A vida pela frente

A vida pela frente Émile Ajar (Romain Gary)




Resenhas - A vida pela frente


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Rodrigo Pamplona 25/01/2020

Inocência e brutalidade combinadas (Sem Spoilers)
Vou dividir esta resenha em duas partes, ok?

1. Parte racional e introdutória da resenha:

"La Vie Devant Soi" foi escrito em 1975 por Roman Gary e se tornou um dos livros de maior sucesso na história da literatura francesa e um dos romances mais vendidos do século XX. Usando o pseudônimo Émile Ajar, o verdadeiro nome do autor só foi descoberto anos depois, após a morte de Romain, em 1981. Isto até pode parecer banal, porém, o autor conseguiu a proeza de ganhar 2 prêmios Goncourt por conta do anonimato, um em 1956 por As Raízes do Céu, e o outro em 1975 por este (o Goncourt não pode ser dado à mesma pessoas duas vezes).

Falando sobre a história de um menino muçulmano vivendo com uma senhora judia, sobrevivente de Auschwitz, nos subúrbios de Paris, o livro é uma viagem agridoce pela vida de Momo, essa criança de idade incerta que nos conta a história da sua vida com toda a candura e a dureza de pessoas que são forçadas a crescer rápido demais.

2. Parte sentimental e particular da resenha:

Em tempos como esse em que a humanidade parece retroceder a passos largos para a Idade Média, com políticos e Chefes de Estado se comportando como bárbaros e sendo publicamente apoiados por uma massa cada vez mais assustadora de pessoas desprovidas de qualquer senso crítico, estético ou de valor, esse livro chega como um verdadeiro antídoto ao obscurantismo.

Escrito na forma de diário, o autor alcança o que pode parecer impossível: uma história cativante de amor, amadurecimento e coragem no coração de uma comunidade marginalizada do submundo parisiense, contada pelos olhos de uma criança. Tudo isso, sem um pingo de sentimentalismo ou condescendência.

Antes de qualquer coisa, aviso que este livro vai te fazer rir e chorar. O personagem principal, o menino Momo, conta sua história em retrospecto. O lado da vida que ele percebe em Paris é deveras decadente, mas também é extremamente revelador, amplo e colorido - e uma grande aula sobre tolerância, aceitação e amor.

Ingênuo por vezes, já que se trata de uma criança contando a história, o enredo é simples, porém altamente cativante. Momo luta contra a vida porque "ela não perdoa" e também "porque não é necessário ter motivos para se ter medo". Da foma como foi estruturado, o leitor é jogado nesses momentos de ingenuidade só para ser imediatamente tragado para as agruras da vida adulta. Calibrado no humor sem estardalhaço e com personagens cheios de camadas e nuances, o livro trás um tom leve mesmo quando se torna pesado. A narrativa de Momo surpreende qualquer adulto que tenha empatia o bastante para enxergar por baixo de uma capa de brutalidade jogada sob a cabeça de uma criança que foi obrigada a amadurecer pelos revezes da vida.

Enfim, leia A Vida Pela Frente. A propósito, eu até digo mais: leia e dê este livro de presente para qualquer pessoa (disposta ou não) a abandonar uma visão tacanha, preconceituosa e ortodoxa de mundo. Se você abrir seu coração ao livro, nunca mais conseguirá fechar seus olhos.

Leva 5 de 5 estrelas.

Passagem interessante:

"Eu devia ter uns três anos quando vi Madame Rosa pela primeira vez. Antes, não temos memória e vivemos na ignorância. Deixei de ignorar com três ou quatro anos e às vezes sinto falta disso" (pg. 7)


Pandora 08/03/2020

É preciso amar
Li este livro para um Grupo de Leitura presencial. Deixei pra última semana por causa de uma série de atribulações, mas bastaram três dias. É uma narrativa fluida e cativante, contada sob à ótica de um menino.

Paris, final dos anos 60. Momo é um garoto muçulmano de idade indefinida (ele acredita ter dez anos) que vive sob os cuidados de Madame Rosa, uma judia sobrevivente de Auschwitz que trabalhou como prostituta em Paris e agora acolhe filhos de meretrizes. Elas não podem criar os próprios filhos por terem “conduta indecorosa”; assim, pagam a alguém para fazê-lo. Apesar do choque inicial de Momo ao saber que Rosa recebe dinheiro para cuidar dele, o menino estabelece com sua protetora uma relação de enorme carinho e dependência.

No prédio em que moram em Belleville - no sexto andar, sem elevador - vivem imigrantes de várias partes, religiões diversas e há até um francês legítimo. Apesar das diferenças culturais e das dificuldades diárias que todos enfrentam, sobra solidariedade. Isto fica ainda mais evidente quando Madame Rosa adoece.

Aliás, apesar de questionar suas origens o tempo todo e de querer saber quem é sua mãe, o maior medo de Momo é perder Madame Rosa. O dela é de ter câncer e também de que Momo tenha herdado algum gene de violência, embora ela não explique o porquê.

Momo também gosta muito de seu Hamil, “que me ensinou tudo o que eu sei”, que cita para o menino o Alcorão e Victor Hugo. Mas é quando conhece a dubladora Nadine, que Momo começa a pensar em como seria interessante fazer o mundo recuar como na sala de dublagem. Evita que a vida continue, Madame Rosa envelheça e o mundo se deteriore.

“A vida pela frente” é uma pequena preciosidade. São tantos os ensinamentos, as citações e as experiências que se tira desta leitura, que é impossível enumerá-las. Há tantos personagens marcantes: o dr. Katz, os irmãos Zaoum, o sr. Waloumba, o sr. N’Da Amédée, Madame Lola... mas o que resume este livro para mim é: uma grande história de amor. Porque na vida real ou no mundo da dublagem, nos sonhos de Momo ou nos pesadelos de Madame Rosa, este é o sentimento que nunca morre.

O grande parágrafo final desta narrativa é uma das leituras mais intensas, significativas e tristes que já fiz. Chorei de soluçar, meus caros... e se volto lá choro de novo.

“(...) eu desprezo todos vocês, menos Madame Rosa, que é a única coisa que amei aqui e não vou deixá-la ser campeã do mundo dos vegetais para agradar à medicina...”

“Não é necessário ter razões para ter medo.”

“É preciso amar.”
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Paula.Motta 13/02/2020

Literatura Francesa
O livro é um clássico da literatura francesa e foi recentemente publicado pela Todavia. No livro conhecemos a história de Mohammed, o Momo, um menino que vive em Paris com uma senhora judia, chamada Madame Rosa, em um bairro habitado por árabes, judeus e negros. Uma história rica em aspectos culturais e dilemas da vida, narrada por Momo, que possui maneira única de olhar os acontecimentos ao seu redor. Sem dúvidas um dos melhores que já li!
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Dri Ornellas 02/02/2020

A Amazon me indicou o livro A vida pela frente baseada nas minhas compras. Quando li a sinopse, o primeiro pensamento que me veio à mente é que esses franceses adoram um livrinho com personagens morando num mesmo prédio (pois o cenário me trouxe à lembrança o maravilhoso A elegância do ouriço); e juntou-se à essa boa referência o fato inusitado do autor usar um pseudônimo (ele já havia ganho um prêmio literário na França que não poderia concorrer novamente, então, usou um nome falso para o livro poder competir - e ganhou, de novo!).

O livro foi publicado em 1975, mas pode facilmente ser considerado atemporal, mesmo com todas as marcas identitárias e eventos históricos que traz ao contar a história de Mohammed, ou Momo, como ele prefere ser chamado. Um menino árabe de talvez 10 anos - não se saber ao certo porque ele não tem certidão de nascimento - criado por Madame Rosa, uma ex-prostituta judia já idosa. Em sua casa, Madame Rosa tem umas 10 crianças órfãs ou temporariamente abandonadas pelas mães prostitutas para poder trabalhar - e sobreviver. O livro é sobre pessoas que (sobre)vivem à margem da sociedade, aquelas que sobram.

A narrativa em primeira pessoa de Momo faz toda a diferença e torna a leitura única: Momo tem um olhar observador apurado sobre as circunstâncias em que vive, mas não as questiona, apesar de saber, por intuição, que não tem um futuro além do que consegue enxergar.

Após ser expulso da escola por entraves burocráticos por causa de sua (falta de) idade, ele vive pelas ruas de Paris nos arredores das zonas de prostituição fazendo pequenos roubos (para conseguir dinheiro para comer ou apenas chamar atenção, pois pode ser que sua mãe apareça se ele foi visto!). Mesmo sabendo-se árabe e sendo portador de toda a identidade que isso lhe concede, ele não sabe nada de seus pais, de onde veio ou que idade tem. Ele não tem importância! E, no entanto, ser árabe ou saber quantos anos tem não farão diferença em sua realidade, não mudará nada.

Madame Rosa é uma judia sobrevivente de Auschwitz. Foi prostituta por 35 anos, quando se aposentou, passou a adotar crianças órfãs para receber o dinheiro do seguro social. Ela e Momo desenvolvem uma relação especial e a história do livro gira em torno dos últimos dias de vida de Madame Rosa e as aflições de Momo que não sabe o que será de si mesmo quando ela morrer.

Os laços de amizade entre uma velha senhora judia ex-prostituta e um órfão delinquente árabe, ambos puídos pelo pior da vida, tentando apenas contornar as imposições de seu presente sem futuro para não morrer ou morrer com um pouco de dignidade. O livro é bem pesado, mas isso é muito bem disfarçado nas primeiras dezenas de páginas por ser narrado por uma criança. Até o momento em que você dispõem os personagens em suas devidas categorias e monta o quebra-cabeça do cenário contextual em que eles vivem, fica até com a impressão que será algum tipo de fábula. Depois disso, tudo pesa. Toda informação filtrada pelos olhos de Momo para palavras simples e diretas passam a ter outro sentido, porque você já pode traduzi-las social e historicamente. Esse é um mecanismo espontâneo que a narrativa causa no leitor e, no final, ocorre outro mecanismo que gira uma outra chave na história e, confesso, inesperada para mim. O inesperado não foi o desfecho da história, mas as palavras usadas para a conclusão de uma história tão triste.

Um livro pequeno que li nesses dois dias de fim de semana. Uma leitura pesada que se faz muito atual por tratar do limite de espaços e laços identitários e de comunidade; da nossa impossibilidade de fugir do nosso lugar histórico e social e da transitoriedade da vida, mas também da necessidade de às vezes simplesmente ignorarmos tudo isso e apostarmos em algo, no outro e em nós mesmos. Um pequeno grande livro que acabei já querendo reler daqui um ano ou dois ou tanto faz, mas sei que será uma história que trará novas percepções e sentimentos a partir de uma segunda leitura e num novo momento de vida do leitor. A transitoriedade da vida vale pra todo mundo, dentro e fora dos livros, né?
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