Mia Couto maneja a linguagem das suas figuras legitimando a transgressão lexical de uma fala estrangeira com o direito que lhe permite o seu papel de parente vivo de Vozes anoitecidas". No entanto, é o próprio autor que melhor resume a importância da sua arte como um marco na resistência à exploração de Moçambique, assim como de outros países do terceiro mundo, através da bela introdução abaixo:

"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes. (...) Estas estórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas no meu voo de escrever. A umas e outras dedico este desejo de contar e de inventar." (Texto de Abertura - pág. 17)

E assim, constatamos que através das múltiplas vozes "que vazaram o sol" encontramos a mais pura literatura e ainda muito mais, a persistência do desejo e da necessidade ancestral do homem de sonhar, mesmo diante da adversidade e da incompreensão da sua vida em um meio hostil. No conto "A fogueira", os protagonistas se resumem a uma velha e um velho presos a uma solidão que só a morte poderá libertar. É o conto de abertura desta coletânea que decidi apresentar completo, presente para os leitores que se beneficiam da minha impossibilidade de resumir e explicar tamanha força de contar e inventar. Não há resenha que dê jeito. Só lendo para sentir e entender a prosa mágica de Mia Couto.

A fogueira
(Mia Couto)

A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem saído no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados.
A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.
O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.
“Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra.”
Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
— Estou a pensar.
— É o quê, marido?
— Se tu morres como é que eu, sozinho, doente e sem as forças, como é que eu vou‑lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
— Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.
A mulher, comovida, sorriu:
— Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
— Vou ver se encontro uma pá.
— Onde podes levar uma pá?
— Vou ver na cantina.
— Vais daqui até na cantina? É uma distância.
— Hei de vir da parte da noite.
Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
— Então, marido?
— Foi muito caríssima — e levantou a pá para melhor a acusar.
— Amanhã de manhã começo o serviço de covar.
E deitaram‑se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu‑lhe o adormecer:
— Mas, marido...
— Diz lá.
— Eu nem estou doente.
— Deve ser que estás. Você és muito velha.
— Pode ser — concordou ela. E adormeceram.
Ao outro dia, de manhã, ele olhava‑a intensamente.
— Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.
— Nada, sou pequena.
Ela foi à lenha e arrancou alguns toros.
— A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.
— Vai mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.
Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
— Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
— Queres o quê?
— Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
— Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.
Durante duas semanas o velho dedicou‑se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
— Não fala asneiras, vai ser dado o castigo — aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.
— Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.
— Não barulha, mulher — ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.
No dia seguinte o velho foi acordado pelos seus ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
— Estou a doer‑me, mulher. Já não aguento levantar.
A mulher virou‑se para ele e limpou‑lhe o suor do rosto.
— Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.
— Não é, mulher. Foi que dormi perto da fogueira.
— Qual fogueira?
Ele respondeu um gemido. A velha assustou‑se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
Levantou‑se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou‑se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.
— Marido, não vai assim. Come primeiro.
Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
— Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.
Ele estava já dentro do buraco e preparava‑se para retomar a obra. A febre castigava‑lhe a teimosia, as tonturas dançando com os lados do mundo. De repente, gritou‑se num desespero:
— Mulher, ajuda‑me.
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.
— Estás muito doente.
Puxando‑o pelos braços ela trouxe‑o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
— Mulher — disse ele com voz desaparecida. — Não lhe posso deixar assim.
— Estás a pensar o quê?
— Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar‑te.
— É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim.
— Sim, hei de matar você; hoje não, falta‑me o corpo.
Ela ajudou‑o a erguer‑se e serviu‑lhe uma chávena de chá.
— Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
O velho adormeceu, a mulher sentou‑se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu‑se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou‑se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu‑se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar‑se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram‑na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho, pediu com tanta devoção como pedira à vida que não lhe roubasse os filhos.
Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.
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Viviane 25/12/2009

Desanoitecendo sentimentos
Este foi meu primeiro contato com Mia Couto e me descobri atingida por seu estilo e escolhas. A vida de cada personagem se apresenta envolvida pela cultura moçambicana com uma consciência muito particular, às vezes movida por objetivos irreais, às vezes por uma resignação comovente.
Minha impressão foi a de que as palavras eram, ao mesmo tempo, muito cruas e poéticas e, por conta disso, os sentimentos suscitados também se apresentavam assim. Bom modo de ter acesso a um mundo tão distante da maioria de nós.
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Marcone 30/01/2014

"A mentira da noite é matar o cansaço dos homens"

Livro de contos, mas de poesia, escritos à maneira de Guimarães Rosa, mas à maneira de Mia Couto, recheados de humor, mas de desgraça, ficções que soam bem reais ao serem lidas.

Um maestro, o poeta Mia Couto, ao reger as palavras para redigir as melodias e noites de Moçambique, seus feitiços, suas es e histórias.
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spoiler visualizar
Gaby 16/03/2017minha estante
Amo esse trecho, quando li pela primeira vez, precisei reler, e reler, e até hoje volte e meia vou lá ver de novo.. porque a beleza e a poeticidade desse trecho é incrível, maravilhosa, perfeita!!!
Muito amor por Mia Couto!




IvaldoRocha 01/06/2015

Sem sombra de dúvida vale a pena ler.
Mia Couto tem um jeito peculiar de escrever, ou melhor de contar suas histórias. Da boca de seus personagens sai uma língua diferente, não por ser um português africano, mas talvez por pertencerem a uma outra dimensão. A prosa é como se você cantada sem cantar e fosse poesia sem rima. Me lembrei de um acampamento de pesca em Tocantins, onde ouvindo os “causos” dos ribeirinhos a maneira como eles falavam chamava a atenção e por mais que se quisesse guardar na memória nunca consegui reproduzi-la. Como uma coisa leva a outra a primeira coisa que veio em minha mente foi Guimarães Rosa, longe de comparações, mas que faz lembrar faz. A maneira diferenciada de ver a vida e encarar a realidade dos personagens também chama a atenção. Como o idoso que é salvo da enchente e se queixa da vida difícil que leva. Afinal para que salvá-lo se vão deixa-lo na penúria em que vive, se é para salvar, tem que salvar para a vida inteira. Uma versão diferente para “Tu Te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

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isa.dantas 10/08/2017

Que bela estreia em prosa de Mia Couto nessa coletânea de 12 pequenos contos, que nos emocionam com sua triste beleza.
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Carina 11/09/2013

Tradição e poesia pedem a palavra
Primeiro livro em prosa de Mia, este volume já revela a essência de “estorinhador” de um dos maiores escritores africanos. Orgulhosamente africano, como mostram seus contos que tanto valorizam a tradição, a oralidade, o poder de contar histórias do povo moçambicano.

A epígrafe do livro, que faz uma reflexão sobre a miséria material dos homens, diz muito do espírito da obra, repleta de protagonistas humildes e reféns, em muitos casos, de sua própria pobreza.

Contos do livro:

- A fogueira – Marido pede que a mulher faça a própria cova enquanto está viva, pois ele não tem forças para tanto e preocupa-se com seu enterro;
- O último aviso do corvo falador – Homem possui um corvo que fala com os mortos e dá assistência àqueles que querem se comunicar com o além;
- O dia em que explodiu Mabata-bata – Um boi pisa em uma mina e explode; assustado, o menino pastor decide fugir;
- Os pássaros de Deus – Pescador pobre encontra um passarinho em seu barco e acredita que deve cuidar muito bem do animal, que é um emissário dos deuses;
- De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro – Dono de uma venda cumpre todo dia o mesmo ritual de bebedeira, sempre seguido por seu empregado, até que um dia a mulher lhe abandona;
- Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar? – Confissão de homem que matou a esposa com um balde de água quente, acreditando que ela era feiticeira;
- Sade, o Lata de Água – Homem arma gritaria para os vizinhos pensarem que está espancando a mulher, quando esta, na verdade, já lhe abandonou há muito tempo;
- As baleias de Quissico – Homem se muda em busca de uma baleia mágica que distribui presentes a quem lhe encontrar;
- De como o velho Jossias foi salvo das águas – Jossias cai em um poço, após haver furtado a oferenda para os antepassados e é salvo a contragosto;
- A história dos aparecidos – 2 homens considerados mortos ressurgem após uma cheia e são considerados espíritos pela comunidade, que não lhes quer aceitar novamente como entes vivos;
- A menina de futuro torcido – Segue abaixo (um dos melhores contos de Mia);
- Patanhoca, o cobreiro apaixonado – Homem que cuidava de cobras se apaixona por uma chinesa, a qual mata.

Trechos:

A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte um simples deslizar, um recolher de asas. Não um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
***
Estava ali a vida a continuar-se, grávida de promessas.
***
Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um.
***
As vitórias são só derrotas adiadas.
***
Descompletos somos, enterrados terminamos.
***
A mentira da noite é matar o cansaço dos homens, pensou enquanto fechava os olhos.
***
Um homem que abandona um sítio porque foi derrotado, esse homem já não vive. Não tem mais lugar para começar.
***
Caju é sangue do sol pendurado, doce fogo de bebermos.
***
A menina de futuro torcido

Joseldo Bastante, mecânico da pequena vila, punha nos ouvidos a solução da sua vida. Viajante que passava, carro que parava, ele aproximava e capturava as conversas. Foi assim que chegou de ouvir um destino para sua filha mais velha, Filomeninha. Durante toda uma semana, chegavam da cidade notícias de um jovem que fazia sucesso virando e revirando o corpo, igual uma cobra. O rapaz tinha sido contratado por um empresário para exibir suas habilidades, confundir o trás para a frente. Percorria as terras e o povo corria para lhe ver. Assim, o jovem ganhou dinheiro até encher caixas, malas e panelas. Só devido das dobragens e enrolamentos da espinha e seus anexos. O contorcionista era citado e recitado pelos camionistas e cada um aumentava uma volta nas vantagens elásticas do rapaz. Chegaram mesmo a dizer que, numa exibição, ele se amarrou no próprio corpo como se fosse um cinto. Foi preciso o empresário ajudar a desatar o nó; não fosse isso, ainda hoje o rapaz estaria cintado.
Joseldo pensou na sua vida, seus doze filhos. Onde encontraria futuro para lhes distribuir? Doze futuros, onde? E assim tomou a decisão: Filomeninha havia de ser contorcionista, apresentada e noticiada pelas estradas de muito longe. Ordenou filha:
- A partir desse momento, vais treinar curvar-te, tevar a cabeça até no chão e vice-versa.
A pequena iniciou as ginásticas. Evoluía lentamente para o gosto do pai. Para acelerar os preparos, Joseldo Bastante trouxe da oficina um daqueles enormes bidões de gasolina. A noite amarrava a filha ao bidão para que as costas dela ficassem noivas da curva do recipiente. De manhã, regava-a com água quente quando ela ainda estava a despertar:
- Essa água é para os seus ossos ficarem moles, daptáveis.
Quando a retiravam das cordas, a menina estava toda torcida para trás, o sangue articulado, ossos desencontrados. Queixava-se de dores e sofria de tonturas.
- Você não pode querer a riqueza sem os sacrifícios - respondia o pai.
Filomeninha amarrotava a olhos vistos. Parecia um gancho já sem uso, um trapo deixado.
- Pai, estou a sentir muitas dores cá dentro. Deixa-me dormir na esteira.
- Nada, filhinha. Quando você for rica hás-de dormir até de colchão. Aqui em casa todos vamos deitar bem, cada qual no colchão dele. Vai ver que só acordamos na parte da tarde, depois dos morcegos despegarem.
Os tempos passaram, Joseldo sempre esperando que o empresário passasse pela vila. Na garagem os seus ouvidos eram antenas à procura de notícias do contratador. Nos jornais os olhos farejavam pistas do seu salvador. Em vão. O empresário recolhia riquezas em lugar desconhecido.
Enquanto isso, Filomena piorava. Quase não andava. Começou a sofrer de vómitos. Parecia que queria deitar o corpo pela boca. O pai avisou-lhe que deixasse essas fraquezas:
- Se o empresário chegar não pode-lhe encontrar da maneira como assim. Você deve ser contorcionista e não vomitista.
Decorreram as semanas, destiladas na angústia de Joseldo Bastante. Numa terra tão pequena só se passa o que passa. O acontecimento nunca é indígena. Chega sempre de fora, sacode as almas, incendeia o tempo e, depois, retira-se. Vai-se embora tão depressa que nem deixa cinza para os habitantes reacenderem aquele fogo, se gostarem. O mundo tem sítios onde pára e descansa a sua rotação milenar. Aquele era um desses lugares.
O tempo foi-se enchendo de nadas até que, uma tarde, Joseldo escutou de um camionista a chegada do destino: o empresário estava na cidade preparando um espectáculo.
O mecânico abandonou o serviço e rapidou para sua casa. Disse à mulher:
- Veste Filomeninha com seu vestido novo!
A mulher estranhou:
- Mas essa menina não tem vestido novo.
- Estou a falar o seu próprio vestido. O seu, mulher.
Puseram a menina de pé e meteram-lhe o vestido da mãe. Largo e comprido, via-se que as medidas não condiziam.
- Tira o leno. Artistas não usam panos na cabeça. Mulher: trança lá o cabelo dela, enquanto vou arranjar dinheiro da passagem do comboio.
- Vai onde arranjar o tal dinheiro?
- Não é seu assunto.
- Joseldo?
- Não me chateia mulher.


Horas depois partiam para a cidade. No comboio, o mecânico satisfez-se de pensamentos: um fruto não se colhe só pressas. Leva seu tempo, de verde-amargo até maduro-doce. Se tivesse procurado a solução, como outros queriam, teria perdido esta saída. Orgulhoso, respondia aos apressados: esperar não é a mesma coisa que ficar à espera.
No embalo dos carris seguia Joseldo Bastante a entregar sua pequena filha à sorte das estrelas, à fortuna dos imortais. Olhou a menina e viu que ela estremecia. Perguntou-lhe. Filomeninha queixou-se do frio.
- Qual frio? Com todo esse calor, onde está o frio?
E procurou o frio como se a temperatura tivesse corpo e lhe tocasse num arrepio dos olhos.
- Deixa, filhinha. Quando começar entrar fumo, isto já vai aquecer.
Mas as tremuras da menina aumentavam sempre até serem mais que o balanço do comboio. Nem o vestido largo escondia os estremeções. O pai tirou o casaco e colocou-o sobre os ombros de Filomena.
- Agora veja se pára de tremer que ainda me descose o casaco todo.
Chegaram à cidade e começaram a procurar o escritório do empresário. Seguiram por ruas sem fim.
- Charra, filha, tantas esquinas! E todas são iguais.
O mecânico arrastava a filha, tropeçando nela.
- Filomena, fica direita. Hão-de dizer que lhe levo até no hospital.
Por fim, deram com a casa. Entraram e foram mandados esperar numa pequena sala. Filomeninha adormeceu-se na cadeira, enquanto o pai se entretinha com sonhos de riqueza.
O empresário recebeu-os só no fim do dia. Respondeu sem muitos quês.
- Não me interessa.
- Mas, senhor empresário...
- Não vale a pena perder tempo. Não quero. O contorcionismo já está visto, não provoca sensação.
- Não provoca? Veja lá a minha filha que chega com a cabeça...
- Já disse, não quero. Essa menina está doente.
- Essa menina? Essa menina tem saúde do ferro, aliás de borracha. Só está cansada da viagem, só mais nada.
- A única coisa que me interessa agora são esses tipos com dentes de aço. Umas dessas dentaduras que vocês às vezes têm, capazes de roer madeira e mastigar pregos.
O Joseldo sorriu, envergonhado, e desculpou-se de não poder servir:
- Sou mecânico, mais nada. Parafusos mexo com a mão, não com os dentes.
Despediram-se. O empresário ficou sentado na grande cadeira achando graça aquela menina tão magra dentro de vestido alheio.
No regresso Joseldo ralhava com o destino. Dentes, agora são dentes! A seu lado, Filomena arrastava-se, trocando os passos. Entraram no comboio e esperaram a arrancada do regresso. O pai foi acalmando. Parecia olhar o movimento da estação mas os seus olhos não passavam além do vidro fosco da janela. De súbito, um brilho acendeu-lhe o rosto. Segurando a mão da filha, perguntou, sem a olhar:
- É verdade, Filomena: você tem dentes fortes! Não é isso que diz a sua mãe?
E como não tivesse resposta, abanou o braço da criança. Foi então que o corpo de Filomeninha tombou, torcido e sem peso, no colo de seu pai.
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Ana Paula 23/06/2016

Contos do além mar
Impressionantes contos que nos fazem mergulhar nas raízes da África, com suas lendas e riqueza cultural.
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miriamz 11/07/2015

Poesia crua, humana e sensível.
Histórias simples, cotidianas e oníricas de uma terra tão distante mas tão próxima de nós, não apenas pela língua, mas pela humanidade que as circula e sobrepuja de uma poesia crua, poerenta, rústica e extremamente sensível, humana e instrospectiva. A obra de Mia Couto é inigualável.
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@pacotedetextos 16/07/2015

Até hoje não sei porque demorei tanto...
O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.
(Texto de abertura, p. 17)

Demorei a conhecer Mia Couto. Mas, como diz o velho ditado, “antes tarde do que nunca”. No caso, mesmo que tivesse sido à noite, teria valido a pena. Porque o importante mesmo é conhecê-lo.
Não sei de outro, de modo que, para mim, ele é o escritor moçambicano com maior destaque (não gosto de dizer “o maior”, “o melhor”, “o mais importante”…). É bem verdade que torci o nariz quando o vi, no prefácio, sendo comparado ao Guimarães Rosa e, em outros locais, ao Gabriel García Márquez; mas, tão longo comecei a ler este Vozes anoitecidas, entendi perfeitamente as comparações.
Como se vê na contracapa da edição que li, “nesta coletânea de [12] contos … realidade e ficção ganham novos contornos, misturando-se de maneira inextrincável. Tanto fatos da história moçambicana surgem recontados em narrativas com textura de sonho, como o contrário também se dá, e o que é apresentado como impossível se revela uma descrição precisa de circunstâncias palpáveis“. Ou seja: há um quê de realismo fantástico (GGM), de maravilhoso e de estranho (claro que em termos literários) nos doze contos apresentados. Há, também, traços de Saramago – e não há como negá-lo em A história dos aparecidos, um conto sobre a dificuldade de dois homens em comprovar que estão vivos, após haverem desaparecido em um desastre natural. Tudo isso com uma prosa poética muito bem construída, à maneira rosiana, “imitando” até mesmo o uso de neologismos – que tanto são carregados semanticamente quanto são belos, como nos casos de “desconseguiu”, “desvoou” e “rapidando”, por exemplo.
Os contos, “no entretanto”, são bem mais curtos que os do cordisburguense. Há quem goste, há quem desgoste disso: eu, particularmente, prefiro contos mais curtos, então a leitura do moçambicano fluiu bem mais fácil do que quando li o brasileiro. Tanto é verdade que já providenciei outro livro dele para ler. :)
Diferentemente das outras resenhas que fiz de livros de contos, não destacarei nenhum em específico, já que gostei de todos; em vez disso, postarei exemplos de trechos bem poéticos em cada uma das histórias:

A fogueira
. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho. (p. 21)
. Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. (p. 22)
. Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha. (p. 24)

O último aviso do corvo falador
. Era um pedaço do céu que estava-lhe dentro. (p. 30)
. Era uma solitária de acidente, não de crença. (p. 31)

O dia em que explodiu Mabata-bata
. Fugir é morrer de um lugar. (pp. 42-43)

Os pássaros de Deus
. Mais peregrino que o rio não conheço. As ondas vão, vão nessa ida sem fim. (p. 51)
. A dor é poeira que nos vai vazando a luz. (p. 52)
. Está ver o caçador, maneira que ele faz? Prepara a zagaia momento que ele vê a gazela. Enquanto não, o pescador não pode ser o peixe dentro do rio. O pescador credita uma coisa que não vê. (p. 52)

De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro
. Tristeza mais triste é aquela que não se ouve. (p. 62)

Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar?
. Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências. (p. 75)
. O futuro quando chega não me encontra. (p. 76)
. Mas a morte é uma guerra de enganos. As vitórias são só derrotas adiadas. (pp. 78-79)
. Mas eu daqui da cela só vejo as paredes da vida. (p. 80)
. Agora, já sei: os mortos nascem todos no mesmo dia. Só os vivos têm datas separadas. (p. 81)
. Nossa voz, cega e rota, já não manda. Ordens só damos nos fracos: mulheres e crianças. Mesmo esses começam a demorar nas obediências. O poder de um pequeno é fazer os outros mais pequenos, pisar os outros como ele próprio é pisado pelos maiores. Rastejar é o serviço das almas. Costumadas ao chão como é que podem acreditar no céu? (pp. 82-83)
. Fora de casa sempre faz frio. (p. 83)

Saíde, o Lata de Água
. Sempre que se recordava trabalhavam facas dentro da alma. (p. 90)

As baleias de Quissico
. Eu não disse que era preciso ter fé, mais fé do que dúvida? (p. 102)

De como o velho Jossias foi salvo das águas
. Os meses estão todos no ventre uns dos outros. (p. 105)
. Mas o destino da morte é ser sempre muita. (p. 109)
. A madeira é lenha antes mesmo de arder. (p. 112)
. Salvaram-no da morte, não o salvaram da vida. (p. 112)
. Salvar um alguém deve ser serviço completo … Não é levantar a pessoa e depois abandonar sem querer saber o depois. Não chega ficar vivo. Palavra da minha honra. Viver é mais. (p. 112)
. A mentira da noite é matar o cansaço dos homens. (p. 114)

A história dos aparecidos
. Uma pessoa não é um divórcio, um milando. (p. 118)
. Como somos injustos com nosso corpo. De quem nos esquecemos mais? É dos pés, coitados, que rastejam para nos suportar. São eles que carregam tristeza e felicidade. Mas como estão longe dos olhos, deixamos os pés sozinhos, como se não fossem nossos. (p. 120)
. Um homem que abandona um sítio porque foi derrotado, esse homem já não vive. Não tem mais lugar para começar. (p. 121)

A menina de futuro torcido
. O mundo tem sítios onde para e descansa a sua rotação milenar. (p. 129)
. Esperar não é a mesma coisa que ficar à espera. (p. 130)

Patanhoca, o cobreiro apaixonado
. Se invento é culpa da vida. A verdade, afinal, é filha mulata de uma pergunta mentirosa. (p. 135)
. As alegrias saíram-lhe da vida, esqueceram de voltar. (p. 137)
. Um homem chora? Sim, se lhe acordam a criança que tem dentro. (p. 142)

Não preciso dizer, então, que esse livro tá MAIS DO QUE RECOMENDADO, né?

site: https://pacotedetextos.wordpress.com/2015/07/09/resenha-mia-couto-vozes-anoitecidas/
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Eduardo.Silva 23/03/2018

Impressões
Passear pela leitura híbrida (prosa e poesia) nos deleita a alma. As imagens metafóricas provocam, (des)constroem sensações antianestésicas, sinestésicas, sintéticas.
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Eduardo.Silva 23/03/2018

Impressões
Passear pela leitura híbrida (prosa e poesia) nos deleita a alma. As imagens metafóricas provocam, (des)constroem sensações antianestésicas, sinestésicas, sintéticas.
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Litterae Focus 22/11/2017

Estreia em prosa do Moçambicano Mia Couto
Excelente livro. Teor simbolista. Dor, morte. Talvez um pouco de irrealidade, mas fantasias queridas na obra literária. Desde o corvo que nasceu dentro da boca do homem, ou do pai mecânico que queria que sua filha Filomeninha fosse contorcionista, e acabou amarrando-a a um galão de combustível. Mesmo assim nada adiantou, mas principalmente pelo primeiro conto que já nos deixa intrigado. O fogo que o senhor de idade sentia próximo de si, mas que sabíamos não existir, enquanto cavava a morte de sua digníssima. Preparou para ela, intentou matá-la, mas foi-se antes que pudesse despejar seu intento. Algumas palavras de difícil compreensão, mas que podem ser entendidas num contexto amplo. Aconselho muito essa obra em prosa.
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hanny.saraiva 06/12/2018

Milhares de vozes que parecem uma só
Eu gosto muito da escrita do Mia Couto, mas achei esse livro repetitivo, não senti as milhares de vozes e sim apenas uma, linear...Talvez seja um livro de contos para reler em alguma outra fase de vida, já que muita gente fala bem...
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