O olho mais azul

O olho mais azul Toni Morrison




Resenhas - O olho mais azul


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Alê | @alexandrejjr 26/03/2021

O trágico ato de existir para resistir

A literatura competente não tem barreiras nem limites para acontecer, além de subverter regras pré-estabelecidas. E aqui temos uma joia que se encaixa perfeitamente nessa linha de definição, pois “O olho mais azul” é uma rara peça de arte.

Toni Morrison é uma figura singular. Primeira e única mulher negra a ganhar o Nobel de Literatura, pelo menos até o momento em que esta resenha vem ao mundo, Morrison, que infelizmente faleceu em 2019, foi “a” intelectual estadunidense dos últimos anos. E fica fácil perceber o porquê depois de ler esse livro.

É importante contextualizar o momento de lançamento de “O olho mais azul”. O ano é 1970. Os Estados Unidos tinham perdido, apenas dois anos antes, o grande ícone do movimento pelos direitos civis, o doutor Martin Luther King Jr.. É nesse contexto em mente, de um país que àquela época estava fervilhando em suas desigualdades sócio-raciais, que o livro cresce, pois ao olhar para trás e contar uma história que se desenrola logo após o fim da Grande Depressão, Morrison faz uma sólida reflexão sobre a condição dos negros estadunidenses.

Em “O olho mais azul”, Toni Morrison oferece a seus leitores uma minuciosa investigação dessa experiência negra na América, em particular da mulher negra e pobre nos Estados Unidos. Com uma narrativa fragmentada extremamente oral e, em momentos chaves, visceral, a autora desnuda a invisibilidade que persiste na mais covarde das violências, o racismo. Não há espaço para inocentes no mundo, irá concluir Morrison. No entanto, é na resistência e dentro da representação literária que ela irá dar voz a experiências e identidades que, antes dela, pertenciam a uma posição marginalizada dentro da literatura.

Durante a leitura, em um ponto chave do romance, eu tive um choque. E nesse choque tive certeza de que eu não estava lendo um livro qualquer. É nesse momento, também, que comecei a fazer associações com outras artes, no caso o cinema, ao comparar o que lia com cenas de dois filmes importantíssimos sobre o tema racismo: “No calor da noite” e “Mississipi em chamas”. Ali, nesse ponto, o jogo de espelhos de Morrison é magistral.

E há uma personagem inesquecível, claro. É através de Pecola, personagem chave do romance, que mora o calcanhar de Aquiles dos leitores. Ela é apenas uma menina negra que deseja olhos azuis, mas por trás desse desejo há muita dor e sofrimento. Ela deseja olhos azuis porque sofre discriminação de raça, gênero e classe. Deseja olhos azuis porque é abusada por negros e brancos, e sofre dos primeiros um abuso físico e psicológico (vejam que escolha dolorosamente interessante!!). É do ódio, portanto, que se constrói a sua personalidade. É no estigma que carrega, de não compreender a complexa realidade e valores de uma ideologia dominante, que Pecola sofre. E nós sofremos juntos através desse sentimento que cabe tão bem à literatura chamado empatia, tão em falta na sociedade ontem, hoje e sempre.

Leia, releia, reflita, discuta e indique “O olho mais azul”. E isso se torna obrigatório se você está situado, quer você queira ou não, no lado opressor da nossa sociedade - como é o meu caso. Somente assim é possível aproveitar ao máximo o livro, pois o mundo - em especial o mundo branco - não terá a oportunidade de experimentar uma obra dessa magnitude outra vez. Ou talvez não seja preciso: livros como esse são definitivos, sobrevivem às imperfeições do tempo e recusam imitações mal formuladas.
Carolina.Gomes 26/03/2021minha estante
Depois dessa resenha, terei q ler. Bravo!


Kamyla.Maciel 26/03/2021minha estante
Resenha impecável. Me fez relembrar tudo que senti ao ler o livro.


Débora 27/03/2021minha estante
Que resenha primorosa, Alê!???


@marconevb 27/03/2021minha estante
Excelente resenha! Sofri muito com a leitura desse livro e ele se tornou um dos meus favoritos ?


Gabriela 27/03/2021minha estante
Gostei tanto da sua resenha que deu vontade de ler dnv esse livro ?


Alê | @alexandrejjr 27/03/2021minha estante
Carolina, Kamyla, Débora, Vitória e Gabriela: obrigado pelos elogios e por perderem tempo lendo essa resenha gigantesca. Achei esse livro fenomenal e fico feliz que outras pessoas pretendam compartilhar - ou já compartilharam - desse sentimento. ?


Brenda.Podanosqui 29/03/2021minha estante
Resenha incrível. Qdo terminar a leitura do livro volto aqui pra reler sua resenha. Perfeita sua análise!!


Alê | @alexandrejjr 29/03/2021minha estante
Agradeço o carinho, Brenda! E fico feliz que esteja lendo o livro.


Valscabral 18/04/2021minha estante
Magnífica resenha. Tenho o livro comprei numa assinatura da TAG mas confesso que ainda não li. Mas depois desse resenha, não posso adiar essa leitura.


Paula 18/04/2021minha estante
Eu amei este livro.


Alê | @alexandrejjr 18/04/2021minha estante
Obrigado, Val, vale a pena dar atenção a esse livro. E Paula, é um livro incrível, né?!


flapicolo 24/04/2021minha estante
Depois dessa resenha, vou antecipar esse livro na minha lista de prioridades!


Alê | @alexandrejjr 24/04/2021minha estante
Não vai se arrepender, Flavia! ?


Kenyafdn 13/10/2021minha estante
Pronto! Me convenceu! Rsrs .. Já baixei no Kindle .. rsrs


Alê | @alexandrejjr 16/10/2021minha estante
Espero que goste, Kenya! Não é uma leitura fácil em vários aspectos, mas é um livro importantíssimo para entendermos questões prementes do nosso tempo.




Victor Dantas 14/09/2020

O arco-íris não é só azul.
“O Olho mais Azul” foi a estreia da escritora Toni Morrison, ganhadora do Nobel de Literatura, sendo a primeira mulher negra e a única até então, a conquistar tal feito.

A obra vai contar a história de uma garota chamada Pecola, que vive em Ohio nos EUA com seus pais, os Breedlove.

Assim como toda criança, a Pecola possui sonhos, ou melhor, um sonho.
No entanto, diferentemente dos sonhos que estamos acostumados a criar na infância (que quase sempre gira em torno de “o que vou ser quando crescer”), o sonho de Pecola é ter olhos azuis. Os mais azuis de todos.

A Pecola é uma criança negra.

Como você deve imaginar, o sonho de Pecola não foi criado espontaneamente, teve influências externas: a hegemonia cultural branca e o racismo. Tais fenômenos não passam de dispositivos de violência e opressão, que negam e anulam o diferente .

"Se ela era bonita - e se havia uma coisa em que acreditar que ela era -, então nós não éramos. E o que isso significava? Éramos inferiores. Mais simpáticas, mais inteligentes, mas, ainda assim, inferiores" (p.78).

Esse é o principal conflito da obra, onde a autora cria todo um enredo em torno dessa questão, e no final, compreendemos que o objetivo dela, é fazer uma denúncia contra a violência (em suas distintas expressões) praticada com o ser mais vulnerável da nossa sociedade: a criança.

A história é dividida em quatro partes, de acordo com as estações: outono, inverno, primavera e verão.

Apesar de ser a história de vida da Pecola, a narrativa se estrutura não só pelo seu ponto de vista, mas de outras pessoas, onde cada uma possui vínculo direto com a protagonista.
Portanto, cabe ressaltar que a narrativa da autora não é linear, é quebrada, onde muita das vezes temos mais de um narrador em um mesmo capítulo, isso pode dificultar no início, mas aos poucos, você identifica quem é quem, quanto a escrita, é de fácil acesso.

O ponto de vista que mais é presente na obra é o de duas garotas da idade de Pecola, a Claudia e sua irmã, Frieda. A partir da visão delas, vemos as situações quais a Pecola enfrenta diariamente, o bullyng e o racismo na escola, no bairro, a violência doméstica, tanto verbal, quanto física.

Outras questões também são criticadas implícita e explicitamente, como o papel da mulher na sociedade, a maternidade e paternidade, e, a sexualidade na infância.

Por fim, temos um quadro que vai sendo pintado aos poucos ao longo das situações que vão ocorrendo, e que é finalizado da forma mais bruta e cruel possível.

Alerta-GATILHO: Existe cena de abuso sexual; incesto.

Apesar de tal ato não ser justificável, repugnante, no contexto da obra, a cena representa uma consequência, um efeito colateral de um sistema que adota um modelo de família padrão e concede a ela todos os direitos possíveis (educação, cultura, emprego, habitação) , ao passo que muitas outras ficam na sombra desta. A tragédia é estrutural.

Minhas considerações sobre a obra:

Tendo em vista as questões que o livro aborda, como foi mencionado acima, na minha opinião, a obra em si, não foi para trazer respostas a essas questões, mas, problematizar e elaborar outros questionamentos em cima destas.

O que nos torna belo?
Belo segundo quem? Eu ou o outro?

É perceptível que a Pecola não só representa a comunidade negra, mas todos os grupos sociais que fazem parte da minoria, que são marginalizados e invisibilizados diariamente, em qualquer contexto (casa, escola, trabalho, universidade, bairro), e por qualquer dispositivo de controle (família, amigos, igreja, Estado, cinema, mídia).

O sonho da Pecola em ter os olhos azuis, possui a mesma expressão que o sonho d@ garot@ gordo (a) querer ser magro (a), d@ garot@ de cabelo crespo que quer ter o cabelo liso, do garoto efeminado que quer se tornar masculino, da garota masculinizada que quer se tornar feminina, do garot@ gay que tenta reprimir seus desejos, sua identidade e cria uma persona heterossexual.

O que une todos esses casos é o seguinte: a negação do EU.
A opressão ao diferente.

E para mim, foi isso que levou a Toni Morrison a escrever o livro, para nos alertarmos sobre o quanto estamos sendo nós mesmos, o quanto estamos vivendo a nossa vida, a minha vida... o quanto estamos sendo EU, e não o outro.
Tami 05/10/2020minha estante
Eu li esse livro no início do ano, amei e odiei ao mesmo tempo.


Lelita 14/11/2020minha estante
Excelente ??




Book.ster por Pedro Pacifico 03/01/2020

O olho mais azul, de Toni Morrison - Nota 9,5/10
A literatura é uma poderosa ferramenta de empatia. Ela nos permite enxergar situações corriqueiras a partir de perspectivas que são totalmente estranhas à nossa realidade e que nunca teríamos acesso se não fosse por meio dos livros. E terminar a leitura dessa obra apenas confirma esse seu papel.

Em pouco mais de 200 páginas, Toni Morrison consegue apresentar para o leitor como é crescer em uma sociedade em que as referências e os padrões do que é certo e bonito estão longe do que você é. Pecola Breedlove, uma garota negra nascida nos Estados Unidos da década de 40, sonha em ter olhos azuis. Pede a Deus todos os dias para que seus olhos se transformem em azuis. Para Pecola, quem sabe dessa forma as pessoas passariam a notá-la um pouco mais, passariam a aceitá-la. É um pequeno desejo de uma criança que carrega consigo inúmeros problemas históricos e sociais.

Mas além de ser vítima de um racismo estrutural, que cria na garota uma recorrente necessidade de aceitação, a vida de Pecola também vai encontrar barreiras em situações de machismo, abuso sexual (há passagens com gatilhos sobre o tema), relações familiares e muita violência, sobretudo psicológica.

Tudo isso acontece no cerne de uma família problemática, que, infelizmente, não parece indicar um cenário incomum: o pai de Pecola é alcoólatra e bate na esposa; sua mãe vive em função de cuidar da casa de uma família branca para quem trabalha como empregada doméstica; e seu irmão faz de tudo para conseguir fugir dos seus problemas. É uma família moldada por engrenagens de um sistema que funciona sempre da mesma forma. E apesar dos temas duros e sensíveis que atinge, a autora escreve de uma forma tranquila e com toques poéticos. Em seu primeiro romance, a primeira - e única - mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura nos faz refletir muito. Toni Morrison incomoda o leitor atento, deixando sua marca permanente.

site: https://www.instagram.com/book.ster/?hl=pt-br
Anacarol__oliveira 22/09/2020minha estante
Eu li esse livro por sua dica e é um livro muito dolorido. Pecola sofreu muito na sua vida e vemos q não é só na ficção q essa história se repete. Adorei esse livro


Becca 29/09/2020minha estante
Uma das melhores coisas que já li. Quero ler tudo que Toni morrison escreveu. Hahahaha




Rafa 05/07/2020

Precioso
O livro é uma excelente ferramenta de reflexão sobre o cerne de questões pontuais: raça, classe e gênero.
Nesse sentido, a autora trata o racismo de forma magistral e genuína, principalmente quando compõe a perspectiva da vítima.
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Thaís | @analiseliteraria 15/06/2020

Leitura necessária, dolorosa e poética...
O olho mais azul foi publicado pela primeira vez em 1965, quando foi praticamente ignorado. A reedição foi publicada em 1993, ano em que Toni Morrison ganhou o prêmio Nobel de literatura, sendo a primeira mulher negra a ser contemplada. A escrita de Morrison é ao mesmo tempo dolorosa e poética, a dor fica latente, a tristeza fica impregnada. Um livro sobre o racismo, a pobreza, a violência, os abusos e o corpo negro como um espaço de lutas. Ademais, como a própria autora pontua, é um livro não para que você sinta pena dos personagens, mas para questionar sobre o esmagamento que eles sofrem.
Ainda na infância, uma amiga disse à Morrison que gostaria de ter olhos azuis, Morrison não sabia como ela poderia querer algo assim. Muitos anos depois, nasce essa obra. A história é contada por vários narradores diferentes, todos eles têm em comum uma criança, Pecola Breedlove. Em uma época que o padrão de beleza trazia como rosto a atriz-mirim Shirley Temple, Pecola é sempre dita pelos outros como uma criança feia, algo que ela internalizou e tomou como verdade. Na esperança que as pessoas possam gostar mais dela, ela reza todos os dias pedindo um milagre a Deus, quer ter olhos azuis. Ela vive em uma família desestruturada, com uma mãe que a espanca, mas trata com demasiado carinho a filha da família branca para qual trabalha. O pai é um alcoólatra, bate na mulher e estupra a própria filha. O irmão constantemente foge de casa. Uma vida de agressão física e social, capaz de desintegrar um sujeito.
Claudia, também uma criança (e um alter ego de Morrison), não entende porque tanta admiração pelas pessoas brancas, logo, ela destrói as bonecas "angelicais", como se estivesse destruindo a própria branquitude. Cheia de inteligência e questionamentos, ela sabe que a coisa perigosa a temer não é as outras crianças brancas, mas todo o sistema que torna as brancas bonitas e as negras não.
Um livro doloroso sobre raça, gênero e classe. Dito pela própria Toni Morrison: "Porque eu sei (e o leitor não, pois tem que esperar a segunda sentença) que esta é uma história terrível sobre coisas que se preferia ignorar completamente".

site: @analiseliteraria
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Pedro Sucupira 18/02/2021

2021 LIVRO 11 - O Olho Mais Azul, Toni Morrison.
O Olho mais azul é uma daquelas obras que faz você desejar que todos os seus amigos e conhecidos tenham contato; sintam o mesmo que você sentiu. Você só pensa em falar sobre ela e nada mais. Quando terminei a leitura procurei amigos que já tinham lido para podermos discutir, debater e exaltar um dos livros mais impactantes que já li. Entrou para minha lista de favoritos.

Publicado em 1970, O Olho mais azul foi escrito entre 1965-69 por Toni Morrison, a primeira escritora negra a receber o Nobel de Literatura. A história se passa na década de 1940, porém é como se estivéssemos lendo um relato de 2021. Não importa o ano, esse livro se encaixará perfeitamente a qualquer momento conferindo uma das características mais marcantes das obras de Morrison, a atemporalidade.

A protagonista, Pecola Breedlove, é uma criança negligenciada, agredida e abusada física e psicologicamente pelos adultos, incluindo os pais, e por outras crianças por conta da cor muito escura de sua pele e do cabelo muito crespo. A vida muito maltratada leva Pecola a acreditar que ter os olhos azuis como as mulheres brancas lhe trará a paz que ela tanto anseia.

Esse é um dos romances mais tristes que já li. O caso extremo que é a vida de Pecola, uma criança negra totalmente devastada, gera em nós um sentimento extremo de compaixão. De início é comum o leitor ser induzido ao consolo de sentir pena por Pecola, mas com o discorrer da leitura cada capítulo nos instiga a questionar, refletir sobre os temas abordados. Impossível ler O Olho mais azul e ao final não questionarmos os padrões de beleza imposta às jovens, o racismo estrutural e mais intensamente o lugar que a mulher negra ocupa na escala social, o mais baixo de todos.

O Olho mais azul é um livro intenso, fácil e rápido de ler, mesmo abordando de forma tão profunda temas como raça, gênero e classe social. Não deve ser julgado como relevante somente por causa das questões sociais sobre as quais disserta, reduzido apenas à esfera política, mas deve e muito ser também valorizado por causa de sua estética. A forma como Toni Morrison introduz cada personagem na trama é simplesmente surreal. Em poucas páginas Morrison consegue fazer o leitor compreender e se simpatizar com a história de vida de qualquer personagem antes de nos mostrar o porquê aquele personagem foi incluído ali.

Com uma linguagem clara e objetiva, em momento algum eu me senti entediado ou com a sensação de que a leitura era arrastada. Nada presente nessa obra pode ser considerado irrelevante; cada parágrafo, cada capítulo, cada frase é essencial e ocupa perfeitamente seu lugar na trama.

Publicado originalmente em pedrosucupira.com
Nath 18/02/2021minha estante
É isso!!! O tipo de livro que você pensa ?O MUNDO PRECISA LER?


Pedro Sucupira 18/02/2021minha estante
Isso mesmo Nath. O mundo precisa LER e RELER essa obra MARAVILHOSA.


Vanessa.Cristina 18/02/2021minha estante
Ótima resenha! Já vai para minha lista.


Clarissa 19/02/2021minha estante
Olá, Pedro! Tudo bem? Eu tenho esse livro na edição da TAG. Agora depois de ler tua resenha, será prioridade de leitura. Abraço.




romulorocha 25/08/2020

O olho mais azul, de Toni Morrison - Nota 9,0/10
Este foi o meu primeiro livro da Toni Morrison (indicação da @andressazap), autora que além de diversos prêmios, obteve o Nobel de Literatura em 1993. O olho mais azul foi o seu primeiro livro publicado (1970).
?
Em O olho mais azul, Pecola é apenas uma criança, mas que carrega sob si as marcas do racismo, sexismo e violência. Seu maior sonho é ter olhos azuis, pois acredita que só assim poderá ser vista como uma pessoa normal. Embora ela seja a personagem principal, quem narra a história é Cláudia, uma amiga branca e de olhos azuis, que provavelmente devido suas lentes azuladas não consegue enxergar o grau de sofrimento e abuso que sua amiga vivencia (Talvez aqui, Morrison, de propósito, fizesse uma crítica sobre a falta de voz e representatividade dos negros, até para contar suas histórias).
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O livro possui uma narrativa fragmentada, o que me deixou em alguns momentos confuso e pouco interessado. No entanto, ao longo da leitura, você vai compreendendo a importância desta fragmentação (no posfácio a autora explica também).
?
Recomendo a leitura pela forma que toca em temas profundos e necessários como raça, gênero e violência. Fala sobre o abuso nos mais diversos âmbitos, desde o psicológico, físico até o abuso sexual. É pungente a forma como a autora coloca estes temas no livro, fazendo a gente se retorcer e ficar incomodado em alguns momentos, dada a intensidade de suas palavras.
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?E agora, quando a vejo remexendo no lixo ? procurando o que? Aquilo que assassinamos? Digo que não plantei as sementes fundo demais, a culpa foi do solo, da terra, da nossa cidade?.
AndressaPaz 25/08/2020minha estante
Que resenha!!




Olivia 30/06/2021

Eu acho que nunca vou conseguir absorver a complexidade desse livro. É um livro desses que vive termina só que ele não acaba. Apesar dele ser curto ele é muito complexo, apesar da escrita ser lírica ele é muito pesado. Nada aqui foi escrito por acaso, não tem nada jogado, tudo tem um significado, tudo expressa algum sentimento....

"E era fantasia, pois não éramos fortes, apenas agressivos; não éramos livres, meramente autorizados; não éramos compassivos, éramos polidos; não bons, mas bem-comportados. Cortejávamos a morte a fim de nos chamarmos de corajosos, e escondíamo-nos da vida como ladrões. Substituíamos intelecto por boa gramática; mudávamos os hábitos para simular maturidade; rearranjávamos mentiras e as chamávamos de verdade, vendo no padrão novo de uma ideia antiga a Revelação e a Palavra."
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Pri | @biblio.faga 07/02/2020

Pelo seu primeiro romance, Toni Morrison recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, e, agora, por intermédio da TAG Curadoria, foi o meu primeiro contato com à obra da autora. Encontro que foi logo seguido pela pronta aquisição de mais dois livros da Toni: “Amada” e “Deus ajude essa criança”.

O livro tem como foco a história de Pecola Breedlove, uma menina negra, descrita como feia, e que tem como o maior sonho possuir olhos azuis. Mas não apenas olhos azuis, e, sim, os mais azuis. Os mais azuis do mundo.

E aí que entra a primeira genialidade de Toni: na escolha do título do romance: ‘The bluest eye’. No inglês, o adjetivo “bluest” além de significar “o azul mais azul”, também pode ser traduzido como o “mais triste ou infeliz”.

Dividido em quatro partes, como as estações do ano, o romance alterna o seu enfoque narrativo e nos permite conhecer mais profundamente outros personagens como o pai e a mãe de Pecola.

Como destaca o prefácio de Djamila Ribeiro: “essa humanidade que faz com que sintamos empatia até por aqueles que têm comportamentos reprováveis”.

Narrado pela perspectiva de crianças, Toni consegue “suavizar” o clima pesado, com observações ingênuas e até mesmo engraçadas de Claudia. Não tem como não desejar ser amigo da Claudia, Frieda e Pecola. Porém, o livro não deixa de ser crítico e “pesado”, enfim, poderoso.

Toni, em seu posfácio, datado de 1993, comenta que a narrativa quebrada em partes “pareceu-me uma boa ideia, cuja execução, agora não me satisfaz. Além disso, não funcionou: muitos leitores se sentem tocados, mas não instigados”.

Comentários que quando li me entristeceram profundamente, pois já os vi sendo utilizados para diminuir esse livro tão poderoso.

O olho azul, além de ser um claro símbolo da concepção de beleza da branquitude, escancarando os mais diversos tipos de violência e preconceito; foi uma escolha atual e cheia de significados.

O sonho de Pecola pode ser visto de outras inúmeras formas: toda e qualquer imposição da sociedade que obste uma plena aceitação, como a cor da pele, até as menores características físicas, tais como a circunferência da cintura e o modelo dos fios de cabelo.

O livro denuncia vidas que são diariamente desprezadas, trivializadas, mal interpretadas. Retrata negligência, abandono, falta de amor e empatia. Algo que todos deveriam ler.

Triste, poderoso, necessário.
Recomendadíssimo!

site: https://www.instagram.com/biblio.faga/
André Alves 07/05/2020minha estante
Excelente resenha!




Évelin Noah 31/08/2020

Motivo das 3 estrelas? Me interessei pelo livro devido a história que a sinopse narrava: " Uma menina negra que sonha com uma beleza diferente da sua. Negligência pelos adultos e maltratada por outras crianças... Ela desejava mais do que tudo ter olhos azuis como as mulheres brancas."

Pois bem, o livro não entrega o prometido. Se perde contando a história de vida de personagens secundários. E simplesmente, se esquece completamente " da história da menina que queria ter olhos azuis". Tema esse que só é abordado 40 páginas antes do final do livro.

O livro é ruim? Nunca! Longe disso! É um tapa na cara muito indigesto. Com reflexões poderosas sobre raça, classe social e gênero. Porém, o prometido em seu título e em sua sinopse não é entregue. O leitor é atraído por uma história e encontra outra completamente diferente. A impressão que dá é que a autora se empolgou com as histórias dos demais personagens, e quando se deu conta, precisava acabar com o livro e enfim decidiu escrever rapidamente sobre o que o título e a sinopse se propõem.

Resumidamente, esperava uma outra coisa desse livro.
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Roseane 16/01/2021

O olho mais azul
Escrito em 1970, O olho mais azul foi o primeiro livro de Toni Morrison.
Abordando temas como raça, racismo, sexismo, menina preta, abuso infantil, colorismo, abandono materno e paterno, auto ódio, a vida sócio econômica da comunidade negra estadunidense entre outros.
Toni tem uma escrita diferenciada, alguns chamam de difícil. A forma como descreve os personagens e a trama não permite que sejamos meros espectadores e sim parte do livro. Sendo um negro em diáspora ou um não negro com empatia.

O romance é narrado por Claudia uma menina negra que vive com seus pais e sua irmã. Após um acontecimento drástico, a família acolhe Pecola. E através dessa personagem a autora anuncia diversas barbaridades que uma menina negra pode ser submetida.
Esse livro foi colocado no limbo literário. Criticado e rejeitado, levou 25 anos para ter uma publicação respeitosa. O mercado editorial, o jornalismo e a academia não se interessavam nesse tipo de debate. Mas alguém tinha que descrever mesmo que por ficção essa realidade.

A História se passa em uma família negra com condições financeiras bem limitada. Composta por Claudia, sua irmã Frieda, sua mãe e seu pai. Moravam em uma casa velha, fria e verde. A autora destaca a importância de família negras terem uma casa nos Estados Unidos. Como sabemos, é uma terra que foi colonizada, os indígenas genocidados e os negros africanos traficados e escravizados. Com esse background, para uma família negra, ter uma casa era o ápice da humanização. Um dos personagens incendeia a própria casa, deixa todos atônitos. O grande terror para um negro era viver na rua e qualquer deslize isso poderia acontecer, comer demais, usar carvão demais, jogo, bebida... Se uma mãe botasse um filho pra fora de casa, a solidariedade ia para o que estaria na rua, independente do que tenha feito. Ser posto pra fora de casa (onde possa se abrigar em outro lar) é diferente de ser posto pra rua. Estar na rua era o fim. Sabendo o significado disso, a comunidade negra tinha uma fome por propriedade e dedicavam toda energia, todo amor a seus ninhos.

Os afrodiaspóricos brasileiros sabem bem o que é não ter um lar. Ações do Estado foram fundamentais para que a comunidade negra brasileira no pós abolição não tivesse mobilidade social e econômica. Mesmo liberto, era submetido a condições similares de quando eram escravizados. O tráfico de escravo foi proibido internacionalmente em 1831. O Brasil aprova em 04 de setembro de 1850 a Lei Eusébio de Queirós que proíbe o tráfico no país. Dias depois, em 11 de setembro de 1850 aprova a lei de terras onde segundo Art. 1º Ficam proibidas as aquisições de terras devolutas por outro título que não seja o de compra. Com isso caso houvesse abolição da escravidão o negro só poderia comprar terras se o Estado permitisse. Os ataques bélicos aos Quilombos, destruição dos cortiços, desmonte de favelas sempre esteve na historicidade dos negros brasileiros. O atual governo federal encerrou em definitivo o programa Minha Casa Minha Vida, que por mais que o programa necessitasse de ajustes, era uma das formas que muitas famílias negras brasileiras conseguiam comprar seus lares.

Depois de uma tragédia, Pecola foi morar com a família de Claudia. Como na casa havia um quarto extra, este foi alugado para um inquilino muito solicito, simpático e brincalhão com as meninas, mas na primeira oportunidade tocou no corpo de uma delas, assim o pai expulsa o violador em defesa da filha
As três meninas convivem como se fossem irmãs. Frieda e Pecola amavam a atriz Shirley Temples, mas Claudia detestava e falava que gostava mais da Jane Withers. Na verdade, o ódio de Claudia era de saber que nunca seria tratada como uma menina branca, por ser uma menina negra, não seria lida socialmente como encantadora. E se queixava que Bill "Bojangles" Robinson deveria dançar com ela e não com Shirley.

No Natal o presente mais desejado eram as bonecas Baby Doll com seus olhos azuis e cabelos amarelo. Claudia não gostava e chegou a destruir algumas. Desejava a devoção que a boneca recebia, ser chamada de "linda" e outras meiguices. Durante a história as meninas foram na casa onde a mãe de Pecola trabalhava como doméstica, lá Pecola derruba sem querer uma torta e sua mãe a joga no chão, uma criança branca, moradora da casa, aparece na cozinha, a mãe de Pecola a trata com toda ternura possível e promete fazer outra torta.

O abandono afetivo é uma realidade na comunidade negra fruto do processo racial que são submetidos. As meninas quando conversavam sobre o amor, destacavam que desejariam ser amadas antes do marido a abandoná-las quando elas tivessem adulta.

Na história de Pauline, mãe da Pecola, seus irmãos tiveram a infância interrompida aos 10 anos de idade para trabalhar e já seriam endurecidos pela vida com tão pouca idade. Pauline tinha uma deficiência nos pés e mesmo adolescente já era responsável pela casa e pelos dois irmãos menores enquanto toda família trabalhava. Cholly, o pai de Pecola foi jogado no lixo por sua mãe que havia sido abandonada pelo companheiro assim que anunciou a gravidez. Uma tia que nunca se casou, resgatou Cholly e o criou. Veio a falecer quando ele ainda era adolescente. Cholly se encontrou com uma menina chamada Darlene em um local escuro e quando estavam sem roupa homens brancos o flagraram e humilharam. Exigiram que “terminassem” o que estavam fazendo e por esse episódio, o ódio foi direcionado a menina e não aos racistas. Imaginando que ela poderia ter engravidado, ele fugiu para outra cidade em busca do pai, chegando lá se da conta que nem lembrava o nome da mãe. Andando desnorteado, encontra duas mulheres negras que o acode e resgatam, ele se reconecta com sua masculinidade, se torna um trabalhador e casa com Pauline que passa a ser chamada de Sra. Breedlove. Com a recessão e pouco emprego passa a beber muito. Sra. Breedlove, trabalha como doméstica e a independência financeira da mulher passa a ser um problema e ocorre muitas brigas. A patroa branca, demite Breedlove e não lhe paga o que a deve e coloca como condição para ser readmitida no trabalho “abandonar o marido”, nesse momento Breedlove reflete que a mulher branca a manda escolher entre ser sua serviçal ou ter uma família.

A experiência de Sra. Breedlove na maternidade foi traumatizante, contudo, reflete a realidade das mulheres negras. Havia um grupo de estudante com o preceptor e ao chegarem próximo a Pauline, dispara que “esse tipo de mulher” tem filho sem dor como as éguas, mas ela sentia tanta dor quanto as brancas e não era um animal.

Pecola era considerada uma menina muito feia. Na escola era ignorada e desprezada por alunos e professores. Os meninos para implicar um com os outros, era suficiente dizer que Pecola gostava de alguns deles. (me conte quem já passou por essa experiência). O auto ódio era alimentado diariamente e foi assim que ela desejou ter olhos azuis. Na verdade, ela desejava amor e paz. Dos adultos recebia olhares de interesse, nojo e raiva. A aversão a sua negritude era explícita e ela era tomada por uma inexplicável onda de vergonha por ser ela mesma.

No inverno a escola recebeu uma nova aluna Maureen Peal, descrita como uma mulata claríssima de cabelos compridos. Foi comparada as meninas brancas pois, era envolta de conforto e cuidados. Os professores sorriam e a encorajavam, os meninos negros não a agrediam nos corredores como faziam regularmente com as meninas negras, as meninas brancas não faziam muxoxo quando estavam no mesmo grupo de trabalho, as meninas negras moviam-se para o lado quando ela queria usar a pia do banheiro.

Sendo negra não tinha privilégios, mas a pela clara lhe concedia vantagens e passibilidade que Pecola, Claudia e Frieda nunca experimentariam. Na saída da escola Pecola era chamada de “Preta retinta, preta retinta...” como xingamento e a cercavam para lhe bater. Após uma rápida tentativa de amizade com Maureen, no primeiro desentendimento, essa dispara: “eu sou bonita e vocês são feias, são pretas feias” era a hierarquia da cor de pele.

Um capítulo do livro é dedicado a explicar um pouco como mulheres negras de pele clara são lidas dentro da comunidade negra afro americana. Cantoras de coral, mas não são solistas, vivem em bairros negros mais tranquilos, cursam escola normal, trabalhadoras, não namoram, mas sempre se casam. São observadas pelos homens que vislumbram um lar cristão com lençóis limpos, flores de papel decorando a casa e a roupa do trabalho engomada, são as escolhidas.

Nas relações infantis a preferência era brincar com meninos brancos ou os mulatos que eram considerados limpos e silenciosos. Os pretos eram rejeitados para as brincadeiras e taxados de sujos e barulhentos. A linha entre o mulato e o preto oscilava, era preciso estar sempre atento.
As mulheres brancas diziam “Faça isso”. As crianças brancas diziam “Me de aquilo”. Os homens brancos diziam “Venham cá” Os homens negros diziam “Deita”. Meninas e mulheres negras eram colocadas nesses lugares.

As irmãs descobriram que Pecola havia sido estuprada pelo pai e que havia engravidado. Pescando comentários pelo ar, ouviam que ela deveria ser tirada da escola, que ela era um pouco culpada (tinha só doze anos), que talvez o bebê não sobrevivesse porque a mãe a havia espancado. Nesses diálogos Claudia e Frieda tentavam encontrar alguma manifestação de solidariedade e afetos que eram destinadas as bonecas Baby Dolls, a Shirley Temples ou Maureen.

Pecola perdeu o bebê e a sanidade mental. As duas meninas se culpavam por não terem conseguido ajudar a amiga.

É uma leitura pesada, de doer o coração, mas alguém tinha que falar sobre isso e Tony Morrison como mulher negra não se calou.


https://rosesalva.blogspot.com
Insta: @roseane_mundo
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Flavinha 20/07/2021

"Esta é uma história terrível sobre coisas que se preferia ignorar completamente". São as palavras da própria Toni Morrison. O livro é brutal. Aborda o preconceito mais visceral, o do colorismo. E tem como protagonista o mais vulnerável dos seres humanos: uma menina negra retinta que passa por toda sorte de menosprezo que nossa sociedade (imunda) pode inflingir a um ser vivo, humano ou não. A história se passa na década de 60, nos EUA. Mas poderia ser contemporânea e ambientada aqui no Brasil por um negro ou uma prostituta ou um cachorro sarnento ou um viciado em condição de rua.
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Brenda.Podanosqui 04/04/2021

Livro forte. Atemporal
A narrativa de Toni Morisson provoca um completa imersão nos personagens, de forma intensa e profunda. As narrativas (porque são várias) são feitas de perspectivas diferentes e de forma fragmentária, ressaltando a complexidade que envolve o racismo.

Ela apresenta uma faceta do ódio à sua própria negritude, uma aversão a si mesmo, resultante de um condicionamento social, por preconceito e racismo, ao mesmo tempo em que escancara as dimensões das violências sofridas simbolizada na personagem chave, Pecola.

Assim, as temáticas são aprofundadas de uma forma sensível, envolvendo aspectos da singularidade humana para muito além do percetível. Nada é como deveria ser. É uma sensação de contradição e de falta de pertencimento. Ela, a autora, é tão incisiva que fere. E, por fim, surge o desejo pelo olho mais azul simbólico de tudo quanto fora esmiuçado, repisado...

Esse é um daqueles livros que te transformam. Uma nota máxima é pouco!
Alê | @alexandrejjr 04/04/2021minha estante
Fico feliz que gostasse, Brenda. ?


Brenda.Podanosqui 04/04/2021minha estante
Excelente livro!! Estava na minha lista há algum tempo, porém sua resenha sobre o livro me fez querer ler logo.




Alessandro 13/10/2010

Para desmembrar bonecas brancas
A literatura de Toni Morrison é árdua e mesmo muito após sua leitura inicial (e necessária releitura) se mantém como um travo em nossa língua, um quê de amargor que mesmo a sutileza das palavras tão belas de Morrison não se interessa fundamentalmente em nos justificar.

Ficaria tão mais fácil compreender o tanto de estranheza se a literatura de Morrison fizesse concessões imediatas para o raivosismo, se seu texto fosse recheado de ódio e seus personagens fossem tão somente sujeitos unilaterais desprovidos de maiores fragmentações comportamentais. Se não tivessem nuances e complexidade. Se fossem só e totalmente negros desesperados, raivosos e violentos – amargos como tão amargos e inacreditáveis são os pressupostos de inferioridade que lhes querem impugnar.

Se os personagens de Toni Morrison somente reagissem violentamente como lhes é esperado, se não se envolvessem de idéias por vezes tão obtusas como tentativa de fuga de sua realidade, seriam protótipos do negro sofredor da década de 40. Claros e precisos, talvez. Mas desfeitos de maiores interesses que nos fizessem querer compreender as origens e conseqüências de seus sentimentos e de seus atos. Afinal, tal vontade é o que nos motiva para descobrir quem olhou com tal aversão para Pecola Breedlove, criança e negra, e lhe fez desejar com tal ardor os olhos azuis mais intensos para apaziguar (quem sabe?) seu sentimento de aversão por si mesma, já tão irremediavelmente marcado.

Esta foi a motivação de Toni Morrison afinal, por que Claudia MacTeer, que narra O Olho Mais Azul é alter-ego da autora e, não obstante o fato de ter os mesmos onze anos da sofrida Pecola, resiste tão bravamente à supremacia étnica e social que lhe é imposta que seus impulsos mais violentos (desespero odioso pelo modelo de beleza e adoração daquela década) são o de desmembrar bonecas brancas. E odiar com o fundo do coração tudo o que a atriz-mirim Shirley Temple representava então, com seus cabelos loiros e cacheados e graciosos olhos azuis. Tão distante e servindo somente para confundir a identidade daquelas pequenas negras. E que outro modelo identitário lhes resta? Talvez as três prostitutas contadoras de lorotas que moram no apartamento de cima. China, Polaca e Maria, cumprindo unicamente a sina de vender seus corpos, suas ancas sempre boas e prontas para o sexo, seu frenesi negro sempre mais ardente para as coisas da carne. Para Claudia e Pecola não há exatamente mais ninguém próximo que lhes seja modelo naquela América branca, naquela gélida cidade de Lorain, Ohio, onde lhes aguarda um futuro de grandes progenitoras e exímias donas de casa. Para limpar e manter em ordem a casa dos outros.

Próximo à Claudia há sua irmã, Frieda e sua mãe que lhes trata o resfriado com purgante Black Draught e óleo de rícino. Há as conversas cansadas e nervosas sobre a Companhia de Carvão Zick's – mas estas conversas são dos adultos e só cabe a Claudia e Frieda ouvir sorrateiramente. Há as fofocas femininas sobre os homens do bairro. E há senhor Henry, o inquilino de um quarto na casa dos MacTeer. Que é espancado e posto para fora pelos pais delas quando tenta tocar em Frieda.

E próximo à Pecola não há exemplos muito mais dignos. Há Cholly, seu pai, bêbado e violento demais para qualquer ato que de alguma ternura para com ela. Há a mãe, que responde à violência do marido à altura e há uma situação que se torna insustentável quando Cholly espanca a mulher na frente de Pecola e põe fogo na casa. O que aproxima Pecola de Claudia e Frieda quando o serviço social a instala temporariamente na casa das duas.

Como a Pecola só resta achar que é feia, agressivamente feia, pobre e feia, lhe sobra a crença de que se seus olhos fossem diferentes, ela seria diferente. Então, toda note, sem falta, Pecola reza para ter os olhos azuis. Reza fervorosamente. Por mais que demore, porque Pecola sabe que leva muito tempo para que uma coisa maravilhosa como essa aconteça.

Toni Morrison faz literatura como quem faz poesia. Não passa a mão na cabeça, sendo negra como seus personagens. A ganhadora do Nobel de Literatura de 1993 (ano da reedição deste livro, cuja primeira publicação é de 1965) dramatiza, sim, a devastação que o desprezo racial pode causar. Mesmo que este desprezo seja "casual", mesmo que seja arraigado pelo "costume" – ele é desintegrador, ele é agressivo social e domesticamente. Ele é rotineiro, ele é excepcional, algumas vezes monstruoso. Um exercício de neutralidade de Morrison: manter o olhar de desprezo dos personagens sobre Pecola (e sobre qualquer menina negra na sua mesma vulnerabilidade) sem, no entanto, se tornar cúmplice. E sabotando, aos poucos, as razões deste desprezo.

O Olho Mais Azul é, ao final, um livro generoso ao extremo. Dá voz a um ser incapaz de compreender a violência tão "natural" que lhe envolve – e tudo em uma linguagem coloquial, revelando sorrateiramente um segredo terrível, destrinchando a desestabilização e a destruição da vida de uma menina negra, como se fosse tão somente algum evento corriqueiro, um mexerico sobre alguém dentro da família, da vizinhança.

São declarações indizíveis sendo ditas finalmente, como se um bando de mulheres fofocando sobre pudesse amainar a ruptura da natureza de Pecola, pudesse amenizar o vazio em Pecola. Criando uma familiaridade com o leitor, sem assustá-lo com declarações bombásticas ou repentinas. Por mais que haja coisas terríveis para se contar. "Cá entre nós".
Franciny Celestino 18/01/2018minha estante
Aiiin genteeeee, onde encontro ? Preciso muito ler !


Sarah.Passarella 02/06/2020minha estante
Linda resenha!




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