Escrever ficção

Escrever ficção Luiz Antônio de Assis Brasil




Resenhas - Escrever ficção


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Aione 28/04/2020

Escrever Ficção é a obra de Luiz Antonio de Assis Brasil que reúne sua experiência trabalhando há 34 anos em uma das mais conceituadas oficinas de escrita criativa no país, a Oficina de Escrita Literária da PUC/RS. O livro, uma espécie de manual para quem deseja escrever ficção, é uma leitura interessante tanto para quem escreve quanto para quem é leitor.

Ao assumir a posição de ficcionista, o tom do autor é de proximidade e a leitura causa a sensação de um bate-papo com um amigo. Dessa maneira, os conselhos e dicas — valiosos — são transmitidos de forma natural e facilmente assimilados. É possível extrair muito do que Escrever Ficção oferece por conta das estratégias empregadas em sua construção.

Além da habilidade em si de Luiz Antonio em comunicar, ele divide os capítulos do manual em temas, o que tanto dá uma organização à leitura quanto permite uma melhor compreensão de cada elemento formativo de uma obra de ficção, em especial o romance e a novela. Por isso, o livro não se destina apenas àqueles interessados na escrita, mas também aos leitores: essa é uma maneira de compreender as técnicas empregadas por cada autor e, por consequência, ter outra visão e compreensão de narrativas literárias.

Luiz Antonio, também, faz uso de inúmeras citações e referências para exemplificar os pontos abordados. Ao trazer as mais diversas obras e autores, não só demonstra as muitas possibilidades narrativas como proporciona uma possibilidade de ampliação de acervo literário; afinal, é bem possível que alguns dos citados sejam até então desconhecidos para quem está anotando as dicas.

Vale também dizer que, em meio ao conteúdo informativo, Luiz Antonio desenvolve uma narrativa dentro de Escrever Ficção ao exemplificar o processo de criação de um romance com uma situação que, segundo ele, ocorreu com um de seus alunos da oficina. De maneira despretensiosa, o autor começa a contar sobre o livro que Thiago, o aluno, desejava escrever e quais obstáculos foi encontrando nessa trajetória. Ao passar dos capítulos, somos atualizados do progresso do aluno por meio de um procedimentos que representa cada um dos pontos levantados pelo autor, já que suas técnicas são empregadas nessa pequena narrativa. Dessa maneira, Luiz Antonio demonstra não só sua habilidade como orientador da oficina, mas também seu lado ficcionista.

A leitura de Escrever Ficção não foi apenas útil, como prazerosa. Fiz inúmeras anotações e, a cada capítulo que me debrucei em estudo, mal senti o tempo passar ou as páginas virarem. Foi uma leitura que me despertou inúmeras reflexões e análises sobre meu próprio processo de escrita, além de ter me feito atentar para pontos até então que eu não havia percebido, embora outros já me fossem conhecidos. Acima de tudo, foi uma leitura que me deixou com uma sensação gostosa ao terminar, seja por ter me motivado a escrever, seja por ter me colocado diante à experiência de acompanhar um trabalho bem elaborado e agradável de se ler. É, certamente, uma obra que voltarei a consultar no futuro.

site: https://www.minhavidaliteraria.com.br/2020/01/17/resenha-escrever-ficcao-luiz-antonio-brasil/
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Jansen 29/03/2021

Excelente. Com certeza vou mudar a forma de ler os bons livros. O autor nos convida a escrever um livro, o que recomenda a todos. Todos podemos ser escritores. Ele nos encaminha nas trilhas da boa literatura e mostra o caminho das pedras, que eu não imaginava que existisse. Como definir o personagem, criar e manter um conflito que vai prender o leitor até o final. Nos fala sobre a Estrutura do enredo que definirá o Personagem, estabelecerá o Conflito através das tramas e sobre o Foco, para não nos dispersarmos e deixarmos o leitor perdido, além de irritado. Importante também é o Espaço onde se desenrola a obra e deve ser construído pelo autor, além do Estilo que se não existe ainda será delineado no correr da obra.
Logo no início ele nos incita a escrever e mostra o tipo de dificuldades que encontraremos: "Como você também é ficcionista, terá uma experiência muito pessoal, complexa e elíptica disso tudo. Para o bem e para o mal. O mal é visível: são as frustrações diárias no momento em que abrimos o notebook, é a palavra bizarra que usamos e não sabemos substituir, é a frase torta que não conseguimos endireitar, é o personagem que não convence nem a nós mesmos. "
A seguir nos mostra a beleza dos resultados que corremos o risco de desfrutar: "... apesar disso, dedicamos o melhor de nossa capacidade intelectual e afetiva à ficção, e não concebemos a vida sem ela. Por mais que nos aborreçamos diante da tela ou do papel em branco e amaldiçoemos o destino que infligimos a nós mesmos — pois, veja bem, ninguém nos obriga a escrever —, temos certeza de que, se algo de nós ficar imperecível, será apenas nossa literatura..."
Todos esses conceitos literários são colocados frente a grandes autores e obras. Balzac, Shakespeare, Dostoievski, Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles, Borges e vários outros do mesmo naipe.
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Toni 03/04/2021

O Mestre
Luiz Antônio de Assis Brasil, uma referência nacional quando se trata de escrita criativa, expõe com extrema excelência as suas lições que já capacitaram vários autores, e continuam a instruir mais pessoas interessadas pela produção de textos.
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Stefânia Cedro 09/08/2020

Ótimas dicas, mas muito extenso.
Nesse livro o autor vai dissecar a escrita ficcional. Desde a criação dos personagens até o ponto final.

É um livro repleto de dicas que podem salvar quem está começando, assim como quem já tem algum tempo de estrada.

Como todos os livros que já li sobre a escrita, por mais que o autor tente nos dar uma visão geral, é impossível não ter um pouco da opinião pessoal em meio a essas dicas. Em "Escrever ficção" isso não é diferente. Porém, posso dizer que ele é bem mais sutil do que o King em "Sobre a escrita", que não se acanha ao falar o que ele gosta ou não em uma narrativa.

Tem até certo ponto que o autor diz não concordar com a maneira exagerada que Stephen King tratou a voz passiva como uma tragédia para a escrita, considerando-a coisa de escritores tímidos. Luiz Antônio Assis de Brasil Falou que isso poderia até ser uma boa dica para o Inglês, mas que não funcionava dessa maneira com o Português, que é uma língua bem diferente.

Tiveram alguns pontos que não concordei totalmente com o autor, talvez por serem um pouco ortodoxos, mas no geral são dicas que levarei para a vida.

O único ponto negativo para mim foi o excesso de citações e exemplificações. Não vi a necessidade do livro ter mais de 400 páginas. Poderia ser mais enxuto e não perderia sua essência.
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Yara 25/10/2020

Fascinante
Incrível como cada página deste livro transborda conhecimento, de uma forma totalmente didática e agradável.
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leila.goncalves 31/03/2019

Sem Fórmulas Mas Com Ferramentas Indispensáveis
Este livro é o resultado do convite feito por Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, para Assis Brasil, uma referência no país quando o tema é Oficina Criativa. Afinal, ele não só foi o pioneiro, também é responsável por um icônico curso pelo qual já passaram autores como Daniel Galera, Paula Scott, Michel Laub, Amilcar Bettega e Carol Bensimon.

?Escrever Ficção: Um Manual de Criação Literária? levou aproximadamente três anos para ser concluído e acaba de chegar às livrarias. Indubitavelmente, trata-se de uma obra de fôlego - 400 páginas - que reúne uma série de reflexões sobre a arte literária e está fadada a tornar-se uma referência obrigatória para a bibliografia do tema. Se não bastasse, tem a peculiaridade de seduzir o leitor como quem lê um bom livro, ao contrário de um manual, conforme anuncia o título.

Na verdade, ele parte de um proposta distinta da oficina, à medida que é dedicado ao romance, enquanto ela está voltada para o conto. O resultado são 8 aulas em que se discute os desafios de um escritor. No caso, ele é representado por Thiago, um suposto aluno, às voltas com seu primeiro romance. Pouco a pouco, mediante as exposições do professor, ele consegue decidir qual caminho deve tomar, por exemplo, escolher a voz narrativa mais indicada e dar veracidade à personagem cuja importância é fundamental, sendo capaz de dar consistência à narrativa.

Abordando assuntos como enredo, estrutura e estilo, o livro ainda tem um último capítulo - o nono - que Assis Brasil reservou para apresentar um roteiro de um romance linear que, sem dúvida, é um bom exemplo além de uma pertinente ajuda para o autor iniciante.

Recheado de referências literárias, sem fórmulas mas contendo as ferramentas indispensáveis, este livro, ao exibir os bastidores da criação literária, também é um interessante aprendizado para o leitor de ficção, auxiliando-o na compreensão do mérito daquilo que lê.

Encerro com um trecho do escritor cubano Alejo Carpentier, que consta no livro e coloca em pauta o dilema de ter ou não ter talento: ?Não creio que o escritor possa ser um personagem diferente dos demais. Não creio que seja um ungido nem um privilegiado pelo destino. É homem de vocação, isso sim. E a vocação ? o amor a um trabalho determinado ? o leva a aperfeiçoar seu ofício, e, em certos casos, a se sobressair, dando-nos obras excelentes. Mas o mesmo acontece no mundo dos ebanistas, dos músicos de orquestra, dos esportistas. Como se ama o que se faz, trata-se de trabalhar o melhor possível; nada mais.?

Boa leitura!

Nota: comprei o e-book e recomendo.
fernandoferrone 02/04/2019minha estante
Estou lendo e gostando muito


leila.goncalves 02/04/2019minha estante
Também curti muito a leitura. Abraços!




César Ricardo Meneghin 28/03/2021

Manual na melhor forma da palavra.
Esse livro realmente, ensina e mostra o impossível. Ele faz como a professora do primário fazia para nos ensinar a escrever.
Pega em sua mão e desenha a letra.
Ele tem um cuidado absurdo com a pessoa, e não diz o que deve ser feito.
Ele mostra o que é feito e várias formas de se fazer. Inclusive mostra o que não fazer.
É ótimo também para quem quer aprender a ler com mais profundidade.
Se você quer escrever bem como autor ou quer ler melhor como leitor. Então use esse livro como sua tábua de roseta.
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Ese 13/10/2020

Marie Kondo aprova
Para quem pretende escrever, ler esse livro é como receber a visita da Marie Kondo dentro da sua mente.
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Camille.Pezzino 18/09/2019

LEMBRANDO O QUE É FICÇÃO
Eu descobri a existência do professor Assis Brasil quando, ainda decidindo qual mestrado ia fazer, conheci um curso da PUC do Sul, um recente programa de Mestrado e Doutorado que se destinava a criação literária.

Na época, eu tinha uma ambição imensa por escrita, pelo ofício de ser escritora – talvez, eu ainda carregue isso comigo –, mas, infelizmente, morando tão longe e ainda com as despesas de mensalidade, tornou-se impossível para mim. Sem dinheiro, eu me voltei para a minha Universidade e comecei a me especializar em Literatura Antiga, baseada nos diálogos platônicos, nas peças trágicas e nos épicos inesquecíveis de Homero. Claro, sem esquecer os textos mais modernos, o que é basicamente toda a literatura ocidental.

Eu também, no fundo, não esqueci as minhas ambições, mas ainda me sinto muito travada e incapaz de escrever uma narrativa lindíssima como os autores que admirei a vida toda fizeram e até hoje fazem, porque alguns estão vivos. Tenho ideologias similares de narrativa, mas a minha escrita não é tão boa quanto eu gostaria, em comparação aos demais. Será que todo mundo já sentiu isso?

Ou pior, quando você tem uma ideia e pensa: “ela pode ser fantástica, mas acho que outra pessoa deveria escrever, eu não tenho capacidade”. Qual escritor não passou por isso? Bom, eu já. Incontáveis vezes.

Como todo escritor que cresce na área, acredito que as inseguranças são enormes e acho que, pela primeira vez, uma resenha de um livro vai ser mais um desabafo pessoal do que uma resenha. Ou melhor, já é um desabafo imenso.

Por isso, quando a Companhia das Letras me enviou, no meio do mês, um livro extra que era sobre escrita criativa, o qual demorou três anos para sair da ideia e virar de fato um manual nas minhas, e vi o nome do professor Assis, eu poderia dizer que o meu mundo caiu.

Obviamente, num sentido figurado, mas foi quase como se fosse palpável. Então, eu percebi que a minha ambição não tinha morrido só porque não consegui frequentar um curso, ela só ficou presa no espaço-tempo, flutuando enquanto eu vivia outras experiências. Inclusive, por mais que eu pensasse que “não é para mim ser escritora, acho melhor ser crítica”, eu continuei consumindo manuais e livros a respeito de escrita, de desenvolvimento de personagem, passeando por teóricos diversos, principalmente da literatura fantástica, como Todorov, brincando com Propp e tentando entender as minúcias de escrita colocadas por Otto Garcia (Comunicação em Prosa Moderna é um dos livros que eu indico como complementar a esse do professor Assis Brasil, inclusive).

Então, por mais que eu estivesse escrevendo a dissertação – e ainda estou –, repleta de prazos apertados e trabalhos para corrigir, traduções para fazer, minhas mãos foram sozinhas, sem controle, folheando as páginas do livro. E, sem aguentar mais tanto suspense, comecei a ler.

Encontrei nesse livro algo que me deixou feliz e entusiasmada, senti uma conexão muito grande com as impressões e reflexões sobre arte literária do professor. Ele trabalha diversos aspectos que sempre foram a minha preocupação e, ao mesmo tempo, o que eu questionava ou pensava ou refletia.

Algumas das conclusões que ele coloca foram exatamente as minhas, como a importância do personagem – ou melhor, dos personagens –, como enredo e personagem devem entrar em simbiose para fazer sentido. A necessidade de vivência e experiência, principalmente, de empatia, porque escrita – antes de tudo e a mais canônica – é sobre humanidade. Como escrever sobre aquilo que você não desbrava? Das diferentes pessoas com suas distintas opiniões? Se você não tiver o mínimo discernimento do real e da tentativa de observá-lo, como você vai conseguir transcrevê-lo?

Quer saber mais? Acesse em: https://gctinteiro.com.br/resenha-90-lembrando-o-que-e-ficcao/

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Lud 03/09/2020

Útil
Para quem já tem uma ideia ou nenhuma de livro, ou ainda quem quer entender os processos e algumas técnicas, é um livro que se deve ter.
Leia antes de escrever para ver se vai querer tentar algum método, para ter ideias.
E leia depois de terminar para ajeitar as pontas soltas e perceber o que deve ser cortado, leia pelo menos duas vezes em momentos diferentes, será útil, marque as páginas para consultar a parte que lhe interessa.
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Victor 14/05/2020

Excelente...
Às vezes, algumas paixões são descobertas tardiamente. Não que o tempo tenha se esvaído ou as circunstâncias não sejam mais favoráveis para aproveitá-las, mas que, assim que aparecem, nos provocam toda aquela sensação de preenchimento e completude que tanto buscávamos, porém nunca achávamos.

Acho que uma das primeiras paixões tardias que me apareceram foi a leitura. A segunda, como consequência imediata da primeira, a escrita. Penso que todos que amam ler - e aqui vou me deter à ficção -, pensam, um dia, escrever seu próprio livro. Foi essa segunda paixão, recém-chegada, mas que já vinha desabrochando como uma flor na primavera, que me levou à procura de livros de não ficção, que ensinassem o processo, as ferramentas, a estrutura, enfim, os meios pelos quais eu pudesse escrever minha própria narrativa ficcional.

Se você, assim como eu, se encontra nesse barco rumo ao horizonte da escrita ficcional, aqui estão o remo, a vela, e o que mais preciso for pra chegar lá. A obra foi produzida com esmero, didática e precisão; com capítulo claros e tópicos definidos, está recheada de exemplos de obras reais e conhecidas.

Quero deixar meu agradecimento ao autor pela excelente obra, que, com segurança, já se constitui como uma das melhores sobre o assunto em língua portuguesa. Muito bom!
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Alexandre Kovacs / Mundo de K 07/04/2019

Editora Companhia das Letras - 400 Páginas - Capa e projeto gráfico: Elisa von Randow, imagem da capa de Saul Steinberg, 1948 - Lançamento: 21/03/2019.

O livro resume a experiência acumulada de Luiz Antonio de Assis Brasil em 34 anos de trabalho à frente da Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), por onde já passaram alguns escritores de destaque na literatura contemporânea brasileira, tais como: Amilcar Bettega, Carol Bensimon, Cíntia Moscovich, Clarah Averbuck, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Luísa Geisler, Michel Laub e Paulo Scott, para citar somente os mais conhecidos.

O nebuloso conceito de talento como um dom divino, inerente ao indivíduo e que, portanto, não pode ser construído ou desenvolvido, por meio de trabalho e dedicação, é prontamente descartado pelo autor no primeiro capítulo: "No campo literário, nunca vi palavra tão vazia" (p. 20), preferindo apostar nas expressões "competência especial", citando Haruki Murakami (p. 21) ou "vocação" que "leva o escritor a aperfeiçoar o seu ofício", segundo Alejo Carpentier (p. 22). E assim, logo de início, fica claro o método que será aplicado ao longo de todo o livro, os conceitos e ferramentas sempre exemplificados por meio de trechos de obras literárias clássicas ou contemporâneas, ou seja, o manual de escrita acaba se transformando em um manual de boa leitura e reflexão crítica porque, como bem sabemos, não existem fórmulas prontas.

O primeiro tópico a ser abordado em profundidade é a importância da construção de um personagem verossímil ou consistente, fundamentado no que o autor chama de "questão essencial", criada pelo ficcionista para que o personagem possa reagir/interagir com os fatores externos demonstrados na história, provocando o conflito, elemento básico de toda narrativa. Explicando melhor, nas palavras do próprio Luiz Antonio: "se o personagem central é apresentado como um ser feliz, sem traumas, sem inquietações, sem angústias – enfim, um extraterrestre –, e de imediato, quando surge o inesperado, ele passa a viver um conflito, quem vai acreditar nisso? Já se sabe: ninguém." (p. 96).

"O personagem consistente dá verdade à história - Para explicar melhor, usei uma imagem: a dos manequins das lojas, levados da vitrine para o depósito, para então voltar à vitrine e depois novamente ao depósito. O personagem não pode ser um boneco que transportamos de um capítulo a outro para viver as peripécias da nossa história. Por mais que levemos o manequim daqui para ali, fazendo com que percorra a cidade de carro, sentando-o num banco de praça ou na cadeira de um bar ou ainda visitando o zoológico, ele nunca perderá aquela cara de paisagem. [...] Seguindo nossa linha de raciocínio, ele deve ser o contrário de um manequim. Ou seja, ele precisa se assemelhar a nós. Ainda que, de tempos em tempos, segundo as modas teóricas, afirme-se o contrário, o personagem deve estar o mais próximo possível de um ser humano. [...] Sim, um ser humano: não há nada que conheçamos mais, nada que conheçamos menos." - Capítulo 2 - O personagem, o poderoso da história: O personagem como irradiador da narrativa (p. 39)

Conflito e focalização da narrativa, enredo e estrutura, tempo e espaço, serão muitos os conceitos e ferramentas apresentadas neste manual, sempre de forma simples, objetiva e segura, aquele tipo de segurança que somente o professor que domina a matéria consegue transmitir ao aluno. Na verdade, o tom é mais o de um "ficcionista falando para outros ficcionistas" (p. 11). É claro que ninguém aprenderá a escrever lendo um manual, por melhor que seja, e também que Honoré de Balzac, Marcel Proust, Eça de Queirós e Machado de Assis, todos citados no livro, não frequentaram nenhuma oficina de escrita literária, mas isso não quer dizer que você não possa aprender ferramentas e seguir alguns conselhos para desenvolver a sua própria técnica. Entre eles, um dos mais difíceis de assimilar: o planejamento da obra.

"Planejar, sim, mas para ser livre – É possível que você ache o planejamento uma perda de tempo. Minha experiência, contudo, comprova: quem planeja acaba por escrever com mais rapidez, mas não só – escreverá melhor e com mais liberdade, porque o enredo estará imunizado contra os 'furos' decorrentes dos eventos mal costurados. Você já imaginou o engenheiro começar uma obra sem um projeto? Ou o diretor de cinema começar a filmar sem um roteiro? [...] se a narrativa estiver bem executada – resultado do planejamento –, mais natural parecerá. Artificial será a narrativa que segue sem rumo. Para consertar esse estrago, você tem de fazer emendas sobre emendas, que se tornam, ao final, visíveis – como os vincos nas roupas tiradas da mala. Se isso acontecer, será necessário reescrever tudo, o que pode se tornar bastante indigesto e, em casos mais graves, levar ao abandono do livro e, até da literatura. 'Mas eu posso reescrever apenas partes do livro, aquilo que estiver ruim.' Equívoco. Reescrever 'partes' da história é fazer um pacto com o demônio." - Capítulo 4 - Escrever ficção é tramar: O enredo e a estrutura (pp. 169 e 170)

O espaço é muitas vezes um fator menosprezado por escritores, entendendo-se como espaço não apenas "aquilo que entendemos como tal – um bar, uma barbearia, uma sala de cinema, um campo aberto, as nuvens, uma quadra de tênis –, mas também seres que se impõem ao nosso conhecimento, como um vaso de flores, uma caneta, um cão e até uma pessoa, desde que se integrem às percepções gerais – visuais, auditivas, táteis, gustativas, olfativas" (p. 259) ou, ainda segundo a epígrafe deste mesmo capítulo (uma citação de Gaston Bachelard): "Não se encontra o espaço, é sempre necessário construí-lo" (p. 256).

"Você usa todos os sentidos em sua ficção? – Os sentidos clássicos, os que aprendemos na escola, são cinco: visão, audição, tato, paladar e olfato. Os fisiologistas de hoje, porém, propõem acrescentar outros, como a dor, a fome, a temperatura corporal, a sensação de plenitude depos de comer, a premência de evacuar o intestino e a bexiga, o sentido de equilíbrio, a coceira. São sensações corpóreas 'internas' e, por isso, entram como clandestinos neste capítulo; mas vamos admiti-los, pois interessam a nós como ficcionistas. [...] O assunto começa com uma pergunta: por que, se sentimos tudo isso em nosso corpo, não o colocamos em nossa ficção? Já pensei muito nesse tema, e minha tentativa mais consistente de responder passa pela tradição literária, que teima em privilegiar apenas dois sentidos: a visão e a audição, considerando os demais indignos de habitar a literatura." - Capítulo 6 - Onde aconteceu isso tudo?: O espaço (p. 274)

Muitas desmistificações são promovidas por Luiz Antonio no decorrer do livro. Por exemplo, a questão do personagem que ganha uma existência própria, independente da vontade do escritor, uma lenda que Toni Morrison ajuda a destruir na seguinte citação retirada de uma entrevista da autora à Paris Review: "Eles (os personagens) nada têm em mente a não ser a si próprios e só se interessam por si mesmos. Então não é possível deixar que escrevam o livro para mim" (p. 56). Outro mito tradicional é a fixação de muitos autores em obter um "estilo próprio", muito bem apresentado no trecho abaixo.

"Você não precisa cultivar o fetiche do 'estilo próprio' – É bem verdade que, ainda hoje, encontramos alguma resenha que lá vem com a frasezinha: "A escritora fulana, dotada de estilo próprio...". Querem elogiar, mas o caminho do elogio passa distante disso. Dizer, entretanto, que "fulana tem um estilo marcado pela objetividade e materialidade da frase", ou "fulano tem um estilo fortemente conotativo", isso sim faz sentido, pois entra numa questão substantiva – além de esclarecedora para o provável leitor. [...] Por todas essas razões, não se atormente. Buscar seu 'estilo próprio' é um pseudoproblema. O leitor não está nem um pouco preocupado com isso. Se você é uma pessoa que lê muito e escreve muito, seu estilo pessoal acontecerá, sem que você precise forçá-lo. Aliás, é impossível forçar algo assim. Mais ainda: esteja atento para o fato de que, por mais que você invente, pratica o mesmo estilo uma legião de ficcionistas. Portanto, é bom estar atento a essas seduções baratas, que não vão melhorar a qualidade do seu texto." - Capítulo 8 - Pequeno tratado da liberdade: O estilo (pp. 333 e 334)

Um livro essencial para escritores, editores, resenhistas e outros profissionais ligados à área de criação e crítica literária, mas que agradará também ao público leitor em geral porque o texto é sempre bem-humorado e as citações de trechos das obras, assim como as respectivas análises, fazem da leitura um prazer do início ao final. Na minha opinião, o melhor conselho para quem pensa em se dedicar à carreira de ficcionista, Luiz Antonio de Assis Brasil revela logo no primeiro parágrafo da introdução: "Uma coisa, porém é certa: ele (o livro) jamais substituirá a leitura constante de obras literárias, a principal fonte para a formação de um escritor." (p. 11).
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Naty 18/07/2019

Indispensável
Qual o melhor jeito de se escrever uma obra? Qual a melhor forma de chamar a atenção de um leitor? Será que você, escritor, já sabe ou simplesmente elabora um livro torcendo com as mãos e os pés juntos para que tudo dê certo e sua história seja adorada por todos?

Este livro caiu em minhas mãos por acaso e preciso dizer que foi uma surpresa lê-lo. É uma obra que toda pessoa que deseja ser escritora, ou até mesmo aquela que já se intitula como tal, deveria ler.

O escritor e professor, Luiz Antonio de Assis Brasil, premiado autor gaúcho, registra neste livro sua experiência ao longo de 34 anos de trabalho com a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e também no programa de pós-graduação em escrita criativa na universidade.

O autor levou aproximadamente três anos para concluir a obra. Para ele, “este é um livro imaginado para auxiliar quem deseja escrever textos de ficção. Desse modo, poderá ser lido como um manual - mas também como percurso de reflexões sobre a escrita”.

O livro conta com uma reprodução, com naturais adaptações, dos conteúdos de suas aulas. Quem pensa que o autor trará citações de teóricos e um ensinamento cansativo, técnico e chulo, sem dúvidas, está enganado. Não encontramos fórmulas, mas ferramentas para que as minhas perguntas, lá no início da resenha, sejam respondidas. Não pelo próprio autor, de forma precisa, em todas elas; não se enganem! Ele apenas fará com que os ficcionistas encontrem as suas próprias fórmulas, tendo cuidado para não ficar apenas à mercê delas.

“Ficcionista não é apenas quem escreve literatura. O ficcionista tem uma conduta perante a escrita que, em sentido mais amplo, é também uma atitude perante a vida. Se o poeta necessita de muita sensibilidade, muita leitura, muita franqueza, o ficcionista precisa disso e mais: muita vivência.” (p. 14)

O livro responde muitas perguntas e nos faz refletir sobre tantas outras. Mas tem uma em especial que os escritores indagam e os leitores têm opiniões divergentes. E o “final em aberto”, fazer ou não? No livro temos respostas convincentes sobre isso.

Você gosta de começar a escrever um livro pelo início ou pelo final? “Ah, Natalia, mas que pergunta idiota!” Alto lá, caro leitor. O autor mostra que alguns de seus alunos gostam de começar pelo final e ele considera uma boa ideia, pois orienta a escrita desde o início e serve de estímulo permanente. Essa orientação proporciona a segurança, mas nada impede que, ao voltar e escrever o início, você possa fazer alterações no desfecho da história, para que ele dê conta de pormenores que foi preciso alterar em relação ao projeto.

“Por último, um conselho: antes de pensar em sucesso, pense em ser competente. Ser competente não é empecilho para a conquista do Nobel.” (p. 11)

É uma proposta muito válida para todos que anseiam escrever um dia. Para aqueles que já escrevem e às vezes sentem dificuldades em desenvolver algum ponto-chave na história.

Sobre a edição:
A diagramação é bem simples, mas acredito que as letras pequenas torna a leitura um pouco cansativa, em determinados momentos. Gostei porque temos um sumário e um índice remissivo. O livro é bem dividido e os tópicos são bem cirúrgicos, pois evidenciam exatamente dúvidas que precisam ser sanadas.

site: http://www.revelandosentimentos.com.br/2019/06/resenha-escrever-ficcao.html
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Debora.Marinho 23/02/2021

O livro cumpre bem o prometido. Percorre as etapas do processo de escrita, além de desmentir alguns mitos sobre escrever, o que é ótimo.
Achei engraçado como algumas vezes, ao dar exemplos, o autor cita coisas como "tomar uma taça de vinho", usa nomes não brasileiros para exemplificar personagens, usa exemplos de livros/autores que ele jura que todos conhecem, mas nunca ouvi nem falar. Mas isso são implicâncias minhas. Coisas que achei graça ao ler.
A única coisa que me incomodou durante a leitura, foram os muitos exemplos. Usar um trecho ou dois de livros é o suficiente para entender. Muitos autores ao tentarem serem didáticos demais, tornam-se um tanto cansativos.
Fora isso, há uma coisa que imagino seja da edição que li, pois algumas vezes o autor indica que há um trecho em itálico (destaque), mas não há e imagino que foi na hora da edição que esqueceram de colocar as partes certas em itálico.
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