O estranho oeste de Kane Blackmoon

O estranho oeste de Kane Blackmoon Duda Falcão




Resenhas -


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Paulo 06/09/2019

Kane Blackmoon é um dos vários personagens criados por Duda Falcão em seus contos. Para quem não conhece o autor, ele é muito conhecido por seus contos de terror, mas com uma pegada mais pulp, mais lovecraftiana. Já escreveu várias coletâneas dentre as quais já comentamos aqui sobre Treze e Comboio de Espectros. Quando vi que haveria um livro do Kane Blackmoon até me espantei imaginando que seria o primeiro romance longo do autor. Mas, não se trata exatamente disso e não fiquei nem um pouco desapontado.

Este é um romance fix-up: ele é formado por diversas pequenas histórias que compartilham elementos de ambientação e de narrativa em comum. Pode ser que exista ou não um arco maior de histórias por trás (aqui existe). Dentro dessas narrativas, o Duda vai construindo a personalidade e os laços que o protagonista realiza ao longo do tempo. A gente parte de um momento em que ele age como um simples caçador de recompensas até ele começar a mexer com o sobrenatural. O autor não estabelece exatamente períodos de tempo entre suas aventuras, apesar de a gente conseguir pegar alguns detalhes sobre fatos que duraram alguns dias, semanas ou meses. Ao final da narrativa o personagem não é o mesmo que iniciou a história: experiente, um pouco lacônico e não desejando fazer laços, se mantendo como um cavaleiro errante.

No primeiro conto, Duda nos apresenta o personagem. Ele é um caçador de recompensas que teve um acontecimento trágico em sua infância. Enquanto ele caçava um bandido, ele acaba conhecendo Sunset Bison por conta de uma cena horripilante que ele encontra no esconderijo de alguns criminosos. O sioux acaba contando a Kane um pouco de sua ancestralidade, já que ele conheceu o pai do protagonista. Mas, durante uma emboscada, Bison morre e deixa uma marca indelével no personagem. A partir de então, parece que Kane atrai situações ou pessoas completamente estranhas como um demônio ancestral, uma doença macabra e até um wendigo. Ao mesmo tempo, Kane trabalha sua personalidade, tentando ser um homem mais do mundo. Por ser um caçador de recompensas, ele buscava estar sozinho, sem precisar se preocupar com outros. Mas, aos poucos, ele vai entendendo a necessidade de se criar raízes.

A percepção de que o mundo é maior e mais complexo do que imaginamos é um mote de todo o livro. Pouco a pouco Kane vai se dando conta de que precisa abrir mais a sua mente para o estranho. Em um determinado momento da narrativa, Kane precisará apelar para o místico para solucionar um problema. E ele vai se abrir para poder absorver esse conhecimento, mesmo entendendo que ele não gosta de usar esse recurso. O personagem também é um homem relutante em suas ações. Sua aparência fechada e pouco propensa a amizades esconde um lado honesto e valente. Ele sabe reconhecer a injustiça quando ele a vê, e sabe também reconhecer o valor das pessoas, mesmo quando elas não enxergam.

Há uma clara influência no gênero do western americano. Mas, esqueçam os filmes do Sergio Leone. Não é esse western que vai gerar as histórias do Duda. É o estranho, o pulp, lá da década de 1930 e 1940 quando os bons romances de gênero eram lançados em revistas como a Weird Tales, que foi o lar de autores como H.P. Lovecraft. Se eu posso traçar algum comparativo contemporâneo ao que o Duda produz, eu relacionaria a uma série de fumettis chamado O Mágico Vento. A mescla entre o faroeste e aquele elemento de magia que pode levar ao estranho ou ao demoníaco. E isso fica claro até mesmo na forma como o autor conduz a narrativa. Parece que eu estou ouvindo o narrador descrevendo aquele cenário árido e cruel.

A ambientação é muito boa e o autor consegue impor os limites de uma maneira progressiva na história. O que parece estranho no começo vai se tornando o normal lá pelo final. As narrativas são contadas em terceira pessoa e eu até cheguei a me recordar de dois contos do Kane que eu vi em outras coletâneas. Mas, o autor inseriu pequenos elementos de continuidade aqui e ali que fizeram os contos conversarem uns com os outros. Isso ajudou a ampliar a mitologia do personagem e a dar uma coerência para a história dele. Ou seja, tudo agora parece mais amarradinho. O bacana é que as possibilidades para o personagem são inesgotáveis e mesmo que aqui se passe um bom período de tempo na vida dele, é possível seja colocar elementos mais para a frente ou entre as histórias. Para mim, O Estranho Oeste de Kane Blackmoon é uma viagem completa ao faroeste com tudo o que precisamos. Recomendo a todos os fãs de boas histórias.

site: www.ficcoeshumanas.com.br
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Pablo 12/09/2019

Faroeste fantasmagórico e com boas surpresas!
O Estranho Oeste de Kane Blackmoon, de Duda Falcão (@covildoescritor), bebe na fonte da literatura pulp - onde nasceram personagens como Conan, Doc Savage, o Sombra e muitos outros - e presenteia os leitores com as agitadas aventuras de um caçador de recompensas mestiço que lida rotineiramente com ameaças humanas e sobrenaturais num Estados Unidos ocupado em sua expansão para o Oeste. Kane Blackmoon é filho de um índio com uma mulher branca e por isso mesmo sempre passou dificuldades tanto para se adaptar ao mundo civilizado quanto para aceitar sua herança indígena. O livro apresenta oito aventuras, entrelaçadas por uma narrativa mais ampla que mostra a evolução do personagem ao longo do tempo, com um final que fecha algumas pontas soltas e deixa as portas abertas para um possível segundo volume. Particularmente, fiquei curioso para saber mais sobre o destino do pai de Kane Blackmoon e das encrencas em que o mestiço deve ter se metido em suas viagens para cantos mais civilizados dos EUA do século XIX. Leitura recomendada para quem curte um faroeste sobrenatural!
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DBraga2000 23/07/2019

O Estranho Oeste de Kane Blackmoon
Meu primeiro contato com Kane Blackmoon se deu através do conto “Sob os auspícios do corvo”, no livro Treze, de Duda Falcão, lançamento da Avec Editora. Lembro muito bem de terminar o conto e pensar: “este personagem merecia um livro só dele!”. Bom, Duda Falcão fez isso e nos presenteou com O Estranho Oeste de Kane Blackmoon.

O conto que li (“Sob os auspícios do corvo”) está na narrativa de O Estranho Oeste de Kane Blackmoon, assim como muitos contos que narram o início da trajetória do personagem – e vão além. Duda Falcão consegue nos transportar para um Oeste repleto de eventos sobrenaturais, tiroteios e cultura indígena americana. Sem dúvida uma mescla que deu muito certo junto com seu texto bastante fluido e de fácil leitura. Minha dica para ampliar essa experiência durante a leitura é colocar boas músicas do Velho Oeste, que algumas playlists do Spotify nos trazem, e… Boa leitura!. Recomendo ler ao som de clássicos musicais do Velho Oeste como os de Ennio Morricone.

Kane Blackmoon: o protagonista é um mestiço com uma história que ele mesmo pouco conhece. Filho de um índio com uma mulher branca acaba vivendo como um pária tanto entre os homens brancos como entre os índios. Isso o faz construir seu próprio caminho pelo inóspito Velho Oeste americano não aceitando se curvar a preconceitos raciais.

Sua personalidade forte acaba sendo moldada com o desenvolver da história que mostra o amadurecimento do homem através de suas inúmeras aventuras bizarras.

Não há finais felizes na vida de Kane. Existe apenas um eterno sobreviver e aprender com tudo o que acontece em seu caminho. Sua atitude inicial egoísta aos poucos vai sendo transformada na alma de um homem resoluto que se vê obrigado a entender seu papel naquele estranho mundo.

Nada na história é pesado, todos os elementos estão equilibrados. O mundano e o espiritual que convivem ao largo da percepção dos homens brancos. Porém, quando esses mundos se chocam, são esses homens brancos as presas que sofrem absurdamente e são aterrorizados pelas verdades desconhecidas – talvez pela sua incompreensão das forças espirituais que regem o mundo ou mesmo seu estilo de vida “moderno”. O que sabemos é que são os homens brancos os infortunados. Cabe a Kane e aos índios, que aparecem em muitos dos contos, o protagonismos de salvar a situação e isso é o grande barato neste livro.

Ao final somos obrigados a nos perguntar quantas histórias mais leremos sobre Kane Blackmoon, nosso herói mestiço, exímio conhecedor de dois mundos tão distintos, honrado em suas decisões e sempre só.

Um livro a ser degustado ao sabor de um bom copo de whisky ouvindo uma boa música.

Esta resenha foi publicada no site Canto do Gárgula em 23/07/2019

site: https://cantodogargula.com.br/2019/07/23/o-estranho-oeste-de-kane-blackmoon/
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