A infância do Brasil

A infância do Brasil José Aguiar




Resenhas - A infância do Brasil


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Paulo 22/10/2020

É muito legal podermos falar sobre alguma HQ que transcende o seu status de mera diversão e entretenimento e de alguma forma alcança outros públicos. Mais do que isso se torna praticamente uma literatura de entrada, podendo ser tranquilamente usada em escolas e demais instituições de ensino. Esse é o caso de A Infância do Brasil, uma webcomic criada por José de Aguiar e que recebeu uma edição física pelas mãos da Avec Editora, que sabiamente percebeu o potencial da publicação. O resultado final é uma HQ que vai tratar de quinhentos anos de história do Brasil e possibilidades e reflexões para o futuro.

O roteiro segue um esquema de sketches, em que cada capítulo compõe uma cena que vai tratar de algum tema específico. Cada capítulo se passa em um século diferente da colonização portuguesa até chegarmos ao século XXI. Não se prenda muito a personagens porque esta não é a ideia da HQ. Se formos entendê-la detidamente, o autor apresenta um tema (exploração dos índios, aculturação, desigualdade social, a cultura do materialismo) e a partir daí ele cria uma narrativa com dois lados opostos. Dentro dessa contradição/dicotomia o autor vai tentar nos mostrar o que mudou e o que se manteve ao longo da história do Brasil. Em alguns capítulos vamos ver uma narrativa mais visual sem muitos balões de diálogo enquanto em outras temos extensos textos para abordar o tema de uma maneira compreensível. Não há complicação ou dificuldade para entender o que está acontecendo; a linguagem é simples e pode ser entendida por pessoas de qualquer idade.

Já a arte, eu admito que ela não me agradou tanto. O traço do José Aguiar é normal, que me lembrou bastante o traço do Chris Bachalo com personagens que chegam a ser até caricaturas de si mesmos. Ou seja, são desenhos que visam explorar o exagero. Só que esse traço mais caricatural acaba funcionando em detrimento de algumas cenas que exigem mais expressividade e drama na forma como elas são construídas. Gostei do fato de que ele se preocupa com frente e fundo de cena. Se o leitor parar para reparar no que acontece ao fundo vai pegar vários easter eggs interessantes. Ele empregou uma palheta mais clara (salvo em um ou dois capítulos quando a cena se passa à noite) com o emprego de uma cor creme e um verde-folha. Os primeiros capítulos são os melhores para mim no quesito arte porque o autor preferiu empregar a narrativa visual para contar sua história. A quadrinização é padrão com quatro a oito quadros, sendo que em alguns momentos ele vai usar menos para dar uma sensação de iminência ou ênfase em algum assunto.

É triste nos pegarmos pensando em o quanto a sociedade brasileira pouco evoluiu ao longo de quinhentos anos. Enquanto alguns países amadureceram a sua sociedade através da discussão e do conflito, o Brasil tem ranços que datam do século XVI ainda. O patriarcalismo está presente no interior com o machismo inerente ao homem que considera sua parceria um mero objeto a ser mostrado para os seus pares. Ou o preconceito étnico que continua com tudo no Brasil e chegou até a aumentar nos últimos anos com essa onda conservadora que nos assola. A narrativa de José Aguiar é muito feliz em nos demonstrar esse forte paradoxo. A desigualdade social continua em alta e ver cenas como a do último capítulo em que temos uma mãe preparando o enxoval de seu filho que está prestes a nascer em comparação ao pequeno menino de rua que vende balas é um soco no estômago de qualquer um que acha que o Brasil é o país do futuro. A imagem acima é ótima para mostrar as diversas crianças presentes na história e o quanto elas não tem oportunidade de crescimento graças a uma falta de esforço institucional de ampará-las e lhes dar uma chance.

Um segundo ponto importante é em o quanto as pequenas histórias nos ajudam a quebrar diversas certezas que temos acerca da história do Brasil. Alguns temas presentes não costumam ser trabalhados na escola como o das crianças enjeitadas e o da falta de fiscalização em relação às leis abolicionistas. Por conta de um currículo que busca valorizar aquilo que o governo deseja que assim o seja vários temas são deixados de fora. Outro que quase nunca é comentado na escola é o do sincretismo religioso, tão presente até os dias de hoje em hábitos e falas nossos. Algo presente logo no primeiro capítulo ao nos mostrar uma mãe que tem a seu lado uma parteira e uma xamã de sua vila realizando pequenos rituais que ajudariam na concepção de seu filho.

No país do jeitinho e da criatividade, o brasileiro continua a se adaptar com aquilo que lhe é fornecido. Não luta por seus ideais porque prefere pensar em si mesmo. Nossa democracia representativa nada mais é do que uma perpetuação de um governo que atua em prol de si e de seus pares, deixando o resto da população à margem. Através das cenas em comparativo percebemos o quanto as coisas apenas mudaram de época e sua essência permanece a mesma. Pouco se fez para tornar nossa sociedade mais avançada. Algo que vai desde a jovem negra sendo punida por ter deixado folhas sendo levadas ao vento ou a mãe que mora junto de seu filho atrás das grades. O que mudou? No que avançamos? São fortes questionamentos que a leitura de cada uma das cenas nos deixa.

A edição da Avec está muito bonita e conta com um prefácio da Mary del Priore, uma importante pesquisadora de história colonial brasileira. Ao final temos artigos históricos contextualizando cada capítulo e comentando sobre os principais acontecimentos do período. Um prato cheio para qualquer historiador poder usar em sua sala de aula. Um material perfeito nesse quesito, apesar de não ser um quadrinho perfeito. Como elemento informativo, acho essencial para estar em qualquer biblioteca escolar.

site: www.ficcoeshumanas.com.br
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lou 18/10/2020

a história se desenha
antes de mais nada: prefácio perfeito em defesa dos quadrinhos que até hoje são associados a um status de infantilidade que põe tanto a infância quanto esse tipo de literatura em posição de demérito; "por que, leitor? porque, ainda pouco explorado, os quadrinhos são capazes de provocar emoções, animar uma narrativa, inspirar sentimentos, explicar situações e 'fazer a história do Brasil'. e, mais importante, desenhar é contar. e contar é fazer compreender." mary del priore simplesmente de parabéns por essa colocação fantástica.
fiquei apaixonada pelas ilustrações e arrepiada do começo ao fim com os contrastes nem-tão-contrastes-assim entre a história e os episódios que encontramos no nosso cotidiano. leitura tão rápida quanto forte e extremamente necessária. se não leu, se faça esse favor.
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Alana 09/07/2020

Acabou comigo, apenas. Muito triste ver que ainda existem tantas marcas antigas que ainda machucam hoje em dia.
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mateus_fmarques 14/05/2020

Não gostei muito
Acho que não estava na vibe de ler essa HQ. Confesso que ela tem uma história bem interessante que conta desde os primórdios do Brasil através dos olhas de uma criança, isso torna a HQ bem tocante, mas acho que eu não estava no melhor momento para lê-la.
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Rech 08/05/2020

Realidades
Diversos cenários comuns de cada um dos séculos que o Brasil presenciou, levando a reflexões quanto as mudanças sociais que atingiram os povos.
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JANA 30/04/2020

Recomendo
É intenso e verdadeiro te convida a mergulhar em uma profunda reflexão
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Adriana.Santos 29/04/2020

Uma HQ que acabou comigo!
Esta linda HQ traz, desde o século XVI até o século XXI a história do Brasil e da infância no Brasil.

Ela mostra como mudamos em muitos aspectos no decorrer da história, e também, como existem coisas que por mais que o tempo passe, continuam se repetindo.

Foi um soco no estômago ver situações tão tristes, que infelizmente, estão acontecendo neste exato momento que escrevo esta resenha.
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Laryssa 29/04/2020

A nossa história
Em quadrinhos é visto como a infancia no Brasil foi criada desde o séc 16 e como se relaciona aos dias de hoje. É chocante, é triste, é cruel e cheia de cicatrizes, é a nossa história.
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Acervo do Leitor 31/01/2018

Pontos de vistas se alteram constantemente partindo da premissa em que se muda o ponto de observação. Realidades nunca são tão reais quanto aquelas em que vivemos, e nunca vivemos todas. Logo, sempre observamos a vida através de grossas lentes bem particulares e peculiares. Quando acrescentamos o tempo, as distorções podem ser ainda maiores. Esse pequena obra tenta melhorar essa percepção. Guiando-nos pelo Brasil, através de suas muitas faces ao longo do tempo, provamos um pouco do que essa terra tropical tem tanto a oferecer. E o melhor, através dos lábios e olhos mais sinceros que existem… os de uma criança.

“Porque quando você nasceu eu estava acorrentada na mesma senzala fedida em que meus pais (…) eu e os seus irmãos nascemos escravos! Mas ninguém tem o direito de fazer o que quiser de você. Podem nos vender, espancar, por para trabalhar a ferro… Mas você não, meu amor! Nunca se esqueça, Ana… você nasceu livre!”

Portugal chegou. Mas ninguém pediu sua vinda. Trazendo a “civilização” e sua distorcida cruz de Cristo ele veio para ficar e alterar o nosso rumo. Adultos e pequenos que outrora corriam livres e nus pela selva tombam frente ao contato com o homem branco. Trocas comerciais e existenciais, nomes alterados, falsas profissões de fé e uma boa dose de sífilis. O índio nunca foi tão branco e o branco nunca foi tão selvagem. Terra, riquezas e almas sugadas. Restou a lembrança, a falta de identidade e a necessidade de migrar. Portugal se foi, mas fincou suas raízes. O tempo passa e a escravidão deixa marcas mais profundas que as causadas pelo aço dos grilhões nos pulsos e chicote nas costas. O julgamento pela cor e a ganância de dominar outro ser humano não se esvai com tempo ou leis. O Brasil negro sofreu tanto quanto o amarelo. A exploração do mais fraco continua latente, e ninguém mais frágil que as crianças. Algumas nasceram escarvas, algumas se tornaram “escravas” das decisões dos seus pais. Um Brasil jovem com dores tão antigas.

“Quando cheguei aqui (Brasil) não tinha quase nada. Mal se viam casas ou panos até para cobrir nossas vergonhas. Mas tinha minha esperança de vencer! De enriquecer…”

Forçado ou explorado. Quando não há jumentos para trabalhar, o homem é capaz de transformar crianças em máquinas de trabalho. Em um Brasil da era Vargas “Leis trabalhistas” tentam contornar a exploracão. Mas um país que precisa de tantas leis ao longo do tempo para desvirtuar caminhos sinuosos só prova que nasceu torto. Terra que explora, terra que não da oportunidades, terra que oprime, terra desequilibrada e desigual. Em meio a sinais de trânsito você encontra os que batem no vidro dos carros e os que teclam nos vidros dos smartphones. Qual o país real? Quem são os filhos do Brasil afinal?

“Pai. Por que eles não têm casa? Na TV todo mundo tem casa!”

SENTENÇA
Está pequena obra abrange de forma delicada todas as percepções acima. José Aguiar (autor) com seus traços carismáticos, e quase caricatos, nos apresenta uma “colcha” de retalhos históricos de algumas faces marcantes do Brasil. O foco sempre são as crianças, o que elas passaram e ainda passam, assim como a indiferença por parte de tantos. Não espere uma obra simpática e feliz. Ela é real e crua assim como nosso país, não aquele que é pintado em aquarelas mundo a fora, mas aquele que é escrito com lágrimas. Uma obra tensa, curta e envolvente.

site: http://acervodoleitor.com.br/a-infancia-do-brasil-resenha/
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Cilmara 31/01/2018

Entendo conceitos...
Racismo estrutural? Preconceito estrutural? Machismo estrutural?

Já não é de hoje que ouvimos esses conceitos a torto e a direita, mas será que realmente sabemos o quão intrínsecos são os problemas sociais, políticos e culturais da nossa nação?
Nessa hq viajamos no tempo, do séc. XVI ao XXI, conhecendo um pouco da formação da sociedade brasileira, mas observando as crianças, acompanhamos as mazelas enfrentadas por elas ao longo desse período.
Crianças indígenas, negras, de rua...crianças que nascem em celas...são vários contextos importantes muito bem amarrados e descritos de forma bem objetiva. O desenrolar é dinâmico, fisgando o leitor até o final.
Fiquei impressionada com a organização do roteiro, bem definido, dividido linearmente e sempre deixando ganchos para as próximas partes.
A arte também merece elogios, é competente, principalmente para que os pequenos, que lerão esse material, entendam tudo mais facilmente.
Recomendo fortemente!
À título de conhecimento, é uma obra bem instrutiva!
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lubento 01/01/2018

Que HQ incrível!
Que HQ senhores! A infância do Brasil é uma HQ maravilhosa, tanto do ponto de vista histórico, quanto do ponto de vista artístico. As ilustrações são incríveis e nos transportam pra história do Brasil através da infância. Pensar em como a sociedade trata as crianças e as situações relacionadas da elas é uma forma de revisitar a história brasileira com um olhar para como tratamos as nossas crianças é um caminho para estimular visões críticas sobre a própria sociedade.

O encadeamento das histórias é incrível e um dos recursos utilizados é a repetição do nome das personagens. Ao final, José Aguiar faz uma amarração de tudo que foi dito, fazendo um grande retrato da infância no Brasil.

Pra quem se interessa por história e HQs com forte crítica social, A infância do Brasil é uma boa pedida.
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Orlando 25/10/2017

A Infância do Brasil, de José Aguiar
Um professor de História há muitos anos falou que um povo que não conhece sua história, sua trajetória, suas origens e seu passado está destinado a cometer os mesmo erros no presente e no vindouro futuro.

Durante toda a leitura de A Infância do Brasil do quadrinhista José Aguiar, esse pensamento me acompanhou a cada balão de fala, a cada quadro, a cada personagem e suas pequenas histórias ao longo de 5 séculos de Brasil…

Mais do que um belo material de quadrinhos nacional, A Infância do Brasil é uma bela viagem no e através do tempo, assim como também é um convite para refletir sobre quem fomos, quem somos e quem seremos como pátria, como nação, como povo.

Empreendido com maestria por Aguiar a partir do consistente trabalho de pesquisa histórica resultante da consultoria feita pela historiadora Cláudia Regina B. Moreira, a HQ dialoga com o surgimento de nosso país a partir de suas primeiras “vilas” incrustadas no meio da selva densa e verdejante, avançando até os dias atuais, quando tudo ainda está envolto numa selva, dessa vez de concreto, vidro, aço e indiferença social, política e cultural.

Dividido cronologicamente nos 5 séculos de nossa história, A Infância do Brasil pontua cada um desses séculos a partir da perspectiva de como se dá o papel das crianças na sociedade brasileira.

A crueldade e a precariedade da colônia em seus primeiros passos é a marca do primeiro século/capítulo da obra.

Essencialmente patriarcal, a colonização portuguesa avançou terreno adentro e tanto escravos como povos indígenas cruzaram caminho com o “homem branco” que, ora invasor, ora senhor de escravos, espalhou não só sua religião, mas também suas sementes que marcaram a miscigenação de nosso país.

Miscigenação essa nada pacífica, nada romantizada em sua quase totalidade. A preferência por um filho homem era fundamental – uma regra ou exigência – a mortalidade das crianças e mães uma constante. Pessoas e coisas não eram (não são) tratadas de formas muito diferentes.

A firmeza no traço de Aguiar é fundamental para transmitir a densidade e peso dessas coisas atiradas contra nós na arte e no texto.

No séculos seguintes a coisa não melhora nada. As missões religiosas se embrenham ainda mais na mata em busca de almas para converter ao catolicismo europeu. Os jesuítas desempenham papel fundamental no processo colonial e ter como foco as crianças indígenas para a conversão era algo muito mais prático, ao menos na teoria.

Menos carga cultural, menos dogmas a serem quebrados e novos a serem implantados nas mentes dos pequeninos. Trazidos das aldeias já com sintomas das doenças dos “brancos”, muitos não tinham sequer condições de sobreviver realmente, os que conseguiam se manter de pé, era questão de pouco tempo até buscarem outros rumos ou buscar novamente os caminhos da mata até suas aldeias.

No século seguinte as ruas ganham destaque quando filhos indesejados ou bastardos, vistos como “uma boca a mais” na grande maioria dos casos, frutos de adultério ou de estupros, eram deixados para adoção nas casas de acolhimento ou rodas de misericórdias para serem recolhidas e levadas para serem criadas até os sete anos de idade.

Depois disso deveriam trabalhar para custear sua estadia ou tentar a sorte nas ruas, sujeitos a toda sorte de intempéries naturais e humanas. Violência, furto, fome, falta de higiene. Essas eram a realidade das crianças enjeitadas no terceiro século de nosso país.

No século seguinte a expectativa do fim da escravidão dava fortes sopros de esperança para a população de escravos do país. Os filhos dos escravos, na letra, nasciam livres. Mas ficava a questão: como uma criança poderia ser livre e deixar seus pais no cativeiro e sobreviver sem eles no mundo de fora das senzalas?

Um impossibilidade que legou ao escravagismo as crianças nascidas sob o signo da Lei do Ventre Livre. Humilhados, ofendidos, massacrados pelos donos de seus pais, essas crianças não tinham nenhum direito, nenhum lugar para onde ir ou sustento para. As injustiças sociais ainda oprimiam o povo negro trazido para a colônia.

Um negro adulto não era visto como gente, uma criança negra não era vista como uma criança, nem mesmo que a letra da lei disse que era livre já no ventre de sua mãe.

No começo do século XX surge uma nova figura na história do pais: o trabalhador urbano. Durante a revolução de 1930 de Vargas e a crescente industrialização de nosso país marca um ponto de virada na estrutura social.

Não são mais só os homens que ocupam os postos de trabalho: mulheres e crianças passam a dividir com estes pais e maridos a dura tarefa de ocupar os postos de trabalho em condições sub-humanas.

Os baixos salários ou a ausência dos homens no seio familiar levava a força de trabalho da mulher para fora do lar, dando-lhes a tão injusta jornada dupla de trabalho. A cultura americanizada começa a invadir o imaginário popular com mais força e os ventos da guerra sopram forte sobre todas as nações do século XX.

Muito dessa época atravessou o século XX e chegou até os dias de hoje marcando profundamente nossa sociedade e a postura de nossa sociedade.

No jovem e indefinido século XXI a realidade social é forte variante. Desemprego, crises econômicas, pobreza extrema, concentração de capital cada vez maior na mão das minorias, as lutas de classe estão intensas e evidentes em outros sentidos: escolas particulares caríssimas, escolas públicas sucateadas e crianças vistas como um investimento potencial para o futuro de um lado, crianças vivendo do lixo alheio do outro.

A realidade dos primeiros anos do século XXI estão ainda está se delineado e a conscientização de que algo precisa melhorar é latente em várias camadas sociais. Os adultos de hoje precisam lutar para garantir o presente e o futuro de nossas crianças.

A INFÂNCIA DO BRASIL | CRÍTICA, HISTÓRIA, REFLEXÃO
A Infância do Brasil é um material que se torna forte por si mesmo, não precisa muito para o leitor perceber a veia crítica que o material de Aguiar nos impõe. Forte e consistente, o texto nos convida constantemente a refletir sobre a construção de nossa sociedade e da posição de nossas crianças nesse processo.
Enquanto as profundas desigualdades de nossos processos históricos persistirem, quase nada de futuro será garantido para o próximo século de nossa história.
Ao aliar a consistência de uma pesquisa histórica com um traço firme e forte, Aguiar reforça uma sensação persistente de que nossas crianças serão sempre um elo fraco em nossa corrente social. Com personagens expressivos em vários sentidos, a arte de Aguiar é elegante e tem aquele quê característico do desenhista mais undergrounds, o que funciona a contento para o tom da obra.
Se o traço e o texto estão em perfeita sintonia, vale dizer que são as cores que roubam a cena realmente. Em tons que remetem ao sépia, a colorização de A Infância do Brasil é belíssima e realmente nos trás a forte sensação de deslocamento temporal no percurso ao longo da HQ.
Nas cenas da mata fechada, são as cores que nos lembram da densidade de nossas matas e florestas com os fachos de luz atravessando aqui e ali as frondosas copas das árvores. Tudo muito lindo e clareando a medida que o tempo em séculos avança até os dias atuais. Meus parabéns ao colorista Joel de Sousa pelo trabalho irretocável sobre a arte de Aguiar.

Para além do entretenimento com conteúdo inteligente, A Infância do Brasil tem o imenso e rico potencial de ser uma obra didática no sentido literal, podendo ser tranquilamente levada para as salas de aula e utilizada como material de apoio para discussões nas aulas de História, Antropologia, Filosofia, Sociologia etc. Pontos extras com absoluta certeza.

Com acabamento de primeira, A Infância do Brasil tem capa cartonada de ótima gramatura, mas senti falta apenas de uma orelha na capa para ajudar a evitar o “canoamento” da mesma. O papel do miolo é couché fosco de 115g.

Se você é um leitor que curte HQs de modo geral, vai sem dúvidas embarcar na proposta de A Infância do Brasil e seu texto inteligente e pertinente. Com auxílio da arte de Aguiar e das cores de Sousa, A Infância do Brasil vale investimento não só por essas características, mas também por mostrar que é possível ao nosso mercado de HQs embarcar em sua própria História e encontrar nela substrato rico em nutrientes para contar outras ótimas histórias menores, mas não menos importantes e pertinentes.

A Infância do Brasil de José de Aguiar está disponível no catálogo da Avec Editora desde agosto passado.

A INFÂNCIA DO BRASIL | JOSÉ AGUIAR
É artista, arte-educador formado pela FAP (Faculdade de Artes do Paraná) e quadrinista premiado com obras publicadas no Brasil (Vigor Mortis Comics, Ato 5, Revolta de Canudos, Dom Casmurro em Quadrinhos, MSP50, entre outras) e França (série Ernie Adams).

Publica as tiras Nada Com Coisa Alguma no jornal Gazeta do Povo e também as tiras Folheteen, no Guia Curitiba apresenta (publicação da Fundação Cultural de Curitiba). É um dos criadores e curadores do Cena HQ, evento que realiza leituras dramáticas de HQs no Teatro da Caixa.

Foi curador e cocriador da Gibicon – Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba. Seus mais recentes livros publicados foram Folheteen – direto ao ponto e Reisetagebuch – Uma viagem ilustrada pela Alemanha.

A Infância no Brasil pode ser adquirida na loja online da AVEC editora e na Amazon.

A INFÂNCIA DO BRASIL POR JOSÉ AGUIAR
Em A Infância do Brasil, o premiado quadrinista José Aguiar lança seu olhar sobre a História do Brasil não pela perspectiva dos grandes eventos, mas pela das pessoas comuns, pelo viés da infância.

Nela o autor atravessa nossa história cheia de contradições, abusos, descaso, abandono, entre outras situações que insistem em não ficar para trás. A Infância do Brasil é sobre refletir o presente a partir do nosso passado para, quem sabe, projetarmos um futuro melhor.

Esta edição ainda conta com prefácio da historiadora Mary del Priore e textos finais sobre o contexto histórico de cada capítulo.

AVEC EDITORA
A AVEC EDITORA foi criada em 2014 para trazer o melhor da literatura, principalmente da literatura fantástica, para seus leitores. Não queremos apenas editar livros, desejamos estar próximo dos leitores e dos autores.

Descobrir novos talentos da literatura e também trazer o que há de melhor no mundo. Compartilhar emoções e ser uma peça do imenso quebra-cabeças da vida de todos.



site: http://www.pontozero.net.br/2017/10/22/quadrinhos-a-infancia-do-brasil/
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Matheus Machado 14/09/2017

Resenha | A Infância do Brasil
José Aguiar traz em A Infância do Brasil um relato ficcional que caminha com a realidade da história do nosso país, mas acima de tudo é impossível ler os primeiros balões da HQ sem ao menos pensar que esta história e a sua arte, belíssima diga-se de passagem, são a cara do Brasil.

A Infância do Brasil traz, acima de sua pesquisa histórica muito bem elaborada, uma riqueza cultural invejável. Se por um lado a intenção do texto dos quadrinhos seja mostrar a realidade de nossas crianças ao longo dos tempos, por outro lemos uma história realmente “da gente” que faz parte da nossa cultura e do nosso folclore, que apesar de fantasioso ainda alimenta muito dos desejos da nossa realidade.

Apesar dos elogios, que cabem a obra como arte, é inegável que o retrato das crianças seja triste e real. Porém, a intenção realista fica visível não apenas por apresentar a vida difícil de parte das crianças do nosso país, mas torna-se ainda mais rica e verdadeira quando há o contraste com aqueles que tem condições reais de ter uma boa vida, enquanto alguns, que para muitos não chamam a atenção, trabalham pelas esquinas e sinaleiras das grandes cidades do Brasil...

site: http://matinecinetv.com.br/2017/07/26/resenha-a-infancia-do-brasil/
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Gisleine Nunes 10/08/2017

Perfeito!
Embasamento histórico incrivel! Sensacional mostrar as faces do Brasil ao longo dos séculos pelos olhos das crianças! HQ mais que perfeita!
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Taverneiro 05/08/2017

O nosso passado ainda é mais presente do que você imagina...
Essa HQ foge um pouco do que eu estou acostumado a falar por aqui. Ela é sentimental, crítica e sublime. Esse é um quadrinho que merece ser conhecido! Escrita e desenhada pelo José Aguiar e lançada pela AVEC Editora!

Ela não tem uma história exatamente linear e nem protagonistas como estamos acostumados. Ela conta a história em diversas linhas do tempo diferentes e, em cada uma delas, existem alguns personagens para ilustrar certas situações, mas o plano geral é o que importa, não o individual.

Eu acho que vale dizer que o grande protagonista dessa HQ é o Brasil, e lentamente vamos acompanhando o desenvolvimento dele durante essa grande narrativa que é a nossa história. E o principal, sempre através do ponto de vista do mais sensível e importante na nossa sociedade: o das crianças.

Temos aqui uma divisão em seis capítulos, cada um se passando em um século da nossa história e retratando uma realidade mais difícil daquele período.

Nascer, o primeiro capítulo, começa no século XVI no começo da colonização do Brasil, acompanhamos o nascimento de uma criança em uma terra bruta e cheia de promessas.

Trocar, o segundo capítulo, mostra o século XVII, acompanhando a catequização de índios e o tratamento duro que o esse povo teve aqui nesse país e, infelizmente, continua tendo.

No terceiro capítulo, Delegar, vamos para o século XVIII, onde vemos o abandono de uma criança e a dura vida nas ruas.

No século XIX tínhamos um período onde a escravidão estava começando a cair no mundo, mas os homens no poder ainda faziam de tudo para manter a escravidão, principalmente esmagando o espírito de luta dos negros. É isso que vemos no capítulo quatro, Reter.

No capítulo cinco, Responsabilizar, vamos ao início do século XX, com o aumento das indústrias brasileiras e a exploração de emigrantes e pobres que não tinham outra opção além de se submeter para ter o que comer.

E por último temos o capítulo Perpetuar, que se passa no século XXI e mostra um panorama geral de como esse século nasceu com muito barulho pelos direitos humanos e igualdade, mas ainda assim muita coisa contínua a mesma, uma herança dos séculos passados. O novo século ainda é uma criança com muitas possibilidades para o seu futuro.

Ao final de cada capítulo temos um vislumbre da época atual e de como aquela temática tão barbara ainda afeta a nossa realidade.

A arte dessa HQ é cartunesca, o que da um tom lúdico a tudo. Escolha interessante se tratando do mundo das crianças o mais retratado aqui. O texto é simples e profundo. Ele não narra mais do que o necessário, deixando a cargo das situações apresentarem todo o subtexto por trás das palavras não ditas. O texto e a arte estão de parabéns! ^^

Além disso, temos também um apêndice escrito pela historiadora Claudia Regina B. Moreira, que contextualizou cada momento histórico mostrado nos capítulos. Esse apêndice é uma aula de sabedoria e história e complementou muito bem o resto dessa HQ, fazendo dela uma obra completa para qualquer um que deseja se aprofundar um pouco mais nas origens desse país.

Essa HQ é uma obra sublime, onde temas pesados que acreditamos estarem só no nosso passado são revelados ainda intrínsecos em nossa sociedade e na nossa maneira de pensar. Uma obra para pensar, refletir e, principalmente, melhorar, tanto quanto pessoas quanto como um país.

site: https://tavernablog.com/2017/08/01/a-infancia-do-brasil-de-jose-aguiar-resenha/
Joao.Vitor 06/08/2017minha estante
Não sei como não passou no meu radar, parece ser sensacional. Ótima resenha, cara ;)




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