O Berro do Bode

O Berro do Bode Verena Cavalcante




Resenhas - O Berro do Bode


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Krishnamurti 08/07/2018

Livro “O berro do bode” abre novas alas para o fantástico
O filósofo e lingüista búlgaro Tzvetan Todorov (1939-2017), define o fantástico na narrativa como o efeito advindo da contemplação de acontecimentos que não podem ser explicados pelas leis do mundo familiar. E o leitor que se depara com ele, opta por uma das duas soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso, esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós. É na hesitação entre mundo real e mundo imaginário que encontramos o âmago do fantástico. A literatura permite, através da fantasia, mascarar as experiências que podem ser flagradas. Sendo assim, é por meio do fantástico, o autor(a) vai mostrar a realidade. Através da representação da mimese é criado um mundo realista; dessa maneira, uma obra realista é a recriação do real, a obra fantástica será a re-realização da realidade, ou seja, o fantástico seria uma nova visão do real que se organiza pela construção da narrativa.
Fantástico seria pois, o efeito da incerteza, isto é, a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural”. Tanto a fé cega na verdade dos fatos relatados quanto a incredulidade plena impediriam a percepção do fantástico, que dependeria exatamente dessa incerteza. Ao se optar por uma das explicações, deixar-se-ia o terreno do fantástico para se entrar nos gêneros vizinhos do estranho e do maravilhoso. E o conto fantástico é campo fértil para envolver fortemente o leitor, leva-o para dentro de um mundo a ele familiar, aceitável, pacífico, para depois disparar os mecanismos da surpresa, da desorientação, do horror, e do medo. Mas para tanto, diga-se, o fundamento é a atmosfera criada. Atmosfera; a coisa mais importante, pois o critério final de autenticidade não é a harmonização de um enredo, mas a criação de uma determinada sensação.
No Brasil a literatura fantástica não prosperou tanto quanto na América Hispânica onde surgiram nomes como Borges, Cortázar, Garcia Marquez, Vargas Llosa, entre outros. Autores que utilizaram de elementos fantásticos no Brasil foram poucos: o nosso marco inicial da literatura fantástica parece mesmo ter ocorrido no Romantismo com a obra de Álvares de Azevedo, Noite na taverna. Entretanto experimentos nesse campo foram realizados com brilhante efeito por Machado de Assis, Guimarães Rosa, Lígia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e outros, mas sem dúvida, os autores que se destacaram no século XX foram mesmo Murilo Rubião e J. J. Veiga
Atualmente, em meio à enxurrada de lançamentos, poucos autores aventuram-se nesse gênero de grande potencial ficcional, e eis que aqui e agora, surge “O berro do bode”, segundo livro de contos de Verena Cavalcante (pseudônimo da escritora paulista Bruna Oliveira Gonçalves). É obra tímida na extensão, mas de acerto em conteúdo. Em 80 páginas dez narrativas que merecem ser nomeadas: “A tempestade”,“Um pardal pousa na janela” ,“Venham repartir o pão”, “Bonecas” “Porquizome”, “Um sorriso nos lábios”, “Missiva póstuma”, “Herança” ,“Papa formiga” e finalmente “O berro do bode” onde os limites são desafiados, numa fusão perfeita, natural, do real e do supra-real, em favor de uma ficção completa e incômoda sobre a existência feminina.
Mas o apelo que Verena Cavalcante faz à nossa sensibilidade é já explicitado no primeiro conto onde predomina o absurdo lírico encarnado na triste história da menina que foge de casa onde sofre violências da própria mãe, e passa a viver com uma matilha de cães vadios. Bela análise da contingência humana atual, sobretudo da feminina. Mediante jogos sutis e complexos de sugestões que requerem a cumplicidade do leitor, a autora que é formada em Letras, trabalha como revisora de textos e é professora de línguas e ainda tradutora (portanto sabendo muito bem o que está fazendo), nos alicia e conquista. Do irreal para o real, ou vice-versa, um breve instante no qual impõe verdades que têm lógicas e sentidos próprios. Em “Um pardal que pousa na janela” – esse um texto inesquecível, – temos um relato sobre a ótica de um menino que sentado debaixo de uma mesa, observa o mundo em que vive, sofre e cria a sua verdade própria. Lindo esse texto, lindo porque é cacetada em nossa (in)sensibilidade sobre questões essenciais do humano.
O fantástico que Verena Cavalcante pratica com mais acerto é aquele- como o definiu Sartre- , domesticado, o que parece renunciar às explorações das realidades transcendentes, para transcrever a condição humana. Um fantástico que retorna ao homem, mas ao "homem-sociedade", ao "homem-natureza", que está engajado por inteiro com a realidade cotidiana. Ao humanizar-se, este fantástico se reaproxima da pureza ideal de sua essência, onde o homem torna-se uma maneira entre cem de refletir sua própria imagem. O homem em seu cotidiano sufocante e sua infinita luta pela sobrevivência numa ambiência hostil, como o herói kafkiano preso em seu labirinto. E, contudo, e ainda assim, desperta em nós as lembranças atávicas de pertencimento ao planeta Terra.
A versatilidade ficcional da autora nos faz dar de cara com situações existenciais a enfocar o desrespeito milenar que sofrem as mulheres espancadas por maridos como ocorre em “Herança”, para assim desnudar a face encoberta pelos condicionamentos machistas; acerta no subjetivismo lúcido de “Um sorriso nos lábios”, ata deliberadamente as pontas do real e do supra-real como acontece em “Venham repartir o pão”, onde um padeiro de uma pacata cidade interiorana acaba assassinado a facadas justamente num dia de confraternização como um domingo de Páscoa. Textos que revelam a estranheza dessa contingência a que chamamos vida – mais ilógica e mais absurda do que, em muitos casos, a fantasia pura. Frente a contos como esses cabe a atitude do mais franco aplauso: são contos memoráveis.
Resta afirmar ou reafirmar em outras palavras, que a autora desenvolveu bela obra com elementos que rompem com o universo cartesiano e racional tal como o conhecemos. Combina eventos sobrenaturais à realidade prosaica, hora provocando o medo, hora provocando o riso, hora fortalecendo as personagens, hora causando perplexidade e indignação no leitor.
É livro que vem resgatar elementos importantíssimos perdidos em meio a um mundo onde a razão e a ciência são mães: a fé e a crença em elementos inexplicáveis segundo as leis físicas que nos regem. Nossos calorosos votos que continue. Não é pouco lembrar que tais crenças foram as criadoras de histórias milenares que povoaram o imaginário humano durante séculos e criaram, por certo, as mais belas histórias que se perpetuaram até os dias atuais.

Livro: “O berro do bode” - Contos, de Verena Cavalcante (pseudônimo de Bruna Oliveira Gonçalves). Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2018, 80p.
ISBN 978-85-5833-346-7

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http://editorapenalux.com.br/loja/o-berro-do-bode
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André Foltran 23/06/2019

A vez dos livros curtos
O maior mérito dos autores pós-Duchamp, os que insistiram em compor obras num mundo que já não as quer, está, justamente, em não publicar. É por isso que Juan Rulfo, com suas pouco mais de 200 páginas perfeitas, é uma unanimidade, enquanto Stephen King, com suas dezenas de milhares, certamente algumas também brilhantes, mas tudo tão diluído numa obra gigantesca e por isso mesmo repleta de falhas, é visto ainda com tantas ressalvas pela Academia.

Borges há muito já havia sacado essa tendência quando propôs que compor grandes obras era um trabalho inútil: bastava imaginar que elas já existiam e comentá-las. Muitos de seus melhores contos são resenhas de livros que nunca leremos (pois sequer foram escritos) e dos quais só temos assombrosos vislumbres. Nada mais moderno: já não nos interessam as grandes e tediosas batalhas textuais, só temos tempo para o momento em que o nocaute acontece.

Cada vez mais (neste "mundo cada vez menos") é a vez dos autores concisos, concentrados, grifáveis. Todos lerão A metamorfose, mas quantos suportarão os autos dO processo? Todos lerão Bartleby, mas quantos encararão os olhos terríveis de Moby Dick? Nunca mais veremos um autor fazer uma obra de sua própria vida, a ponto de que ambas se confundam e já não se saiba em que parágrafo termina uma e começa a outra, como o fez Proust, para quem escrever, em algum capítulo do seu Livro, passou a significar viver, tanto que adiou o quanto pôde o ponto final, porque o ponto final era a sua própria morte.

Nunca mais leremos Em busca do tempo perdido. Nosso tempo acabou.

Mas o que eu queria mesmo era recomendar um livro curto: O berro do bode. Esses contos de Verena Cavalcante, sempre povoados por um horror animalesco, sempre sufocados por uma herança ancestral, parecem menos contos que assombrações, possuem de corpo somente o necessário para nos assustar. Acabam rapidamente, no ápice da virulência, quando seguir seria inútil (ou intolerável). Porque em Verena (guarde esse nome dentro do crânio lustroso do seu amante preferido), como numa primeira vez, a experiência é rápida mas intensa, por vezes traumática, sempre inesquecível.

O livro tem só 78 páginas.
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