Crônica do Pássaro de Corda

Crônica do Pássaro de Corda Haruki Murakami




Resenhas -


56 encontrados | exibindo 1 a 16
1 | 2 | 3 | 4


Paulo 06/03/2021

"A realidade nem sempre era verdade, e a verdade nem sempre era realidade"
Foi uma boa experiência ler esta obra de Haruki Murakami. Primeiro romance asiático que leio.

O livro tem um ritmo lento, mas isso não é demérito algum. Se tivesse sido escrito por qualquer outro autor, de forma diferente, a história talvez me parecesse entediante ou exaustiva pela quantidade de detalhes nas descrições - descrições essas que podem parecer enrolação para alguns leitores. Para mim, o autor escreveu de forma vívida e que muito me prendeu à leitura. Além do mais, as descrições aqui têm papel importantíssimo! Conforme avançamos na história vamos percebendo que qualquer detalhe ou fala mencionados anteriormente podem desempenhar grande influência na imagem geral da história. São tantos detalhes que termino o livro com a leve sensação de que posso ter deixado alguma coisa passar despercebida.

Enfim, a narrativa em primeira pessoa caiu como uma luva nesta história. O leitor e o narrador caminham juntos, com a mesma ignorância dos fatos, aos poucos tentando montar um quebra-cabeças de toda essa situação confusa, acompanhando o personagem principal numa jornada de autodescobrimento. Além de Toru Okada, aqui todo personagem é peculiar à sua maneira, cada um com sua personalidade e com uma história para contar de seu passado, com seus pensamentos próprios e desejos. Mesmo com tamanha diversidade, é como se a história de todos eles estivessem ligadas por algum fio. O destino, talvez?

O livro tem muitas referências histórias, o que dá mais realismo à história; curioso também notar a influência ocidental na cultura japonesa desde o pós-guerra, através das referências citadas de livros, músicas, óperas e filmes ocidentais no dia a dia do nosso herói - desde a primeira página quando ele assobiava La gazza ladra de Rossini até posteriormente quando ele conversa com Noz-Moscada enquanto almoçam em um restaurante italiano no centro de Tóquio.
Guerra 14/03/2021minha estante
Estou lendo Tokio blue e até agora o autor tem me parecido agradável, gosto de como ele desenvolve a história com delicadeza e simplicidade.


Paulo 14/03/2021minha estante
Concordo, Guerra. O autor escreve sem pressa, desenrolando a história de forma delicada e simples. Pretendo ler no futuro outros livros dele. Pode bem ser Tokio Blues, quem sabe haha


Guerra 14/03/2021minha estante
E eu acho que vou ler uma crônica do pássaro do corda. Haahah




Thiago 19/04/2020

Maravilhoso!!!
Para amantes do realismo fantástico ou surrealismo, é um livro incrível.
Paty Cambuy 23/09/2020minha estante
Conta mais! Acabei de adquiri-lo


Thiago 25/09/2020minha estante
Excelente livro, o Murakami consegue ir para o surrealismo de uma maneira que você se envolve, e acredita que aquilo é possível.


Paty Cambuy 26/09/2020minha estante
Eu estou devorando este livro. É maravilhoso mesmo!!! Ob


Paty Cambuy 28/12/2020minha estante
Genial! Terminei até que enfim hahha




Senszei 03/01/2021

Surpreendente
Há muito a ser dito sobre esse livro, mas posso dizer que mais uma vez Murakami soube fazer uso do fantástico e deixou a história muito bem arquitetada.

Alguns dos mistérios eu descobri de primeira e só confirmei no final, mas em momento algum isso tirou meu interesse no livro porque não tem como saber o que vai acontecer, é tanta coisa imprevisível que só lendo para descobrir.

Os personagens são únicos, bem construídos, porém ainda acho que ele deve modificar sua abordagem no quesito da sexualização da mulher da parte dos personagens homens. Ao mesmo tempo que ele descreve mulheres fortes, independentes, que superam n desafios na vida, trabalham e atingem sonhos, ele infelizmente as deixa hiper sexualizadas.
Douglas 10/03/2021minha estante
Excelente resenha ?




Alexandre Kovacs / Mundo de K 09/12/2017

Haruki Murakami - Crônica do Pássaro de Corda
Editora Companhia das Letras (Selo Alfaguara) - 768 Páginas - Tradução direta do japonês por Eunice Suenaga - Lançamento no Brasil: 21/11/2017.

Sem dúvida um dos livros mais delirantes e criativos de Haruki Murakami, originalmente publicado em três volumes no Japão, de 1994 a 1995, foi traduzido para o inglês em 1997 e chega finalmente ao Brasil, depois de uma década de atraso, nesta edição traduzida diretamente do japonês por Eunice Suenaga. É recomendado para os fãs e também iniciantes no universo ficcional do autor que encontrarão nas quase oitocentas páginas, o estilo inconfundível que mais aproxima as culturas do ocidente e oriente com sua mistura de realismo mágico e literatura policial noir. Nesta obra, uma grata surpresa mesmo para os leitores já iniciados, muitas passagens de um excepcional romance histórico, alternando o foco da narrativa entre a cidade de Tóquio em 1984 e a região da Manchúria, ao final da Segunda Grande Guerra, quando o Japão é derrotado pelas forças da União Soviética, marcando o final da violenta ocupação da China. É claro que essas são localizações geográficas do mundo real e este, assim como todo bom romance de Haruki Murakami, também utiliza como cenário outras dimensões e mundos paralelos.

Uma série de estranhos acontecimentos tem início com o desaparecimento do gato de estimação do casal formado por Toru Okada e Kumiko Wataya, eles dividem um cotidiano simples e sem maiores aspirações, juntos há seis anos não tiveram filhos como tantos outros casais na sociedade moderna japonesa, a única diferença é que ele cuida da casa enquanto ela sai para trabalhar. Tudo isso está prestes a mudar quando Toru Okada que prepara o seu spaghetti, com música de fundo de Rossini, interpretado pela Orquestra Sinfônica de Londres, é perturbado por uma ligação telefônica de uma desconhecida que pede apenas dez minutos do seu tempo. À partir deste ponto, várias personagens, incluindo duas irmãs videntes e uma adolescente da vizinhança, irão ajudar o desnorteado protagonista de trinta anos a desvendar o mistério da casa dos enforcados e o fundo do poço abandonado, encontrar o gato e sua própria esposa, que também desaparece sem deixar vestígios.

"Tirei a roupa. Pois é... Não me pergunte por que, nem eu sei direito o motivo. Então... não me pergunte nada e deixe que eu conte até o fim... então tirei tudo o que cobria meu corpo, saí da cama e me ajoelhei no chão, bem onde estava a poça branca da luz da lua. O aquecedor do quarto estava desligado e provavelmente fazia frio, mas não senti nada. Parecia que havia algo especial na luz da lua que se insinuava pela janela, e esse algo me envolvia e me protegia completamente com uma espécie de película fina. Permaneci ali assim, totalmente nua, e depois comecei a expor várias partes do meu corpo, uma a uma, para essa luz. Como posso explicar... isso me pareceu a coisa mais natural a fazer. A luz da lua era lindíssima, de verdade, e eu precisava fazer isso. Expus cada parte do meu corpo à luz da lua: o pescoço, os ombros, os braços, os seios, o umbigo, as pernas, o quadril, e até aquele lugar, como se a luz lavasse tudo. (...) Continuei ajoelhada por muito tempo no mesmo lugar, sem me mexer. Sozinha e sem nenhuma roupa, eu era banhada pela luz da lua, que tingia meu corpo de uma cor curiosa. Minha sombra, longa, nítida e preta, se projetava no chão e ia até a parede. Mas não parecia ser a minha sombra, e sim a de outra mulher, com um corpo mais maduro e adulto, contornos mais arredondados, seios e mamilos bem maiores, tudo bem diferente do corpo de uma mulher virgem como eu." - Trecho da carta de May Kasahara para Toru Okada (Pág. 748)

"A Crônica do Pássaro de Corda", independente dos devaneios ficcionais de Murakami é uma fábula sobre a força do destino e a nossa capacidade de livre-arbítrio. Muitas vezes realizamos atos contra a nossa vontade para atender às demandas da sociedade, assim como "bonecos de corda postos em uma mesa". Os personagens tentam escapar de uma realidade implacável, muitas vezes precisam se transformar em outras pessoas para se libertar. Enquanto isso, o pássaro de corda, lentamente dá outra volta e coloca o mundo em movimento todos os dias. Um lindo romance que, apesar da extensão, se lê com muita velocidade, deixando aquela sensação de pena quando chegamos ao final.
Paulo Sousa 09/12/2017minha estante
mais um ano terminando e não li nada do Murakami. na verdade, preciso ainda adentrar o universo ficcional oriental. para tanto, comprei dois livros do tanisaki...


Clarice 05/01/2018minha estante
Muito obrigada por compartilhar sua experiência de leitura. Fiquei muito motivada a iniciá-la, no ano passado não li nada do Murakami, mas desde 2016, quando li Minha querida Sputnik, sinto saudades da escrita dele!




Bruno 29/08/2020

Certamente um dos melhores livros que já li
Uma mistura entre realismo mágico, filosofia, história do Japão, mistério... esse livro é praticamente perfeito
comentários(0)comente



Duda 16/03/2021

grandioso em todos os sentidos
Simplesmente único e imersivo. Uma jornada de quase 800 páginas na qual vamos seguindo lado a lado com Okada, partindo de uma ignorância completa e buscando compreender os fatos.
Um final extremamente satisfatório fecha a história de uma maneira bem Murakami, deixando sim algumas pontas soltas para a imaginação, mas nos fazendo entender, após certa reflexão, o que é necessário para que a história faça sentido.
comentários(0)comente



spoiler visualizar
Joana 01/08/2021minha estante
também noto muitas semelhanças entre Murakami e David Lynch. As cenas no outro mundo me lembram muito algumas cenas da 3ª temporada de Twin Peaks




Minteye 01/03/2021

É um pouco difícil falar desse livro, pq ao mesmo tempo q não foi uma perda de tempo, tbm foi meio cansativo de ler.
Mas, como sempre o ponto alto foi o jeito q o Murakami escreve sobre os sentimentos, e também seus personagens q parecem enfrentar problemas parecidos mas q sempre acabam me interessando de alguma forma, além dos vários outros personagens um pouquinho esquisitos mas interessantes???
Como esperado, não entendi muita coisa e ainda tô tentando entender num geral, o final deixa um pouquinho de melancolia e tbm me deixou pensativa, mas num geral foi uma leitura boa, eu esperava mais, mas acho q valeu a pena pelas camadas e a profundidade, não só do personagem principal mas tbm pela história paralela ?
comentários(0)comente



Isabela 25/01/2021

aiai prazer aiai dor consegue distinguir?
É nesse livro fica naquele limbo, naquela linha tênue da distinção. O Murakami é mto leve em descrição mas mto forte em essência, transmitida pelos personagens. Cada um, até mesmo o gato, tem sua própria dor introspectiva, e é tratada abordada no livro de uma forma mto lúdica e... simples. Cada um parece "quebrado" de sua própria maneira, personagens imperfeitos, humanos mesmo...
Não me entretém mto as partes de descrição da guerra, afinal, guerra, poço e sexo são constantes nas narrativas do murakami, mas nunca vi tanto poço em um livro quanto nesse. Será que o próprio murakami já entrou em um poço e ficou lá no fundo como ele descreve nesse livro?
Vale mto a pena, a quantidade "maior" de páginas nao desestimula, as últimas páginas do livro eu fiquei com coração na mao devorando a leitura.
Douglas 10/03/2021minha estante
Adorei sua resenha ?




Nika 15/04/2021

Recomendo para iniciar com Murakami
Honestamente, se fosse o primeiro livro lido do Murakami, ganharia 5 estrelas. Crônica do pássaro de corda possui quase tudo do famigerado "bingo do Murakami". Todas as suas obras possuem elementos parecidos. No entanto, todas as suas obras são absurdamente imersivas.
comentários(0)comente



Rodrigo 15/10/2020

A melhor leitura do ano.
Bom, o livro parte do desaparecimento do gato do casal formado por Toru Okada e Kumiko Wataya. Toru está desempregado e sem ideia do que fazer com a sua vida, por isso está cuidando da casa enquanto Kumiko trabalha. Tudo isso está prestes a mudar quando Toru Okada que prepara o seu spaghetti é perturbado por uma ligação telefônica de uma desconhecida que pede apenas dez minutos do seu tempo. À partir deste ponto, começa a surgir diversas coisas na vida de Toru.
Bom, o livro é um realismo fantástico que tem diversos elementos místicos ligado a história. Os personagens são extremamente bem desenvolvidos e o livro alterna o foco da narrativa entre a cidade de Tóquio em 1984 e a região da Manchúria, ao final da Segunda Grande Guerra, quando o Japão é derrotado pelas forças da União Soviética, marcando o final da violenta ocupação da China.
O Murakami é genial, de verdade. Tudo que ele descreve e retrata tem um significado e nada se perde no final. Apesar de ser um livro grande (768 páginas), a leitura é muito fluida e instigante, de forma que eu não me cansava de ler em nenhum momento, por isso acabei lendo em 5 dias.
Enfim, não quero entregar nada do livro porque eu acho que qualquer informação pode estragar um pouco a experiência. Eu não li nada sobre o livro então tudo foi uma surpresa pra mim. Foi a minha melhor leitura do ano e já é um dos meus livros favoritos. Murakami é um gênio.
comentários(0)comente



kika 15/03/2021

O que esperar de Murakami? Esse livro é incrível.
O livro é extremamente descritivo e detalhado, o que nos leva a uma experiência única, nos proporcionada pela escrita do autor.

Eu normalmente não gosto de livros muito descritivos pois eles tornam a leitura cansativa, mas a escolha de palavras de Murakami não deixa com que isso aconteça aqui.

Confesso que demorei muito para ler esse livro. Por ser um gênero do qual não estou acostumada, ele exigiu um tanto de mim. Mas cada segundo de leitura valeu a pena.

A leitura desse livro é lenta mas ao mesmo tempo muito dinâmica. O autor usa de diversas referências, muitas descrições e inúmeras reflexões.

Uma coisa que me agrada no autor e nesse livro é o desenvolvimento dos personagens. Eles são todos muito peculiares e misteriosos mas muito bem desenvolvidos.

Acredito que ele não seja uma leitura qualquer e apesar de considerar o livro altamente recomendável por ser um livro muito bom, não é uma leitura para qualquer um. Por ser uma leitura de ritmo lento e até mesmo um pouco complexa, se a pessoa busca uma leitura mais simples, esse livro não é pra ela.
comentários(0)comente



João Pedro 30/12/2020

Apaixonante
Simplesmente perfeito, e totalmente arrebatador, com certeza uma das melhores leituras de 2020. Posso reconhecer que talvez alguns pontos não sejam tão bem conectados ou explicados no final, mais sentir que foi exatamente essa a proposta. Murakami vai continuar marcando presença nas minhas próximas leituras.
comentários(0)comente



Paulo 26/04/2020

Esse é o terceiro romance que eu leio do Murakami. Se Sono foi uma narrativa hermética e possuindo um roteiro bem limitado a analisar a protagonista, Crônica do Pássaro de Corda vai pelo caminho oposto para alcançar o mesmo objetivo. Temos um protagonista que está conformado com sua vida do jeito que ela está. Mas, tudo na vida se move como dunas de areias e as coisas começam a dar errado rapidamente. Murakami luta para fazer o personagem reagir àquilo que acontece ao seu redor. As batalhas e angústias que serão vividas pelos personagens espelham problemas bem reais de nosso cotidiano. Claro que tudo isso entremeado por aquele limiar entre o real e o fantástico que o autor adora atravessar.

Preciso dizer que Crônica do Pássaro de Corda é um livro bem metódico. Aliás, Murakami é um autor que todos dizem admirar, mas poucos confirmam que realmente leem. Isto é porque mesmo a escrita dele sendo belíssima, suas histórias contém camadas e mais camadas de histórias que se passam em uma velocidade reduzida. Acreditem: tudo o que é colocado nas mais de setecentas páginas deste livro tem uma resolução e um propósito para existirem. Vi elementos de enredo mencionados no primeiro e no segundo capítulos que só irão se resolver nas páginas finais. Esse é o exemplo da estranha mulher do telefone que fala sacanagens para o Toru Okada. O curioso é que em determinado momento eu jurei que o autor tivesse esquecido desse plot. Na verdade não. Você só vai entender aquilo após ter juntado todas as peças da narrativa. Não digo que seja uma narrativa convergente porque ela não tem essa característica, mas muito mais um enorme quebra-cabeças cujas peças estão espalhadas pelo sofá da sala e você não sabe onde estão as bordas ou o miolo. Aos poucos vamos tendo insights de onde encaixar cada uma delas. As informações completas sobre o formato da imagem do quebra-cabeças só teremos muito mais à frente. E talvez seja esse um dos calcanhares de Aquiles deste ótimo livro para aqueles que não estão acostumados com a escrita do Murakami.

Ou seja, nunca, jamais comecem a ler Haruki Murakami por Crônica do Pássaro de Corda.

Se posso falar que as informações são fornecidas de forma homeopática, o mesmo pode ser dito acerca de sua explicação. Murakami não explica nada aos leitores, deixando-os tirarem suas conclusões por si mesmos. Então não espere que o autor entregue informações de forma mastigada. Várias conclusões eu tirei por mim mesmo e pode estar certo ou errado. Depende de nossa interpretação acerca de várias situações acontecidas na narrativa. Como vocês verão mais abaixo, a essência do que é contado por Okada, que nos narra a história em primeira pessoa, pode ser entendida a partir de diferentes pontos de vista, dos quais eu citarei três. E isso se levarmos em conta que o narrador é confiável, o que ele pode perfeitamente não ser.

O autor continua a empregar os seus truques que acabam colocando o livro em uma região cinza que se situa entre o mundo real e o fantástico. Por isso eu trouxe ele para o Ficções. Embora o autor tenha ótimos romances calcados na realidade como Norwegian Wood é quando ele deixa a sua imaginação correr solta que obtemos o seu melhor. E esse romance tem vários momentos bastante surreais. A primeira parte (o livro é dividido em três) possui o ambiente mais normal. É lá pelo final desta primeira parte que as coisas começam a ficar esquisitas principalmente a partir do aparecimento das irmãs Kanô, Malta e Creta. Então o que eu entendi (e isso não é spoiler) é que existe uma espécie de mundo que se situa um pouco acima do nosso. Algumas pessoas parecem estar sintonizadas e possuem maior facilidade para alcançá-lo. O que esse outro mundo é capaz de fazer com as pessoas não ficou muito claro para nós. Fato é que determinadas situações que acontecem neste outro mundo possuem certas influências físicas ou psicológicas sobre os personagens.

No que diz respeito à composição da história, preciso dizer que fiquei impressionado com como Murakami consegue impor ritmos distintos à sua narrativa. As três partes de Crônica do Pássaro de Corda possuem escritas e objetivos diferentes. Na primeira parte vemos o cuidado do autor em deixar o pé bem travado e nos apresentar os personagens e seus respectivos cotidianos. Os capítulos são mais longos e voltados para a descrição do ambiente e dos personagens. É aqui que Murakami constrói a nossa empatia pelos seres que ele coloca em seu mundo. A relação de Toru e Kumiko recebe bastante atenção porque vai ser a partir dela que as bases da narrativa principal se centram. Quase todos os personagens tem um capítulo dedicado a contar a sua história e se apresentar para o público: May Kasahara, Noboru Wataya, Malta Kanô, a primeira parte de Creta Kanô, o senhor Honda... até como Toru e Kumiko se conheceram e enfrentaram a rejeição da família dela.

Já a segunda parte temos o primeiro acontecimento impactante que vai fazer a narrativa se mover adiante. O ritmo aqui fica ainda mais desacelerado já que o intuito é construir capítulos mais contemplativos. Toru precisa chegar a termos consigo mesmo e entender como ele se encaixa em seu mundo. Até aquele momento parecia que o personagem pegava carona em sua existência. As coisas que acontecem com ele o colocam em uma posição em que ele precisa fazer algo, sair da inércia. Mas, ele não sabe como fazer isso. Então esta segunda parte é uma longa digressão sobre "o que eu devo fazer" e "qual é o próximo passo". Somente quando ele se encontrar definitivamente é que a narrativa pode recuperar sua velocidade. E aí chegamos na terceira parte, que é a maior em quantidade de páginas (e não parece). Aqui parece que Murakami colocou um turbo na sua escrita e tudo acontece em uma velocidade assustadora. A ponto de os capítulos serem bem curtinhos e representarem mais cenas do que acontecimentos per se.

Os personagens criados por Murakami para esta narrativa são muito complexos e alguns chegam a se relacionar uns com os outros. Por exemplo, uma relação óbvia a fazer é entre Toru e May Kasahara. Ambos são pessoas paradas em suas próprias vidas. Não conseguem tomar um rumo específico para elas. May não deseja ir à escola por conta de algumas situações que aconteceram em sua vida enquanto Toru saiu da empresa de advocacia em que trabalhava. Ele sequer deseja tirar sua carteira da Ordem dos Advogados. Então, para onde ele quer ir? No começo eu achava May uma garota petulante e impertinente, mas à medida em que a narrativa ia passando eu percebi que a verdade é que ela apenas não conhecia nada sobre o mundo. May é o espelho de Toru quando ele perde a Kumiko no final da primeira parte. O que a May vive na primeira parte é o que Toru faz na segunda: ele se isola completamente daqueles que o cercam, deixando o mundo para trás. Sua solução para o problema foi fugir, o mesmo que May faz. Mas, o legal na narrativa do Murakami é como os personagens crescem e evoluem com o tempo e as ações. Eles realmente saem de um ponto A para um ponto B.

O mistério principal fica por conta da Kumiko. E o autor consegue segurar esse mistério praticamente até o final da história. No começo vemos como Murakami desenvolve a relação entre os dois protagonista. Sim, eu considero a Kumiko também uma protagonista, embora o autor faça um truque de prestidigitação com ela. Se ele não tivesse feito toda aquele preâmbulo, o sumiço dela e suas ações não teriam o mesmo impacto sobre o leitor. Os mínimos detalhes acabam fazendo parte do quebra-cabeças: a água viva, a rotina de trabalho, a casa, o comportamento ora indiferente, ora intempestivo. Quando tudo estoura, no começo tomamos um choque, mas em seguida vamos juntando as peças ao lado de Toru.

E afinal, que casal se conhece por completo? 100%? Sempre temos aquela parte de nós que escondemos do mundo e dos nossos parceiros. Às vezes são pensamentos, podem ser segredos. Procuramos ser o mais honestos possíveis, mas uma parte de nós deseja manter aquele espacinho onde somente nós podemos entrar. Aquele pequeno terreninho em que mesmo o casamento não pôde alcançar. É nesse pequeno espaço que a narrativa de Murakami acaba agindo. E Toru não é de todo inocente na história já que ele mesmo admite ter tido ocasiões onde ele se colocou em uma situação dúbia. Até acho que a Kumiko foi bem tranquila (até demais) quando recebeu a notícia. O autor trabalha alguns momentos que são emocionalmente terríveis. Cito dois que tocaram em particular em mim: a carta deixada por Kumiko e todo o simbolismo por trás da presença de Toru no fundo do poço.

Podemos interpretar toda a narrativa a partir de três pontos de vista:

1 - Tudo aconteceu de verdade e mesmo as partes sobrenaturais estavam inclusas. Nesse sentido acreditamos na narração de Toru e consideramos seu testemunho de confiança.
2 - Toru está mentindo e nos dando apenas meias informações sobre o que aconteceu. Aqui a gente entende que o protagonista encontrou em Noboru Wataya alguém que realizou mal feitos, mesmo sabendo que ele também contribuiu para tudo o que aconteceu com sua apatia e indiferença. Sabemos que Toru ama Kumiko, mas o casamento dos dois já havia se tornado uma rotina incessante de ações repetidas. E o narrador conta isso da maneira mais mecânica possível ao longo da primeira parte. Quando Kumiko se vai, Toru busca um bode expiatório.
3 - Toda a parte sobrenatural é um mecanismo de defesa emocional do Toru para lidar com o sentimento de perda. Os trechos que acontecem no sobrenatural são todos ignoráveis e precisamos entender a ida ao poço como uma espécie de reset na vida dele.

Outro ponto que muito me agradou foi a exploração da guerra pela visão dos japoneses que se encontravam na Manchúria. Isso nós vemos através da história do senhor Honda e do primeiro-tenente Mamiya. O lado japonês da guerra nos é pouco conhecido e me lembro que só tive a oportunidade de ver mais quando assisti ao filme Cartas para Iwojima. No livro, somos colocados na região da Mongólia e no norte da China e o quanto a batalha foi suja e cruel. Os soldados japoneses já se encontravam desmotivados, principalmente por causa dos frequentes ataques dos cavaleiros mongóis. A cena da tortura feita por Bóris é de embrulhar o estômago. E depois quando a cena se volta para a prisão presenciamos toda a decadência do ser humano e o desespero dos japoneses que se tornaram prisioneiros de guerra.

Crônica do Pássaro de Corda é uma narrativa repleta de camadas. Seria possível conversar por horas a fio sobre tantos temas diferentes que explodiria as cabeças de todos. Pode até ser um livro intimidador e lento no seu desenvolvimento. Mas, é de uma profundidade única. Você sabe quando está lendo Murakami. A escrita é peculiar demais. Venci esse desafio de leitura e convido a todos a fazerem o mesmo. Vale a pena.

site: www.ficcoeshumanas.com.br
comentários(0)comente



56 encontrados | exibindo 1 a 16
1 | 2 | 3 | 4


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com a Política de Privacidade. ACEITAR