A coisa mais próxima da vida

A coisa mais próxima da vida James Wood




Resenhas -


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Aguinaldo 19/11/2017

a coisa mais próxima da vida
Há seis anos li o bom "How fiction works", de James Wood. Fiquei bastante impressionado com a capacidade de síntese do sujeito e com suas ideias sobre crítica literária. Ele é jornalista de formação, inglês, mas radicado há duas décadas nos Estados Unidos. É bastante respeitado - e claro - temido. Nunca fez pós-graduação, mas dá aula em Harvard. É colaborador recorrente de vários jornais e revistas literárias americanas e inglesas. Parte de sua notoriedade vem da forma como entende seu ofício, preferindo destacar o impacto estético, os sentimentos provocados, as epifanias e associações que o leitor infere diretamente das obras literárias, ao invés de utilizar aparatos acadêmicos, analíticos, ou submeter-se a comprometimentos ideológicos (esse tipo de crítica ideologicamente direcionada é muito comum, sobretudo em um país marginal, como o Brasil). Para ele a boa crítica é uma "redescrição apaixonada", o bom crítico alguém que lê os livros com o entusiasmo de quem os escreveu. Em "A coisa mais próxima da vida" estão reunidos quatro ensaios curtos, que originalmente foram proferidos como palestras, passaram pelo filtro da comunicação direta com o público. Três deles são de 2013 (parte das Mandel Lectures da Brandeis University) e uma de 2014 (em um evento do British Museum). O tom é bem pessoal. Wood fala sobretudo sobre os livros que leu e releu, que o ajudaram a desenvolver sua técnica crítica, mas também fala algo de sua biografia, de seus anos de formação, suas escolhas, sua lenta imersão no mundo dos livros. As três palestras Mandel da Brandeis podem ser acessadas livremente. Vale a pena assisti-las. Em "Por quê?" ele compara a experiência de ler ficção com a experiência de refletir sobre a morte de uma pessoa que conhecíamos bem. A vida inteira daquela pessoa é apenas parte de nossa memória, pois a pessoa não existe mais, parece inventada, assim como um personagem de ficção é apenas um capricho, fruto das escolhas estéticas e humor do autor. Em "Observação séria" Wood fala sobre o controle do tempo e dos detalhes que precisamos aprender a observar para alcançarmos compreender completamente uma história (e que os autores precisam aprender a produzir para tornar suas histórias críveis e interessantes, literariamente válidas). Em "Fazer uso de tudo" ele fala das diferenças entre a crítica literária acadêmica e as críticas práticas (selvagens, diria eu), valoriza o bom uso das metáforas, da elisão necessária tanto na produção artística quanto na crítica. Na última palestra, "Desabrigo secular", Wood fala ao público, inglês, de sua experiência de quase exílio nos Estados Unidos, de como vários bons autores (Sebald, Naipul, Coetzee, Kadaré) alcançaram reproduzir literariamente o estranhamento que é a compreensão de um mundo novo, não aquele confortável onde nascemos e nos criamos. Essa habilidade, a de integrar-se ao novo e sentir saudades do passado, é similar aquela que o leitor tem ao conhecer aos poucos o mundo literário de um livro novo que lê. Interessante. Mas é tempo de mudar de assunto, ir ao Shakespeare, aos portentos que Lawrence Pereira, José Francisco Botelho e José Roberto O'Shea traduziram recentemente.Vale!
Registro #1236 (crônicas e ensaios #219)
[início: 25/10/2017 - fim: 30/10/2017]
"A coisa mais próxima da vida", James Wood, tradução de Célia Euvaldo, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 14,5x23 cm., 125 págs., ISBN: 978-85-504-0480-6 [edição original: The nearest thing to life (New England/USA: Brandeis University Press) 2015]

site: http://guinamedici.blogspot.com.br/2017/11/a-coisa-mais-proxima-da-vida.html
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Henrique 23/11/2018

Recentemente, tem se colocado em xeque a função da crítica. James Wood segue um caminho de indistinção, em que o tom crítico jamais abandona as experiências e as metáforas, ou seja, para James Wood, é necessário a reescrita como modelo crítico viável.

Neste livro, James Wood potencializa a crítica como receptáculo de experiências justapostas. Várias alusões a várias obras são necessárias (afinal, o tom ensaístico predomina) para estabelecer uma proximidade com o objeto da ficção e o exercício da crítica.

Referências a ficções são referências, obviamente, a toda a história da humanidade- a fundição do massacre histórico no indivíduo. Wood discute os movimentos utilizados pelos autores, como eles precisam pressentir uma construção nos objetos de análise e de como os leitores acompanham essa construção, que é o olhar alheio e o próprio olhar de quem lê.

Falando de passagens físicas, o mundo que se instaura é o do pressentimento, de reconstrução de objetos e compartilhamento de experiências estruturais que marcam o indivíduo.

Há certamente uma paisagem em que tudo isso se encontra. Dizendo sobre toda essa bagagem, Wood reescreve sua própria experiência- crítica e literária. As memórias de infância, a mudança para os EUA, o funeral do irmão de um amigo- as lembranças também são marcadas pela leitura, numa espécie de intercâmbio fictício (afina, lembrar é reescrever).

Finalmente, apesar das ressalvas de que se trata dum livro teórico, o leitor pode se engajar na leitura de uma experiência ativa, que se transforma enquanto é escrita. Vibra um mundo de intercâmbios sob a, sempre fluída, constelação das histórias.
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Gisele.Dalmolin 30/01/2020

A observação séria de um crítico literário
James Wood aborda as semelhanças da literatura com a “vida real” no livro “A coisa mais próxima da vida”, publicado em 2017 no Brasil pela SESI-SP editora. Na obra, o crítico literário divide em quatro capítulos algumas das palestras que ministrou na Universidade Brandeis (Estados Unidos) e no British Museum (Reino Unido). Sua paixão pela literatura e pela ficção parece ter começado desde muito cedo. Em “Por quê?”, Wood começa o capítulo lembrando sua história com a ficção: ele cresceu em um lar religioso, mas o lado intelectual foi mais forte em sua criação. Ao esconder seu ateísmo, James começa a entender como as mentiras funcionam no mundo real e também no ficcional. Nesse último, as mentiras “eram usadas para proteger verdades significativas” (WOOD, 2017, p. 16). Além disso, a ficção traz as ideias de crença no que sabemos que não é verdade, de compaixão por pessoas “não reais”, de roubo da privacidade dessas mesmas “pessoas”. Com essa pequena introdução, pode-se perceber de onde surgiu a paixão do crítico pela literatura.
O autor traz também a ideia de morte atrelada à ficção. Segundo ele, a vida inteira da personagem está dentro do romance: há um começo e há um fim da história. Com nós, seres “reais”, nossa verdadeira história só fica evidentemente exposta no momento de nossa morte, quando os convidados de nosso funeral relembram nossos grandes atos, nossa personalidade, momentos em que falhamos... Esses seriam os detalhes da trajetória de cada um, que só se tornam relevantes com o nosso fim.
Ainda sobre detalhes, em “Observação séria”, James Wood ressalta aqueles momentos que passam despercebidos aos olhos dos leigos, mas chamam a atenção do escritor. Nesse momento temos outra visão da morte: a morte dos detalhes. Com cada vez mais pressa, os indivíduos sem a veia artística estão tirando a vida das coisas mais banais, o que é resgatado pelos artistas. E aqui acredito que não se trata apenas do escritor: o músico capta os detalhes do som, o escultor destaca os detalhes da forma e o pintor se preocupa com os detalhes da cor. Os detalhes ganham vida novamente nas mãos desses seres artísticos.
Hoje crítico da New Yorker, James Wood dedica um capítulo à crítica literária em “Fazer uso de tudo”. A crítica acadêmica (que começou com a análise de textos religiosos) não pode ser vista como suficiente no meio literário, já que quem a faz geralmente não é o escritor. E quem melhor que um escritor para julgar o texto literário? A crítica exercida por escritores seria uma “redescrição”, quase uma reescrita do texto. Um músico não usa da música para fazer uma crítica. Os escritores fazem a crítica da literatura usando a própria literatura.
O autor traz o fato de a literatura estar se transformando em algo universal e global. O motivo apresentado em “Desabrigo secular” para essa globalização encontra-se na ação do tempo: “o grande deslocamento dos povos” da metade do século XX proporcionou a uma parte da população que seus laços com a terra natal fossem “afrouxados” (adjetivo graciosamente usado por Wood). Ou seja, todo o capítulo é dedicado à definição de lar para chegar à conclusão de que a literatura cada vez menos expõe os costumes de uma região, pois nos encontramos em uma era cosmopolita. O crítico realmente presta atenção aos detalhes, não só em relação à literatura, mas também à sua vida pessoal: são os detalhes da infância de Wood na Inglaterra e da vida atual do mesmo nos EUA que tornam a leitura do livro prazerosa na medida certa. Nos identificamos como leitores e percebemos que a literatura realmente é a coisa mais próxima da vida.

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