Pessoas normais

Pessoas normais Sally Rooney




Resenhas - Pessoas normais


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Nana 14/10/2019

Como seu sentimento por ela poderia jamais ser igual ao sentimento que tinha por outras pessoas?
AVISO: Esse livro contém alguns gatilhos ligados à saúde mental, violência doméstica e linguagem adulta.

Desde Abril sem me recuperar da series finale de Fleabag, daí me aparece Sally Rooney pra desenterrar mais emocional enterrado. Ha!

Connell e Marianne vivem próximos, mas em realidades distintas. Ambos moram no interior da Irlanda, e estão se preparando para ingressar na faculdade e para todas as mudanças incluídas neste pacote. Inclusive, um novo lar. Connell tem muito que guardar de sua época colegial e em relação aos seus colegas de classe. Era um bom atleta, considerado popular, principalmente entre as garotas. Enquanto para Marianne será um novo começo, já que sempre era vista como a esquisita do rolê, sem amigos, e muitas vezes sofria bullying.

Desde que seu pai falecera, a garota se tornara ainda mais reclusa. A mãe de Connell, Lorraine, trabalha como empregada na casa de Marianne. Os dois sempre fizeram o possível para que o pessoal no colégio nunca desconfiasse. Fingiam ser dois estranhos frequentando o mesmo local por algumas horas. Só falavam-se ocasionalmente quando ele ia buscar a mãe. Até aquele fatídico dia de 2011. O simples "oi"tornou-se uma longa conversa, com estranhas confidências, e então, Marianne decidiu se entregar a Connell.

Antes de partirem para nova etapa de suas vidas, passaram boa parte do tempo juntos, mas ainda escondiam dos colegas o tipo de conexão que tinham. Connell, acreditando que Marianne prefere seguir desta maneira, decide não convidá-la para o baile. Marco do primeiro desencontro entre eles, pois só consegue rever Marianne tempos depois, na universidade. E encontros e desencontros é o que resume bastante o relacionamento entre eles. A autora apresenta os capítulos com passagens de tempo, às vezes mínimas; outras longas.

"Bom, eu não sou digna de amor. Acho que eu tenho um tipo pouco amável de... Eu tenho uma certa frieza, sou difícil de gostar."

Na universidade o jogo vira. Marianne consegue todos os olhares para si, e está sempre rodeada de amigos. Todos querem estar ao seu lado, e apreciam sua presença em festas. O único amigo de Connell é seu colega de alojamento, Niall, e começa a nutrir estranhos sentimentos sobre aquele lugar. Muitas vezes sente que não se encaixa, ou que não é certo estar ali. Sempre que reencontra Marianne a atração entre eles acaba por renascer, mas por certo tempo. As amizades dela soam como de outro mundo pra ele.

Nessas indas e vindas, ambos iniciam relacionamentos amorosos com outras pessoas. Tentam ao máximo preservar a amizade, mas Marianne raramente esconde certos pontos que a incomoda nos relacionamentos dele. Enquanto Connell ama voltar para cidade natal, rever a mãe e seus amigos, a antiga vida de Marianne a corrói cada visita. Ainda mais com o péssimo tratamento que recebe da mãe meio negligente e do irmão, que se mostra tão abusivo quanto o pai era. E é quando a felicidade se torna uma máscara. Seus namoros não parecem tão saudáveis; sempre expondo-se a coisas doentias, como procurasse o terrível tratamento familiar em outros lugares. Marianne começa a acreditar que é uma pessoa ruim e só merece a dor.

Mais tarde o apego ao lar começa a cutucar a saúde mental de Connell, e também, sua vida acadêmica. Após um de seus amigos do colégio cometer suicídio, ele começa a questionar tudo naquele local, sua classe social, seus ideais, seu futuro... E conforme as páginas avançam, é nítido que qualquer tipo de amor que sintam um pelo outro, pode ser a única coisa válida para vencer suas dores.

"Meu filho falou que você está ignorando os telefonemas dele, Lorraine acrescentou.
Sim, ela disse. Imagino que eu esteja mesmo.
Bom pra você, Lorraine disse. Ele não te merece."

Esta história inicia em 2011, que por coincidência, foi a época em que eu estava finalizando a faculdade. Naturalmente, me conectei com os dois protagonistas em diferentes pontos. Adicionando o fato que adoro coming of age, principalmente filmes indie neste estilo - ao ler Pessoas Normais me senti assistindo um deles. Sempre pegam na transição, não costuma ser aquele romance jovem de sempre; explora muito o lado emocional nessa fase. Alguns são mais amenos, outros nem tanto.

É incrível que, conforme as páginas avançam, o contraste na vida de Marianne e Connell se faça tão marcante. Começando pela diferença de classe, como ingressar numa faculdade renomada acaba por afetar ambos, a criação... Connell foi criado por mãe solteira. Ele e Lorraine são como melhores amigos, ele até a chama pelo nome em algumas ocasiões. Mas não interpretem Marianne como uma esnobe. Nada disso. Lembre-se que é uma personagem que acredita que não é pra "ser amada". Como viveu muito tempo sem relacionamentos saudáveis é como se tudo fosse novo pra ela, acaba por muitas vezes agir como ingênua, pois não consegue enxergar o desprezo que ronda a vida acadêmica de Connell.

Os dois são ótimos protagonistas. Sério, não consigo ter um favorito. Ambos são maduros e inteligentes, conversam sobre tudo. Amam ler sobre tudo. Política e filosofia são o ponto alto de boas trocas entre eles. E sabem como ser sarcásticos. O velho e bom humor irlandês. Marianne é super sincera, raramente esconde o que sente dele. Muitas vezes o deixa sem saber o que dizer. A virada emocional de Connell foi o que acabou me surpreendendo, em vista que já sabemos sobre parte de Marianne desde as primeiras páginas, então sua apresentação emana otimismo. E foi quando eu comecei achar que o livro teria um final desgracento. Mas acabou sendo um doce amargo.

"Aos poucos, começou de verdade a se questionar por que todas as discussões em sala de aula eram tão abstratas e sem detalhes textuais, até que, uma hora, ele se deu conta de que a maioria das pessoas, de fato, não estava lendo os textos. Estavam indo à faculdade todos os dias para travar debates acalorados sobre livros que não tinham lido."

A narrativa de Sally Rooney é meio diferentona. Ha! Os diálogos são a narrativa, entendem? Não há sinalização para eles. A conversa é crucial e é o que faz o romance. Acredito que seja a primeira vez que eu esbarro com esse tipo de construção. Não me incomodou, na verdade, a escrita dela dialoga perfeitamente com o estilo proposto. Sim, há narrativa a parte também, e ela nos leva para vários lugares pela Europa, preciso dizer.

Pessoas Normais está conquistando pessoas do mundo inteiro. Sally Rooney arranca elogios e prêmios por onde passa, e muitos aguardam ansiosos por suas próximas histórias. Acabo de me incluir nessa lista, pois é ótimo encontrar autores que dialogam perfeitamente com a gente, ainda mais emocionalmente. Como Connell, cheguei no meio da vida acadêmica com uma cria de saúde mental pra cuidar. Como Marianne, às vezes sinto que ficar longe mudará tudo, e também tenho uma certa frieza e sou pouco amável. E para completar, ela ainda me presenteia com o lance do foco na escrita nessa fase conturbada. E mais ou menos na época em que me interessei... AAAAA A SENHORA TÁ FALANDO COMIGO?

"Todos esses anos eles foram como duas plantinhas, dividindo o mesmo pedaço de terra, crescendo um ao redor do outro, se contorcendo para criar espaço, tornando certas atitudes improváveis. Mas, no fim, ela fizera algo por ele, tornara uma nova vida possível, e sempre poderá se sentir bem por conta disso."

"Mas para ela a dor da solidão não vai ser nada se comparada à dor que costumava sentir, de não valer nada. Ele lhe trouxe a bondade como uma dádiva, e agora isso é parte dela."

Como mencionado, o final é um doce amargo. É satisfatório. Não é triste, mas rola um tipo você decide os caminhos, porque a jornada da vida está sempre mudando, né? O carrossel adora nos colocar em outros testes quando tudo parece estar resolvido. Talvez ela dê uma mexida na adaptação, que será uma série com doze episódios. Ela vai roteirizar TODOS.

Edição lida em e-book, em parceria e cedido através da plataforma NetGalley. Não era a versão final, mas a leitura fluiu muito bem. Achei a ideia da capa interessante. Após a leitura dá pra interpretar de várias maneiras, e uma das minhas é que representa a sintonia perfeita entre eles, quando estão conectados. Não de uma maneira sexual - apesar de ter, ha - mas quando estão juntos.

*Adaptações:

- Normal People (2020) | Direção de Lenny Abrahamson e Hettie Macdonald com roteiro da autora;
. Produção em parceria entre a BBC e o streaming americano Hulu. Contará com 12 episódios;
. Lenny Abrahamson é conhecido diretor pela adaptação de O Quarto de Jack;
. Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal serão os protagonistas Marianne e Connell

site: https://cantocultzineo.blogspot.com/2019/10/livro-pessoas-normais-sally-rooney.html
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Lucas.Marinho 28/09/2019

Um enlatado de perfeitas relações
Eu simplesmente amei esse livro! Mas antes de falar sobre ele, eu quero agradecer a companhia das letras por disponibilizar uma cópia antecipada para que eu pudesse ler antes do lançamento.
Então, vamos falar sobre o livro. Confesso que eu não esperava nada desse livro, mas queria entrender o hype que estava sendo criado no exterior. Dessa forma, eu comecei a ler e MEU DEUS.
O livro conta a história de Connel e Marianne, Marianne é uma menina de alta classe que vive em uma mansão e podemos dizer que tímida. Já Connel é totalmente extrovertido e filho da empregada que trabalha na mansão de Marianne.
De cara parece algo bem clichê, pois você já espera que eles vão se apaixonar, mas as relações e aas vivências desses personagens quebram todos os clichês. Os problemas deles, a relação com a família, os dilemas da faculdade... Tudo isso fez eu me aproximar mais deles, pois apesar de tudo, eles são pessoas normais. Sim, a história fala sobre pessoas normais, vai ser fácil comparar os personagens com um conhecido ou até com você e isso é o ponto alto.
Outra coisa: a escrita da autora. No começo eu fiquei meio recatado, porque pensei que iria atrapalhar a leitura, porém foi totalmente o contrário, o livro fluiu muito rápido.
Então foi isso, minha nota final ficou um combo perfeito de 5 estrelinhas e um coração.
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