Uma História Natural da Curiosidade

Uma História Natural da Curiosidade Alberto Manguel




Resenhas - Uma História Natural da Curiosidade


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Aguinaldo 26/09/2016

curiosidade
Esse é o milésimo centésimo registro de leitura que faço neste "Livros que eu li", iniciado já no longínquo 01 de janeiro de 2007. Para comemorar este registro e também para celebrar o início da primavera que experimentaremos ainda hoje mais tarde, perto do meio dia, escolhi "Curiosidade", de Alberto Manguel. Os livros de Albert Manguel sempre são especiais. O sujeito sabe contar histórias, tem uma imaginação dos diabos e faz associações das mais criativas e pertinentes. Quem não invejaria francamente alguém que tem 30 mil livros e um castelo na França para guardá-los; quem não gostaria de partilhar de um naco que fosse de seu tempo, memória e experiência? Já li e reli vários outros livros dele, sendo "A Biblioteca à noite" e "A cidade das palavras" dois dos mais recentes. Se nesses ele fala do amor aos livros e do local onde podemos guardá-los, em "Curiosidade" ele discorre sobre aspectos relacionados ao processo de escolha dos livros que lemos ou relemos. Para acompanhá-lo na assombrosa tarefa de descrever do que trata a curiosidade humana Manguel elege Dante Alighieri, assim como este adotou Virgílio em sua jornada Inferno e Purgatório adentro (Beatriz e São Bernardo o levarão depois ao Paraíso, mas essa é outra história). Com a "Divina Commedia" debaixo do braço Manguel parte em suas investigações, buscando clareza e compreensão, curioso ele mesmo por tudo sob o sol e sobre o mar. Os dezessete capítulos têm uma estrutura fixa. Primeiro ele narra um fato quase banal de sua vida (algo sobre sua infância, seus primeiros contatos com as letras e os livros, seus primeiros professores, seu cachorro, um pequeno AVC que sofreu, um trabalho humanitário para o governo canadense, a política conturbada de seu país natal, uma entrevista especial, e assim por diante); depois ele localiza na Divina Comédia argumentos de Dante sobre um assunto que pode ser associado diretamente (ou hiperbolicamente) àquela passagem da memória; e, por fim, ele desenvolve seu raciocínio/associação, acrescentando ao texto de Dante camadas de outros, contando histórias, resumindo algo da mitologia dos gregos e romanos, falando das repercussões, ecos ou influências produzidos por outros autores e/ou escolas de pensamento sobre aquele assunto. Em cada página o leitor encontra algo com o qual poderia dedicar-se uma vida inteira (e há uma generosa lista de livros nas notas de cada capítulo que facilitam essa possível imersão). Os títulos dos capítulos são chaves para análises de temas bem amplos. Minucioso, Manguel se pergunta sobre o que é a curiosidade; sobre o processo de raciocinar; sobre o que vemos e perguntamos; sobre nossa linguagem e nosso eu; nosso papel individual na história; nas consequências de nossas ações; na ordem e desordem natural de tudo; dos porquês e do porvir; da possibilidade de existir mesmo verdade naquilo que aprendemos ou lemos. Além da sofisticada análise do texto de Dante, Manguel vale-se de muitos outros escritores e pensadores, de uma miríade de mitos e histórias. Alguns são óbvias escolhas quando se trata de discutir o engenho humano (Aristóteles, Cervantes, Primo Levi, Nelson Mandela, Lévi-Strauss, Sócrates, santo Agostinho, Homero, David Hume, Lewis Carroll, Tomás de Aquino), mas há vários outros sobre os quais nunca havia ouvido falar, ai de mim, como Paul Otlet e Olympe de Gouges (cada leitor encontrará suas próprias lacunas de formação e seguirá sua própria curiosidade). Fenomenal. A única coisa que eu não gosto neste livro é a tola decisão editorial brasileira de acrescentar um "Uma história da" ao título original do livro, que é simplesmente "Curiosidade", ponto. O livro inclui ainda um vasto índice remissivo e reproduções de xilogravuras que ilustram vários cantos de uma edição de 1487 de "A Divina Comédia", dentre várias outras ilustrações e reproduções fotográficas. Manguel repete algo já ensinado por Ricardo de Bury em seu Philobiblon que todo colecionador de livros deve lembrar: "Um dia alguém deverá contar a meus livros que eu não voltarei mais". Em minha jornada pelo livro lembrei várias vezes do Luiz-Olyntho e do Robson Gonçalves, amigos queridos, que certamente trilharão a leitura deste livro garimpando mais preciosidades do que meu engenho permitiu. Sobre esse "Curiosidade" vamos os três conversar, seguro que sim. Vale.
[início: 01/09/2016 - fim: 19/09/2016]
"Uma história natural da curiosidade", Alberto Manguel, tradução de Paulo Geiger, São Paulo: Editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 488 págs., ISBN: 978-85-359-2770-2 [edição original: Curiosity (New Haven/Connecticut: Yale University Press) 2015]

site: http://guinamedici.blogspot.com.br/2016/09/curiosidade.html
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Alexandre Kovacs / Mundo de K 05/11/2016

Alberto Manguel - Uma História Natural da Curiosidade
Editora Companhia das Letras - 488 Páginas - Tradução de Paulo Geiger - Lançamento no Brasil: 18/08/2016

Podemos dizer que o ensaísta, romancista, tradutor e editor Roberto Manguel é um cidadão do mundo e intelectual com formação erudita muito rara nos dias de hoje. Nascido em 1948, em Buenos Aires, passou a infância em Israel, onde seu pai era embaixador argentino, retornando ao país natal com sete anos. Novamente em Buenos Aires, quando Manguel ainda era adolescente, conheceu Jorge Luis Borges, já quase cego. O famoso autor argentino precisava que lessem em voz alta para ele e Manguel tornou-se um dos leitores de Borges,várias vezes por semana de 1964 a 1968. Depois desse período, nos anos 1970, viveu na França, Inglaterra, Itália e Taiti trabalhando para editoras e jornais e, principalmente, sendo um leitor voraz. Nos anos 1980, o autor mudou-se para o Canadá onde tornou-se cidadão canadense. Em 2000, comprou um presbitério medieval na França, e reformou a biblioteca para alojar o seu acervo de mais de 30.000 livros. Finalmente, em 2015 foi convidado para o cargo de Diretor da Biblioteca Nacional da Argentina.

O resumo inicial da biografia de Manguel explica um pouco da sua curiosidade e também a formação nas áreas de filosofia, literatura e história que possibilitaram a criação deste ambicioso livro organizado em torno de algumas questões que o autor tenta responder com o auxílio de grandes escritores e pensadores do passado, tais como: Sócrates, Platão, Michel de Montaigne, Tomás de Aquino, David Hume, Cervantes, Borges, Lewis Carroll e, principalmente, Dante Alighieri. Alberto Manguel é, antes de mais nada, um grande leitor e estudioso apaixonado da "Divina Comédia", utilizando Dante e a sua obra como um fio condutor de todo o projeto do livro, nem sempre fácil de acompanhar e que exige bastante do leitor. Na verdade, em alguns momentos, é difícil avançar sem alguma pesquisa complementar (é recomendável, no mínimo, relembrar previamente um pouco da estrutura da "Divina Comédia" em suas três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso). Apresento algumas das dezessete questões levantadas em cada capítulo.

O que é curiosidade?
Na visão do autor, hoje as nossas instituições educacionais estão interessadas em pouco mais do que eficiência material e lucro financeiro, não estimulando o ato de pensar, por si mesmo, e o livre exercício da imaginação. "Escolas e colégios tornaram-se mais um campo de treinamento para aptidões do que fóruns para questionamentos e debates. E as faculdades e universidades não são mais viveiros para aqueles pesquisadores que Francis Bacon, no século XVI, chamou de 'mercadores da luz'. Ensinamos a nós mesmos a perguntar 'Quanto isso vai custar?' e 'Quanto tempo isso vai levar?' em vez de 'Por quê?'. (...) 'Por quê?' (em suas muitas variações) é uma pergunta muito mais importante por ser feita do que pela expectativa de uma resposta. O simples fato de pronunciá-la abre um sem-número de possibilidades, pode acabar com concepções prévias, suscitar inúmeras e frutíferas dúvidas." (Págs. 14 e 15)

O que queremos saber?
"Criamos histórias para dar um formato a nossas perguntas; lemos ou ouvimos histórias para compreender o que queremos saber. Em cada lado da página, somos levados pelo mesmo impulso de questionamento, perguntando quem fez o quê, e por quê, e como, e por que o fazemos, e o que acontece quando algo é feito ou não. Nesse sentido, todas as histórias são espelhos do que acreditamos ainda não saber. Uma história, se for boa, suscita em sua audiência tanto o desejo de saber o que acontece em seguida quanto o desejo conflitante de que a história nunca termine: essa dupla ligação explica nosso impulso para contar e ouvir histórias, e mantém viva nossa curiosidade." (Págs. 59 e 60)

Como raciocinamos?
"Antes de Platão, o termo grego 'sophistes' era uma denominação positiva, relacionada com as palavras 'sophos' e 'sophia', que significam 'sábio' e 'sabedoria', designando um artífice ou artista talentoso, como um adivinho, um poeta ou um músico. Os lendários Sete Sábios da Grécia foram chamados de 'sophistai' (na época de Homero, 'sophie' era um talento de qualquer tipo), assim como o foram os filósofos pré-socráticos. Depois de Platão, o termo 'sofisma' veio a significar 'raciocínio que é plausível, falaz e desonesto', e um discurso sofista, uma miscelânea de argumentos falsos, comparações enganosas, citações distorcidas e metáforas absurdamente misturadas." (Pág. 81)

Como podemos ver o que pensamos?
"Não há nada que possa ser pronunciado que não possa ser escrito e lido. Nada: nem mesmo as palavras de Deus ditadas a Moisés, nem mesmo os cantos das baleias transcritos por biólogos, nem mesmo o som do silêncio registrado por John Cage. Dante compreendeu essa lei da representação material: em seu Paraíso, as almas dos abençoados lhe aparecem como rostos que emergem de um espelho enevoado e gradualmente assumem uma forma clara e reconhecível. De fato, como os pensamentos, elas não têm corporalidade, uma vez que no céu não existe espaço ou tempo, mas gentilmente assumem feições visíveis, como se fossem signos escritos, de modo que Dante possa ser testemunha da experiência da vida por vir. Os próprios espíritos não precisam de muletas; nós precisamos." (Pág. 105)

Como nós perguntamos?
"Até onde consigo me lembrar, sempre acreditei que minha biblioteca tinha todas as respostas a todas as perguntas. E se não tinham a resposta, então ao menos uma melhor redação da pergunta que me ia lançar ao longo do caminho do entendimento. Às vezes vou buscar um autor ou livro específico, ou um espírito simpático, mas frequentemente deixo a sorte me guiar: a sorte é um excelente bibliotecário. Leitores na Idade Média usavam a 'Eneida' de Virgílio como instrumento de adivinhação, fazendo uma pergunta e abrindo o livro em busca de revelação; Robinson Crusoé faz algo muito semelhante com a Bíblia para ir buscar orientação em seus longos momentos de desespero. Cada livro pode ser, para o leitor certo, um oráculo, respondendo ocasionalmente até mesmo a perguntas não feitas, como que pondo em palavras o que Joseph Brodsky chamou de 'batida silenciosa'. O vasto oráculo da internet é menos útil para mim; provavelmente porque não navego muito pelo ciberespaço, suas respostas são ou literais demais ou banais demais." (Págs. 119 e 120)
Marta 06/11/2016minha estante
Excelente resenha, Alexandre.
Nos ajuda muito a decidir se iremos ou não adquirir, ou ler neste momento ou postergar a leitura para momentos mais propícios. Pelo menos ajudou a esta leitora aqui.
Obrigada!


Alexandre Kovacs / Mundo de K 06/11/2016minha estante
Marta obrigado pelo comentário!




Candido Neto 05/07/2018

Para saber o porquê de tudo.
Manguel lê Dante diariamente e desse hábito surgiu a possibilidade de questionar o que é a verdade, o que é a curiosidade, o que é linguagem, quem somos nós, onde estamos, para onde vamos.
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Estêvão (@_soresenha_) 24/11/2020

Alberto Manguel é uma daquelas pessoas que sabem desfilar seu eruditismo sem soar pedante, fazendo bom uso dele, além de escrever de um jeito que nos envolve.

Em Uma história natural da curiosidade não é diferente, com o escritor argentino falando de temas que certamente já nos perguntamos ao longo da vida, tendo como ponto de partida a obra Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Afirmando que a curiosidade é o principal fator que levou a humanidade a sempre superar seus limites, Manguel busca investigar temas que muitas vezes despertam nossa atenção, como O que é curiosidade?, O que queremos saber?, Como raciocinamos?, entre várias outras.

Para isso, revisitará passagens da Divina Comédia, e mesmo que não seja sua intenção dar respostas definitivas, encontramos aqui boas reflexões e um olhar especial para a obra de Dante e várias outras que traz à luz em seus comentários.

Dentre as várias obras que o autor menciona, alguns clássicos aparecem para ilustrar um argumento ou apoiar uma reflexão, como acontece com As aventuras de Alice no país das maravilhas, sobre o qual escreve algumas das melhores passagens do livro.

O mesmo se pode dizer das diversas informações que o autor argentino apresenta sobre leitura, literatura, uma série de detalhes que mesmo parecendo enciclopédicos demais alimentam a nossa... curiosidade.

No entanto, mais do que instigar o leitor a pensar, o livro é, sobretudo, uma declaração de amor à obra-prima de Dante, bem como um excelente exemplo de como literatura, filosofia e vida se imbricam de uma forma que é difícil distingui-las. Ler é, principalmente, ler o mundo, saber fazer conexões com nossas vivências, dando sentido a elas.

Ciente disso, não por acaso Manguel abre cada capítulo trazendo acontecimentos de sua vida que dialogam com o tema tratado, quase que nos convidando a fazer o mesmo.

Também é curioso como esse livro de Manguel dá sequência a uma cadeia de autorreferência e reverência iniciada por Dante, quando este traz Virgílio, autor de Eneida, como seu guia espiritual na ida ao inferno; com Manguel tendo como esse guia Dante; e nós, leitores, nos deixando conduzir por Manguel nessa incursão.

site: https://www.instagram.com/_soresenha_/
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