O fim do homem soviético

O fim do homem soviético Svetlana Aleksiévitch




Resenhas - O Fim do Homem Soviético


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Rosangela Max 27/08/2021

Não é o meu livro preferido da autora.
Dos 05 livros que li dela, sem dúvida esse é o que possui a escrita mais confusa. Pelo menos na primeira metade do livro.
Talvez esta confusão seja para combinar com os relatos da vida pós-guerra do povo soviético, onde os próprios sentimentos e vivencia do povo estavam um caos.
Próximo ao fim da primeira metade, a leitura começa a se assemelhar com a estrutura dos demais livros. Mesmo assim, no geral, ficou aquém das minhas expectativas.
Principalmente por ser o livro que encerra essa temática de guerra abordada pela autora desde o primeiro livro. E, portanto, merecia um melhor fechamento.
RafaelM 27/08/2021minha estante
Adorei seu ponto de vista sobre a "confusão para combinar".. Li três livros delas e esse e o "Meninos de Zinco" ainda estão na lista..


Rosangela Max 28/08/2021minha estante
Vale a pena ler todos. ??




André 02/05/2020

O Sonho Soviético e a Desilusão Russa (Resenha Osmose Literária)
Gente, eu tô passando aqui para informar sobre a resenha. Como a resenha ficou grande, obviamente coloquei no blog pois nem todos tem disposição para ler por aqui. Enfim, é isso. (Link abaixo)

https://osmoseliteraria.blogspot.com/2020/05/o-sonho-sovietico-e-desilusao-russa.html
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FalaLud 07/07/2020

As pessoas não são boas nem más. São pessoas.
Esse livro é mais que uma aula de história da Rússia. É uma grande reflexão sobre os seres humanos.

Ele me abriu os olhos sobre o perigo da intolerância. Não apenas da intolerância dos intolerantes, mas da nossa própria intolerância PARA COM os intolerantes. É uma linha muito tênue para você se tornar aquilo que mais abomina. E não vão faltar justificativas de que o sangue derramado é por uma causa justa, pois não assumir a responsabilidade dos atos é ainda mais fácil. A culpa é sempre de outro, sua jamais.

Eu esperava terminar o livro com uma resposta sobre qual sistema era melhor (ou menos ruim): o capitalismo ou o comunismo. Depende. Os dois podem ser tão bons ou tão cruéis quanto, dependendo da posição que você ocupa na sociedade.

O livro é triste, e muitas vezes brutal. Mas vai te levar a inúmeras reflexões e questionamentos importantes, vale a pena.
Mari 07/07/2020minha estante
Gostei muito da resenha, Lud! Não conhecia, mas já fiquei com muita vontade de ler!


FalaLud 07/07/2020minha estante
Que bom, Mari! Então acho que consegui exprimir um pouco da experiência que esse livro me trouxe ?


Maria 15/07/2020minha estante
Caceta, já quero!


FalaLud 15/07/2020minha estante
Só não te empresto pq é e-book, pq senão já estaria debatendo sobre esse livro com você ??




Higor 26/12/2016

"Será que é possível fazer o bem com metralhadoras e com facas?"
Dentre todos os livros da fantástica Svetlana Aleksiévitch, o mais emblemático talvez seja ‘O fim do homem soviético’, já que aborda a política de um país distante, que foi estudado à exaustão, por conta de tantos eventos que marcaram de várias formas a história da humanidade. Ainda assim, parece mais um livro que causa receio, por aparentar ser uma leitura ‘de’ russos ‘para’ russos, e não para estrangeiros. Estes, caso queiram se aventurar, talvez aparente que precisam de muito texto de apoio. Ledo engano.

A autora é bem sucedida em destrinchar a política russa de maneira simples e objetiva, passando a mensagem até para o mais leigo do assunto, que não sabe muito sobre Stálin, ou que acha que o cenário político russo atual se restringe à Pútin. Quem já embarcou em outras leituras sobre o assunto não vai se decepcionar; deve se preparar, ao invés disso, para ser confrontado com a realidade crua do reflexo do colapso de um império aparentemente indestrutível: o comunismo. A transição de capitalismo para socialismo; queda e ascensão. Aceitação e desprezo. Manifestações.

É importante ressaltar que o livro não tem a missão de pregar uma nostalgia do comunismo, ou ressaltar as tantas truculências da ideologia política, conhecidas e comentadas por qualquer um. Aqui os habitantes têm voz, e expressam todas as suas memórias sobre um fato tão marcante na vida de cada um deles. Teremos, então, relatos sinceros, chocantes e emocionantes de pessoas que, sim, ficaram satisfeitas com o fim do socialismo; outras que desprezam o capitalismo; e ainda o terceiro grupo, o de indiferentes, ou que não eram a favor do socialismo, tampouco do nascimento do capitalismo, mas sim de uma terceira opção, inimaginável. Talvez tão utópica quanto às alternativas anteriores.

Um misto de velhinhos retrucando que venderam o comunismo por um hambúrguer do McDonald's ou um maço de Marlboro – críticas aos diferentes tipos de produtos estrangeiros disponíveis nas prateleiras – com mulheres inteiramente satisfeitas em trocarem todos os seus móveis nacionais (e pouco diversificados) por coisas internacionais, da Itália, França e etc.

O que mais me desconcertou durante a leitura foi chegar à conclusão de que, não importa se a favor ou não do socialismo, mas o que faz refletir é que não importa a nossa opinião, e sim a dos russos, daqueles que tiveram de passar por toda a situação, e a verdade é eles não queriam a introdução do capitalismo; não da maneira abrupta, pelo menos, que foi, sem meio termo forçada, quase impositiva, tal como o próprio socialismo.

Entrevistados afirmam a autora, independente do favoritismo, que foi difícil, arrasador... A implantação do capitalismo foi tratada com orgulho, afinal, foi considerada completa em três míseros anos, quando outros países demoraram décadas, mas o que cada cidadão russo se pergunta é: é possível ter orgulho de algo que, mesmo benéfico depois, trouxe, de início, o caos? Pessoas morreram, passaram fome, ficaram a mercê de Deus sabe quem. Pessoas se intitulando ‘vermelhas’ (a cor do comunismo), e desprezando as ‘brancas’, e vice-versa; depois socialistas inveterados odiando os novos capitalistas... Ah, os russos que proclamaram independência passaram a ser odiados pelos russos originais, e vice versa...

Sabe, um cidadão russo chegou a afirmar que preferiria passar pela Segunda Guerra Mundial novamente, que ter que ver russos menosprezando o próximo; irmãos se matando, tratando-os como se fossem desconhecidos, um novo e desprezível povo... Como se não fossem humanos! Incomoda ver que um pão passou a custar um salário de três meses pára uma pessoa, e o vizinho passou a comprar caviar importado e cuspir na cara desse mais pobre, quando antes, na época em que todos eram socialistas, ambos se abraçavam, em uma bela demonstração de afeto.

Mais desconfortável ainda é sentir a hipocrisia vinda de mim mesmo, que passei a me importar com as dificuldades impostas nas vidas de tantos russos, mas não me atentava, até então, com a de tantos brasileiros, afinal, vivemos em um capitalismo, com seus meus prós e contra, que causaram tantos males para a sociedade, mesmo com seus benefícios.

Com sutileza e necessidade muito bem pontuadas, Svetlana parece que sacode o leitor a cada página, como que despertando atenção para coisas do cotidiano negligenciadas, mesmo que não propositadamente. Pessoas passando fome, morrendo, matando... Tudo em nome de uma ideologia política que causa mal, não importa qual delas: se o socialismo ou capitalismo. Em ambas há o derramamento de sangue. Há a contradição. Há nações feridas.

Este livro faz parte dos projetos 'Lendo Nobel' e 'Revolução Russa'. Mais em:

site: leiturasedesafios.blogspot.com
Aline 18/02/2017minha estante
Esta autora é realmente muito boa!


Jossi 08/04/2017minha estante
Acho que a Rússia atual não vive, propriamente, num regime "capitalista", mas em algum mix de socialismo+liberalismo+conservadorismo fake. É sabido e notório que a KGB (que tem outro nome hoje) mandou o socialismo para o mundo todo (Cuba, México, EUA, Brasil > PT, PSDB, etc.). Por sorte, não tomou conta completamente de países fortes, como EUA, mas está frutificando maravilhosamente pela América Latina... vide, Venezuela, Uruguai, Brasil, etc. Um fato é inegável: O socialismo-comunismo (tudo a mesma porcaria, só muda o nome), destrói tudo o que toca. E mais um detalhe: "capitalismo" não é exatamente o que define os países livres. O que define a verdadeira liberdade de um povo é o conservadorismo, que preserva os valores morais, sem obrigar ninguém. Apenas aponta o caminho, sem empurrar ninguém para esse ou aquele lado. Essa autora parece estar jogando uma cortina de fumaça sobre o que realmente MARCOU a história dos russos e/ou soviéticos: a ideologia mais perversa da história humana, o comunismo.


Higor 10/04/2017minha estante
Jossi, os 17 anos de mandato de Putin estão aí para mostrar que não há um capitalismo, nem mesmo de fachada. Eu apenas discordo de você no sentido de a autora estar 'jogando uma cortina de fumaça' sobre a história dos russos. A Svetlana optou por narrar os acontecimentos por uma perspectiva que eu considero justa, que é a de russos contando o que aconteceu a eles com tal fato, e é onde há a riqueza de detalhes e informações, pois temos: russos felizes com o fim do socialismo; russos infelizes, e russos que não queriam o socialismo, mas tampouco o capitalismo. São os três grupos apresentados no livro. Sim, a autora expôs sua opinião em um capítulo à parte, mas a maioria esmagadora é a de entrevistas concedidas, e a perversidade está presente em cada relato, sem exageros ou maquiagem, mas com a autora se emocionando em todos eles, independente de sua opinião pessoal. E o principal: o leitor se comovendo de igual maneira, mesmo sem conseguir entender de maneira íntegra o que aconteceu. Em minha concepção, um livro que cumpriu o seu papel, de uma jornalista eficiente. Obrigado pelo comentário!




Wamosysoares 16/06/2021

O livro trata da vida das pessoas inseridas no contexto pós soviético. Como se tratam de relatos, escolhidos e transmitidos praticamente ao pé da letra pela autora, é possível a proximidade com os fatos e as sensações, além de se poder tirar as próprias conclusões. Recomendo.
Mari 16/06/2021minha estante
Essa autora é sensacional!




Ana Seerig 29/01/2021

Apesar de tudo, o amor
Há muito que tinha vontade de ler os livros da Svetlana Aleksiévitch. Acabei comprando "O fim do homem soviético" por ser o de assunto mais próximo ao meu projeto de mestrado, mas tava enrolando a leitura, até um post da @suzanaveiga no @historialogos me servir de desculpa pra colocar esse calhamaço de 600 páginas na mala de veraneio aqui no RS.

Não é uma narrativa construída com a união de vários depoimentos, mas sim várias histórias individuais. Cada personagem tem seu espaço e a autora registra risadas, silêncios e lágrimas. No fim das contas é como se a gente estivesse sentado diante de cada um, dando atenção a cada história.

O livro é dividido em dois momentos: os anos de extinção da URSS e o período mais atual. Em consequência, há dois grupos de personagens: os que sobreviveram à guerra e viveram sob o governo soviético e os jovens que vêem Stálin como uma figura distante demais para ser real, mas convivem com os problemas econômicos e as guerras resultante do capitalismo.

O primeiro grupo se divide em eternos filiados ao Partido Comunista e os que acreditam que a vida está muito melhor sem o governo soviético. Já o segundo grupo traz depoimentos de cidadãos de diferentes países que sofrem com a guerra e se abrigam na Rússia, mas também de jovens que participaram de protestos e outros que foram vítimas de atentados.

O que impressiona é que a todo momento o amor é citado: o que o personagem acredita ser amor, ações movidas por amor, sofrimentos por amor. Em algum momento alguém diz que o povo russo sobrevive às suas tantas guerras por causa do amor - e talvez seja isso mesmo. A fome, as guerras e o frio são panos de fundo constantes, mas é do amor que eles falam.

site: https://www.instagram.com/anaseerig/
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M. Machado 16/05/2021

Maravilhoso!
Todos os livros de Svetlana Alexijevich me tocam. Adoro o formato de sua escrita. Sobre este livro em específico, fiquei extremamente tocada com cada relato e com a minha própria ignorância... nós ocidentais achamos que sabemos tudo sobre tudo, que conhecemos as mazelas do mundo, mas não temos noção do que era viver na URSS. Leitura imprescindível!!!
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Tina Melo 09/03/2020

No ano em que muito se falou sobre o tal fantasma do comunismo, ganhei o livro “O fim do homem soviético”, livro da vencedora do Nobel Svetlana Aleksievitchi.
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A obra revela memórias de personagens que viveram de formas muito diferentes o fim da União Soviética. Para muitos um sonho de liberdade, para outros o fim do sonho de nação justa e fraterna.
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A realidade da abertura se mostrou muito cruel, mesmo para aqueles que a apoiaram. Alguns personagens possuem uma ingenuidade cativante, enquanto outros uma raiva e revolta por terem crescido apartados do resto do mundo. O fato é que
com a entrada do capitalismo, chega também a pobreza, o abandono, a máfia, a corrida pelo lucro e dinheiro.
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É importante ler sobre a vivência de um modelo de sociedade único no mundo e tão diferente da nossa. Uma jornada desafiadora e enriquecedora, que me tomou muito mais do que uma semana para leitura!


site: https://www.instagram.com/24por6/
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Leitor 17/04/2021

O fim de uma grande nação
Pior que nascer em um país insignificante, é nascer em um grande país que se torna insignificante.
São relatos que fazem a gente perceber que o fim da URSS foi um desastre para os soviéticos e para humanidade.
Expropriação, indignidade, humilhação, uma revolução as avessas que trouxe pobreza e ressentimento. Para os revolucionários de plantão, da direita à esquerda, uma leitura importante para ver que é melhor reformar conforme a sociedade avança. Destruir, passa fundamentalmente, por desestabilizar a vida do cidadão comum levando ao desespero e pavor coletivo. A revolução russa de 1917 foi um trauma, e seu fim só fez que tudo tenha sido em vão.
Os soviéticos vagam por aí, como a estação espacial internacional feita por eles. São do mundo, desde que escondam seu passado.
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Felipe Novaes 20/01/2021

Em 1984, George Orwell conta uma história que se passa na Eurásia, uma nação totalitária que vigia e dita cada aspecto da vida privada e pública de seus cidadãos. Desobedecer é crime contra o povo, contra o Estado. Desobedecer é morrer ou ir para um campo de trabalhos forçados. Só sobrevive quem consegue eclipsar sua individualidade num nível em que até mesmo os pensamentos são apenas aqueles permitidos pelo Partido. Como essas condições afetam a sanidade de quem vive sob essas condições? Elas representam um papel para sobreviver ou se tornam o personagem que interpretavam, como numa espécie de síndrome de Estocolmo, ficando do lado de quem as mantêm cativas?

O livro 1984 foi inspirado na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a primeira encarnação do socialismo marxista. Em O novo homem soviético, a jornalista Svetlana Aleksiévitch entrevista diversas pessoas, como trabalhadores da cidade e do campo, assim como ex-membros do Partido Comunista que viveram sob o regime.

O resultado não é uma crítica historiográfica ou econômica à URSS, mas os 50 tons de cinza que compõem as diferentes opiniões das pessoas que viveram lá. As considerações são tão variadas quanto as que teríamos ao perguntar a brasileiros de diferentes gerações o que acharam dos anos de ditadura militar por aqui. Ia ter gente cantando jingles e dizendo “ah, como era bom”, se referindo ao patriotismo, e também gente falando de torturas e repressão. Mas o caso soviético é bem mais interessante porque o que aconteceu lá durante os 70 anos de marxismo-leninismo tinha sido inédito até então, acabando por servir de modelo para todos os totalitarismos posteriores. Trata-se do primeiro caso de uma sociedade planejada de cima para baixo em todos os seus sentidos possíveis, do econômico ao político, da vida privada à vida pública. Foi a primeira tentativa de refundar a natureza humana e uma nova sociedade das cinzas da revolução, planejada diretamente das mentes de intelectuais.

O prelúdio da dissolução do império soviético

As entrevistas são feitas nos anos de dissolução do império soviético, do final dos anos 80 em diante. Foi a era da Perestroika, a ascensão de Gorbatchóv, o novo secretário-geral do Partido e do Estado soviético, prometendo um socialismo mais democrático, mais humano. Isso veio depois que o mundo soube oficialmente do que aconteceu durante os 70 anos de domínio bolchevique. Existem estimativas de que a União Soviética aniquilou 60 milhões de pessoas, incluindo não só mortes em campos de trabalhos forçados, mas também assassinatos políticos e especialmente fome (ver o caso Holodomor, que, apesar de parecer, não é um reino de Senhor dos Anéis). Isso é 10 vezes mais do que nazistas, os supremos inimigos do Ocidente, mataram. Pesquisando sobre o assunto enquanto lia o livro, soube que alguns fascistas italianos achavam o socialismo antidemocrático demais. Um fascista reclamando disso, vejam vocês.

Enfim, Gorbatchóv era aquele famoso político que chegou para “acabar com tudo isso que tá aí”. Ele não questionava o marxismo-leninismo, mas usava um discurso formatado pela novilíngua do Partido para expurgar Stálin e os neostalinistas — ao mesmo tempo passando um pano danado para Lênin (para mais detalhes, leia O Túmulo de Lênin, do jornalista David Remnick). Gorbatchóv não queria os custos de uma nova revolução, só queria reformar o status quo criado pela Revolução de Outubro, em 1917. Gorby era um homem do seu tempo e o marxismo-leninismo era seu credo. O principal objetivo era salvar o país da falência. Estamos falando de um lugar em que o Estado criava buracos para contratar gente para tapar. O mercado era inexistente. A indústria soviética era aquecida pela produção de tanques de guerra, como se a Segunda Guerra nunca tivesse terminado.

Nos anos 1970 eles produziam mais tanques de guerra do que os EUA. Segundo o chefe do Estado-Maior, S. Akhromiêiev, “O que vocês querem, que mandem parar o trabalho para começar a produzir panelas?“. Na mentalidade soviética era preciso manter um clima de guerra e de constante vigilância contra os imperialistas malvadões. A economia, os discursos políticos, o poder monolítico do Partido e o cotidiano da população eram todos parte de um único organismo adaptado para manter a utopia socialista, protegendo-a da ameaça “burguesa”.

Uma psicologia de colméia

A paranoia e a vigilância surgiram em vários capítulos, na boca de vários entrevistados. As pessoas simplesmente se dividiam em dois tipos: aquelas que dissolviam sua personalidade nos moldes autorizados pelo Partido, e aquelas que fingiam bem e tinham seus escapes. Essas escapadas poderiam ser esconder “literatura subversiva”, como livros do tipo de Arquipélago Gulag, ou fofocar na cozinha. Esse era o cômodo onde se socializava nas moradias coletivas. Ali podia-se falar da vida privada ou de política ligando a torneira para dificultar a escuta da KGB.

O problema era que a KGB não era o único risco. Numa sociedade como a soviética, não existe separação entre Estado, Partido e Povo. Sendo assim, a conversa na cozinha poderia ser delatada por um vizinho ou por um dos fofoqueiros dividindo a moradia. A vigilância estava diluída na própria vida civil. Todos viravam apenas abelhas operárias trabalhando em prol da rainha. Qualquer vestígio de individualidade era ceifado.

A entrevista de Ielena Iúrievna, terceira secretária do comitê distrital do Partido, nos dá a chance de conhecer uma dessas abelhas. Ela era uma neostalinista revoltada com a abertura de Gorbatchóv, com a difamação de Lênin e Stálin. Para ela, as atrocidades do regime eram necessárias para preservar a utopia dos seus inimigos. Eram necessárias mãos de ferro como as de Stálin. Ela diz que, apesar da miséria e da fome, pelo menos não se vendiam por “verdinhas” (dólares), como quem diz “eu era pobre mas era limpinha”.

A negação do mercado era um outro aspecto da psicologia soviética. Eles não apenas não entendiam o mercado, eles o odiavam.

A questão judaica na União Soviética

Chegamos a mais um ponto controverso da psicologia do Homo sovieticus, o antissemitismo. Essa associação é estranha porque aprendemos a associar antissemitismo com nazismo apenas, mas a verdade é que nazistas só inovaram ao dar uma conotação racial a isso (inclusive, os soviéticos chamavam suas políticas contra judeus de antissionismo, porque antissemitismo era associado demais aos nazistas). O czarismo já era antissemita (o czar mantinha um pedaço do território russo apenas para os judeus evitarem se misturar com russos), e o que era ruim conseguiu ficar pior com os Bolcheviques.

Bolcheviques odiavam burgueses, que eram já há muito tempo associados aos bancos, ao comércio e ao lucro. Isto é, na mentalidade não só bolchevique, mas europeia, judeus eram burgueses. O problema é que a Rússia não era exatamente um país capitalista, então os bolcheviques tiveram que recorrer a todo tipo de recurso da novilíngua do Partido para achar esses tais judeus burgueses. Os bolcheviques simplesmente ignoravam que Marx e Trotsky eram judeus.

Para piorar, a oposição “branca” também era antissemita. Eles acusavam os bolcheviques de serem judeus. Ou seja, na prática, os judeus eram acusados de liderarem conspirações comunistas e liberais. Eram odiados pelos dois grupos.

O resultado disso foi que, especialmente ao longo da União Soviética stalinista, houve vários pogroms. Judeus eram expropriados sem mais nem menos e enviados para campos de trabalhos forçados. A morte de Stálin não deu fim nisso. Na década de 80, o soviético médio ainda desprezava os judeus. Neostalinistas diziam “Rússia para os russos”, querendo excluir judeus da equação, afinal, segundo eles, “eslavos eram mais bonitos e inteligentes”.

A difusão de responsabilidade do coletivismo

Parte de O novo homem soviético se dedica aos carrascos. Se você está esperando grandes psicopatas vaidosos, está errado. É como a banalidade do mal descrita por Hannah Arendt diante do julgamento de Eichmann, o carrasco nazista. Atrocidades cometidas por homens normais, por burocratas, muitas vezes. Atrocidades mais fáceis de serem cometidas quando cada indivíduo enxerga apenas seu papel de engrenagem num sistema maior. A culpa é do sistema. É a diferença entre comer um filé de frango e torcer o pescoço de um galináceo grunhindo por piedade.

Mas nessa parte do livro a jornalista nos coloca cara-a-cara com o relato de um parente desses homens que colocaram “a mão na massa”. Abalado pela velhice, pela fragilidade e pela vodca, o homem abre o verbo e fala dos novos tempos de socialismo democrático sendo construído por Gorbatchóv. O idoso fez parte da polícia política e foi responsável por muitas execuções. Ele não tinha prazer em matar, mas considerava um serviço necessário para a construção do socialismo.

Seus votos são de que a União Soviética vá desmoronar sem medo. Para ele, as pessoas precisam do medo dos campos de trabalhos forçados, das prisões e das torturas para que o trabalho ande, para que os “inimigos do povo” não vençam. Esse tipo de “solução final” era tão institucionalizado que os carrascos ganhavam certificados pelos serviços prestados ao Partido de Lênin e Stálin.

Conclusão

Talvez todas as ditaduras, todas as formas de totalitarismo funcionem como formas de moldar a natureza humana. É esperado que isso aconteça em ambientes com diferentes gradientes de ausência de liberdade — ok, pode-se dizer que países muito liberais apenas forjam outro tipo de natureza humana, mas isso não significa que todas as formas de forjar novas naturezas humanas sejam moralmente equivalentes. Mas a URSS foi uma fábrica de humanos especial, dado seu extremismo, sua longevidade e sua extensão territorial.

Não resisti em mostrar uma passagem retirada de outro livro, História Concisa da Revolução Russa, que mostra bem a excepcionalidade desse experimento histórico. Eis o que diz Aleksei Gástiev, um metalúrgico transformado em poeta:

A psicologia do proletariado é extraordinariamente uniformizada pela mecanização, não somente dos movimentos, mas também do pensar cotidiano (…). Essa qualidade lhe confere um notável anonimato, tornando possível designar a entidade proletária em separado, como A, B, C, D, ou 325, 075 e etc (…). Isso significa que, para a psicologia proletária, de um extremo a outro do mundo, não há mais um milhão de cabeças, mas uma única cabeça global. No futuro, sem que se perceba, essa tendência tornará impossível o pensamento individual.

Os soviéticos não queriam só uma radical e planificada igualdade econômica. Eles queriam uma uniformização psicológica nunca antes vista. E essa uniformização formaria uma nova sociedade, radicalmente diferente das sociedades burguesas. Seria a Era do proletariado. Um dos exemplos mais bizarros que também constam em História Concisa da Revolução Russa, os russos queriam mudar até mesmo o que se considerava boa música. Em vez do padrão burguês, eles estimulariam o padrão proletário, em que orquestras eram tocadas utilizando sirenes, ferramentas e maquinário de fábrica.

O novo homem soviético oferece inúmeros relatos em primeira mão do que foi o experimento soviético e do que representou a sua derrocada final, no início dos anos 90. Algumas pessoas ficaram aliviadas, outras pessoas ficaram saudosistas. Muitas pessoas, talvez a maioria, não queriam exatamente o fim do socialismo. Elas queriam um socialismo humano, democrático, assim como Gorbatchóv. A Rússia de hoje é um reflexo dessa psicologia do Homo sovieticus, se mantendo como um curioso país, ainda estranho (e de certo modo fascinante) para os padrões ocidentais.

site: https://www.deviante.com.br/noticias/o-fim-do-homem-sovietico-uma-resenha/
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Rafael G. 07/03/2020

Os anos 90 foram terríveis para os países que, antes, formavam a União Soviética. A mudança repentina no sistema de produção provocou uma crise histórica: de repente, aquelas pessoas acostumadas a uma vida de pouco (mas do mínimo necessário) foram lançadas à realidade predatória do mercado capitalista. Milhares de pedintes tomaram as ruas de Moscou, já era impossível viver do seu trabalho como professor, médico ou engenheiro. A aposentadoria não dava para nada, e as economias de uma vida inteira serviam apenas para comprar laranjas.

Muitos enriqueceram explorando a miséria, enganando as pessoas que vendiam a própria casa para conseguir o que comer. Muitos se suicidaram. E metade sentiu-se enganada: defendeu Iéltsin em nome da liberdade, mas será que esperava mesmo o capitalismo ou só queria um socialismo outro? Svetlana, com o mesmo cuidado de "Vozes de Tchernobyl", recolhe as histórias dessa nação partida, num trabalho impressionante com a precariedade do relato oral: há muito de incerteza, mas também há muito da dificuldade em plasmar a dor em palavra. Ela investiga o que a queda do projeto comunista significa para a vida comum, como atravessa as misérias e disputas cotidianas, o amor, a espera, o sofrimento. Svetlana recolhe narrativas que a princípio pouco parecem revelar dessa grande cisão histórica, mas que nos puxam primeiro pelo afeto, pela emoção, por aquela parte de nós que não consegue não se impressionar diante da morte ou não sentir ódio diante da injustiça. Lemos um luto ainda em processo, empurrando vidas para o absurdo.

Este é um livro imenso, político, emocionante e que nos coloca diante de grandes contradições: Como contar a história da URSS? Stálin foi um carrasco assassino ou o construtor de um mundo mais justo? Os soviéticos eram educados para o bem comum ou doutrinados para servir ao partido? Provavelmente tudo isso. E é justamente o que torna a leitura tão poderosa e magnética.
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Monique Bonomini 11/05/2018

Esqueça...
Esqueça tudo que já ouviu sobre a URSS. Este livro, e a narrativa de Svetlana só provam aquela velha máxima de que toda história tem mais de um lado. Saber o que era a União Soviética a partir do indivíduo, experimentar através dos relatos toda a ambiguidade de sentimentos provocada pelo regime e as impressões atuais pela situação contemporânea, russa especialmente, é poderoso, impacta a mente e permite enxergar com muito mais empatia quem viveu à época vermelha. Recomendo fortemente a leitura!
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marcelo.batista.1428 15/12/2019

O fim do homem soviético não é uma história que tem Gorbachev, Pavlov ou Yeltsin como protagonista. Nele encontramos populares e suas histórias pessoais, narrativas que são perpassadas pelo fim da U.R.S.S., que nos faz compreender suas consequências, mas que está para além disso.
Lemos sobre racismo, machismo, esperança, sofrimento mental, dinâmica familiar, violência, desigualdade, sonhos, guerra, liberdade, consumismo, injustiça e tudo aquilo que diz sobre o ser humano e ao mesmo tempo, que é característico do soviético. Um retrato de uma sociedade e igualmente um mergulho nos afetos da individualidade humana, através da transcrição de conversar múltiplas realizadas pela autora.
Um livro fantástico, mas longe de ser uma leitura leve.
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spoiler visualizar
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André 29/07/2020

Uma leitura profundamente humana da transição soviética, além de verdadeiramente polifônica! Vale cada uma das linhas escritas.
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