DORMINDO NO VERBO

DORMINDO NO VERBO Alexandra Vieira de Almeida




Resenhas - DORMINDO NO VERBO


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Penalux 07/11/2017

As técnicas do verbo
O desafio do poeta é extenso, porque a poesia transmite nas palavras uma moral última, capaz de representar no conjunto de poucos versos e estrofes uma ideia completa, sublime e etérea. Quando Alexandre Vieira principia-se em sua poesia, ela aceita arduamente o trabalho de cravar o poema como se a espremer pedras, retirando assim a lírica mais profunda, que vem mesmo nos materiais mais resistentes.
Alexandre surpreende pelo conjunto de técnicas, por demais enriquecedoras, sua poesia é esculpida com metáforas, “manhã de calamidades”, “cartografia de existências”, é criadora de personificações, “ o sol vespertino / que esculpe a memória dos astros”, “ as letras mordem / as frutas saborosas da primavera”. As imagens enriquecem a sua poesia altamente lírica, trazendo aos sentidos uma ampla gratificação, vinda do prazer, de se criar intimidade com a poesia de Alexandra.
Com uma poesia belamente lírica, Alexandra constrói suas imagens casando toda a sua técnica em um belo acorde poético, os temas como o seu interior, são metaforizados pelo exterior, “ Abrir crateras no meu corpo soltará / aves de rapina prestes a amordaçar o vazio / alimento-me do voo em flama / que arranca do meu peito a chama do seu sexo”, nesta poesia com uma complexa metáfora a poeta desnuda o seu interior como a paraleliza-lo com um céu aberto, no qual as aves são as chamas retiradas do peito da poeta.
Uma poeta madura, mestre em técnicas, sensível e criativa, nesta jornada pelas líricas mais ousadas, mais surpreendentes o leitor encontrará um movimentado riacho para mergulhar seus sentidos.

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Krishnamurti 02/09/2017

Dormindo no verbo
Foi lançado recentemente pela Editora Penalux o novo livro de poesias da escritora Alexandra Vieira de Almeida. Em “Dormindo no verbo” estão reunidos 67 poemas divididos em três blocos “quase temáticos” a saber: “Dormindo no verbo” com 44 poemas, “Vida e morte cerebrina” com 15, e “Verbo em chama” com 8 poemas. Um livro muito bem pensado, muito bem arquitetado, e logo diremos porque. A bela edição é enriquecida com um verdadeiro estudo (à guisa de prefácio – 17 páginas), escrito por Igor Fagundes que a certa altura afirma: “É verdade que, para dialogarmos com os poemas de Alexandra Vieira de Almeida, precisamos de uma atitude crítica que se disponha a superar a perspectiva racionalista, analítica, para sermos alcançados pelo 'oco' e 'turvo' da poesia, o qual nos desafia a pensar o que não sabemos, tal como quer a poeta ao confessar que sua boca procura os sons do invisível”. E é então que o leitor se depara com esses versos do primeiro poema “Soterra”.
“ Cascos de vida / lança que se parte no astro / Soterra a fera, na selva / monstros faiscando luzes gigantes / Na cor dos lábios / uma prisão de infectos insetos / Azul que corta, na face / o verbo que tremeluz / no papel da terra / Soterra imagens na fímbria / das páginas brancas / Terra que esconde pequeninos seres / Na haste da planta a gana da semente / a esmiuçar gestos do sol”.
Repetimos: Terra que esconde pequeninos seres / Na haste da planta a gana da semente.
Na medida em que avançamos na leitura, sentimos que algo lateja naquela poética a demonstrar que a criação literária não se dá pela livre e espontânea vontade de um sujeito, ela é sempre uma emergência, uma irrupção involuntária e arrebatadora. Aquilo que levou Clarice Lispector a escrever em “A descoberta do mundo”: “Não, não estou me referindo a procurar escrever bem: isso vem por si mesmo. Estou falando de procurar em si próprio a nebulosa que aos poucos se condensa, aos poucos se concretiza, aos poucos sobe à tona – até vir como num parto a primeira palavra que a exprima”.
A leitura de Alexandra Vieira de Almeida nos leva a fazer conexões com o pensamento de Gilles Deleuze (1925-1995), um filósofo que se diferencia da maioria dos filósofos da tradição do pensamento por manter vivo um diálogo com a literatura que vai se formando como um rizoma (sistema aberto onde os conceitos são relacionados a circunstâncias e não mais a essências), a florescer para todos os lados. Em termos de linguagem, seu valor está em falar de uma máquina abstrata da língua que revela a cada instante, um devir revolucionário dentro da própria língua, acabando com as dicotomias, fazendo o discurso direto banhar-se constantemente no discurso indireto, nos mostrando assim, que falar da linguagem é nos envolver em uma teia que vai se embaralhando nela mesma a nos arrastar para toda complexa malha que povoa o universo linguístico.
Este parece ser o convite que autora nos faz de aventurarmo-nos em uma viagem que se inicia para além da sintaxe. Sairmos dos sulcos costumeiros da linguagem e fazermos da língua, um elemento fundamentalmente expressivo no mundo. É entrando nessa máquina abstrata da língua e enlouquecendo com ela que se pode utilizar a linguagem para obedecer e fazer obedecer e não acreditar nela. Deleuze em seu textos incita-nos a fazer da linguagem um estilo de vida, onde seu abrigo, sua morada somente passa a existir quando nos abrigamos nela de forma indireta. Esta a travessia corajosa que Alexandra assume com toda coragem, torcendo e destorcendo a linguagem, criando uma nova língua dentro da nossa língua, diria Proust, uma espécie de língua estrangeira, de algum modo. O regime semiótico se dá na linguagem criativa, embaralhada. Sabemos que o escritor “inspira-se” no vivido, parte do seu eu, das suas observações e emoções, dos seus estados perceptivos e afetivos. Mas para ultrapassá-los, para adicionar outro tipo de percepções e sentimentos que excedem todas as vivências, para extrair do vivido inéditas “sensações” e dar-lhes uma vida própria, fazê-las viver a sua própria vida.
E é então que ele concebe visões; verdadeiras ideias que o escritor vê e ouve nos interstícios da linguagem, nos desvios da linguagem. A literatura cria tais visões. Ela cria-as evidentemente com a linguagem, é esse o seu material exclusivo, mas eles não acontecem na linguagem: são-lhe exteriores, ocorrem num limite exterior da linguagem. Não existe fora dela, antes é o seu fora, a sua ponta. São as criações-acontecimentos da literatura, a transformação da linguagem, quando confrontada com os seus limites, numa outra “matéria” não lingual, num silêncio das próprias palavras preenchido por visões e audições. Como se, levada a língua em que se escreve ao limite das suas possibilidades, ela entrasse numa espécie de transe ou de delírio. E para isso é preciso um método, um conjunto de procedimentos característicos da criação literária, que varia de um autor para outro, ou que cada autor tem que reinventar por si. Com efeito, para “exteriorizar” a linguagem, o escritor necessita de fender as palavras, de ferir a sintaxe da sua língua, de torcê-la ou distorcê-la.
No capítulo “Vida e morte cerebrina”, há uma evidente referência à obra de João Cabral de Melo Neto “Morte e Vida Severina”, onde um duelo dramático existencial é travado entre essas duas pontas inexoráveis da existência para causar uma profunda reflexão da experiência humana. Assim a criação do poeta pernambucano que a autora carioca transfigura e nos leva a refletir no que tão bem definiu Igor Fagundes: “o desafio de todo e qualquer homem é chegar ao nada que nele tem vigência desde sempre. Assim, pode vir a ser o que já é: uma travessia criativa, doação do nada”... “Para deixar o nada acontecer, é preciso que a consciência, a tal lucidez cerebrina, vacile, morra, mas provisoriamente”.
E esta observação nos leva aquele pensamento de que a arte, consiste sempre em “passar pelo finito para reencontrar, restituir o infinito”. Não há arte literária sem essa travessia, sem ser essa travessia, essa passagem do horizonte vivido, essa entrada numa vida outra. De que são exemplo as viagens pelas sensações em Fernando Pessoa, em todo o Pessoa, em todos os heterônimos, os seus devires-outro (“sentir tudo de todas as maneiras”). O objetivo da literatura é pois para Deleuze, “partir, evadir-se, traçar uma linha” de fuga, sem que isso signifique fugir da vida mas, ao invés, fazer a vida fugir, escapar às suas limitações impostas quer pelo eu quer pelo estado presente do mundo.
Voltando à estrutura do livro de Alexandra na sua construção - por assim dizer -, macro poética:
“Dormindo no verbo” possui 44 poemas, alguns com títulos que dão boa medida das temáticas dominantes: “a vida roubada de sonho, de mobilidade, de risco, de renovação”. A vida tresloucada na qual nos perdemos enquanto seres humanos. São exemplos os poemas: “Envelhecimento” “Dormindo no verbo”, “Violência”, “Ruídos”, “Versos que poeiram”, “Virtual”, “Automatismo”, “Mercadoria”, “Desejo”, “Projeto Brasil” e “A cidade de sal”.
Vejamos o poema “Mercadoria”:
Metal banido pelos céus / As notas indigestas / se estampam nas vitrines / subindo e descendo / na corda-bamba / Olhos se seduzem / pela mercadoria / em fatias de ilusão / O mendigo, alheio a tudo / esculpe sua face no céu”.
Na segunda parte da obra “Vida e morte cerebrina” há 15 poemas que estão prensados numa tensão terrível entre a “vida” ou o que erroneamente pensamos que ela seja, e o colocar-se numa postura ativa de afinal SER. São exemplos extremamente bem realizados os poemas “Morte cerebral”, “A vida da mente”, “Loucos e poetas”, ”Metáfora” e “Folha imaterial” que transcrevemos:
“Esta folha cá do poeta / Feita de substância imaterial / Que os ventos levam para outro canto / É criação da minha vida mental / O sentimento se inebria deste vinho / Sorve o líquido tinto / Que instila dor e prazer / O poeta vive o sonho dos viventes / Eles naufragam em terras vizinhas / Próximas às estações da morte / A névoa encobre meus pensamentos despertos / Para renascer no sol vidente / Que vislumbra profecias oníricas / A folha imaterial voa / Por entre as dobras do tempo.”
E o último capítulo “Verbo em chama”, onde temos apenas 8 poemas – e veja-se como se afunila a quantidade de poemas -, para acontecer aquilo de que falou Clarice Lispector, não com um poema específico, mas com o livro como um todo: .. a nebulosa que aos poucos se condensa, aos poucos se concretiza, aos poucos sobe à tona – até vir como num parto. Observe-se que o poema “Dicionário erótico” é uma tradução perfeita do que escrevemos até aqui.
“As palavras são pernas e braços / Se escondem nos cobertores da noite / Vagam pelas páginas enlouquecidas / Em êxtase assombram realidades / Substantivos, verbos, adjetivos / Deslizam nos corpos nus / Traduzem o segredo dos amantes / As folhas se tecem de rosas / A cama página um mistério / Polissemia de vozes / Gritos no escuro silencioso / Espasmos nas dobras das letras / Vinhos sorvidos nos versos / A entrega de nexos / Encaixes amplexos / Palavras inaugurais / Se mordem no gozo vermelho / Línguas indecifráveis / Se molham no horizonte da madrugada / O reverso da palavra / É a conversa balbuciante / O murmúrio incontável / Biblioteca infinita / A guardar a fragilidade dos seres / Na dança perpendicular das vírgulas / Reticências sem ponto final / O sol abre o dicionário erótico / Fazendo aparecer a nudez das palavras”.
Eis a excepcional “arquitetura” poética dessa obra. Alexandra Vieira de Almeida, que é doutora em Literatura Comparada (UERJ), professora, crítica literária e poeta, sabe muito bem que literatura não é simples ficção, produção de entidades fictícias ou mera representação da cosmovisão de um autor em determinado poema. Tudo isso são os meios, mas não o fim ou o superior objectivo de escrever. Como todos os tipos de arte, a literatura é vida, mas não no sentido de dar “uma forma (de expressão) a uma matéria vivida”, de recriar a vida real das pessoas (ou do poeta) como vida imaginária. Ao contrário. Criar vida, inventar linhas de vida possíveis, abrir à vida novas possibilidades onde língua, fala e palavra estão tomadas em um mesmo plano, em um mesmo fluxo, em contínua intermodulação. É o que tentou Alexandra Vieira de Almeida neste seu último livro e o conseguiu em excelente medida. Muito bem; uma escrita que se esforça por fugir aos códigos e se engajar nos fluxos do real.


Livro: “Dormindo no verbo” - poesias de Alexandra Vieira de Almeida. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP., 2016, 130p.

ISBN 978-85-5833-009-1
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