Passagem para o Ocidente

Passagem para o Ocidente Mohsin Hamid




Resenhas - Passagem Para o Ocidente


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Natalia 04/08/2018

Podia ser melhor se não inserisse a fantasia
Livros tem o maravilhoso poder de transportar você para outras realidades e criar empatia com os personagens que vivem situações que você, até então, nunca poderia viver ou gostaria de viver.
Em Passagem para o Ocidente, nós percebemos esse poder logo nas primeiras páginas, quando somos transportados para uma cidade desconhecida no Oriente Médio, que esta prestes a ser tomada por um conflito entre as forças militares governamentais e rebeldes.
Muito parecido com o que temos hoje nos países do Oriente Médio e que vemos constantemente sendo noticiado nos jornais no Ocidente, mas ver pela televisão é uma coisa... sentir na pele essa realidade é outra bem diferente.



Esse livro consegue lhe transportar pra essa realidade ao utilizar dois personagens jovens - Nadia e Saeed - que tinham uma vida humilde mais normal, fazendo curso à noite... trabalhando... se apaixonando... e que tiveram suas vidas modificadas pouco a pouco pelos horrores da Guerra.

Assim como a maioria das pessoas que encontram-se nessa zona de conflito, eles sonham em conseguir fugir da cidade natal e da violência, mas ai temos o ponto chave dessa história.
Se no mundo real as pessoas enfrentam milhares de quilômetros por terra, ou se aventuram no mar para chegar ao Ocidente em busca de uma vida melhor, o autor escolheu criar "passagens mágicas".
Portais como são relatados pelos personagens, no melhor estilo Nárnia. Só que ao invés de entrar em um mundo fanstástico através do guarda roupa, você vai parar em uma ilha grega ou em Londres, dependendo da porta que você escolher.

E é ai que o autor se perde na minha opinião.
Porque ele cativa o leitor até esse momento por coloca-lo no drama dos personagens em relação a fuga de um lugar completamente inóspito rumo a uma vida melhor. E após a inserção dos portais, somos levados a um drama romântico que visa aprofundar as questões relacionadas as conexões humanas formadas em momentos de estresse e a descoberta de que os personagens podem não estar mais tão ligados romanticamente quanto deveriam.

Eu comecei lendo um livro que me trazia uma grande empatia; que me transportava a uma cultura até então desconhecida para mim; e terminei com um livro de drama filosófico.



Não é que o livro seja ruim, mas se não houvesse os portais, teria explorado mais a sobrevivência e o desespero que milhões de refugiados passam atualmente e que eu, não tenho ideia de como é. Apenas sei o que as matérias dos jornais falam supercifialmente.
Perdeu uma grande oportunidade de explorar o sentimento humano na sua essência, através da empatia com o sofrimento do outro e ainda dar uma bela lição a todas as pessoas que são contra os refugiados.

Questões como a diferença cultural; o conflito que a convivência de dois mundos completamente diferentes gera; como os nativos de um lugar acabam sentindo-se invadidos pelos imigrantes; isso tudo é abordado. Mas a utilização da fantasia para resolver o problema principal, acabou por empobrecer a discussão e o enredo que tinha tudo para ser muito mais profundo do que o que é retratado.

site: http://www.perdidanabiblioteca.com.br/2018/08/passagem-para-o-ocidente.html
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Paulo 03/06/2018

O que caracteriza a sua terra natal? O lugar onde você nasceu ou o lugar onde você sente em casa? É a partir dessa pergunta que Mohsin Hamid cria uma história de amor em meio à guerra. Um conflito que se estende por vários anos e dos quais muitos dos que vivem às margens do conflito sequer sabem por que ele acontece. Ao mesmo tempo é uma história de amor entre duas pessoas que possuem suas vidas completamente alteradas e sua relação é testada em meio a esse caos. O que aconteceria se não existissem mais fronteiras no mundo?

Passagem para o Ocidente é um livro curtinho e com uma escrita bem direta. O autor sabe encaixar perfeitamente as palavras uma após a outra criando uma harmonia entre os parágrafos. Sua construção frasal é linda, mesmo quando ele usa períodos extremamente longos. Alguns de seus parágrafos percorrem mais de uma página e só possuem uma única frase. Ao mesmo tempo ele emprega fluxos de pensamento que criam imagens na mente do leitor, construindo pouco a pouco a dinâmica dos sentimentos dos personagens. A história é contada em terceira pessoa, mas partindo do ponto de vista do casal. Ora estamos com Nadia, ora com Saeed. Não se trata de exprimir suas opiniões, mas de ver o mundo através de seus olhos.

Muitos de vocês vão reclamar alegando que Passagem para o Ocidente não é ficção científica, não representa esse gênero e tantos outros argumentos nesse sentido. E, de fato, a história cai muito mais para o fantástico do que para o futurista, lembrando a tradição latino-americana do realismo mágico. Mas... algumas das histórias do Philip K. Dick também caem nessa ambiguidade. Aquelas que melhor trabalham questões humanas são aquelas que mais fogem dos clichês do gênero. Para mim, as melhores histórias de ficção científica são aquelas que explora a relação do homem com a realidade em que ele vive. E isso Hamid faz brincando.

A ambientação pode ser dividida em duas metades. Na primeira vemos como é o mundo em que eles vivem. Muito sabiamente, Hamid não dá nome ao lugar onde eles vivem. Você pode usar qualquer país muçulmano do Oriente Médio e construir ali o seu cenário. Neste lugar vemos como a sociedade é bem estrita. Como em vários momentos, Nadia é rebaixada. Logo no começo, Nadia explica que usa o manto negro apenas para mostrar aos homens que ela não está disponível. Já Saeed é um rapaz devoto e de família; observador de sua religião, respeita as tradições, mas possui os seus sonhos de liberdade. Algo que a escrita de Hamid faz muito bem é construir uma falsa sensação de normalidade para em seguida te chocar com uma cena absurda. Em muitos momentos da narrativa eu precisei voltar e ler novamente pensando: "caramba... ele fez isso mesmo". A banalidade como ele aborda a violência das guerras no Oriente Médio é brutal. E é como é. Alguém de quem você gostava na semana seguinte pode ter morrido vítima de um bombardeiro. Quando a violência recrudesce, as pessoas acabam por se tornar animais selvagens. Sem chances de obter uma solução pacífica, tudo se volta para um caos absoluto. Pessoas passam a morrer por motivos bobos.

Já na segunda metade temos a quebra de paradigmas. Com o surgimento dos portais, as fronteiras desaparecem. E é aí que a história ganha toda uma complexidade. Como ser nacionalista, se um país pode ser habitado por toda uma miscelânea de pessoas. Se uma pessoa pode habitar a casa de outra pessoa do outro lado do mundo apenas abrindo uma porta. As noções acabam ficando borradas. Talvez essa seja a maior dificuldade que Saeed vai sentir mais para o final do livro. Por mais que ele não admita, ele era muito ligado ao seu lugar de origem. Essa confusão sobre qual o seu lugar vai tornar sua convivência com alguém de seu passado algo muito difícil simplesmente porque a pessoa vai lhe recordar de seu lar.

Nadia é um espírito livre. Mesmo precisando se adaptar ao meio em que vive, ela busca a todo custo criar suas pequenas revoluções. Seja fumando seu baseado, seja buscando o alívio de seus problemas em relações instáveis. Ela não está disponível porque ela não quer ser disponível, e esse é o seu direito. Uma mulher que conquistou sua independência em um lugar que não aceita mulheres independentes. O contato que ela tem com Saeed é algo belo. Hamid descreve algumas situações com palavras que se parecem com belos arabescos, como:

"Nadia ficou observando as feições de Saeed. Naquele momento elas estavam tingidas de vermelho, e ele, apesar da barba, parecia um garoto. Ele lhe pareceu uma estranha espécie de homem. Uma estranhe e atraente espécie de homem."

A relação entre os dois se desenvolve dentro daquele espaço estranho e caótico. Mesmo com toda a loucura ao seu redor, eles se amam e se completam. Mas, quando a dinâmica muda e eles precisam se adaptar a novas formas de vida, tudo muda. Uma das profundas tristezas que senti ao ler esse livro é ver a ascensão e a queda do amor entre os dois. A gente sabe lá na metade do livro o que vai acontecer no final. Não queremos aceitar, mas sabemos que vai acontecer. E a gente torce para que não aconteça. Talvez seja isso o que nos prende à narrativa.

Já Saeed é um rapaz sonhador oriundo de uma linda família. Seus pais são de uma doçura incrível. Por essa razão, o personagem se tornou um bom filho. Com bons valores. Religioso. Não sei como definir o apego dele à religião mesmo quando tudo não faz mais sentido. Posso deduzir que o personagem encara nas suas orações diárias uma forma de ponte que o liga ao seu mundo. Uma passagem de volta ao oriente. Essa vai ser a maior tônica na segunda metade do livro: a falta de sintonia entre o que os dois personagens desejam para si. É o confronto entre duas formas de pensar distintas.

Para mim, é totalmente compreensível porque esse trabalho foi indicado a várias premiações. Uma escrita poética e crua apresentando um cenário atual demais. Um cenário que vemos todos os dias na televisão. Mas, acima de tudo, uma história de amor entre duas pessoas que descobrem o amor um no outro e precisam batalhar para manter esse amor vivo apesar das adversidades.

site: www.ficcoeshumanas.com
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Ladyce 06/08/2019

Muito barulho por nada. Este livro foi cotado como um dos melhores livros de 2017 pelo jornal The New York Times. Obra do paquistanês e britânico Mohsin Hamid, na edição brasileira traz, ainda, na capa, a ratificação do ex-presidente dos EUA, Barack Obama -- "um dos melhores livros do ano" -- que, fica claro, não leu o que eu li naquele ano. Este livro não faria parte da minha lista das melhores leituras de 2017, nem dos anos subsequentes.

A obra é dividida informalmente em três tempos.Trata-se da história entre um homem e uma mulher, mais para "amizade com benefícios" do que uma história de amor, que se desenrola num país qualquer, do Oriente Médio, muçulmano e em guerra. O casal é formado por uma jovem e corajosa mulher acostumada a desafiar costumes tradicionais, e um rapaz, mais conservador do que ela, um homem sonhador e dependente emocionalmente da família. Este primeiro terço da obra é interessante, pois quebra diversas e costumeiras suposições sobre a vida de jovens muçulmanos e do dia a dia de um lugar em conflito. Não tenho como saber se é um retrato realista dessas circunstâncias. Mas a intenção do autor é que assim julguemos.

De repente, no afã de mostrar diversas possibilidades e ajustes no processo de emigração que se faz necessário para os que desejam sobreviver, somos apresentados às vantagens e problemas de imigrantes em diferentes países, enquanto acompanhamos a vida de Nadia e Saeed em lugares do mundo variados, da Grécia aos EUA, passando pela Inglaterra, na migração sequencial em que embarcaram.

Mohsin Hamid, no segundo tempo, revira a narrativa e através de um dispositivo primário, como portas ou portais para diferentes realidades e incita o questionamento da natureza da terra natal, seu significado e relativismo. O autor mistura gêneros, do quase realismo à fantasia. Essa manobra me deixou fria, desinteressada. E mais: perplexa com o sucesso deste livro.

No terceiro tempo, passados cinquenta anos, encontramos Nadia e Saeed em sua terra natal, onde Saeed ainda sonha em viajar ao Chile para observar o cosmos. Passagem para o Ocidente é frequentemente aplaudido, pelos leitores de língua inglesa, como um texto poético, narrado com delicadeza. No Brasil, na tradução de José Geraldo Couto, essas qualidades não foram ressaltadas. O livro apresenta uma linguagem objetiva e seca. Cristalina. Sem firulas. Não agrada, nem desmerece a leitura.

Difícil recomendar esta leitura.
Márcio_MX 07/08/2019minha estante
O livro pode não ser bom, mas a sua resenha é excelente ;D


Ladyce 08/08/2019minha estante
Obrigada, Márcio.




Gabriel Landim 31/12/2018

Lar
Pensar o que é se sentir num lugar que você está pq quer, mas sim pra fugir de uma guerra. Viver num mundo diferente de tudo que já viveu, sofrendo todos os tipos de preconceito. Se apaixonar, deixar de fazer algumas coisas por quem ama, uma troca mútua. Se desiludir, repensar o seu amor, tentar e refletir se é aquilo msm que quer para sua vida. Será que seu amor agora não é diferente do que foi no passado? Descobrir novas coisas, novas vivências. Esse livro me fez pensar em tantas coisas, as vezes penso nele quando vejo o que estamos passando no mundo de hoje. O que podemos chamar de lar?
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