O Conto da Aia

O Conto da Aia Margaret Atwood


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Resenhas - A história da aia


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Ruh Dias 16/01/2017

Sugestão de Leitura
Precisei respirar fundo e me reorganizar para escrever este post, afinal, tenho diante de mim a tarefa de escrever sobre um dos melhores livros que já li (e já li muito ao longo da minha vida). Margaret Atwood já havia conquistado meu coração com seu maravilho "Oryx e Crake" e, agora, depois de ler "O Conto da Aia", ela definitivamente tornou-se uma das minhas escritoras preferidas.

"O Conto da Aia", publicado em 1985 (o ano em que nasci, aliás), é categorizado como distopia e como ficção especulativa. Como pano de fundo da estória, temos uma Nova Inglaterra de um futuro não muito distante ao nosso, onde o Governo é totalitário e teocrata. Ou seja, o sistema político não tem limites nem regulação e detém o poder de ser cruel e opressor; e, além disso, Deus é a fonte de toda a autoridade (e versículos da Bíblia são mencionados com força de Lei). Por conta disso, a região que seria a Nova Inglaterra nos EUA foi renomeada para Gilead, uma cidade bíblica.


Este contexto do Governo levou a uma total e completa dominação das mulheres. Porém, Atwood escreve em um estilo muito próprio, pois não fornece todas as informações ao leitor logo de cara. Assim como em "Oryx e Crake", muitas pistas são jogadas na narrativa e o leitor precisa juntar as peças de um quebra-cabeça que só se forma inteiramente na última página do livro - literalmente.

A estória é narrada em primeira pessoa por Offred. As mulheres foram destituídas de seus nomes reais e são nomeadas de acordo com o Comandante para qual trabalham. Neste caso, Offred significa Of Fred, ou "Do Fred", como se a mulher fosse apenas uma propriedade, um bem, e não um indivíduo. Offred é a Aia que dá nome ao livro e conta sua estória.

Gilead começou após um ataque terrorista religioso e, no caos que se seguiu, bombas atômicas deixaram as mulheres infertéis por causa da radiação. As poucas mulheres que ainda poderiam procriar foram escaladas como Aias e sua única função é engravidar dos Comandantes e re-popular o país. Elas usam vermelho, em contraponto às Esposas dos Comandantes, que usam azul e são consideradas puras, já que não tem relações sexuais. Assim, a Aia é obrigada a ter relações sexuais com o Comandante, que são assistidas e monitoradas pelas Esposas. E, o pior ainda está por vir: estupros são permitidos e incentivados.

"Evito olhar para baixo, para meu corpo, não tanto porque seja vergonhoso ou impudico mas porque não quero vê-lo. Não quero olhar para alguma coisa que me determine tão completamente." (O Conto da Aia, Margaret Atwood).

Offred é da primeira geração de Aias deste novo governo. Por isso, ela se lembra, constantemente, da sua vida antes do ataque terrorista e sofre muito com a saudade de sua filha e de seu marido, Luke. Offred era amante de Luke e este se divorciou para casar-se com ela. Porém, como o governo é teocrata e a religião não reconhece o divórcio, eles são considerados impuros e separados para sempre e a filha deles é considerada bastarda. Como as mulheres, agora, são meros objetos, elas são destituídas de tudo: dinheiro, roupas, posses, creme hidratante (há uma parte muito tocante sobre isso), livre arbítrio e autonomia. É um cenário extremamente opressor e melancólico.

Todos os relacionamentos são completamente esvaziados de sentimento. As Aias não podem interagir com ninguém, pois precisam manter-se sãs e salvas para gerarem filhos. As Esposas guardam, secretamente, uma inveja pelas Aias, pois elas ainda podem ter filhos. As Marthas, que são as governantas das casas, acham as Aias "umas vagabundas". E os homens são retratados como seres distantes e inalcançáveis, que governam e determinam o mundo. Este vazio permeia o livro todo e mesmo as relações sexuais são completamente mecânicas e automáticas.

"Quando se está em condições de vida reduzidas você tem que acreditar em todo tipo de coisas. Agora acredito em transmissão de pensamento, vibrações no éter, aquele tipo de bobagem. Não costumava acreditar." (O Conto da Aia, Margaret Atwood).

Além da filha perdida e Luke (que não se sabe se está morto ou vivo), Offred relaciona-se com Moira, que foi educada para ser Aia junto com ela. Subentende-se que Moira era lésbica e, por isso, foi perseguida pelo governo e expulsa de Gilead. Além de Moira, há Ofglen, outra Aia, e Nick, que terão um grande papel a ser desempenhado no futuro de Offred e que não detalharei para não dar spoilers.

Este livro me deu embrulho no estômago do começo ao fim. Todos os meus medos, enquanto mulher, estão representados nesta obra. Esta obra reúne tudo aquilo que o feminismo combate e demonstra porque precisamos nos unir para evitar que esta sociedade fictícia aconteça. Me senti anulada e violada tanto quanto Offred e, ao término da leitura, chorei. Um choro que saiu preso, de uma vez só, pela angústia de ser mulher, pura e simplesmente. Atwood escreve emocionalmente, profundamente, em um estilo poético e forte muito parecido a Virgínia Woolf, o que não deixou nada mais fácil de digerir.

site: http://perplexidadesilencio.blogspot.com.br/2017/01/sugestao-de-leitura-o-conto-da-aia-de.html
Karen 12/04/2017minha estante
Adorei sua resenha, resumiu bem o que senti ao ler o livro. Só um adendo, tem uma parte, a do casamento das filhas ( que é nojento pois fala que muitas não tem mais que 14 anos) que elas mantém relações sexuais sim, e que os Anjos poderam solicitar Aias caso as esposas não engravidem.


Ruh Dias 13/04/2017minha estante
Ah verdade, Karen, tem razão! Tem mesmo!


Daniel Rocha 30/04/2018minha estante
Show a tua resenha. Soube deste livro agora por causa deste vídeo: https://www.facebook.com/TED/videos/1987984961214700/UzpfSTEwMDAwNjc0MDQwNjIxMToyMTE3MzM0NTU1MTY3ODcx/?id=100006740406211


Alexandre.Narcelli 04/08/2018minha estante
Na verdade, não foram especificamente bombas atômicas que deixaram as mulheres inférteis, foi um conjunto de fatores. Bem como nada indica que as esposas não tenham relações sexuais. Estupros também não são incentivados, visto que o regime de Gilead é teocrático e bem extremista. Inclusive, a punição para estupros é a morte. Não li o resto da resenha, mas acho que está um pouco desinformativa...


Elineuza 31/08/2018minha estante
Perfeita sua resenha. Amando a leitura e impactada pela realidade descrita.




Marcia 08/07/2017

Perturbador
Eu tomei conhecimento do livro depois de assistir a série “The Handmaid’s Tale” e queria me adiantar à segunda temporada, já que a primeira conta com 10 episódios e termina deixando milhões de perguntas a serem respondidas. Então, pesquisei e baixei o exemplar, porém, já lhes digo que o final é somente especulativo e não poderia deixar de ser acredito eu.

Foi uma leitura muito inquietante e depois que terminei tanto o livro quanto a série tenho visto comentários políticos e religiosos com outros olhos. A mim, serviu como retirada de uma trave nos olhos e aqui há uma ironia, sendo que o enredo de O Conto de Aia é sobre o poder dado aos homens com a total corroboração da religião.

E o que mais assombra neste livro é que as mudanças não aconteceram de um dia para outro, os sinais das mudanças estavam presentes antes mesmos de nossa personagem se tornar adulta.
É aquele tipo de pensamento que temos quando assistimos aos noticiários durante as eleições, por exemplo: “Ah! Fulano nunca vai ser eleito com esse tipo de discurso”
ou mesmo justificar comportamentos machistas porque fulano é idoso tem mais de 86 anos e esquecemos que esse idoso é dono de uma emissora. Sei lá, é uma coisa pra se pensar.

Bem, o que quero dizer é que este livro não é uma leitura fácil, gostosa, mas sim que é uma leitura perturbadoramente reflexiva.
Offred = “de Fred” nossa personagem (que outrora fora June) tinha emprego, marido e uma filha e é ela que nos dá um vislumbre do que foi o Governo e Sociedade Gilead.
As mulheres férteis eram consideradas apenas como receptáculos de espermas para garantir a perpetuação da espécie, essas eram as aias.

As Aias — Viviam nas casas dos comandantes e uma vez por mês no seu período fértil era estupradas em meio as pernas das esposas estéreis, não eram tocadas, não lhes dirigiam palavra alguma, eram somente objeto “sagrado” da fertilidade.
Só saiam para fazerem compras da casa em pares e não podiam manter nenhum tipo de conversa, eram constantemente vigiadas por homens armados denominados Olhos, guardiões, Anjos.
Todas as aias vestiam-se iguais, vestidos vermelhos e touca branca que pareciam cabresto, pois, lhes tiravam a visão periférica, assim também como nunca faziam contato visual com quem quer que seja.

Todas as mulheres usavam um tipo de uniforme os das esposas (mulheres dos comandantes) eram azuis. Os das Marthas (empregadas domésticas) eram verdes. Enfim, todos usavam uniformes de acordo com suas condições, inclusive os comandantes que se vestiam como patriarcas, símbolo de reverência, autoridade máxima.

A história nos é contada de forma não linear e não temos ideia de quanto tempo durou esse regime e quais ou tipo de sequelas foram deixadas. Mesmo durante o regime havia boatos de uma resistência que circulavam entre as aias com o nome “MayDay”

MayDay pode ser a organização que deu fim a esse governo. Tudo é uma incógnita e o que interessa pra gente mesmo é abrir os olhos e se manter vigilante com que acontece no nosso país por mais insignificante que possa parecer.

Estou ansiosa pela continuação da série que é bem fiel ao livro e curiosa de como vão terminar, já que o final do livro deixa para que o leitor o termine de fato.

Na série tem uma frase que talvez já nos dê uma ideia do poder da união:

“Nunca deveriam ter nos dado uniformes se não queriam que fôssemos um exército”

site: http://www.mundoliterando.com.br/category/resenhas/
Aline 04/02/2018minha estante
Parabéns pela ótima resenha. Li o livro e vou ver a série! Não consigo parar de pensar!


Catarina.Aguiar 31/03/2018minha estante
Então o livro acaba exatamente como a 1ª temporada da série ?


Marcia 22/09/2018minha estante
Oh Catarina! Me desculpa fiquei um tempão sem atualizar o skoob.
Sim, termina , a série é bem fiel! Bjs




Nath @biscoito.esperto 31/05/2017

Uma escrita bagunçada
Sou feminista e sempre procurei ler livros de ficção e não-ficção que abordem o tema da desigualdade de gênero. Confesso que até a série do Hulu sair eu não conhecia The Handmaid's Tale, mas quando vi o primeiro trailer e fiquei muito curiosa. Precisava ler o livro.

A história é contada do ponto de vista de Offred, uma Aia - assim são chamadas as mulheres férteis que tem como missão engravidar de homens importantes, cujas esposas são inférteis. Offred nem sempre foi uma Aia - não muito tempo atrás ela era uma mulher comum, com um trabalho, marido, uma filha e, é claro, liberdade. Num golpe de estado a constituição dos Estados Unidos foi suspensa e uma teocracia foi estabelecida. Nesse novo sistema as mulheres tem algumas opções: 01) ser esposas dos homens; 02) cuidar das casas dos homens ou 03) engravidar dos homens. Há uma quarta opção, mas ninguém quer trabalhar recolhendo lixo tóxico...

A história começa quando Offred é enviada para uma casa nova para engravidar de um homem novo e começa a despertar a muito indesejada atenção do seu Comandante. Enquanto luta para sobreviver - para rever seu marido e sua filha, que ela crê estarem vivos - ela descreve como é o mundo ao seu redor e conta como as coisas chegaram a este ponto.

Eu esperava mais do livro. Não digo que não gostei, pois definitivamente foi uma leitura interessante e o tema da história é criativo, mas eu achei a escrita bagunçada e errante demais. Parece que autora não sabia exatamente onde ela queria chegar e foi escrevendo cenas aleatoriamente, sem planejamento. "Ah, tive uma ideia de algo interessante, vou simplesmente escrever sobre isso mesmo que não caiba nessa parte da história". Muitos trechos que deveriam ser chocantes não me chocaram, e alguns momentos do livro foram estendidos demais quando poderiam ter sido mais breves, simplesmente por que parece que a autora não tinha um objetivo claro enquanto escrevia.

Eu gostei da narrativa da autora, da forma como ela descreve o mundo de Offred. Sua realidade é sufocante e desesperadora, mesmo passando uma ideia de paz e organização. Offred está à flor da pele, e o leitor também. Os flashbacks são muito bem vindos para conhecermos a vida de Offred, mas não são o suficiente para nos fazer entender como o mundo se transformou tanto em tão pouco tempo. Mesmo que a ideia de uma teocracia massacrando os direitos das mulheres seja muito verossímil, a forma como tudo ocorreu no livro não me chamou a atenção.

Apesar de não ter sido um livro perfeito, eu gostei da leitura. Especialmente gostei da forma como a autora escolheu finalizar o livro, achei muito bem trabalhado. Vou assistir o seriado e ver como fizeram a adaptação.

Recomendo =D

site: www.nathlambert.blogspot.com
Julia 24/08/2017minha estante
Nossa, eu me senti exatamente assim. O livro é bom mas é beeem bagunçado mesmo. Também senti falta de saber como ela se tornou uma Aia e como tudo aconteceu. Também estou ansiosa pra ver como o seriado trabalhou a história


Roberta.Ortiz 01/09/2017minha estante
Concordo muito!
Tb tive essa impressão sobre os insights que foram sendo jogados pro papel sem muito compromisso.
E tb senti falta de saber como foi que as coisas chegaram àquele ponto.
Mas dá pra refletir um bocado no fim.




Ladyce 01/10/2017

Tenho uma longa história com O conto da aia. Lá no final da década de 1980, quando ainda morava fora do Brasil, comprei esse livro em inglês. Tentei lê-lo uma vez e não consegui levar a leitura avante. Mudei-me para o Brasil em 2002 e o livro veio comigo, junto a toda a biblioteca da casa, somos dois dedicados às humanidades, coisa que colabora imensamente para acumulação de livros. Aqui tentei ler de novo, porque tinha amigos que insistiam que eu o fizesse. Duas tentativas. E não consegui levar a leitura adiante. Sete anos depois, saí de um apartamento grande para um menor e sacrifiquei parte dos livros. Lá foi ele, sem culpa. Eventualmente achei um exemplar, no sebo, em português e tentei de novo. Nada. Doei-o para o camelô de livros usados do meu bairro (moro próximo à PUC, aqui os camelôs vendem livros). Passaram-se os anos e meu grupo de leitura decide que este seria o livro na berlinda em outubro de 2017, já que há uma série na televisão baseada em seu enredo. Comprei em inglês no Kindle para que eu e meu marido pudéssemos ler e para que não ocupasse mais lugar nenhum na minha moradia. Finalmente, sob coerção, fui do início ao fim. E para a discussão de grupo, peguei emprestado um exemplar em português e passei horas tentando achar as frases que mais me impressionaram para podermos todos achar no texto durante a discussão. Resultado: li. Achei que é um livro importante de ler. Acredito que toda mulher deva lê-lo. Vou recomendar às minhas sobrinhas que o façam. Mas confesso não tive prazer nenhum em degustá-lo. Margaret Atwood que me perdoe.

Ainda estou sob o impacto da leitura. E muito próxima do texto para realmente poder analisá-lo. É a obra mais misoginista que encontrei até hoje. É de arrepiar uma leitora. Mas talvez as citações possam falar por si mesmas. Um livro como esse já foi chamado de ficção científica. Hoje é mais comum falarmos de ficção distópica. Ou seja, ficção cuja trama, situada em um futuro não muito longínquo, mostra uma realidade repleta de privações, com futuro desesperador e opressivo. Trata-se da história da República de Gilead dominada por uma seita religiosa radical. Nessa sociedade mulheres têm duas únicas funções: procriar e ser de uso para homens. As mulheres também não aprendem a ler. Na verdade o conhecimento é privilégio de poucos: “Não existem mais revistas, não existem mais filmes …” [34]. As que não conseguem engravidar são consideradas dissidentes e levadas à morte. A orelha do livro registra que essa é a realidade no século XXI. Essa visão sombria, com conotações apocalípticas é sufocante e permeia toda a obra, transformando-a numa gigantesca aventura asfixiante. Barbaridades diversas são cometidas através do tempo. Já na primeira página a autora estabelece sutilmente o clima de ansiedade: “Lembro-me daquele anseio, por alguma coisa que estava sempre a ponto de acontecer e que nunca era a mesma…” [11].

Há horas em que esse mundo parece particularmente medieval, talvez pela crudeza dos eventos, talvez pelas limitações impostas aos habitantes de Gilead. Essa referência à Idade Média também é sugerida por Margaret Atwood nas entrelinhas. Nesta sociedade das massas comandadas como robôs há poucafé ou expectativa de uma vida melhor. As pessoas não têm a sensação de poder: “Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.” [73] Nesta imagem, há, por exemplo, uma direta referência às ilustrações de manuscritos medievais, onde nas margens encontramos desenhos engraçados, animais diversos, pessoas nas tarefas mundanas, frades e cavaleiros enroscados em videiras floridas. Nas margens tudo era válido. Há muito simbolismo na narrativa algo que também remete aos textos medievais herméticos. Além disso, os nomes de mulheres Offred, Offglen, [Of Fred; Of Glen] são semelhantes a denominações medievais em que o “dono” daquela pessoa é mencionado no nome de batismo, fato até hoje reminiscente em nomes nórdicos e russos: Adamson, Stephenson [filho de Adam, filho de Stephen] ou Kimmeldottir [filha de Kimmel] por exemplo. Mais uma maneira sutil de acabar com a individualidade feminina.

A tensão emocional aparece quando há lembranças da vida anterior, e sonhos de como poderia ser diferente. Se todos estivessem robotizados, nada aconteceria. Mas é agonizante para o leitor, se colocar, como se coloca nessa narrativa em primeira pessoa, no lugar de quem tem flashes de memória de um mundo mais digno. “Eu gostaria que esta história fosse diferente. Gostaria que fosse mais civilizada. Gostaria que me mostrasse sob uma luz melhor, se não mais feliz, pelo menos mais ativa, menos hesitante, menos distraída por trivialidades. Gostaria que tivesse mais forma.Gostaria que fosse sobre o amor, ou sobre súbitas tomadas de consciência importantes para a vida da gente, ou mesmo sobre pores-do-sol, passarinhos, temporais e neve.” [317] Que tristeza! Que agonia!

O conto da aia é uma história de terror, muito pior do que qualquer livro de Stephen King. Muito mais misterioso e estranho do que os contos de Edgar Allan Poe. Há uma parte de mim que acredita que só uma mulher poderia ter escrito esse mundo aterrorizante da política de reprodução. É um livro cruel. O desespero dessas mulheres que procuram entender o mundo em que vivem é grande: “Inalo o cheiro do sabão, o cheiro desinfetante, e fico parada no banheiro branco, ouvindo os sons distantes de água correndo, de descargas de vasos sanitários sendo puxadas. De uma maneira estranha sinto-me confortada, em casa. Há algo tranquilizador com relação a vasos sanitários. Pelo menos as funções corporais permanecem democráticas. Todo mundo caga,…” [301]

Se gostei da leitura? Não. Ela escreve bem? Sim, muito bem. É um livro que deve ser lido? Sim. Você o recomendaria? Para todas as mulheres.
Wagner 01/10/2017minha estante
Saudações, carissima Ladyce.
Começando Outubro com uma resenha magnífica. Parabéns.


Vinha 02/10/2017minha estante
Amiga, traduziu minhas sensações ao ler esse livro! Ótima resenha. Saudades!


Isil 02/10/2017minha estante
Que resenha formidável! Grata pela sinceridade. E por curiosidade: já leu alguma outra obra (em prosa ou poesia, em português ou inglês) da Margaret Atwood?


Ju 03/10/2017minha estante
Senti a mesma coisa, que era um livro bom e importante, mas nenhum prazer em ler. Achei também que não era muito futurista, o que ela descreveu parece muito com a vida das mulheres que vivem sob o talibã, e é o que alguns evangélicos estão tentando concretizar no Brasil (eu disse alguns e não todos)


Ladyce 03/10/2017minha estante
Obrigada Wagner.


Ladyce 03/10/2017minha estante
Vinha, que bom que tivemos as mesmas impressões!


Ladyce 03/10/2017minha estante
Isil, muito obrigada. Não ainda não li nada mais dela.


Isil 06/10/2017minha estante
Obrigada pela resposta, Ladyce! Eu li, anos atrás, "O lago sagrado", mas creio ter sido "muito" pra mim na época (era ainda adolescente). Também tive a oportunidade de ler alguns poemas dela, dos quais gostei muito.




Márcia Regina 15/12/2009

"O conto da aia", de Margaret Atwood

É apresentada na contracapa como uma história de profundo sentimento. Concordo, ainda que sua base seja a discriminação, a opressão, a política e o preconceito. O social está presente em cada linha, porém, o que me ficou da leitura é puro sentimento, intenso, assustador, nebuloso, de uma neblina de tal forma concentrada que é quase possível cortá-la com uma faca. Mas facas não são permitidas no mundo das aias, nem lustres, nem cordas, nem qualquer objeto que permita dar fuga ao corpo e vazão ao desespero.

A leitura é lenta, deve ser feita com calma, observando-se pausas e quase imperceptíveis mudanças de tom. Como o andar das aias, figuras duplas, manequins vestindo roupas vermelhas, onde o poder se exerce com um leve movimento do quadril, um levantar (in)consciente do pescoço, milímetros apenas, de forma que mais se perceba do que se enxergue cílios, pelos, nuca, bocas, deleite... Emoções represadas por uma barreira tão tênue que precisam menos do que o toque, basta uma intenção, um cheiro de cigarro, uma voz um pouco mais elevada ou mais baixa do que seria “conveniente”.

A história é conhecida pelos amantes de ficção científica: num mundo futuro, invadido pela radiação, a sobrevivência humana está em risco e as relações sociais mudaram. O comando concentrou-se nas mãos masculinas e as mulheres foram segregadas a poucas e bem definidas funções. Uma nova ordem, justificada pela interpretação rigorosa, inflexível e direcionada dos textos sagrados. A trama é comum, mas permite inúmeras variações. E Margaret Atwood cria uma variação completamente nova, não pelo que conta, o que arrebata é a forma como conta.

Gostei. Muito. Vai para minha lista de preferidos deste ano.
cid 25/08/2013minha estante
Fiquei com vontade de ler. Mas, por que só tres estrelas?


Márcia Regina 08/07/2015minha estante
Cid, eu parei de conceder estrelas porque me dei conta de que marcava de uma forma muito particular, não baseada na qualidade do livro, mas no gostar ou não. E isso nem sempre era justo.
Funcionava assim:
Menos de três, não iria reler e provavelmente passaria o livro adiante;
Três: gostei do livro, valeu a compra e a leitura;
Quatro: gostei muito, tem grandes chances de ir para minha estante de favoritos;
Cinco: especial, para levar em cada mudança e reler, reler, reler.


cid 26/09/2015minha estante
Grata Marcia pela atenção




Daniel Felipe 23/12/2017

Opressivo. Desesperador. Sufocante.
Talvez o melhor livro que li no ano! A cadência do livro é incrível. É opressiva. É controlada. Desesperadora, sufocante. Você quer saber mais, mas só recebe as informações de pedacinho em pedacinho. É como se estivesse debaixo do mar, num mergulho profundo, com 3 milhões de toneladas te apertando, te achatando, te tirando o fôlego.
Vica 25/12/2017minha estante
Uauu!!!


erikcrespin 25/06/2018minha estante
Depois desse comentário esse livro é o próximo a ser devorado pelo meu kindle. Hahahaha, agora eu fiquei muito entusiasmado.




jota 21/03/2013

Grandes especulações
Apesar de constantemente catalogado como ficção científica, Margaret Atwood prefere que chamem este livro de ficção especulativa "e, mais particularmente, como aquela forma negativa de ficção utópica que veio a ser conhecida como distopia.” É o que ela diz no artigo “Escrevendo utopia”, num outro livro dela que li neste ano, Buscas Curiosas (editora Rocco).

Aqui não há robôs autônomos, macacos dominando algum planeta, assassinos que vêm do futuro, criaturas mutantes, etc. Apenas que esta história se passa daqui a alguns anos, numa monoteocracia, daí a "especulação” da autora. Em vez de “Era uma vez...” Atwood se vale de “E se um dia, no futuro...”

Uma sociedade perfeita é uma utopia, tal como Thomas Morus imaginava; mas uma sociedade baseada em instituições ditatoriais (de fundo religioso, ainda por cima) constitui uma distopia. É isso que caracteriza a república de Gilead. Que, no “tempo de antes”, era a América. Agora, religiosos renegam a ciência e a sociedade segue severamente os preceitos bíblicos e vive sob proibições (e castigos) de todo tipo.

Offred (de Fred, seu proprietário), a narradora, é uma das aias do comandante da república e como as demais mulheres de Gilead, o único valor que possui é o de gerar filhos e servir aos homens. A república vive uma época de grande infertilidade (explicada apenas no final do livro) e o sexo destina-se exclusivamente à procriação.

Numa sociedade como essa, o conhecimento é privilégio de poucos e não é permitido às mulheres que aprendam a ler – placas, por exemplo, são substituídas por figuras. O lugar da mulher em Gilead é estritamente a casa, o lar. A rotina das aias é controlada o tempo todo, até mesmo o tempo que se passa no banheiro. Um dos maiores prazeres que Offred poderia ter seria fumar um cigarro, o que, logicamente, também é proibido.

É ficção especulativa, mas quem leu o livro de Azar Nafisi, Lendo Lolita em Teerã, não vai achar este livro tão estranho assim, já que no Irã (e o regime dos aiatolás vai ser citado, claro) e em outros países pouco ou nada democráticos as autoridades tentam limitar (ou limitam de fato) o campo de ação das mulheres. E igualmente dos adversários políticos, se é que eles ainda existem em Gilead, não foram todos mortos ou encontram-se desaparecidos ou presos. Ou, quem sabe, agindo na clandestinidade...

Exceto quando pensa em Luke, seu amante do passado, e na filha desaparecida, a narrativa de Offred é seca, fria, quase totalmente despojada de emoção e sua história vai evoluindo como se essa mulher-objeto estivesse fazendo um relatório do que se passa na república, muito mais do que propriamente nos trazendo um relato de sua vida ali. É que, entre tantas proibições, o amor e outros sentimentos particulares não têm mais lugar; a própria família como a conhecemos hoje foi abolida. Beijar é proibido e se um homem tentasse seduzir uma mulher e fosse denunciado seria enforcado pendurado num poste para servir de exemplo (mais ou menos como numa das cenas de Argo, o ótimo filme de Ben Affleck).

Ditaduras surgem (e) mais facilmente (se instalam) em tempos conturbados e difíceis e em Gilead não foi diferente. Então, é aos poucos, através das lembranças de Offred, que ficamos sabendo (muito pouco, na verdade) como as coisas evoluíram (melhor seria dizer regrediram) de um modelo de sociedade para outra.

Mas tudo nos é revelado ou explicado, como conviria num romance de suspense (que não é o caso aqui), no que seria o último capítulo do livro ou mais corretamente seu posfácio, mas que é chamado por Atwood de Notas Históricas – o livro todo vale pelas dezessete páginas finais.

Lido entre 02 e 21/03/2013.
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Queria Estar Lendo 20/07/2018

Resenha: O Conto da Aia
O Conto da Aia, da autora Margaret Atwood, é um clássico atemporal. Lançado aqui no Brasil pela Editora Rocco, é difícil pensar em palavras para expressar o quanto essa leitura foi um impacto do início ao fim.

Na trama, acompanhamos Offred. Ela é uma aia, designada à família de um importante Comandante em um país derrubado por um governo totalitário e teocrata. Esse novo sistema político é de uma opressão e terror sem tamanho, fundamentando sua ideologia na superioridade do gênero masculino e nas vontades de Deus, basicamente o comandante supremo de toda essa revolução.

Inúmeros problemas fizeram a queda de natalidade na Terra chegar a números drásticos, e uma das "medidas de solução" encontradas foi de "recrutar" as mulheres ainda férteis e designá-las à famílias específicas a fim de servirem como "receptáculo" para os filhos que possivelmente viriam. Uma completa e absurda dominação sobre o gênero feminino, restringindo principalmente as aias - mas as mulheres, em geral - às "vontades de Deus".

"Se for uma história que estou contando, então tenho controle sobre o final. Então haverá um final, para a história, e a vida real virá depois dele. Poderei recomeçar onde interrompi.
Isso não é uma história que estou contando."

As histórias mais assustadoras são as ficções que têm um pé na realidade. O Conto da Aia, descrito como distopia e ficção especulativa, é uma das que mais dá para relacionar com coisas do dia-a-dia. Absurdos do cotidiano, pensamentos retrógrados, misoginia, violência de gênero. Tudo que está neste livro, num universo distópico não tão distópico assim, existe, e aqui foi levado ao extremo.

Até porque não existe nada mais perigoso do que o extremismo, e dar poder a extremistas pode resultar no que este livro apresenta como uma revolução na civilização. Como a "salvação" encontrada para colocar o país nos eixos, para salvar a população do que haviam causado a si mesmos.

"Aprendemos a ver o mundo em arrancos, aos arquejos, como se prendendo a respiração."

O Conto da Aia é impactante porque é verossímil. Porque mostra o que o poder e a opressão podem fazer; fala sobre a submissão de um gênero com a naturalidade que aquele mundo doentio criou para tratar essa situação. Mostra os horrores e a aceitação como parte da sociedade, porque o mundo horrendo em que a protagonista vive foi construído para subvertê-la a nada mais do que um útero. A Aia existe para carregar o filho de alguém e é isto. Ela não tem nome, não tem voz, não tem olhar, não tem direito a vontades, a sonhos, a esperanças, a um futuro. A existir. Ela não existe além da sua obrigação, sua devoção e sua submissão.

Ainda que seja uma sociedade aterrorizante, Offred é uma das aias da primeira geração. Ela viveu muito do mundo civilizado antes da queda de tudo que conhecia; viu seu país sob liberdade antes de se encontrar à sombra de um governo totalitário radical. Ela é uma mulher de dois mundos; a que tinha um nome, uma família, sonhos, esperanças, e a aia resignada ao seu dever, perturbada pelo que perdeu, temerosa quanto ao que ainda pode perder.

O modo como a narrativa desenvolve a protagonista é aterrador. Não é um livro revolucionário, não é uma distopia onde a personagem principal vai se erguer e lutar contra um sistema opressor. O máximo de revolução são em pequenos atos; risos de escárnio escondidos, piadas internas, encontrar falhas em seus superiores e usar isso para se fortificar. Offred é uma personagem de muitas camadas, interessante de se acompanhar. Não é chamada de heroína. É uma sobrevivente.

"É um acontecimento, um pequeno desafio às regras, tão pequeno a ponto de ser indetectável, mas momentos como esse são as recompensas que guardo para mim mesma."

A divisão dessa nova sociedade é de dar embrulho no estômago. O modo como tratam as mulheres - todas as divisões, desde as Esposas, que, considerando o cenário, têm mais voz e presença do que outras, até as Marthas e Aias. As Tias, designadas para treinar e "educar" a qualquer custo as aias, são as figuras de maior força dentro da sociedade exatamente por serem vistas como as ditadoras. Mas ainda estão resignadas às vontades dos homens.

"Essas canções não são mais cantadas em público, especialmente as que usam palavras como livre. São consideradas perigosas demais."

Um ponto que a narrativa usa para explicar isso é que mesmo no passado, em outros governos ditatoriais, entendia-se que era necessário alguém dentro de um grupo para subjugá-lo; aqui, com as mulheres não foi diferente. As Tias foram escolhidas para serem as superiores, para corrigir e garantir que a principal "fonte" de um futuro não ousasse se rebelar.

"Como todos os historiadores sabem, o passado é uma enorme escuridão, e repleto de ecos."

Em relação aos homens da história, minha vontade de instaurar uma ditadura feminista só aumentou conforme lia esta obra. Honestamente, é de fazer chorar e gritar em frustração. Margaret conseguiu desenvolver essa nova realidade com tamanha perfeição que me deu medo, me deixou desesperada, me fez querer erguer essas mulheres e lutar ao lado delas. É tanto absurdo, tantas atrocidades; os monstros nessa história não são as armas ou o sistema ou mesmo Deus. São os homens, porque deles veio tudo isso, mesmo a "palavra do Senhor" a qual eles tanto louvam.

Dois personagens masculinos podem ser excluídos dessa generalização: Luke, uma lembrança inofensiva, e Nick, um possível aliado em meio a todo esse absurdo. É aquela história: generalizamos porque a maioria é que causa tudo isso. Sempre vão existir exceções, sempre vai haver um pouquinho de esperança. Mas esperança, num mar de caos, pode afundar.

"Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem que se esforçar para fazê-lo."

Esse foi um dos livros mais perturbadores que já li, e por causa desse clima tenso, da instabilidade das emoções da protagonista, da incerteza sobre os rumos que a história tomaria, eu não consegui desgrudar dele até terminar. Mesmo com o ritmo monótono, Margaret sabe como te prender às páginas, te fazer questionar e ansiar por mais. Um pouco de esperança, um pouco de rebeldia, um pouco de luta, talvez. Uma mera faísca de liberdade que seja.

Conforme ouvimos sobre o passado de Offred, descobrimos sobre seu marido, Luke, sua filhinha, sua melhor amiga, Moira - uma das melhores personagens do livro, inclusive - e isso parece criar aquela centelha de esperança. De que, mesmo nesse momento sombrio, ainda há coisas em que se agarrar, lembranças para se libertar.

A respeito de Moira, inclusive, que mulher! Lésbica, duas vezes atacada pelo sistema - uma vez que as mulheres na comunidade LGBT são chamadas de Não Mulheres e Traidoras de Gênero por serem quem são - ela não se deixa submeter às atrocidades. Ela é uma das poucas que ainda ergue a voz mesmo debaixo de todo aquele terror.

Eu poderia me estender aqui por horas e horas para falar sobre esse livro, e a vontade é grande. Parece que nem todas as palavras do mundo seriam suficientes para exprimir o que foi essa leitura; e por isso eu digo: leiam.

O Conto da Aia é aterrorizante e definitivamente um dos melhores livros que já li na vida. É uma lição sobre história e humanidade (a falta dela) e sobre o horror que o poder pode criar.

site: http://www.queriaestarlendo.com.br/2018/07/resenha-o-conto-da-aia.html
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Cláudia 14/07/2017

Por questões de meio ambiente sendo degradado, por poluição doenças e afins, um grupo que se intitula Filhos de Jacó aplica um golpe nos EUA e é instalada então a república de Gilead. O país agora está sendo regido pelos Comandantes, que ditam as leis e se beneficiam delas na nova República de Gilead. Esses comandantes criaram uma doutrina sincrética que mistura o Velho Testamento, uma péssima interpretação da Psicanálise, entre outras crenças, para justificar novos valores morais que toda a população deve se submeter.

Sendo assim, as mulheres, perdem todos seus direitos, somente podem executar tarefas voltadas à casa e a família. Ela são divididas em castas:
- as Esposas de Comandantes, "cuidam" da casa e filhos, fazem trabalho manuais como costura, tricô;
- as Marthas, empregadas domésticas, que realmente fazem os cuidados com bebês e crianças;
- as Econoesposas, que fazem os mesmos papeis de todas as outras, mas são casadas com não-comandantes, são de classe baixa;
- as Tias encarregadas de treinar a obediência nas Aias;
- as Aias mulheres férteis e solteiras ou, em alguns casos, que não tiveram um casamento válido na nova doutrina fundamentalista de Gilead, são enviadas para servirem de útero dos filhos dos Comandantes); e
- as Não-Mulheres (mulheres não férteis solteiras, idosas, lésbicas e proscritas que de alguma forma representarem ameaça ao sistema) que vivem nas Colônias, onde há muita exposição à elementos tóxicos e a expectativa de vida é baixa.

A história é narrada pela Offred (literalmente “do Fred”, o Comandante a que serve como Aia), que nos mostra sua nova vida após perder todos os seus direitos de posse, escolhas e até do seu corpo, assim como todas as mulheres nos EUA. Na tentativa de não perder sua própria identidade, ela relata o seu novo dia-a-dia, também tem muitos flashbacks de momentos como seu treinamento como Aia, quando foi capturada tentando fugir com a família, como foi o golpe que mudou a vida não só dela, mas de todo um país.

Muito desse livro é assustador, porquê tudo isso não é impossível de acontecer, na verdade isso já está acontecendo em alguns lugares do mundo.
A leitura desse livro é essencial, pois pode abrir os olhos de pessoas que ainda são ingênuas o suficiente para acreditar que a democracia irá durar para sempre, a ponto de não se informarem, não terem sequer conhecimento, tão pouco opinião, sobre história, política ou sobre qualquer coisa que a deixe menos à mercê de uma forma de controle.

site: https://youtu.be/YShIyR7jHX8
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BrunaKoelln 02/08/2018

Genial. Mas não me cativou.
Apesar de reconhecer a genialidade da escrita da autora, não me cativei pelo livro. O que me encantou foi a forma que as críticas sociais são feitas, aparecendo como parte sutil da história mas que deixam um incomodo e trazem reflexão ao autor. Não gostei tanto do desenrolar da história e apenas poucos momentos da leitura me deixaram com vontade de saber o que aconteceria em seguida. Ainda não encontrei alguém com opiniões parecidas sobre a leitura, e apesar das críticas, recomendo a leitura.
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Fernando Lafaiete 05/12/2017

O Conto da Aia: O romance cruel da literatura canadense.

O conto da Aia da escritora canadense Margaret Atwood foi lançado pela primeira vez em 1985 e é considerado um dos romances mais importantes da língua inglesa. É uma história reflexiva que aborda a inferiorização da mulher em uma sociedade onde elas são vistas exclusivamente como óvulos ambulantes.

É um livro político e distópico que mostra todo o horror que o homem pode causar com a intenção de criar uma sociedade mais funcional. Tudo na história tem um respaldo histórico e religioso que é muito bem inserido por Atwood. O conto da Aia é um relato de quem foi testemunha e vítima de um sistema hierarquizado onde os únicos que eram impunizados eram os homens detentores do poder.

Nossa protagonista é Jules, uma mulher que do dia pra noite se vê anulada de qualquer direito que possuía. Sendo fértil, ela se vê transformada em uma aia; uma mulher que terá como função ser barriga de aluguel da família de um general. Após o nascimento da criança, ela é transferida para outra residência para cumprir o mesmo papel. Não tendo direito absolutamente nenhum sobre o próprio filho e muito menos sobre o próprio corpo.

É um livro que levanta ao longo da leitura diversas perguntas onde muitas nem sequer são respondidas. As cenas de sexo com o intuito de procriar, nada mais são do que cenas de estupro institucionalizadas, onde a própria esposa do general participa do ritual, segurando os braços da aia (a mulher estuprada). Os estudiosos da época de antes (termo utilizado pela personagem principal), são vistos como criminosos e são caçados como tais. Tudo é defendido de maneira racional e religiosa, capaz de deixar alguns leitores no mínimo desconfortáveis.

Diante de tudo que nos é apresentado, podemos deturpar a mensagem da história achando que se trata de uma narrativa que relata a luta contra um sistema totalitário. Mas na verdade, mesmo com a resistência de alguns personagens, este livro não é sobre a luta da minoria a favor de um sistema mais justo. É na verdade a história de seres humanos amortecidos, condicionados a aceitarem o seu novo papel. Como diz uma reportagem na revista Carta Capital:

"Não é uma história sobre resistência, sobre mulheres ou sobre ficção-científica. É sobre horror. Ainda pior quando Margaret Atwood declara para New York Times que uma de suas regras era apenas utilizar eventos que tivessem acontecido na história."

O conto da Aia tem uma escrita impecável, porém lenta. Algumas situações são apresentadas de maneira repetitiva com a intenção de fortalecer a vulnerabilidade da protagonista diante de situações tão absurdas. As Aias perdem seus nomes e passam a ser tratadas por termos mais específicos. A protagonista é chamada de OFFred, onde "of" é uma palavra do inglês que significa "de" ou "do". Nada mais explícito do que este termo que deixa claro o poder de posse do homem sobre a mulher.

É um livro excelente, cansativo em alguns momentos, mas muito bom e muito indicável para quem gosta deste tipo de história. Deixa pontas soltas, mas as notas históricas após o final da história principal trazem um peso para a narrativa que nos deixa pensativos. E se tudo apresentado de fato acontecesse? - O problema é que esquecemos que tudo já está acontecendo. Talvez, assim como Jules, estejamos amortecidos a respeitos das injustiças do mundo ou preferimos nos fazer de cegos para não nos incomodarmos.

Quantas mulheres de outras países não fogem buscando refúgio e uma maneira mais justa de serem tratadas? Sentimos pena delas como sentimos das Aias do livro? - Infelizmente, muitas são expulsas como animais. O Conto da Aia infelizmente não é somente ficção, é uma realidade a qual fazemos parte, direta ou indiretamente.

Tenham senso crítico quando forem ler e não tenham pressa quanto as respostas. É um livro que não entrega nada de bandeja ao leitor. Se forem ler, saibam que terão que refletir e criar paralelos.

O conto da Aia é uma história cruel, mas necessária. Ela mostra que não evoluímos para melhor, apenas estamos reproduzindo fatos passados. A história se repete e a crueldade humana se intensifica. O importante é termos forças para resistir!
Esdras 06/12/2017minha estante
Nossa. Bem pesado, hein?
Quero ler.


Fernando Lafaiete 06/12/2017minha estante
Esdras... O livro é pesado pela mensagem que ele passa. Algumas cenas nos deixam com a pulga atrás da orelha. Outras são bem gráficas e algumas só nos deixam confusos. Mas é um livro que vale muito a pena ser lido.




LauraaMachado 31/05/2018

Melhor do que eu esperava
Como foi para muitas outras pessoas, minha vontade de ler este livro nasceu depois de assistir à série excelente e maravilhosamente fiel a ele. Por causa dela, e por ser também uma distopia, que é um gênero que eu adoro, ainda mais uma escrita décadas atrás, resolvi dar uma chance ao livro. Esperava que fosse extremamente bem escrito e complexo, mas definitivamente não esperava que fosse gostar tanto.

É estranho dizer que me diverti com a leitura, mesmo que não haja nenhuma cena no livro realmente alegre? Fiquei feliz de ver que a escrita não era tão difícil quanto eu achava que seria e que a leitura fluía tão facilmente. Li em dois dias, praticamente duas sentadas, me prometendo que ia parar no final de tal capítulo, só para ler mais vários seguidos.

Na verdade, eu tenho duas únicas críticas para o livro, que estão entrelaçadas. Primeiro, queria que tivesse mais explicação sobre todo esse regime, quais são seus alcances geográficos e principalmente como o resto do mundo o enxerga. Mas isso só foi um problema mesmo por causa da minha segunda e mais importante crítica: o livro é curto demais. O final é muito aberto, sem nada definido e, talvez para outros livros isso fosse mais fácil de encarar, mas eu preciso de algo mais concreto com distopias. Devia ser maior. Ou pelo menos devia ter uma continuação.

Minha consolação é a série, que já passou de onde o livro está, senão eu sofreria para sempre sem conseguir imaginar o que poderia vir depois.

Recomendo o livro completamente, mesmo sabendo que ele não é do tipo que agrada qualquer pessoa. É uma ótima leitura, principalmente se você ainda não viu a série, porque vai te deixar bastante tenso com toda a situação. Também é do tipo de livro que levanta questões reais e nos faz perceber toda a liberdade que temos por viver fora de um regime como esse, que poderia muito bem acontecer, mesmo que não exatamente assim. Acho incrível como distopias têm o poder de se parecerem tão possíveis e prováveis, mesmo quando foram escritas há mais de trinta anos. Continua sendo um dos meus gêneros favoritos, e esse é um dos melhores livros dele que já li.
Andréa Araújo 02/06/2018minha estante
Você tirou a minha grande preocupação com esse livro, ele ser arrastado e difícil de ler! Sempre tive a impressão que a leitura dele fosse assim. Agora vou querer ler!!




Luiza 21/08/2017

O Conto da Aia
Quando sucessivas reportagens celebram o sucesso de The Handmaids Tale, uma atriz do calibre de Emma Watson (a bruxa mais inteligente de sua idade) espalha o livro pelas ruas de cidades por onde passa e a sua editora parceira (maravilhosa) anuncia que republicará o livro, não há muito o que questionar: tudo que você sabe é que precisa ler O Conto de Aia.

Acho que não fui a única a pensar assim: só consigo imaginar que o atraso de quase um mês entre o pedido e a chegada do livro foi resultado de um pedido em massa por parte dos parceiros.

Publicado pela primeira vez em 1985, o Conto de Aia, da canadense Margaret Atwood, ressurgiu no cenário mundial em um momento em que as liberdades individuais (em especial, a liberdade feminina) se choca, cada vez mais aberta e violentamente, contra um Governo que coage e pune com violência, e que ainda usa dos discursos religiosos ou de ódio para se legitimar.

Em algum ponto do século XXI, o mundo foi devastado pela radiação e pelos efeitos de sucessivas guerras biológicas e químicas antigas e/ou em andamento. A maioria das mulheres no que antes foi conhecido como os Estados Unidos da América se tornaram estéreis, e por isso há mulheres como Offred.

Uma propriedade do Estado, cuidada e mantida saldável com o único propósito de procriar. Claro, ela pode sair de casa (para fazer compras uma vez por dia, sempre acompanhada de outra Aia), e também é livre para rezar (trancada no quarto em que ocupa na casa do Comandante que ganhou o direito de tentar engravidá-la).

Caso não cumpra com o que é esperado de Aia (dar filhos às Esposas), Offred se tornará uma Não mulher e, junto a outras inférteis, viúvas, adulteras, feministas e homossexuais, será condenada a trabalhos forçados nos lugares em que a radiação reduz sua expectativa de vida a 3 ou 4 anos (ou mesmo menos). Ou então ela pode ser fuzilada ou enforcada e ter seu corpo exibido no Muro, para servir de exemplo à outras Aias.

Mas, contrariando o Estado que a controla, Offred também se recorda de sua vida anterior. Recorda-se de sua filha pequena e de seu marido, perdidos a tempo o bastante para se perder a contagem do tempo.

Sua transgressão continua em sua narrativa, e a própria narrativa se torna seu instrumento de transgressão e de libertação. Para nós, seus interlocutores que nem ela mesmo acredita, ou espera que terá, Offred se permite confiar o bastante para contar um pouco sobre o tempo em que passou com o Comandante e sua Esposa, sobre sua sociedade e sobre àquelas mulheres que foram reduzidas a úteros implorando para serem preenchidos.

A narrativa construída por Margarert é surpreendente (não encontrei outra palavra melhor aplicável). É incomoda e amarga e não só pelo ambiente em que tudo se passa, mas pelo desconforto em saber que todo aquele absurdo teocrático que é a República de Gilead é perfeitamente possível de sair dos papeis de Atwood (embora fique me perguntando se formar um mundo de caos a partir das doenças de nosso tempo não seja uma prerrogativa da distopia... Assunto para outra ocasião talvez)

site: http://www.oslivrosdebela.com/2017/08/o-conto-da-aia-margaret-atwood.html
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Pandora 02/02/2018

Em primeiro lugar é preciso esclarecer que eu não estou num bom momento para leituras densas. Apesar de toda a importância deste livro, eu não me conectei muito com a escrita da autora e nem com a personagem principal. Por que ler este livro agora, então? Porque quero muito ver a série e achei melhor ler o livro primeiro.

As reflexões feitas pela autora são muito pertinentes e as situações apresentadas são muito mais possíveis de acontecer do que possamos acreditar. Já vivemos situações parecidas: regredimos em coisas que havíamos considerado grandes conquistas e estamos pacificamente assistindo a mudanças para pior no nosso dia a dia, em termos sociais e econômicos. Num mundo ainda dominado por homens, usurpar direitos das mulheres é uma realidade bem palpável. Até mesmo com a anuência de uma parte destas mulheres.

Mas eu achava que o livro ia me dar uma grande sacudida, me chocar, me indignar... e na verdade eu fiquei meio apática tentando entender no que aquilo ia dar. Algumas situações surgiram do nada, meio jogadas na trama. Senti falta de continuidade; não deu pra me envolver nelas. Outras, por outro lado, me tocaram muito, como a cena da Cerimônia. É degradante.
?Para qual de nós duas é pior, para ela ou para mim??
Gostei dos flashbacks e da forma um tanto confusa como eles eram lembrados por Offred. E também gostei do livro ter sido escrito sob à ótica de uma só pessoa, porque reforçou o temor. Afinal, se Offred não sabia em quem confiar, nem nós! Por fim, embora as Notas Históricas não tivessem esclarecido grande coisa, as achei interessantes.

(Off) Mais um livro e mais uma vez eu faço a pergunta: todo escritor faz curso de jardineiro? Que tipo de pessoa diz: ?... flores em um vaso, botões-de-ouro e piloselas-alaranjadas combinando com as cortinas????
Jéssica 15/02/2018minha estante
Eu tava me achando a pessoa mais fria e sem coração kkkkk porque eu realmente achei que o livro iria me dar uma grande sacudida, que eu iria ficar indignada, ou sentir muita compaixão pela protagonista. E eu fiquei meio que só vendo o filme de algo muito distante.

Não consegui me envolver com os personagens.


Pandora 15/02/2018minha estante
Me senti assim também, Jéssica: ?vendo o filme de algo muito distante?.




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