Correio para Mulheres

Correio para Mulheres Clarice Lispector




Resenhas - Correio para Mulheres


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Cheiro de Livro 18/06/2018

Correio para Mulheres
Clarice Lispector tem essa imagem de mulher série, sempre com um cigarro na mão, o sotaque empregando um certo exotismo ao que era dito. Autora de obras profundas e reverenciadas. Por isso parece estranho descobrir que ela escrevia colunas femininas para jornais e revistas nas décadas de 1950 e 1960. São essas colunas que estão reunidas no ótimo “Correio para Mulheres”.

Fazia tempo que queria ler esse correio feminino produzido por Clarice, desde 2006 quando uma coletânea foi lançada. Passaram-se mais de uma década e eu finalmente consegui devorar essas colunas. Clarice era ghostwriter nessas colunas e estava ali para dar dicas e conselhos para mulheres pré-revolução sexual e com isso tem muito conteúdo datado e que fariam movimentos como #MeToo enlouquecerem. É um retrato de uma época e não se lê colunas femininas da década de 1950 para apreciar os conselhos e sim para ver a habilidade narrativa de uma das minhas escritoras favoritas.

O livro agrupa as colunas em oito grandes grupos e cada um deles tem seu charme. Os dois últimos (Receitas e Segredos) são textos curtos com uma série de dicas de beleza e sobre a vida conjugal. Tudo isso pode parecer sem apelo algum para os dias de hoje, é verdade. O que vale é ver o estilo de Clarice que aparece aqui e ali. Um dos meus textos preferidos é logo no comecinho do livro quando ela fala da mulher esclarecida e a necessidade de se ler sempre e ler melhor e termina com “Aprender tem qualquer coisa de milagroso. O milagroso está nisso: quando se aprende… se sabe.”

Clarice é sempre uma leitura fascinante para mim, mesmo que sejam colunas femininas do meio do século passado. “Correio para Mulheres” é uma ótima leitura.

site: http://cheirodelivro.com/correio-para-mulheres/
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Gramatura Alta 24/06/2018

http://www.gettub.com.br/2018/06/correio-para-mulheres.html
CARL
Eu solicitei CORREIO PARA MULHERES à editora quando ele foi lançado, mês passado, se não me engano, porque sou fã de Clarice Lispector. Não apenas da jornalista e autora, mas também pela sua história de vida, pela sua determinação, por sua coragem. Em 1959, ela se separou do marido, um diplomata, por causa das constantes crises de ciúme dele, das viagens e da necessidade de manter uma residência fixa para cuidar do filho esquizofrênico. Nessa época, ela precisava de dinheiro, por isso aceitou escrever os textos que estão neste livro. Quando comecei a ler, não compreendi o que estava lendo. Apesar da qualidade da narrativa, do tom levemente jocoso, eu simplesmente não conseguia enxergar Clarice Lispector. Por quê? Bem, eu pensei que, por ser homem, não deveria ser eu a explicar. Ainda mais com a constante militância de sexistas que existe hoje em dia na Internet. Iam cair matando em cima do que eu iria escrever. Então, desisti da leitura e mandei o livro para a Sara. O resultado é a resenha abaixo. Leiam. Depois, no fim, eu continuo com meu raciocínio.

SARA
Clarice Lispector sempre foi muito reconhecida por suas obras mais famosas, como A HORA DA ESTRELA e A PAIXÃO SEGUNO G.H., mas o que poucos sabem é que ela também escrevia colunas femininas para jornais, nas décadas de 1950 e 1960. Contrariando sua aparência sempre séria, falava sobre o universo feminino de maneira divertida, dando dicas e conselhos às suas leitoras. Aqueles que estão acostumados com seus textos consagrados, verão um lado seu diferente, que se preocupa com estética, casa, família e amigos.

A autora trabalhava como ghostwriter para jornais, fazendo uso de nomes como Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares para assinar seus trabalhos circunstanciais de sobrevivência. Publicava sob seu verdadeiro nome somente suas obras literárias reais. CORREIO PARA MULHERES foi o resultado da união entre as colunas "Correio Feminino" e "Só Para Mulheres", contendo textos de aconselhamento feminino, onde a autora dá dicas de moda, cabelo, maquiagem, perfumes, comportamento, receitas culinárias, dicas para cuidar da casa, educação dos filhos, como agradar o marido...

Apesar de gostar muito das obras da autora, não a reconheci nesses textos. Aqui, ela prega muito sobre a importância da mulher estar sempre bela e arrumada, conservando sua feminilidade e delicadeza; afirma que todas se arrumam com o único objetivo de conquistar algum homem, pois considera-os essenciais para sermos completas e felizes; da dicas de comportamentos, enfatizando o quanto são importantes para obtermos respeito e admiração, além de não sermos mal educadas; como a mulher deve se preocupar com o bem-estar alheio o tempo todo, agradando o marido e os amigos sempre; dentre outros "conselhos" puramente machistas que me incomodaram ao extremo.

"Os tempos modernos trouxeram a emancipação da mulher em quase todos os campos. Eis um grande bem. No entanto, muita confusão se faz em torno disto e o que se vê é que muitas representantes do sexo feminino entendem que ser emancipada e ter personalidade marcante é imitar os homens em todas as suas qualidades e seus defeitos. A agressividade, o hábito de tomar atitudes pouco distintas em público e muitas outras coisas vêm prejudicando a beleza da mulher e tirando-lhe o predicado que mais agrada aos homens: sua feminilidade. A faculdade de ser diferente dos homens em atitudes, palavras, mentalidade." (Texto: Qualidades para tornar a mulher mais sedutora).

É claro que devemos considerar a época em que a obra foi escrita, principalmente o contexto social das décadas de 1950 e 1960; porém, atualmente, a leitura pode ser ultrajante. Em algumas partes, Clarice evidencia a força da mulher e sua sabedoria, o que é muito bacana; mas em contrapartida, inferioriza o sexo feminino em vários trechos, propagando ideais machistas que "obrigam" as mulheres a agirem de um jeito ou de outro. Isso me incomodou muito! Confesso que fiquei decepcionada com CORREIO PARA MULHERES, mas não deixo de admirar outros trabalhos da escritora.

"Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens. Ou, pelo menos, ao homem que amamos, não é verdade? Se um homem elogia um penteado nosso, um vestido, um tom de esmalte, é porque esse detalhe realmente nos embelezou, pois, de uma coisa podemos ter certeza: nesse assunto, o homem é sincero, não há despeito nem veneno em elogio seu. Assim sendo, a preferência masculina deve ser levada em consideração sempre que nos vestirmos e enfeitarmos. A título de curiosidade, e também de orientação para algumas inexperientes, dou aqui uma pequena lista de coisas, que muitas de nós usamos ou fazemos, e que um inquérito revelou ser aquilo que os homens detestam: vestido muito justo; pintura excessiva, principalmente nos olhos; modas sofisticadas e complicadas; saltos muito altos; batom exagerado desenhando nova boca e exótica; moça desembaraçada demais; mulher sabichona. (...) Chamar a atenção não é a finalidade de uma mulher elegante e inteligente. Mas sim ser atraente e agradar aos homens. Estou certa?" (Texto: O que os homens não gostam).

De acordo com o próprio livro, "CORREIO PARA MULHERES não apresenta apenas dicas para "mulherzinhas" ou curiosidades "históricas", como datados conselhos para livrar a casa de ratos e baratas; oferece também, aos leitores, pérolas ocultas do mais puro estilo de Clarice Lispector, que surgem aqui e ali de modo inesperado, como matreiras piscadelas da enigmática musa do Leme". Particularmente, não considero o livro ruim, apenas possui um contexto social bem diferente do atual. Pode ser uma boa opção de leitura para os fãs de Clarice Lispector que desejam passar o tempo com uma leitura leve e conhecer outras facetas da autora.

CARL
Como a Sara disse, é necessário levar em consideração a época em que os textos foram escritos. Afinal, nessa mesma época, foram escritas obras consagradas, por outros autores, que tinham seus textos carregados de racismo e preconceito. Entretanto, o que me chocou não foi o que ela escreveu, mas sim ter sido ela a escrever. Quem conhece a vida de Clarice Lispector, e suas obras, claro, sabe que ela foi uma mulher que ultrapassou os limites que eram impostos ao sexo feminino na época. Por isso, pensei muito no que poderia levar alguém, como ela, a escrever textos tão carregados de machismo, de submissão. Não há como saber, pelo menos para quem não a conheceu pessoalmente. Mas eu, como fã, prefiro pensar que foi necessidade. Ela havia se separado, precisava de dinheiro e o que lhe ofereceram, foi escrever para colunas femininas. Se ela colocasse ideias liberais, revolucionárias, de empoderamento feminino, não passaria da primeira publicação. Então, ela escreveu da forma que a sociedade era acostumada a viver, escreveu o que a sociedade queria ler. Se foi isso realmente, alguém pode julgá-la? Eu acho que não. Ou melhor, tenho certeza de que não.

Depois que a Sara entregou a resenha, eu pesquisei na Internet por matérias sobre o livro. Para meu espanto, as únicas informações que encontrei foram sobre a qualidade da narrativa da autora, sua incrível capacidade na elaboração de ideias, na formação de frases, na arte da escrita. Não sei se as pessoas têm medo de discutir o teor machista dos textos por ser a Clarice quem os escreveu. Independentemente de quem ela foi, e principalmente pela época em que vivemos, quando existe uma constante luta entre a igualdade feminina e a inconformidade masculina, é muito importante destacar como era absurdo a posição submissa a que a mulher na época era obrigada a viver. O que podemos tirar desses textos, é o aprendizado de como era o contexto de uma época em que a mulher era um mero objeto de enfeite e de satisfação. E sentir vergonha.

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Aryane 31/08/2019minha estante
Ai, eu não consegui ler até o final. Não gostei. Vi muito pouco dela nesses textos (ou quase nada) e essa temática não me agradou nem um pouco. Eu adoro a Clarice, sei que os textos se contextualizam em uma época específica, mas ler nos dias atuais não dá, infelizmente.




Samara 22/07/2019

Clarice, Helen, Tereza e Ilka
O livro “Correio para mulheres” traz uma coletânea de colunas de jornais escritas por Clarice, no entanto, ela só assinava com pseudônimos: Helen Palmer, Tereza Quadros e Ilka Soares. Essas colunas retratam o universo feminino, Clarice dava diversas dicas para suas leitoras sobre beleza, comportamento, cuidado com a casa, família, entre outros. Todas essas dicas são carregadas de ideais machistas, o que pode ser explicado pela época em que foi escrita, início da década de 1960. Todas essa tentativa de padronizar os comportamentos femininos sempre foi empregada até mesmo por mulheres, que acreditavam ser normal.

Essa é minha primeira leitura da Clarice, não conhecia o modo dela de escrever e vi algumas pessoas dizendo que não a reconhecem nessas colunas. Isso me deixou muito interessada para procurar outros livros da autora e conhecer um pouco mais sobre sua vida. Apesar de tudo, é interessante analisar como algumas ideias e comportamentos de 1960 (infelizmente) não mudaram até hoje, quase 60 anos depois.
Sabrina - @linhaposlinha 13/08/2019minha estante
Que viagem.. também nunca li nada da Clarice, mas não esperava isso kshsisj




May 12/12/2019

Essencial
Compreendo o porquê de muitas mulheres se desagradaram com os textos presentes na coletânea, ela mostra os pensamentos e ideias do que é ser mulher sobre a década de 50/60. Apesar disso, gostei muito da leitura, e justamente por isso se torna única , a maioria nao imaginaria que ela pensava dessa forma, mas ela pensava sim... Quem leu foi criado nessa época moderna, nós mulheres fomos criadas de outra forma e por isso muitas se revoltam com certos padrões que ela descreve sobre feminilidade, mas apesar de eu não concordar também com muitas coisas, pois sou de outra época, muitas coisas me foram úteis sim, nem tudo que ela descreve sobre mulheres vs homens é mentira, não é mesmo? E tirei aprendizados da vida que ela adquiriu. Para apreciar a leitura é preciso tirar o preconceito de si e tirar o que é bom a ti, ou o aprendizado de o que era ser mulher naquela época. E lembrar que os textos não são só sobre isso, fala sobre casamento, inteligência, beleza, receitas, comportamento social, educação... E mesmo com várias coisas que considerariamos machistas sera que nao era ironia dela? Logo apos ela diz que são as mulheres que mandam nos homens...
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TIA JACKE 09/01/2020

RESENHA | Correio para Mulheres, de Clarice Lispector
RESENHA | Correio para Mulheres, de Clarice Lispector

Breve história da vida e obra de Clarice Lispector

Nascida em 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia e naturalizada brasileira, foi escritora e jornalista e é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras de todos os tempos. Teve como influência Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa e Drummond. Foi redatora de jornal, bacharel em Direito, tendo também realizado cursos nas áreas de psicologia e antropologia. Em 1942, escreveu seu primeiro romance “Perto do Coração Selvagem”, que foi considerado o melhor romance de 1943, o que lhe rendeu o prêmio Graça Aranha.

No âmbito da literatura brasileira, Clarice Lispector é conhecida como uma das mais significativas escritoras do modernismo. Suas obras, A Paixão Segundo G.H. (1964), Água Viva (1973) e A Hora da Estrela (1977), entre outras, caracteriza uma obra muito subjetiva.

Entretanto, a produção de Clarice Lispector alcançou outros campos de atividade não só no literário, pois a escritora teve participação efetiva no meio jornalístico, tal como pode ser demonstrado pela publicação de obras como De Corpo Inteiro (1975), que reúne uma série de entrevistas produzidas pela escritora para a revista Manchete, nos anos de 1968 e 1969, e A Descoberta do Mundo (1984), conjunto de crônicas publicadas no Jornal do Brasil entre os anos de 1967 e 1974.

Atuou como tradutora de obras de escritores estrangeiros famosos como Oscar Wilde, Anne Rice e Agatha Christie (sob o pseudônimo de Mary Westmacott).

Na véspera de seu aniversário de 57 anos, em 9 de dezembro de 1977, a escritora faleceu no Rio de Janeiro.


Correio para Mulheres – Crítica

A editora Rocco, sob a iniciativa da pesquisadora Aparecida Maria Nunes, reuniu, recentemente, sob o título de Correio Para Mulheres, alguns textos produzidos pela escritora, entre os anos de 1952 e 1961, para as colunas femininas “Entre Mulheres”, do tabloide Comício, “Correio Feminino – Feira de Utilidades”, do jornal Correio da Manhã, e “Só para Mulheres”, do tabloide Diário da Noite. Nelas, Clarice Lispector se dirige a uma mulher ainda determinada pela ordem social burguesa e machista, mas que começa a conviver com algumas conquistas tecnológicas que interferem na rotina da dona-de-casa e, simultaneamente, com os ideais feministas que começavam a repercutir no Brasil, afetando a maneira de encarar a vida e o papel da mulher na sociedade.

Entretanto, no âmbito das colunas, não consta em nenhum momento o nome Clarice Lispector, e isso se deve ao fato de que, por razões de cunho profissional e pessoal, (temia que ao escrever assuntos mais triviais diferentes do que era publicado em jornais e revistas prejudicassem a sua carreira como escritora), e o fato mais incisivo que o próprio livro revela, Clarice realmente estava com dificuldades financeiras, desempregada, quase mãe solteira. Pelo legado deixado, bem pelo contexto, penso que não escreveu pelo prazer de se reinventar, mas sim por não haver muita escolha. Ela utilizava pseudônimos, nesse caso, utilizou três ao escrever textos para uma coluna voltada para mulheres.

Tereza Quadros foi o seu primeiro pseudônimo aceitando o convite do escritor Rubem Braga para fazer a coluna Entre Mulheres no Comício. Helen Palmer surge em 1959 assinando a coluna Feira de Utilidades no Correio da Manhã, nessa época Clarice a estava separada e aceita o convite de Alberto Dines em 1960 e 1961 no Diário da Noite para ser a ghost winter de Ilka Soares. O fato é que ela se escondeu por trás desses pseudônimos para não expor o próprio nome com esse tipo de escrita.

Para o leitor que conhece as obras de Clarice e toda a sua complexidade, com certeza ira estranhar o conservadorismo submisso e arcaico, chegando nos dias de hoje a ser anacrônico.

Conselhos de como as mulheres devem se comportar afim de agradar os homens e serem aceitas pela sociedade machista.

Eis alguns trechos:

Discrição:

Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for a mulher que chama a atenção sobre a sua pessoa ou único troféu que merece é o da vulgaridade.
Os homens, geralmente muito discretos, detestam as mulheres que se destacam demais, onde quer que apareçam. – Pág. 16



Ou ainda:


O que os homens não gostam:
1- Vestido muito justo
2- Pintura excessiva, principalmente nos olhos
3- Modas sofisticadas e complicadas
4- Saltos muito altos
5- Batom exagerado, desenhando nova boca exótica
6- Meias com costura torta
7- Excesso de joias
8- Decote exagerado
9- Moça desembaraçada demais
10- Mulher sabichona
Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens. – Pág. 17

Eu sinceramente pensei em abandonar a leitura quando li, e olha que eu não sou feminista militante, daquela que veste a camisa do movimento, imagine uma feminista que pegar esses textos, irá julga-lo com uma severidade excessiva e poderíamos até dar-lhe razão no primeiro momento, porém, se dermos uma segunda chance e lermos com um outro olhar, vamos tirar lições valiosas.

A primeira é a que já foi citada acima, Clarice estava divorciada e precisava sustentar seus filhos e aceitou uma oferta de escrever essas colunas femininas, mostrando assim, que ela não estava disposta a abdicar de sua função de mãe em prol de seu orgulho e carreira. Foi uma opção dela.

A segunda é que sobreviver como mulher independente naquela época era algo que não conversava com o feminismo.

Algumas coisas mudaram de um tempo para cá, mulheres conquistaram o direito político, o direito da educação e do emprego, é impensável defender esses conselhos e achar que podem ser aplicados tranquilamente a vida da mulher atual, e pior, bem ao pé da letra. E não é mais cabível que essas regras sejam impostas as mulheres em pleno século XXI, apesar de as vezes achar que ainda vivemos no século XX.

E é necessário um olhar crítico para o passado sim, afim de nos ajude a não deixarmos que esses erros crassos voltarem e se repetir.

E um olhar mais atento perceberá que mesmo nos conselhos sobre casa, comportamentos e condutas há sem dúvida um toque de ironia, há sempre uma crítica, como no texto em que ela diz:


A Leitura

“As mulheres deveriam ler mais? – E acrescentaríamos ler mais e melhor. Não adianta nada que as mulheres passassem a ler mais, se não procurassem ler melhor. A seleção na leitura é algo imperioso. Do contrário, o tempo perdido na leitura de páginas medíocres não compensaria sacrificar horas de trabalho ou de repouso, para no final das contas nada aprender”. Pág. 45

Mesmo em meio a esse mar de regras imposta pela sociedade, Clarice encontra uma maneira de avivar a chama do feminismo, de falar, ainda que veladamente a todas as mulheres, que elas devem sim, serem consciente, que estudem, que cresçam e sejam acima de tudo, mulheres seguras de si.

Essas sutilezas demostrada nas entre linhas do Correio para Mulheres me fez pensar na Megera Domada de Shakespeare, em que Catarina acaba cedendo à Petrucchio, para espanto de todos, e ao final, passa um sermão nas amigas, dizendo que as mulheres devem ser gratas e servirem aos maridos, pois eles se arriscam para agradá-las. Clarice assim como Shakespeare consegue, com sucesso, expressar o paradoxo que é a personalidade da mulher e, ao final, nos mostra a submissão da esposa ao marido de um outro ângulo. Catarina se submete à Petrucchio, mas não por ele ser homem e ter autoridade, mas por ele amá-la e fazer de tudo para que ela seja feliz.

Traçando um paralelo com os dias atuais, nos continuamos a procurar dicas de modas, receitas de beleza e culinária em revistas e sites. E encontramos determinados parâmetros que daqui a um punhado de anos será tão ultrapassado como o que Clarice escreveu, só que não tenha talvez, a categoria a estirpe e a crítica de nossa Lispector.

Por Jackelline Costa


Ficha Técnica

Ano: 2018
Páginas: 400
Organização: Aparecida Maria Nunes
Editora: Rocco



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Esta resenha foi originalmente postada no site Cultura&Ação

site: https://ofabulosomundodejacke.blogspot.com/2020/01/resenha-correio-para-mulheres-de.html
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