Aula de Português

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Resenhas - Aula de português


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Lucivaldo.Ferreira 11/12/2015

O livro “Aula de Português: encontro e interação” consta de 181 páginas divididas em seis capítulos onde a educadora e linguista Irandé Antunes, além de tecer importantes reflexões sobre a realidade do ensino de língua portuguesa propõe alternativas, construção de novas práticas para o cotidiano da sala de aula no que diz respeito às aulas de português.
Irandé constrói o seu discurso tomando por base os questionamentos, as angústias relatadas por profissionais do ensino de português nas atividades desenvolvidas por ela direcionadas a professores dessa área no Ensino Fundamental e Médio. Trata-se, no entanto, não de um livro de receitas mágicas, formulas definitivas de como ministrar aulas perfeitas, mas, pelo contrário, o livro supracitado vem atender aos anseios de professores que buscam rever seus conceitos e posturas ampliando os seus horizontes no tocante ao aprimoramento de suas práticas enquanto educadores.
Embora conste de seis capítulos, conforme citamos no inicio deste trabalho, é importante frisar que é nos quatro primeiros capítulos que encontramos o cerne revolucionário das ideias propostas por Irandé Antunes em sua “Aula de Português”. É nesses capítulos que ela irá tratar de aspectos fundamentais como a concepção de língua, o trabalho com a oralidade, o trabalho com a leitura, o trabalho com a escrita e com a gramática.
No Capítulo 1 do livro analisado a linguista faz uma série de reflexões sobre as
práticas tradicionais do ensino de português, criticando o que ela chama de “perspectiva reducionista do estudo da palavra e da frase descontextualizada” (ANTUNES, 2003, p. 19) à qual ela atribui o insucesso e a falta de motivação dos alunos que terminam por concluir que o português é muito complicado, difícil de aprender, culminando muitas vezes em casos de evasão e de repetência escolar. Tais dificuldades endossadas por métodos anacrônicos podem ser percebidas não só na apreensão dos conceitos gramaticais, mas também na leitura, na escrita e na oralidade, o que vai de encontro à função libertadora da educação, posto que cidadãos que põem na cabeça que não sabem a própria língua dificilmente se darão o direito à voz, tão necessário ao pleno exercício da cidadania.
Vale frisar que apesar do tom questionador com relação aos aspectos tradicionais do ensino do português que Irandé elenca no primeiro capítulo do seu livro, em nenhum momento há um ar pessimista em suas colocações, muito pelo contrário, a pesquisadora aponta no mesmo capítulo diversos avanços já notórios com relação às novas perspectivas de ensino como é o caso da elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e ela também cita como algo muito positivo a Matriz Curricular para o Ensino, do Estado de Pernambuco. Ainda assim a autora faz questão de destacar os resquícios de práticas tradicionais que ainda persistem no trabalho com a oralidade, com a escrita, com a leitura e com a gramática.
Antunes conclui o primeiro capítulo do seu estudo expondo ao professor o quão se faz necessário ter coragem de mudar sua postura, mas que para isso urge que as instâncias educacionais extraescolares deem a este professor o devido suporte.
Com relação ao segundo capítulo de “Aula de português: encontro & interação”, a autora deixa bem claro desde o título da referida seção qual a concepção de língua assumida nessa nova perspectiva de trabalho, qual seja, a língua em sua concepção interacionista, funcional, discursiva, que leva em consideração não apenas os preceitos da gramática normativa, mas outros aspectos evidenciados pelas teorias linguísticas, como a prosódia, a pragmática, a semântica, entre outros fatores que incidem sobre a língua viva, em uso, instrumento de comunicação, de interatividade e não apenas um conjunto de regras externas que muitas vezes sequer fazem algum sentido para o discente.
A visão interacionista vê a língua em seu caráter mais amplo já que uma língua que não se presta a comunicação entre dois ou mais interlocutores é sem serventia. Nesse sentido, afirma-se que a “língua-em-função” se dá apenas sob forma de textualidade. Dessa forma propõe-se o estudo do português tendo como principal suporte os textos falados e ou escritos não apenas com o mero objetivo de decorar regras, mas sim, de perceber regularidades. Esta concepção interacionista da língua proposta por Irandé no inicio do segundo capítulo do seu livro perpassa por todas as possibilidades de atividades apresentadas tanto no eixo da escrita, quanto não que diz respeito à oralidade, à leitura e até mesmo à gramática.
Seguindo a fundamentação teórica proposta ao iniciar o Capítulo 2 do livro resenhado, Antunes divide o referido capítulo em várias seções e subseções onde ela elenca algumas possibilidades de exploração dos eixos de ensino do português seguido de suas devidas implicações pedagógicas.
Com relação ao ensino da escrita, Irandé propõe que a atividade seja tão interativa e dialógica quanto à fala, deve ser uma atividade não de mera produção textual descontextualizada, vazia de intenções, mas sim, o espaço de “manifestação verbal de ideias”. Assim sendo, uma atividade de produção escrita deve vir sempre precedida de objetivos bem definidos, tendo sempre em vista o principio de que quem escreve sempre escreve para alguém, ou seja, corroborando com o que descrevemos acima, a escrita, em sua concepção interacionista deve levar em conta a existência de um “outro, o tu”, como bem afirma a autora na seção destinada a este tema. Seguindo tal raciocínio a autora sugere que se trabalhe a produção textual dividindo tal atividade em etapas que vão desde o planejamento, seguindo com a escrita propriamente dita e chegando até ao momento da revisão e reescrita que é justamente a etapa onde o aluno irá analisar o que foi escrito, colocando-se agora no lugar do outro, o leitor.
Ainda nessa seção Antunes apresenta um esquema gráfico detalhando bem cada uma dessas três etapas, no intuito de facilitar a compreensão do professor sobre cada uma delas.
Dando sequência, a pesquisadora elenca algumas implicações pedagógicas relativas ao processo acima descrito. Segundo Antunes (2003), são as seguintes: Uma escrita de autoria também dos alunos, de textos socialmente relevantes, uma escrita funcionalmente diversificada, de textos que têm leitores e que seja contextualmente adequada, metodologicamente ajustada, orientada tanto para a coerência global, como também e sua forma de se apresentar.
Em consonância com o ensino da escrita, Irandé propõe que seja explorada a leitura como uma atividade que completa o processo, ao que ela afirma que esta leitura não deva ser uma mera “decodificação de sinais gráficos” e sim um emaranhado de sentidos que serão desvendados, compreendidos, logicamente a partir dos conhecimentos prévios do aluno, mas que tendo como ponto de partida tais conhecimentos cabe ao professor proporcionar momentos de novas redescobertas (a redundância é propositada).
É na atividade de leitura de gêneros textuais diversos que o aluno será orientado a perceber certas regularidades que dão o verdadeiro sentido ao que é lido. Para tanto se faz necessário que o aluno seja exposto uma gama diversificada de bons textos escritos. Neste ponto, ao usar a expressão “bons textos” a autora supracitada tem o cuidado de frisar o fato de que “bons textos” não são apenas aqueles gramaticalmente corretos. Ela também propõe que para que a experiência de leitura seja satisfatória, o aluno tem que vivenciá-la em sua plenitude, passando pela tríplice função que implica a realização de tal atividade, a saber, de acordo com Antunes (2003): ler para informa-se, ler para deleitar-se, ler para entender as particularidades da escrita.
Do processo acima descrito, Irandé aponta as seguintes implicações pedagógicas: Uma leitura interativa, diversificada, motivada, de textos autênticos, uma leitura crítica, do todo, apoiada no texto (sua construção e reconstrução), uma leitura não apenas das palavras, mas sim vinculada ao sentido. Não esqueçamos, no entanto, que esta leitura deve permitir-se ser também por “pura curtição”. Nesse sentido, Antunes indica que sejam propostos momentos de leitura gratuita, ou seja, sem cobranças posteriores.
Quanto à exploração da gramática, a autora parte do principio de que não existe língua sem gramática, para traçar uma distinção entre o que são e o que não são, enfim, regras de gramática, assim ela afirma em seu livro que regras de gramática não são tão somente aquelas prescrições normativas de definição e classificação de unidades da língua sem muitas vezes levar em conta as reais regras de uso, regras essas que todo falante já traz consigo internalizadas.
Com isso a autora critica aquelas práticas de ensino de gramática onde os alunos são submetidos a exercícios de sublinhar, circular, retirar de textos desconexos unidades como verbos, substantivos, adjetivos ou outras que sejam, apenas com o intuito de reconhecê-las em detrimento da estrutura sintática do texto, sem ter em consideração as “plurissignificâncias” de tais unidades.
Para Irandé, a questão não é o ensino ou não da gramática, e sim o que ensinar em gramática. Nisso ela orienta que se dê ênfase ao fato de que a gramática não existe em função de si mesma e de que não existe língua uniforme, assim sendo, o trabalho de ensino da gramática deve levar em consideração as variedades linguísticas e os fatores que sobre elas incidem (geográficos, sociais, etários), ou seja, o que deve estar em foco na exploração da gramática são as regularidades, as regras de uso da língua e não as nomenclaturas, apenas.
As implicações pedagógicas dessa abordagem diferenciada da gramática nos levam a entender que o professor deva observar que o trabalho deve ter como principio uma gramática da língua real, que desperte o interesse do aluno, que preveja mais de uma norma, que seja libertadora e não prescritiva, enfim, uma gramática que seja contextualizada, relevante e funcional.
O último ponto abordado no Capítulo em análise refere-se ao trabalho com a oralidade. Embora seja essa uma seção menor que as anteriores, ainda assim figura-nos não menos importante.
Na referida seção Irandé Antunes destaca que à dimensão da oralidade deve-se atribuir o mesmo valor interacional dispensado às dimensões da escrita e da leitura, posto que ambas sejam indispensáveis ferramentas no processo de interação verbal, assim sendo, a autora afirma que embora existam para a prática da oralidade e da escrita certas especificidades, não existem entre elas diferenças essenciais, já que assim como acontece na escrita a qual não é sempre dotada de uniformidade e monitoramento, também não se pode conceber a fala como um ato sempre espontâneo sem planejamento, ou seja, também nas atividades que visem a oralidade estaremos diante de etapas que em muito se aproximam daquelas citadas com relação à escrita, pois sendo a fala também um ato de interação pressupõe o planejamento do que se vai dizer, se diz o que pretende, revisa-se o que foi dito e reformula-se (rediz-se) o que foi dito mediante a interatividade com o(s) outro(s).
Relacionadas à exploração do caráter interacional da oralidade, Irandé enumera as seguintes implicações pedagógicas no sentido de uma oralidade que tenha como características a orientação não só para a coerência global e suas especificidades, mas que também seja orientada para articulação os variados tópicos e subtópicos da interação, para a variedade de tipos e de gêneros de discursos orais, uma oralidade que favoreça, entre outras coisas, a habilidade de escutar e que facilite o convívio social.
Objetivando uma melhor compreensão e aplicabilidade dos conceitos e proposições enumerados no segundo capítulo do seu livro, Irandé Antunes dedica o Capítulo 3 a uma série de sugestões e orientações de atividades que possam tornar realidade essa nova postura no fazer pedagógico direcionado ao trabalho no âmbito da escrita, da leitura, da oralidade e da gramática. Já no quarto capítulo o foco do texto está nos possíveis procedimentos avaliativos desse novo fazer, com base nos princípios acima defendidos pela linguista. Trata-se de uma seção imprescindível, pois como pensar numa mudança de olhar sobre o objeto de estudo língua, transformando todo um fazer sem modificar os mecanismos de avaliação? Nesse sentido a autora sugere uma avaliação que seja antes de tudo formativa que ajude o aluno a compreender de que forma o seu texto ou a sua leitura podem ser aprimorados. Para tanto, essa avaliação deve acontecer cotidianamente, pois assim também se dá o aprendizado (pois é construção).
Ainda no Capítulo 4, nossa professora chama a atenção para o fato de não se deve abolir o ensino das normas de ortografia, posto que estas também tenham a sua relevância enquanto objeto de ensino, o que não se deve permitir é que este ensino da ortografia seja o único foco em um processo que é bem mais amplo, pois não basta que o aluno saiba apenas nomear e classificar unidades, faz-se necessário que ele compreenda e apreenda outras habilidades que tornem mais exitosas suas experiências de interação verbal, seja ela escrita ou oral.
Nos dois últimos capítulos do seu livro, Irandé destaca algumas reflexões a respeito das angústias e queixas feitas pelos professores, aquelas mesmas as quais ela se refere na introdução dessa discussão.
Finalizando o livro, Antunes deixa uma mensagem de motivação a todos aqueles que se proponham a se repensar enquanto professores/educadores/pesquisadores.
Em suma, o livro “Aula de Português: encontro e interação”, embora bastante didático, e escrito com muita clareza e objetividade, traz em si um teor polêmico e desafiador que nos leva a uma reflexão crítica sobre a nosso fazer pedagógico enquanto professores de português.
Trata-se de primoroso trabalho de leitura acessível, mas que requer algum conhecimento prévio para ser melhor compreendido. A obra é de grande relevância para educadores, pedagogos e demais profissionais da área de educação, bem como para gestores e todos aqueles que se interessem pela melhoria da educação no país como principal ferramenta de construção nacional.
A educadora Irandé Antunes é uma linguista reconhecida internacionalmente pelas suas pesquisas voltadas aos gêneros textuais, sobretudo no tocante à coesão textual. É, sobretudo, uma intelectual de olhar revolucionário para com as questões direcionadas à educação em nosso país.
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Mariane 23/09/2013

Se as aulas de português fossem como esse livro, de chatas elas nada seriam.
"Um dos raros ótimos livros/textos indicados pela minha faculdade. Um livro finalmente voltado aos erros da prática de ensino em sala de aula e o que se pode mudar, diferenciar e melhorar nessa prática. Um livro perfeito para estudantes de letras, mas principalmente para muitos docentes que muitas vezes sabem que trabalhar a gramática, literatura, leitura de uma forma mecânica, descontextualizada é totalmente errado, mas por preguiça, falta de interesse não reflete sobre sua própria prática de ensino e só consegue achar que o grande problema do fracasso na sua disciplina são os alunos.Com certeza se tornou o meu novo livro de cabeceira da faculdade. Muiito bom, muito útil." RECOMENDADÍSSIMO!
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Elcio Q. Couto 13/07/2013

Aula de Português - Irandé Antunes
Irandé Antunes é doutora em linguística pela Universidade Clássica de Lisboa e concentra seus estudos em coesão textual e gêneros textuais. Seus trabalhos, como Lutar com palavras: coesão e coerência, são referências na área e integram a bibliografia básica de diversos cursos de licenciatura de Letras Português no país. Além de sua atuação como pesquisadora, Antunes é profissional preocupada com a prática de ensino da língua portuguesa e exerce participação ativa na divulgação científica e de seus estudos junto a professores, por meio de palestras, cursos e outras atividades.

A unificação desses dois interesses resulta no livro Aula de Português: encontro & interação, em que a autora busca sistematizar suas reflexões e propostas para o ensino do Português pela abordagem interacionista, funcional e discursiva da língua, com a prática de produção e interpretação textual oral e escrito. O livro tem publicação pela Parábola, editora reconhecida pelo catálogo abrangente de obras voltadas às práticas de ensino da língua e ao estudo e reflexão das diversas correntes linguísticas.

Aula de Português: encontro & interação é composto por seis capítulos, em que a linguista reflete, sob uma perspectiva crítica, sobre as atuais práticas de ensino de português; apresenta um conjunto de princípios teóricos para a instauração de uma nova prática pedagógica fundamentada no oferecimento aos alunos da possibilidade de exercício discursivo pleno, relevante e adequado; e propõe um programa e uma série de atividades para a prática dos professores, consonantes com os princípios teóricos apresentados anteriormente, além de expor, ao fim do livro, uma proposta de avalição dos resultados alcançados pelas novas metodologias de ensino.

No capítulo 1, Refletindo sobre a prática de aula de português, Antunes critica o trabalho realizado na maioria das escolas brasileiras com a oralidade, a escrita, a leitura e a gramática. Para a autora, a abordagem que se faz desses quatro campos não confere relevância funcional para o aluno, tampouco amplia sua capacidade discursiva, não privilegia a participação do sujeito aprendiz e desfavorece as interações entre professor/aluno e aluno/aluno, além de apenas objetivar a avaliação de aprendizado de conceitos estanques para os quais não ocorrem práticas reflexivas: o ensino gramatical, por exemplo, segundo a especialista, concentra-se na apreensão da nomenclatura prescritiva e normativa, sem as noções de adequação e inadequação.

Como consequência dessas reflexões, a professora apresenta no capítulo 2, Assumindo a dimensão interacional da linguagem, princípios teóricos concernentes aos mesmos quatro campos analisados no capítulo anterior, sob a perspectiva interacionista da língua, e as respectivas implicações pedagógicas. Nesse capítulo, Antunes, apoiando-se nos preceitos de Bakhtin, conceitua língua como atividade de interação verbal entre interlocutores vinculada às circunstâncias de sua “atualização”, e defende que apenas o estudo textual e discursivo, relativamente à sua produção e interpretação, constitui o objeto de um ensino de língua relevante, funcional e produtivo. Dessa maneira, o ensino de produção e interpretação de textos orais e escritos deve conferir relevância funcional para o aluno, garantir a interação entre os agentes envolvidos no processo como sujeitos produtores (autores) e interlocutores, e contextualizar a gramática, não mais como nomenclatura prescritiva, mas como importante aos usos sociais da língua.

A seguir, no capítulo 3, Repensando o objeto de ensino de uma aula de português, a autora propõe atividades concretas que possam auxiliar o professor numa abordagem de ensino da língua que garanta a consecução dos objetivos apresentados nos capítulos anteriores: o ensino da língua que possibilite o “a ampliação da competência comunicativa do aluno para falar, ouvir, ler e escrever textos fluentes, adequados e socialmente relevantes” (pag. 122).

A abordagem de Antunes é essencialmente didática, mas sem descuido do escopo teórico, e busca, por meio de uma linguagem simples, clara e acessível, conquistar a adesão do professor para a prática de reflexão do ensino de português e incitá-lo à mudança. Não se trata de um manual ou guia, ou ainda um receituário e, embora os exemplos e propostas de atividades prodiguem pelo texto, o leitor é instigado a buscar por si só, a partir do referencial teórico apresentado, as alternativas mais viáveis e condizentes com a realidade específica em que se insere.

Aula de Português: encontro & interação posiciona Antunes como importante referência para a reflexão sobre o ensino contextualizado e de relevância social da língua portuguesa. Aqui encontram eco os preceitos oficiais dos PCNs e os apontamentos reflexivos de Por que (não) ensinar gramática na escola, de Sírio Possenti, por exemplo, quanto à preocupação da reformulação da abordagem do ensino da língua.

Embora não tenha se furtado a considerar que a consecução dos objetivos pretendidos para o ensino da língua não depende unicamente da intervenção do professor em sala de aula, mas de políticas públicas efetivas é importante salientar que o livro poderia ter reservado um espaço maior a esse tipo de discussão. A ideia é que não se reserve apenas ao professor o “privilégio” de comandar a guinada total na qualidade de ensino do país: é preciso que se tenha consciência da importância do apoio do sistema oficial que sustenta o ensino.

À parte dessas considerações, Aula de Português: encontro & interação é obra indicada a todos que enxergam no ensino da língua uma importância fundamental para plena e mais eficaz participação social dos alunos, cidadãos.
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Nando 18/03/2011

Encontro e Interação (Fernando Lago)
Aula de português – encontro interação, de Irandé Antunes, é um livro dedicado especificamente aos professores, como deixa claro logo no início a autora, doutora em Linguística pela Universidade de Lisboa e professora da Universidade Federal do Ceará.

Longe de considerá-los como responsáveis exclusivos pelos problemas da educação, Antunes estimula os professores à luta pela mudança, apresenta alguns avanços já verificados e, como não se pode dar ao luxo de dispensar, evidencia algumas implicações que ainda resistem na prática docente, mesmo diante de algumas novas possibilidades surgidas no âmbito das políticas públicas. O trabalho centra-se em quatro elementos essenciais no estudo da linguagem, a oralidade, a leitura, a escrita e a gramática.

No primeiro capítulo Antunes faz uma análise a situação atual. Embora reconheça que fatores exteriores à escola implicam nos problemas com relação ao aprendizado, lembra-nos que já existem alguns avanços relacionados ao estudo e à percepção da Língua Portuguesa, tanto no sentido das políticas públicas quanto nos critérios de avaliação das provas e exames oficiais. Assim, a autora cita os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que já privilegiam “a dimensão interacional e discursiva da língua” e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) que transcendem as definições e classificações gramaticais contemplando, nos seus descritores, um conjunto de habilidades e competências avaliadas através de textos de diferentes tipos, gêneros e funções. Assim, afirma, já não se pode culpar unicamente as políticas públicas pela maneira com que se trabalha a língua portuguesa na escola.

Ainda no primeiro capítulo, Antunes traz um pequeno esboço dos principais equívocos relacionados aos quatro elementos que citamos acima. Na oralidade, a autora aponta o descaso com relação à fala, como se esta não estivesse ligada ao estudo da língua ou vice e versa, como se na fala fossem permitidos todos os tipos de erros, não distinguindo situações de usos mais ou menos formais da oralidade. Com relação à escrita, Irandé nos apresenta equívocos relacionados ao não reconhecimento da interferência decisiva dos sujeitos na sua produção; a prática de escrita mecanizada, artificial, centrada nas regras e embasada em exercícios descontextualizados, como formar frases isoladas, sem função social e vazias de sentido, criando um abismo entre a língua do aluno e a “língua da escola”. No trabalho com a leitura a autora afirma que as escolas ainda se centram nas habilidades de decodificação da escrita, sem contemplar a dimensão interacional da língua, uma leitura desvinculada dos diferentes usos sociais que dela se pode (e deve) fazer. Sobre a gramática a autora explica que há vários equívocos quanto à maneira como ela é trabalhada na escola: fragmentada, descontextualizada, desvinculada com a realidade da língua escrita e falada, trabalhada através de frases soltas e sem sentido, apoiada apenas em regras e definições, inflexível, engessada, sem considerar os usos reais da língua – oral e escrita – e o processo de mudança por que ela passa.

É, então, a partir destes limites e equívocos que Irandé baseia seu trabalho para fundamentar elementos que contribuem na construção de novas formas de enxergar a língua portuguesa e de desenvolver o trabalho no ensino desta. Assim, no segundo capítulo, ela apresenta princípios teóricos que possam cumprir esta função.

Segundo Antunes, toda atividade de ensino de língua baseia-se em uma determinada concepção, ou seja, um conjunto de princípios teóricos a partir dos quais se percebe os fenômenos lingüísticos. Há duas tendências sob as quais tem sido pautada a percepção da língua. A primeira limitando-se ao conjunto abstrato dos símbolos e das regras, sem vínculo com as condições de usos reais da língua; a segunda pautando-se na linguagem como atuação social, enquanto atividade de interação entre sujeitos e, portanto, ligado a situações reais, concretas e diversificadas. É, pois, nesta segunda concepção que se embasam os princípios teóricos que a autora apresenta para cada elemento: oralidade, escrita, leitura e gramática. Essa concepção, afirma, possibilita enxergar a linguagem com mais amplitude, como atitude social, longe das concepções engessadas e embasadas apenas nas regras inflexíveis, que nem sempre levam o sujeito a algum lugar.

Com relação à escrita a maior preocupação da autora é a sua afirmação como elemento comunicativo entre sujeitos. A escrita não pode ser compreendida apenas como ferramenta avaliativa, mas toda a atividade escrita deve direcionar-se, deve dizer algo a alguém. Ressalta também a variação de formas e gêneros existente na escrita, dependendo de que ou a quem se destina. São também abordadas as condições para produção da escrita e as diferenças com relação à fala, além de apresentar-nos as diferentes etapas pelas quais se deve passar na elaboração de um texto escrito. Como questões pedagógicas, a autora apresenta as necessidades de propor textos que sejam de autoria dos alunos, vinculados comunicativamente, socialmente relevantes, diversificados, com destino (a quem escrever? Pra que?), contextualizados, coerentes, tecnicamente adequados.

Quanto à leitura, Antunes a apresenta como ferramenta de interação verbal escrita, atividade de acesso ao conhecimento, necessária para a aquisição de novos saberes e de aprendizado formal da língua. Ressalta a necessidade de se trabalhar o contexto extralinguístico do texto, ou seja, compreendê-lo a partir de elementos externos, conhecimentos prévios, estimulados por uma ou mais palavras nele contidas. Nas implicações pedagógicas a autora expõe a necessidade de se promover leitura de textos autênticos e reais (revistas, jornais, panfletos, livros, cartazes etc.); que o texto seja interativo, um encontro entre quem lê e quem escreve, atividades que vinculam leitura e escrita, pois há uma relação de interdependência entre elas. Ressalta-se também a necessidade de compreender as diversidades de gêneros literários, o trabalho com a coerência global do texto e a importância de reconhecer que cada texto, por mais inocente que pareça, é regido por uma concepção de mundo.

No que diz respeito à gramática, Irandé busca desconstruir o mito de que a gramática é o conjunto de regras estáticas e inflexíveis que regem apenas a linguagem escrita formal. Apresenta-nos a gramática como regras que especificam o funcionamento de uma língua no sentido geral, seja escrita ou falada. Dessa forma, nenhuma manifestação de linguagem existe sem gramática, sem normas, mesmo que, no ponto de vista da língua formal, seja considerada errada. A gramática existe em função da maneira como as pessoas se expressam e não o contrário, como se pensa; é um conjunto de regras que visam à compreensão de textos escritos e falados e, em geral, diversifica-se de acordo com a região geográfica. Como implicações pedagógicas a autoria recomenda que no trabalho com a gramática observe-se a relevância, utilidade e aplicação para os alunos das regras e definições trabalhadas na escola, uma gramática que observe a funcionalidade da língua, partindo de textos e fatos reais das manifestações lingüísticas; contextualizada e interessante, instigante ao aluno, flexível com relação às diversidades da linguagem.

A oralidade é apresentada neste livro como uma manifestação tão importante quanto a leitura e a escrita. Para a autora, não há oposição entre oralidade e escrita, estão intimamente relacionadas, embora possuam suas particularidades. Desta forma, Antunes manifesta em todo esse trabalho a preocupação em compreender a oralidade como um texto também elaborado e que, como tal, tem sua variedade de gênero, suas especificidades de público e suas diferenças de uso em situações formais e informais. Como recomendações pedagógicas, manifesta a importância da coerência a partir do tema em que se desenvolve o texto oral, dos tópicos e subtópicos da interação, recursos que mantém o encadeamento do texto, das diferenças entre escrita e oralidade, da diversidade de gêneros textuais nela também existentes, enfim, que se trabalhe a oralidade visando a interação e o convívio social entre os sujeitos, desenvolvendo também a capacidade de ouvir.

No terceiro capítulo Irandé Antunes retorna estes princípios pedagógicos a fim de fornecer ao professor elementos que ajudem na construção do ensino de língua portuguesa a partir desta concepção interacionista da linguagem. Assim ela contribui com sugestão de atividades e metodologias que visem essa concepção, enfocando-se em cada especificidade trabalhada para oralidade, leitura, escrita e gramática. No capítulo 4, volta-se os olhos para a avaliação que, admitindo-se uma concepção interacionista da linguagem, deve também ser encarada diferentemente das concepções avaliativas reinantes. Para ela, não se trata de uma questão técnica, mas sim de concepção. Neste sentido, a avaliação não deve ser apenas um processo para detectar erros e reprovar os incapazes de assimilar as normas da gramática, mas deve avaliar o processo de aprendizado a partir da compreensão da língua como objeto de comunicação entre os sujeitos e da necessidade de os educandos assim compreendê-la, bem como desenvolver competências para aplicá-la em situações reais.

Por fim, nos dois últimos capítulos, a título de conclusão, a autora ressalta a necessidade de o professor assumir a autonomia de seu trabalho pedagógico em língua portuguesa, assumir-se como especialista em língua portuguesa e ter segurança na sua ação docente, para avançar para além das concepções antigas da língua engessada, monótona e cheia de regras. Um ensino da língua que tenha sentido e significado para os alunos, porque é a sua língua e não a língua exclusiva da escola.

Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Educação Campus X - Teixeira de Freitas. Março de 2011. Produzido para fins acadêmicos.
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