Compre-me o Céu

Compre-me o Céu Xinran




Resenhas - Compre-Me O Céu


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Tamara 20/06/2017

*Resenha postada originalmente e na íntegra em: http://lovereadmybooks.blogspot.com.br/2017/05/resenha-compre-me-o-ceu.html

"Quase todas as vezes em que retorna da China, seja trabalhando como voluntário nos confins do interior, apanhando um trem comum por vinte horas (ele frequentemente faz isso como uma espécie de lição de casa sobre a China), ou visitando amigos e familiares na cidade, meu filho, Panpan, sempre volta tomado por novos questionamentos. Por que há uma diferença tão abissal entre as grandes cidades e o interior? Como é possível que, entre diversos lugares de um mesmo país, regidos pelos mesmos governantes, haja décadas de distância a separá-los? Como é possível entender as mudanças que estão ocorrendo na China? Quem representa o povo chinês hoje — os funcionários colarinhos-brancos, que circulam entre cidades e aeroportos? Ou os camponeses e os trabalhadores migrantes, que viajam a pé por aldeias rurais sacolejando entre uma e outra rodoviária? Se a China é um país comunista, por que os pobres de zonas rurais não têm apoio na hora do nascimento, da doença e da morte? E, se é um país capitalista, por que a economia é manejada por um governo de partido único?"

A china, o país mais populoso do mundo é imenso em extensão territorial, e também, abarca vários opostos: desde pessoas riquíssimas, até aqueles camponeses muito pobres, que mal possuem o que comer a cada dia. Pensando nessas diferenças, e também no crescimento populacional desenfreado, o governo, no final da década de 1970, resolveu implantar a política do filho único, fazendo com que cada casal fosse permitido a ter somente um filho, a fim de melhorar as condições de vida do país e para poderem oferecer uma melhor infraestrutura, uma vez que a saúde e a educação vinham se tornando cada vez mais precárias. Porém, essa política do filho único se mostrou em muitos momentos revoltante por uma diversidade de motivos, sendo os principais deles o sofrimento, quando eventualmente segundos filhos eram gerados e era necessário matá-los, pois já havia um na família, e também por que o crescimento de toda uma geração, sendo filhos únicos, os tornou pessoas mimadas, egoístas e muitas vezes desconhecedoras da realidade.

"Na verdade, aquele buraco negro de silêncio já havia se insinuado em incontáveis famílias de filhos únicos, todas quebrando a cabeça em busca de ideias, eu incluída, na qualidade de mãe de um filho único. Conforme educamos nossos “primeiros e únicos”, passamos dias e noites temendo algum acidente raro. À medida que crescem, nossos preciosos “primeiros e únicos” parecem criar buracos negros próprios que sugam toda a energia à sua volta, exaurindo a nós, os pais, que havíamos começado cheios de vigor, determinação e ardor, mas sem nos libertar das preocupações. Constantemente perguntamos: “Será que nosso ‘primeiro e único’ está em segurança, e feliz?”. Junto com nossos filhos, escrevemos um “primeiro e único” capítulo nos livros de história da China, um buraco negro de invenção e verdade — a era dos filhos únicos."

Com esses fatores e essa política do filho único chamando cada vez mais atenção, e mesmo se mostrando incompreensível para o resto do mundo, Xinran, uma jornalista chinesa que se mudou para a Inglaterra, resolveu, a partir de suas experiências e contatos com filhos únicos da China, que ela recebeu muitas vezes em sua própria casa, relatar suas histórias em um livro, para que nós, que não conhecemos a diversidade e as regras chinesas, pudéssemos, entender e nos solidarizar com essa geração que não pode experimentar o companheirismo de um irmão, que não pode experimentar a liberdade, por serem sufocados e mimados por seus pais, e que, em muitas vezes não puderam conhecer com propriedade o mundo ao seu redor.

"Penso que os pais de Yao Jiaxin, como a maioria dos pais de filhos únicos na China, depositaram todos os seus esforços e esperanças no pequeno Yao, acreditando que isso era amor paterno e materno. Porém, somente os jovens dessa geração tiveram de carregar o fardo das vidas e das responsabilidades de seus irmãos e de suas irmãs que nunca nasceriam. Eles gozaram de todos os benefícios materiais, do amor e dos cuidados espirituais que deveriam ter sido partilhados com seus irmãos e irmãs nunca nascidos. Por essa razão, tiveram pouca prática com comunicação, amizades, para partilhar, ajudar os outros e receber auxílio em retorno, para a tolerância e para todas as outras habilidades interpessoais básicas que se aprendem ao crescer. Era como se o mundo inteiro fosse só deles. Essa geração de filhos únicos padeceu da falta de todas as experiências partilhadas que se originam do fato de se ter irmãos. Estavam sempre sozinhos em suas idas e vindas, e, assim, inevitavelmente emergiam problemas de personalidade e de falta de compaixão."

Através de uma narrativa sincera, que nos aproxima da autora, Xinran nos insere no seio da China e nos dá muito o que pensar com essa história com um título tão apropriado para o que ela nos demonstra em cada uma das páginas.

"Ontem, depois de passar a noite em claro, lembrei da primeira vez em que fiquei acordada a noite inteira na universidade, na Inglaterra. Ainda me lembro, liguei para você no dia seguinte, eu estava tão excitada por ter virado a noite! Na época, eu ainda não tinha começado a pensar em quantas crianças no interior rural da China passam a noite acordadas porque não têm o que comer ou roupas para vestir. Naquelas escolas em que não há lugar para a infância, quantas delas passam as noites acordadas por causa de provas? E quantos filhos de trabalhadores migrantes passam a noite acordados, esperando por um emprego? Comecei a pensar nessas coisas agora.
Lembro que você me disse que, uma vez que começasse a pensar nos outros e na minha responsabilidade perante eles, terei crescido. Então, no voo para o Canadá, eu não parava de pensar: será que cresci, de verdade?"


[- Minhas Impressões -]

Esse livro foi minha segunda experiência de leitura de alguma obra da autora Chinran, e confesso que gosto muito de conhecer esses pedacinhos da China através dos olhos dessa jornalista tão competente, que nos faz sentir tudo o que ela relata. Assim que descobri sobre esse lançamento, logo me empolguei pois há algum tempo que eu não via novos lançamentos da autora aqui no brasil, e também porque o livro traz uma temática muito interessante, que é essa política do filho único, que parece tão incompreensível para nós, que moramos em um país onde ninguém controla se queremos filhos ou quantos queremos ter. E assim que comecei a leitura, fui logo absorvida para aqueles relatos tão pungentes e tristes, que nos falam de filhos que na maioria das vezes tiveram tudo de material que desejaram, mas que não tiveram sentimentos básicos como aprender a se importar com um irmão, ou um próximo, não aprenderam a dividir, a ter empatia, ou sequer aprenderam a fazer coisas básicas como cozinhar, dobrar suas roupas ou, ainda, sequer sabiam o que era uma geladeira, pois sempre tinham quem lhes servisse e quem lhes fizesse todas as vontades, e todos esses comportamentos eram considerados normais, até o dia em que seus pais resolveram lhes enviar para estudar fora da china, e eles puderam notar, com assombro, a diferença cultural e tudo aquilo que perderam.

O ponto mais positivo da obra para mim, é certamente a diversidade de histórias que a autora nos apresenta. Ela nos mostra desde filhos ricos, até alguns com menos condições, mas todos criados da mesma maneira. Ela nos mostra também filhos que gostariam de se libertar desse poder opressor dos pais, e também àqueles que se sentiam confortáveis com toda aquela atenção e que não compreendiam o porque precisavam efetuar alguma mudança em suas vidas. Além disso, enquanto ouvimos os relatos de cada jovem, somos capazes de conhecer pedaços da cultura da china que sequer tínhamos ideia que existiam, e conhecemos também sonhos simples de jovens que nunca puderam realizá-los. Ainda, gosto de acompanhar a vida da autora através do livro, enquanto ela fala dos jovens e também nos deixa entrever informações do belo trabalho que ela faz sempre trazendo para o ocidente, informações sobre a China, que é tão fechada em termos de informações para os que a desconhecem.

Mas confesso também que o outro livro que li da autora me cativou mais. Esse apesar de muito interessante, em alguns momentos tinha muitas informações irrelevantes que me deixaram um pouco entediada e que me fizeram querer pular algumas páginas. Também, devo alertar que para leitores que não gostam de livros extremamente realistas, com uma escrita um pouco mais densa, essa certamente não será uma recomendação interessante.

Cada filho único da china apresentado me marcou de alguma forma. Alguns, por sua determinação em aprender, em ser e se tornar algo diferente do que eram. Outros, por terem pensamentos tão revoltados, que deixavam de falar com os pais para tentarem se libertar. Mas também, podemos, as vezes, encontrar breves falas dos pais desses filhos, e compreendemos também seus lados, querendo proteger e mimar seus tesouros, pois essa foi a única forma de criação que lhes foi ensinada.
A obra é dividida em dez capítulos, acrescidos de um posfácio e de três apêndices, que esclarecem algumas coisas bastante interessantes. a narração é feita em primeira pessoa, por Xinran, que fala sobre cada um dos jovens que conheceu. Ainda, realizei a leitura em ebook e não encontrei erros.
Recomendo essa obra para leitores que gostam de conhecer histórias reais, e viajar, através do livro, para uma cultura totalmente diferente da que conhecemos, e também, para aqueles que gostam de obras que nos levam a refletir sobre o mundo, sobre nossos papéis nele e também sobre aqueles que pisam na mesma terra que nós mas que são tão diferentes.


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Guta 01/11/2018

Conhecendo as crianças chinesas e expandindo horizontes brasileiros.
Eu, como brasileira, sou muito alheia à realidade da China. Até ler esse livro eu nem notava muito a China, mas a realidade é que este é um país não só grande em território, mas vasto e complexo em sua cultura e relações pessoais. Foi interessante descobrir que os pais chineses mimam seu filho ou filha tanto quanto nós, brasileiros de classe média, mimamos os nossos, mas não como uma resposta análoga da nossa construção como sociedade, mas resultado de uma política que restringe fortemente as expansão familiar no país, além dos vários desdobramentos que a política do filho único trouxe à sociedade chinesa, de maneira bem negativa.
Neste momento em que nos encontramos e os anos que estão por vir, livros assim são mal vistos por uma parcela da população por ter origem de uma cidadã cuja nacionalidade é de um país comunista e o Brasil neste momento está averso a tudo relacionado ao comunismo ou socialismo, por isso leituras assim, que nos levam a outras realidades. E sendo a China um país que restringe a liberdade de mídia de seus habitantes, fica inclusive o aviso para que o mesmo não ocorra nestas terras ocidentais.
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Sílvia.Starling 01/05/2019

Deixou muito a desejar
Depois do excelente As Boas Mulheres da China, fui ávida ler esse outro livro de Xinran, esperando uma obra de igual qualidade, mas... Que decepção! O livro é tão chato que terminá-lo foi, para mim, uma tarefa hercúlea. A autora apresenta uma visão tendenciosa, extremamente negativista acerca dos filhos únicos, mostrando-os como pessoas bizarras, desajustadas, sem noção e sem consideração por seus pais. Ao longo da enfadonha leitura, me pareceu que Xinran propositadamente selecionou os piores exemplares de filhos únicos com quem conviveu, a fim de reforçar a ideia de que são todos problemáticos e anormais... Por fim, reforço: que livro chato!
Crissandreto 11/05/2020minha estante
Todos os meus sentimentos lendo esse livro estão na sua resenha




Priscila.Carrari 23/01/2020

Compre-me o céu
Lembro de ter lido um outro livro de Xinran: mensagen de uma mãe chinesa desconhecida e me recordo que o livro era mais interessante e uma leitura mais prazerosa. Gostei do livro, mas sabe aquele livro que você não vê a hora de acabar? Para poder ler outro? Não é uma leitura que me cativou tanto. De qualquer forma, acho uma leitura válida pois nos possibilita conhecermos a cultura chinesa, tão desconhecida por nós, ocidentais e as consequências da política do filho único para a China.
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Matheus.Andrade 07/07/2020

Radicada em Londres por não conseguir publicar um livro em 1997, a jornalista Xinran parte de um anseio por entender a geração de seu filho e faz uma extensa pesquisa sobre os filhos únicos na China. O livro imerge nos costumes cotidianos da China, nas políticas públicas e nos sentimentos dos pais que superprotegem os únicos herdeiros. E, assim, faz um panorama do quanto a política de controle de natalidade pode causar efeitos colaterais na vida das famílias chinesas.
Ela recolhe o depoimento de 12 filhos únicos que toparam com ela em algum momento e, depois de uma longa troca de confissões pessoais, pergunta o que acham do caso de um filho chinês, de família rica, que matou a mãe e ainda atropelou outra moça porque não recebeu o dinheiro que pediu.
Apesar de ser uma obra jornalística, falta análise aprofundada e global de alguns problemas que a autora julga serem só da China, além do claro discurso meritocrático que ela defende. A autora atribui muitos dos problemas chineses mais à cultura ou a um esvaziamento moral, usando como modelo positivo a vida no Ocidente. Na verdade, quase todos os fenômenos que Xinran descreveu com tanta habilidade no livro são típicos de uma sociedade do capital, e se tornam ainda mais acentuados num período confuso de crescimento desenfreado como é o da China. Ou seja, não importa se é do ocidente ou do oriente, os problemas civilizatórios não são meramente locais, e sim fruto de componentes do sistema capitalista que se manifestam, a seu modo, no país em questão.
Ainda assim, é um mergulho muito raro de se encontrar, não só na vida urbana da China, mas também nas vivências silenciadas que se instalam na enormidade rural desse país que tem quase a metade da população mundial.
O livro é tão abrangente e intrigante que ainda fornece alguns detalhes esparsos sobre a Revolução Cultural que ocorreu pouco antes da política do filho único.
Mal posso esperar pra ler outros livros da autora e conhecer um tiquinho mais sobre a China.
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