Invisível

Invisível Paul Auster




Resenhas - Invisível


11 encontrados | exibindo 1 a 11


Menezes 27/10/2010

Eu invisível por trás dos personagens
http://espanadores.blogspot.com

“A interrupção durou vários meses (meses difíceis, meses de angústia ), e então, certa noite, a solução me ocorreu. Meu ângulo estava errado, me dei conta. Ao escrever sobre mim mesmo na primeira pessoa, eu havia abafado a mim mesmo, havia me tornado invisível, e tornei impossível, para mim, encontrar aquilo que estava procurando. Eu precisava me separar de mim mesmo, dar um passo atrás e abrir espaço entre mim e o meu tema (que era eu mesmo), e portanto voltei ao início da parte Dois e comecei a escrever na terceira pessoa. Eu virou ele, e a distância criada por essa pequena mudança permitiu que terminasse o livro. Talvez ele (Walker) estivesse com o mesmo problema sugeri.”


Creio que acabei de colocar a primeira de muitas chaves e alegorias que este extraordinário romance tem. Há precisamente duas semanas indagava como a obra desse escritor tinha muitos altos e baixos, repetições e outras coisas, entretanto não estava preparado para ler o que até o momento eu considero como sua obra-prima. É lógico que a obra de Auster é bem extensa e me faltam algumas leituras, mas considerando que gostei de um de seus romances mais obscuros e pouco lidos até o momento (Homem no Escuro) fico feliz de saber que todo prestígio que esse romance alcançou lá fora é de fato real, além do que a técnica de intercalar várias camadas e a função metalinguística de suas histórias nunca se fundiram tão bem.


O romance começa no inverno de 1967, um estudante de literatura tímido e retraído conhece em uma festa duas pessoas singulares: Rudolph Born, um francês de meia-idade totalmente blasé, que está lecionando Política Internacional como professor convidado, e sua amante Margot que tem uma atração secreta pelo nosso protagonista, Adam Walker.


Adam está no começo de suas divagações literária cultural e a Guerra do Vietnã corre solta, não pensa muito no futuro mas não sabe o que vai fazer da vida assim que a faculdade acabar. O ambíguo personagem de Born lhe faz uma proposta irrecusável para editar uma revista literária nos Estados Unidos. Born pagaria e Walker comandaria o periódico. Após uma compreensível relutância ele aceita e entra na vida de Born com o projeto, de quebra ainda tem um caso com Margot. Entretanto o francês é muito instável o que acaba acaba levando o relacionamento dos três a ruína e à um clímax de filme de suspense na página 67 onde acaba a primeira parte do livro. Somente este enredo resumido ao máximo já daria para se ter um romance divertido em mãos, contudo Auster, nesse livro, foi genial.


A segunda parte faz aquilo que o autor americano adora colocar em muitas de suas histórias: a metalinguagem. O livro que já estava sendo divulgado como um relato da adolescência do autor, ganha uma outra significação ao criar uma cisão entre a primeira e segunda parte da história. Ficamos sabendo que a primeira parte é o manuscrito da vida do mesmo Adam Walker, que 40 anos depois está com leucemia e trata de colocar suas memórias sobre o ano principal de sua vida em uma autobiografia em três partes. A primeira Outono em quem ele narra o encontro traumático com a pessoa de Rudolf Born é entregue ao antigo amigo e famoso escritor James Freeman, que narra essa parte da história. Adam está morrendo e quer ver Jim logo para pedir conselhos, pois está com um bloqueio com a segunda parte do livro. Então Jim dá a sugestão do trecho acima o que deslancha a segunda parte do livro, que trata do período de férias em que viveu com a irmã. A relutância em narra em primeira pessoa é logo entendida quando chegamos ao cerne de uma questão delicada: O incesto. Que é narrado com o lirismo de um René de Chateaubriand e a linguagem pudica de um Henry Miller. A voz narrativa ainda está próxima da primeira pessoa, contudo não é um eu falando de si e sim um eu falando de “você”, como uma hipótese. Lembro de já ter lido este recurso antes mas não lembro aonde. Exemplifico:


“Seis anos de pois você está sentado na cozinha do apartamento que divide com sua irmã na rua 107 Oeste. é o início de julho 1967, e você acabou de dizer a ela que preferiria ficar em Nova York(…)”


Não contente em abordar um tema tabu de maneira tão crua e interessante Auster continua enveredando um passo a frente de seu leitor. Quando Jim vai finalmente encontrar seu antigo colega, ele chega tarde demais. Adam padeceu e o romance está perdido. Só resta os fragmentos do que seria a terceira parte a vingança falha de Adam contra Rudolf em Paris, que Jim reconstrói na terceira pessoa. Essa educação humana que Adam recebe em 1967, então está parcialmente completa. Poderia ser um romance de formação, contudo há quarta e última parte do romance, em que o relato tão verídico de Adam, segundo aqueles que o conheciam, tem alguns pontos falhos, e a irmã de Adam desmente completamente à parte da relação incestuosa. Estaria se protegendo? Ou Adam inventou a história? Jim começa a procurar pelas opiniões dos que ainda vivem em 2007 e a grande verdade é que a Verdade com V maiúsculo é inatingível como fica claro com a história de uma coadjuvante que encerra o romance, questionado todos os pilares que o ergueu.


É um livro que começa como um relato profundamente pessoal, passa a uma segunda pessoa para contar um caso polêmico, migra para uma terceira e por fim destrói questiona essa mesma história. O processo estrutural da narrativa é o de apagar Adam da mesma, seu ápice e dar a voz uma personagem que vai nos dar outras impressões sobre o “vilão” de toda a história (Born). Ao final você se pergunta “O que é Invisível”? Adam Walker que desapareceu da narrativa ou alguma coisa mais amorfa que você sente que interliga tudo, mais é tão implícito que evapora no ar. Justamente nessa quarta parte você ainda tem mais divagações sobre o que é a arte de escrever uma história e quais artimanhas são utilizadas para encobrir a verdade dentro de uma ficção, de forma que ela só se torne um eco da verdade. E o que seria?


O livro narra a formação de um homem enquanto narra sua morte, esse é o caminho da vida nos dois sentidos (Walker), ao mesmo existe o antagonista que é visto por Adam como o mal encarnado e tem todos os tipos de sentimentos. Seria ele realmente mal ou o ponto de vista adotado deu a ele esse estigma, dele nasce todo conflito da narrativa (Born). E nos dias atuais um escritor formado tenta reconstruir o quebra-cabeça dessa autobiografia (Freeman). Os nomes aqui, assumidamente falsos por parte do escritor me parecem significar um símbolo de cada personagem. Seria loucura dizer que no âmbito mais profundo, os três seriam a mesma pessoa se disfarçando, um escritor tentando contar sua história usando todos os seus lados, se mascarando e se tornando invisível dentro da narrativa. É uma interpretação perigosa mas possível, afinal os três personagens masculinos no fundo tem a mesma busca, a verdade ou sua ideia de verdade, o que acaba não os levando a nada. Para mim ao final da leitura ficou claro que isso não é um romance de amor, não é uma trama de vingança, não é um romance de formação e não é uma autobiografia. Pode flertar com tudo isso, mas para mim este romance é sobre a destruição do eu, a incapacidade de discernir onde termina uma verdade e começa a invenção. Suas diversas camadas tornam impossível separar fatos da ficção e é por isso que o achei totalmente fantástico.


P.S. Nada ver com o livro em si, mas creio que a capa de romance mais bem bolada do ano.
comentários(0)comente



jota 20/08/2012

Visíveis mudanças de rumo
A partir de cenários acadêmicos e literários desenvolvidos em Nova York e Paris, somos envolvidos numa história onde o acaso (como quase sempre nas histórias de Paul Auster) desempenha importante papel: um encontro, numa festa, entre um estudante americano (Adam Walker), um professor universitário suíço (Rudolf Born) e sua companheira francesa (Margot). Situação que aos poucos vai se transformar numa relação tumultuosa.

A história começa em 1967, nesse encontro, depois prossegue com um acidente trágico envolvendo Adam e o professor (por acaso um assalto), e avança por quarenta anos, com algumas voltas no tempo. Além de diferentes tempos narrativos, também são postos em cena outros personagens: Jim (um amigo de Adam), Gwyn (a irmã de Adam) e Cécile (enteada francesa de Rudolf) – todos que conheceram Adam ou tiveram algum relacionamento com ele.

Uma das partes mais perturbadoras da história é uma relação incestuosa envolvendo o rapaz e sua irmã Gwyn. Mas as cenas de incesto são trabalhadas por Auster com competência e parecem perfeitamente naturais, tinham de acontecer mesmo, por todo o background que ele havia colocado em foco anteriormente.

E além do mais isso é ficção, não é um relato pessoal, não precisamos ficar chocados, ainda que esteja presente certa voltagem erótica e algumas partes de nossos corpos sejam designadas por nomes que nem sempre usamos na vida real. Se os personagens não fossem irmãos, até poderiam passar pelos amantes de O Amante de Lady Chatterley, tomando um pouco de liberdade com o livro.

Mas a relação incestuosa – que ocorreu não apenas uma, mas se repetiu diversas vezes -, teria acontecido de fato ou seria apenas fruto da imaginação de Adam, que tinha a ideia fixa de se tornar poeta e escritor? E o acidente que presenciou, envolvendo Rudolf e um jovem assaltante negro, lá atrás, em 1967, terminou da forma que Adam contou até mesmo à polícia, ou a versão do professor é que é a verdadeira? Mais: podemos ter certeza de que aquele primeiro encontro entre eles, naquela festa – onde tudo começou -, foi casual mesmo ou foi intencional (a pergunta tem a ver com o passado do professor, que era muito mais do que isso)?

Quer dizer, para quem aprecia reviravoltas e mudanças de rumo em ritmo acelerado, Invisível é desses livros que prendem demais a atenção e deixam o leitor sempre em suspense (embora não seja um livro policial), querendo saber o que virá em seguida. A escrita de Auster ajuda muito nisso, pois é sempre clara, sem empolação.

Um crítico americano importante acusou Auster de mesmice, por sempre utilizar um intelectual (aqui Adam Walker) como personagem principal. Ora, eu aprecio demais esses livros e filmes onde aparecem personagens assim (lembro, no cinema, especialmente de A Sociedade dos Poetas Mortos, mas aqui o filme incensado é A Palavra, dirigido pelo dinamarquês Carl Dreyer, em 1955, que, por sorte ou acaso, vi recentemente): sempre acabo aprendendo algo ou conhecendo um ou outro artista interessante através deles. Lendo e aprendendo sempre, não?

De volta aos livros, Busca o Meu Rosto, de John Updike, p. e., tem um importante personagem baseado na maior estrela do expressionismo abstrato americano, Jackson Pollock, e é também um painel da arte do pós guerra do país. Em Invisível temos um pequeno desfile de poetas e escritores e várias referências a Bach.

Mesmo com a implicância do tal crítico, para a qual os fãs de Auster não deram pelota, o livro vendeu muito nos EUA e foi traduzido para diversas línguas, como sempre ocorre com suas obras. Mas Invisível não é mesmo nenhuma obra-prima, claro. E embora termine de forma abrupta, que pode desagradar a muitos leitores, é sempre um livro interessante, não resta dúvida.

Lido entre 15 e 19.08.2012.
comentários(0)comente



Dri Viana 08/05/2020

Paul Auster é genial. Ao mesmo tempo que constroí personagens com tanto cuidado os destroí sem remorsos. Adam, a figura principal desse livro no ínicio vai se tonando coadjuvante da própria história.
comentários(0)comente



Monalisa (Literasutra) 04/03/2012

Para ler comendo pipoca
Um protagonista escritor é o que se espera de um romance de Paul Auster, e é exatamente o que nos é dado em “Invisível”. Mesmo assim, de polêmico a enigmático, “previsível” com certeza não está na lista de adjetivos atribuíveis à trama. Com histórias que se encaixam e, ao mesmo tempo, nascem umas das outras, o autor surpreende pela precisão e inteligência.
Através de quatro narradores de tempos narrativos distintos, são contados os acontecimentos da primavera e verão de 1967 da vida do jovem universitário Adam Walker, assim como suas repercussões. Tudo começa quando o rapaz se vê inserido num triângulo amoroso, depois de cativar involuntariamente a simpatia do professor Rudolf Born e de sua mulher, Margot, durante uma festa.
Mesmo desconfiando de que a paixão dele pela moça (e vice-versa) seja produto da personalidade manipuladora de Born, Adam faz de tudo para manter seus encontros sexuais com Margot, o que o leva a transitar entre Nova Iorque e Paris. Além disso, a relação confusa com sua irmã Gwen (motivo para toda a polêmica do livro), somada à conjuntura da época (Guerra Fria e oposição crescente à Guerra do Vietnã), é suficiente para lhe dar o que lembrar até o fim de sua vida, 40 anos depois.
Em 280 páginas, “Invisível” acumula, deliciosamente, suspeitas e revelações, resultando em uma história com muito mais que apenas um clímax. Tudo tem um quê de dúvida e mistério e a narrativa é quase ocular, fazendo jus ao lado cineasta de Auster. Aliás, as citações de filmes têm presença garantida nos romances do autor, e o filme da vez é “A Palavra”, de Carl Dreyer, o qual Adam assiste com a irmã Gwen em um momento decisivo.
comentários(0)comente



Sandra :-) 12/09/2010

Um início promissor...
Comecei achando o livro ótimo. Tanto que fui só folhear e acabei engrenando na leitura. Achei muito bem escrito e, até o final da primeira parte, impossível de largar. Um verdadeiro “vira páginas”. Excelente!

Na segunda parte, entretanto, as coisas mudam. A meu ver as cenas de incesto em nada melhoram a história e parece que estão ali apenas para chocar, para mexer com tabus. Para mim de nada adianta o discurso de que são “tabus ancestrais cultivados pelo Homem”. Podem dizer que foi descrito de forma poética, natural, bonita ou que for, continuo achando chocante e repugnante cenas de sexo entre irmãos. Não conseguiu me aliciar.

Se quiserem me tachar de retrógrada e pudica por conta disso, que seja, mas não fiquei confortável com a leitura.

Gostaria de dizer que o livro é sensacional e que só peca por essas, vamos dizer, cenas modernosas, mas não posso. Há momentos bem desinteressantes e outros em que volta a prender a atenção. Com isso, somos tentados a continuar lendo, o que é um mérito.

O livro é bem escrito, mas os personagens não têm tanto estofo quanto prometem.

(Atenção: isso não é spoiler! Várias notícias na imprensa sobre esse livro expõe em letras garrafais o tema do incesto. Até mesmo o autor fala sobre isso nas entrevistas, porque isso não é o tema central do livro! Aparentemente apenas as duas resenhas que eu vi antes de ler o livro não mencionavam o fato...)
comentários(0)comente



facco 23/05/2011

um comentário pra não esquequer
é o primeiro auster que leio (já tinha visto - duma maneira maravilhosa - em blue in the face) e confesso que ainda não consegui chegar num parecer, talvez só numa opinião mal formada. sem dúvida o livro tem um puta mérito pela metalinguagem, que chega a ser metametalinguagem. tem também por construir diálogos - interrompidos por diálogos internos e algumas outras descrições narrativas - sem marcações de travessão ou mesmo de pontuação de personagem. quanto ao enredo, hum, até agora permanece a dúvida se ele bundamoleou ou se, ok, a vida é assim meio normal mesmo, o clichê é confortável.

e, bueno, acho que é isso por enquanto. nem mesmo isso é uma opinião. talvez seja melhor escrever o comentário em terceira pessoa. vai que sai.
comentários(0)comente



fgfonte 09/11/2011

Livro magnifico. A Historia de um homem comum, com uma vida simples, mas cheia de memorias marcantes. O livro nos faz lembrar da inutilidade da maior parte de nossas vidas. Ums poucos momentos extraordinários sao o que a justificam. Quando descritos pela pena de um grande escritor esta vida se enche de significados. Uma leitura facil e envolvente.
comentários(0)comente



Marc 14/11/2011

Literatura Invisível
Nossa tendência a avaliar o mundo a partir da subjetividade tende a destruir o real intuito da literatura. Geralmente quando vemos comentários sobre livros, se referem aos sentimentos do autor ao escrever e o tanto de sua própria personalidade que deixou entrever no texto. Paul Auster sabe da inglória tarefa de ser escritor quando o mundo parece saído de um “sonho bom” de algum psicanalista (sonho em que todos se curvavam a sua sabedoria e começavam a buscar a cura para suas doenças emocionais). Quero dizer que ciente disso talvez, Auster escolheu trabalhar em uma boa parte de seus romances com o recurso da metalinguagem.

Assim, como na própria sessão psicanalítica, a linguagem se desdobra e volta-se sobre o cerne do problema, fazendo com que o referir-se a ele não seja mais um avanço em direção à cura, mas uma espécie de tomada de fôlego e novo mergulho. Quer dizer, há um momento em que o desespero toma conta e descobrimos que de pouco vale falar sobre as coisas. A cura está longe ainda, talvez em um terreno totalmente diferente... Auster adora brincar com essa tendência de avaliar o texto como um discurso sintomático. Embora, seja preciso dizer, a elaboração não faça mais do que novamente inserir o problema em outro nível...

Afinal, Invisível fala dos desejos mais íntimos que todos possuímos, dos desejos que todos possuímos e não podemos realizar, segundo a psicanálise? Acredito que não. Nem chega a ser um livro de mistério, policial, ou qualquer outro gênero que se queira encaixá-lo. Auster escreve apenas sobre o ato de escrever. Desde seus primeiros livros, seu único tema é a escrita e como ela pode se inserir num mundo desprovido de sentido (um referencial como foi Deus um dia).

Particularmente, chega a ficar repetitivo esse recurso metalingüístico. Mas é o único que Auster dispõem para tentar refletir sobre a escrita. Lembrando que a rigor não chega a ser exatamente uma metalinguagem porque o autor não retira o status da ficção (para fazer isso, ele precisaria demonstrar que tudo aquilo que lemos em um primeiro momento não passava de elaboração — olha a psicanálise voltando... —; mas tudo se passa ainda no nível do terreno circunscrito pelo próprio livro desde o começo). Enfim, não há o recurso de tornar os personagens tridimensionais, dando uma “realidade mais real a eles” (que seria fazer parte de nosso mundo). Mas como não conheço outro termo para esse recurso, que consiste em construir níveis de elaboração, sem que jamais se chegue à nossa realidade, me refiro a ele como metalinguagem.

Por isso, me parece que Auster adora se divertir com essa constante descoberta do íntimo do autor dentro de seus livros. É como se ele dissesse: poderia estar aqui e aqui também, mas vou dizer mais uma coisa que me torna consciente das questões e, no entanto não resolve nada. Daí ele estar preocupado apenas com o significado da escrita, onde está a escrita se só sabemos ver o autor? Se nossa busca obsessiva pela pessoa privada, aquela com sentimentos e paixões nos faz ver tudo que ela faz como uma necessidade doentia de se manifestar, de gritar a plenos pulmões quem é, o que fica da literatura?

Invisível.
comentários(0)comente



Marfesi 04/04/2013

Acho que Paul se perdeu um pouco...
No começo o enredo me fez pensar que vinha uma história muito boa. Mas acho que Paul Auster se perdeu um pouco no meio do caminho e escreveu uma história apenas OK. O fim de decepcionou um pouco.
comentários(0)comente



Cassionei 20/05/2015

Por trás das sombras
Ser invisível é uma arte, principalmente para quem escreve. O escritor pratica a literatura para tirar as pessoas da letargia, mas, muitas vezes, não encontra leitores que o leiam, tampouco vê suas idéias repercutirem. Por conseguinte, ele se fecha no seu mundo, tornando-se mais invisível ainda. Não é o caso de Paul Auster, escritor de renome, cuja obra sempre desperta interesse, seja através de comentários favoráveis, seja através de críticas severas. Seus livros não deixam ninguém indiferente.

Ele sentiu também, no início da carreira, a sensação de que ninguém o lia, como retratou em Da mão para a boca, sua autobiografia, e colocou um pouco disso no personagem de seu último romance, cujo título é justamente Invisível (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 280 páginas). Adam Walker é um aspirante a escritor e tradutor de poetas franceses, assim como foi Auster. No início da narrativa, o vemos em Nova York, na primavera de 1967, mais precisamente na universidade de Columbia, onde estuda Literatura. Lá, encontra o professor francês Rudolf Born e sua namorada Margot. Ansioso por alavancar sua carreira, aceita a proposta de Born para criar uma revista literária bancada por este, não sem antes se envolver com sua mulher. É o inicio da caminhada, como denota seu nome (walker é caminhante, em inglês), em direção ao inferno pessoal. Assim como Dante, que tentou encontrar Beatriz no Inferno da Divina Comédia (aliás, Born é sobrenome de um poeta que aparece segurando sua cabeça decepada na obra de Dante) ou Orfeu, que buscou Eurídice no mundo dos mortos, Walker não mede esforços para ser alguém.

Essa descida ao inferno é narrada em um manuscrito inacabado que chega, 40 anos depois, às mãos do escritor James Freeman, ex-colega de Adam na universidade. Nesse inferno, aparece o assassinato cometido por Born, que ficou impune. O episódio afastou Walker do professor e incutiu-lhe o desejo de lutar contra as injustiças, levando-o a estudar Direito (“Adeus, literatura. Bem-vinda a realidade sensível.”) É doloroso para ele também lembrar o caso incestuoso com sua irmã, Gwin, aliás, um dos momentos mais bem escritos por Auster, ao descrever com sensibilidade a cena de sexo entre os dois. O relato autobiográfico é uma tentativa de prestar contas com esse passado e com ele próprio, pois pior do que ser invisível para os outros é ser invisível para si mesmo.

Os ingredientes costumeiros da literatura de Paul Auster estão mais uma vez no cardápio: personagens escritores, o acaso, Nova York, Paris e narrativas dentro de outra narrativas. O cinema, da mesma forma, marca presença (lembrando que Auster é roteirista e diretor também). As citações cinematográficas, além de contribuir para a interpretação das histórias, instigam o leitor a procurar apreciar as obras mencionadas. No caso de Invisível, o filme A palavra, de Carl Dreyer, assistido pelos irmãos num dado momento, é uma ótima sobremesa. Como na película de Dreyer, o romance de Paul Auster é um jogo de claro e escuro, pois deixa para o leitor a tarefa de procurar a luz e desvendar, através das sombras, o que está invisível no enredo.

site: http://cassionei.blogspot.com.br/2010/05/invisivel-de-paul-auster-na-minha.html
comentários(0)comente



Paulo Sousa 25/01/2020

sobre invisível
Lista #1001livros ?
Título lido: Invisível
Título original: Invisible
Autor: Paul Auster
Tradução: Rubens Figueiredo
Lançamento: 2009
Esta edição: 2010
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 280
Classificação: 4/5
?????????????
"Adeus, Margot. Adeus, Cécile. Adeus, Hélene. Quarenta anos depois, eles têm a mesma consistência que os fantasmas. Todos são fantasmas agora, e Adam Walker logo caminhará entre eles? (pág 217).
.
a experiência de ler paul auster, pelo visto qualquer um dos vários livros seus, tem servido para entender como a literatura tanto pode salvar como aniquilar. aniquilar no sentido de que um livro que se aventure pelos mais profundos veios dos mecanismos humanos é uma viagem intensa, repleta de sacolejos e surpresas que, afinal, deixa estragos.
.
os volumes que dele li (a trilogia de nova york, sunset park), apesar de vergonhosamente ínfimos, agora acrescido o notável ?invisível?, foram suficientes para provar que o sujeito tem grande estofo, habilidade em lidar com a palavra e a emoção, e que sua literatura leva o leitor a se aproximar das grandes - e cruas - verdades da própria significação de ser.
.
em ?invisível? é possível enxergar na vida do personagem principal, o estudante adam walker, as costumeiras experimentações de auster ao tentar destrinchar a essência de ser se utilizando de várias vozes e diferentes recortes temporais. no livro em tela, walker, então aprendiz de poeta, conhece um homem mais velho, inteligente e irrequieta obstinação que lhe lança um improvável convite de ambos criarem uma revista literária. numa noite, presencia um crime cometido por born, seu estranho mecenas e a partir de então se desencadeia toda a ação do livro, que, somadas à voz de walker estão as do seu melhor amigo jim, sua bela irmã gwyn, e de céline, uma paixonite antiga quando em seus dias em paris.
.
auster se esmera em mostrar um walker que aos poucos desaparece, vai se tornando invisível, quando antes fora tão obstinado em mostrar a verdadeira face de born, acaba sendo eclipsado pelas falas daqueles a quem confiou seus escritos onde pode assentar toda a história da sua ruína e posteriormente, sua não existência. o livro mistura suspense, um provável amor incestuoso, uma sôfrega busca pelo sexo fácil nos braços de margot, uma misteriosa francesa e amiga de born, a dupla filiação de born aos serviços secretos francês e russo, e as ?adaptações? que jim e cécile vão dando aos vagos deixados no não publicado livros de walker.
.
?invisível? merece, de fato, estar na lista ?1001 livros para ler antes de morrer?, não por meramente representar um momento na literatura mundial e em especial, na americana. não por sua temática, que eu não diria original, mas pela habilidade de auster em misturar cultura, literatura, o próprio exercício de escrever a temas que giram em torno da própria necessidade de contar a nossa própria verdade. vale!
comentários(0)comente



11 encontrados | exibindo 1 a 11