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Fic Anne Jamison




Resenhas - Fic - Por Que A Fanfiction Está Dominando O Mundo


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Cheiro de Livro 27/03/2017

Fic – porque a fanfiction está dominando o mundo
Um mergulho praticamente acadêmico no mundo das fics.


“Criar a própria história, os próprios personagens, é uma delícia! Mas muita gente (eu sou uma!) é tão apaixonada por histórias já escritas que é impossível não imaginar outros finais, criar novos personagens ou “casar” personagens existentes. Rola também escrever fics sobre filmes, seriados de tv e até bandas. Bem-vindo ao mundo maravilhoso das fanfictions, no qual tudo é possível (tudo mesmo) e ninguém julga (muito)!”

Esse pedaço aí em cima é do meu livro “Sou fã! E agora?” (Editora Seguinte) e escolhi colocá-lo aqui para explicar o que é a fanfic. No meu livro, explico um pouco sobre as fics, o que são, como funcionam e a relação delas com os fãs e muito mais. Mas o fenômeno é digno de estudo e é exatamente isso que resultou em outro livro intitulado “Fic – Por que a fanfiction está dominando o mundo” de Anne Jamison (Editora Rocco). Nele, a autora faz um verdadeiro tratado sobre o assunto, com inúmeros estudos de casos e entrevistas. Impossível não estar na minha estante ou na de qualquer um fanfiqueiro, né?
Em “Fic”, Anne conta com outros colaboradores em um livro que destrincha a fanfiction. Eu vejo a fic como sendo uma maneira de o fã desenvolver seu próprio conteúdo exercendo a criatividade e desabafando suas frustrações ou vontades não correspondidas no cânon (como exemplifiquei no início desse texto). Mas essa criação “emprestada” cresceu tanto que gerou conteúdos originais que, por sua vez, passaram a gerar mais fics! É um ciclo virtuoso de criação e envolvimento do fã que precisa sim ser estudado e acompanhado. E é isso que “Fic” faz.

O livro é dividido em partes e cada uma contém entrevistas, estudos de caso e exemplos do movimento fandômico e fanfiqueiro. A linguagem, embora seja clara, é muito acadêmica e quem não é “iniciado” no mundo de fics ou não tem intimidade com esse tipo de criação literária pode se sentir um pouco intimidado ou distante (dica: leia “Sou fã! E agora?” primeiro e “Fic” na sequência. Hehehe). Já para a galera já vacinada, é um convite a pular e examinar esse mundo.

Já era a época na qual fãs eram definidos como aquelas pessoas histéricas que gastam muito dinheiro e seguem cegamente algum ídolo. Tudo bem que a gente continua gastando dinheiro com memorabília e um gritinho ou outro escapa de vez em quando, mas o fã é gerador de conteúdo, é responsável por propagar a cultura. O fã é um entusiasta da arte alheia e a fanfiction é um dos mais puros resultados dessa admiração.

Fiquei muito contente em ter recebido esse exemplar da Editora Rocco para resenhar. “Fic” é um excelente livro de referência para quem quer estudar esse movimento e é o tipo de exemplar que vai contar com inúmeros post-its para ser revisitado periodicamente. Eu anotei bastante e descobri informações muito interessantes, entre elas que uma autora que adoro – Rachel Caine – escreveu fanfiction! Ao ler, imaginei aqueles documentários sobre fãs, sabe? Seria bárbaro ter um sobre “Fic”! Fica a dica, Netflix!

site: http://cheirodelivro.com/fic-porque-fanfiction-esta-dominando-o-mundo/
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Coruja 10/06/2017

Os primeiros textos que publiquei na internet eram fanfics de Harry Potter. Entre 2004 e 2009 fui uma autora razoavelmente ativa no Fanfiction.net sob o pseudônimo de Silverghost, além de participar de um misto de fanfic colaborativa e RPG no Expresso Hogwarts como a geniosa domadora de dragões, Mina MacFusty. De lá pra cá, não escrevi mais fanfics, mas ainda leio muitas, em vários fandoms e sempre achei a ideia da ‘ficção por fãs’ um fenômeno interessante - não apenas como produtora e consumidora desse tipo de mídia, mas como uma curiosa sobre a evolução e alcance desse fenômeno cultural.

Por essa razão, quando vi o livro da Anne Jamison, Fic: Porque a Fanfiction está dominando o mundo, coloquei-o imediatamente na lista, afinal, uma exploração acadêmica séria do assunto, sem se deixar levar por preconceitos - e tem muita gente que torce o nariz para as fanfics e sente um especial prazer em tentar rebaixar os fãs que se envolvem com esse tipo de produção - era algo que muito me interessava. E é irônico perceber (e um dos pontos interessantes que abrem o título) que algumas obras aclamadas pela crítica como alta literatura são, em sua essência, fanfics: o absolutamente brilhante Vasto Mar de Sargaços que explora a figura de Berta, a esposa louca do Mr. Rochester de Jane Eyre, numa discussão de papéis femininos, colonização e choque cultural - e que mudou muito minha interpretação do original Bröntiano - e a deliciosa peça Rosencrantz e Guildenstern estão Mortos de Tom Stoppard, que traz um novo ponto de vista para Hamlet, são ótimos exemplos de que apropriar-se de uma história e apresentá-la sob uma ótica diferente não é, nem de longe, uma heresia.

Aliás, considerando que Shakespeare se apropriou constantemente de outras histórias para criar suas peças, não é difícil pensar nele como um ficwriter de sua época… A diferença, conforme explicado no livro, vai muito pela forma como direitos do autor sobre a obra mudaram ao longo dos anos e também pela evolução da mídia e tecnologia e dos próprios conceitos de criação artística.

Há muitos motivos para um fã escrever sua própria versão de uma história consagrada. Eu escrevia fics de Harry Potter por querer saber o que havia no vácuo do passado da história - especificamente, os marauders. Escrevi algumas de Crepúsculo após ser obrigada a ler os livros pela Lucilla, para tentar lidar com todos os furos de roteiro que ia encontrando (acabei desistindo no meio do caminho, porque eram furos demais… mas rendeu algumas coisas engraçadas). Há quem escreva como terapia, por se identificar com os personagens, porque não ficou satisfeito com o final e porque queria explorar relacionamentos que não tinham ficado suficientemente claros na versão original. Curiosamente, a primeira vez que vi se falar em outros tipos de sexualidade que não fossem hetero, bi ou homossexuais foi em fanfics: pan, demi e assexualismo, e todos os graus de cinza possíveis, e, olha só, eu até descobri que me identificava infinitamente com a noção de demissexualidade. Há uma miríade de motivos e assim você tem uma infinidade de histórias, de versões, de pontos de vista - o que, a meu ver, enriquece, e muito, a experiência. Não somos todos perfeitamente iguais e refletir nossa diversidade é uma das coisas que encontro muito em fanfics.

De repente, não mais que de repente, as pessoas não estão apenas consumindo um produto - porque essa cultura de massa é um produto -, mas refletindo sobre ele, criando sua própria interpretação, produzindo conteúdo novo. E isso de uma maneira extremamente colaborativa: é gente que escreve ou desenha, compartilha suas obras, recebe comentários, conversa com outros fãs e, num ambiente saudável e sem (esperançosamente) trolls, têm trocas muito positivas e sem hierarquias. São futuros possíveis autores, tendo contato com o público, recebendo críticas, aprendendo o ofício sem intermediários e com a vantagem de estar trabalhando personagens que já são conhecidos e têm seguidores. De boa, escrever fanfics é como fazer uma oficina literária, tendo acesso a um amplo público leitor que vai te dizer se gosta ou não do que você tem a dizer.

Descobri nesse livro que Naomi Novik, que escreve a série Temeraire - que eu amo de paixão e preciso urgentemente terminar - começou escrevendo fanfics da série Mestre dos Mares do Patrick O’Brien, o que faz perfeito sentido, considerando que o personagem de Novik, Laurence, começa O Dragão de sua Majestade como um oficial da marinha britânica no período das guerras napoleônicas e leva essa experiência para o resto da história mesmo quando se torna o capitão de um dragão. Não tenho sombra de dúvidas que as fanfics que ela escreveu com os personagens de O’Brien foram um exercício e aprendizado para a criação de seu próprio universo - um universo que foi esse ano indicado para o prêmio de melhor série no Hugo Awards, um dos principais prêmios literários para fantasia e ficção científica.

Para mim, escrever fanfics foi também uma forma de fazer amizades. Não tenho escrito muita coisa nos últimos tempos além do Coruja, mas na minha época de ficwriter fiz amizade com gente de todas as partes do Brasil, algumas até no exterior; amizades que conservo ainda hoje, mais de uma década após tê-las conhecido. A Jamison destaca no livro essa troca, essa possibilidade de conexões - o fato de que fandoms se reúnem e se identificam como comunidades. Primeiro, comunidades mais localizadas, centradas no fenômeno dos fanzines, crescendo e se globalizando com o advento da internet. Isso faz com que eu possa trocar cartões de natal com uma ficwriter americana e mandar comentários para uma outra, filipina. O quão fantástico é isso?

O volume é dividido em cinco partes, abarcando vários fandoms, começando por Sherlock Holmes e a história do Grande Jogo, na qual os leitores embarcam na narrativa de que os relatos são realmente escritos pelo Doutor John Watson e Doyle é apenas um intermediador para a publicação - além de comentar a publicação de inúmeros contos e pastiches que continuam a sair até hoje (Gaiman escreveu dois dos meus favoritos, um que se passa num universo lovecraftiano e outro uma investigação sobre mortalidade) - passando por Star Trek, Arquivo X, Buffy, a Caça-Vampiros, Harry Potter e Crepúsculo, onde explora o fenômeno da publicação de fics como trabalhos originais (eu achava que era só 50 Tons de Cinza, mas me enganei). Tudo isso acompanhado de entrevistas, ensaios, memórias e debate, muito debate.

Jamison conseguiu escrever um livro didático, divertido, que consegue conversar tanto com o fã como com o curioso e o acadêmico. Uma ótima pedida para refletir sobre literatura, mercado e como essa relação evolui junto com os fãs.

site: http://owlsroof.blogspot.com.br/2017/06/fic-porque-fanfiction-esta-dominando-o.html
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Marcella.Martha 08/08/2019

Eu amo Fanfiction. Existem momentos da minha vida em que só o que eu leio é fanfiction. Já li muita, escrevi poucas, e vira e mexe eu volto atrás e releio as minhas preferidas. Eu poderia escrever um livro inteiro em defesa de fanfiction. Mas esse livro jamais seria citado.

O livro tem até algumas informações interessantes sobre os primórdios da fanfiction, as dinâmicas de alguns mega fandoms e essays interessantes escritos por terceiros. Mas tem muitos problemas. O texto é desconexo, o arco de pensamento não faz muito sentido, algumas partes são extremamente repetitivas e vários pontos importantes recebem só pinceladas mínimas (como a discussão sobre questões de raça e representatividade nas fanfictions e fandoms em geral).

Além disso, a autora tem um approach sobre fanfiction que eu achei um tanto quanto absurdo. Para ela, parece que fanfiction = sexo. As pessoas escrevem/lêem só pra falar de sexo, smut, PWP, bdsm, e por aí vai. É uma fixação com esse ponto que é impressionante. Ela bate na tecla. toda. santa. hora. E, na minha experiência, não é esse o caso. É claro que tem muita gente que escreve sexo, mas nos fandoms dos quais eu já fiz parte na minha vida, o sexo era a parte menos importante das histórias, especialmente as que ficavam mais famosas. Às vezes continha, às vezes não. Mas não era isso que determinava nem o envolvimento com o fandom, nem o nível de interesse nas histórias e nem a fama de quem escrevia. Muito pelo contrário. Minhas fanfictions preferidas da vida nem tinham sexo. Algumas poucas tinham em pequena escala, como pontos do plot, e não só pra lançar isso no meio. Então, não, cara autora. A senhora está equivocada.

Para completar, claramente a tradução do livro é HORROROSA e foi feita por alguém que não conhece o universo das fanfictions e os termos. Tem parágrafos inteiros que são simplesmente impossíveis de entender. Não ajudou muito.

De positivo, eu me senti interessada em conhecer muitos autores/histórias que são citados no livro como sendo os mais relevantes/marcantes de alguns fandoms (dos quais eu nunca fiz parte, sobre coisas que nunca despertaram minha atenção, como Sherlock, Buffy, Arquivo X, CREPÚSCULO). Algumas me surpreenderam positivamente pela qualidade (Sherlock), outras negativamente por serem MUITO, MUITO, MUITO RUINS. Sério. Eu li umas cinco fanfics de Crepúsculo (não consegui terminar nenhuma), todas constando entre as mais marcantes (e de fato, pela minha pesquisa, eram mesmo) e absolutamente TODAS eram horrorosas e estupidamente mal escritas. Incluindo aí a famosíssima Master of the Universe (olha esse título, pra começo de conversa). Sério, fandom de Crepúsculo... Wth?

Enfim. Uma leitura que me interessou pelo contexto, mas o livro é bem ruinzinho.
Bel 05/10/2019minha estante
Queria dizer que sua resenha me ajudou muito, porque eu irei fazer um artigo sobre fanfic, e estava achando que o livro serviria como um embasamento teórico, mas vejo que não seria bem assim. Mas me desculpa incomodar, você tem o livro? Porque queria muito ver pelo menos as páginas que falam sobre a origem das fics, conceitos etc mas confesso que achei o livro virtual bastante caro e o físico não chegaria a tempo :( obrigada desde já e desculpa o incômodo e incoveniência.




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