Shakespeare: Teatro da Inveja

Shakespeare: Teatro da Inveja William Shakespeare
René Girard




Resenhas - Shakespeare: Teatro da Inveja


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Marc 18/05/2017

Girard é um autor surpreendente. Conheci seus escritos há pouco tempo e não posso considerar que já compreenda totalmente suas teses, tampouco o desdobramento do que diz, mas quanto mais o leio, mais me convenço da amplitude e da força de seu pensamento. Nesse livro, especificamente, o autor decide analisar a obra de Shakespeare e, inevitavelmente, desloca o entendimento que tínhamos a ponto de inverter totalmente a interpretação em algumas obras. A base de sua análise só poderia ser sua teoria sobre o desejo mimético, como o autor inglês supostamente o descobriu e desenvolveu essa hipótese ao longo de toda sua trajetória. Há, também, uma breve discussão sobre a leitura de James Joyce sobre Shakespeare e de como este também trabalhou com a questão do mimetismo em seu grande clássico Ulisses. Como é impossível resumir o livro sem diminuí-lo drasticamente, vou me limitar a comentar a sua leitura sobre Hamlet.

A interpretação clássica, influenciada por Freud, diz que Hamlet censura a Cláudio apenas por este ter feito o que ele desejava fazer, que era matar o pai e tomar seu lugar, casando com a rainha, sua mãe. É o conhecidíssimo complexo de Édipo. Assim, Hamlet seria um neurótico, ou seja, estaria enfrentando um conflito agudo dentro de si por ver aquilo que desejava se realizando em parte, mas ao mesmo tempo ficando distante. Seu sofrimento pela morte do pai seria a tradicional culpa que todos os filhos sentem ao ver seu rival sendo morto.

Outra interpretação versa sobre a vingança e a chamada natureza humana, de que supostamente Shakespeare seria um grande conhecedor. Hamlet seria um príncipe humano, que adora poesia, se compadece com a trágica condução humana (a famosa cena onde segura uma caveira) e lamenta a loucura que toma o reino trazida pela cobiça de Cláudio, o suposto assassino de seu pai. Como reconhece que seu pai foi traído, inicia uma justa vingança para honrá-lo, mas algo foge dos planos e o resultado é o que todos conhecemos.

René Girard despreza completamente a leitura psicanalítica da obra. por várias vezes ele afasta os elementos basilares desse tipo de pensamento e lembra que é preciso que os pais tenham um papel determinante nos acontecimentos, para os complexos descritos por Freud terem eficácia; mas Shakespeare invariavelmente diminui o papel dos pais, a ponto de serem inúteis em algumas tramas. Ora, em Hamlet, isso é ainda mais visível. Não é possível falar em complexo de Édipo aqui, segundo Girard. O que predomina é a reflexão sobre a vingança, mas não do modo como se costuma pensar.

Partindo da ideia de que o desejo mimético contamina a todos, sem exceção, de forma rápida e praticamente irresistível, Hamlet tentaria colocar em dúvida o caminho da vingança. Dessa forma, a oscilação do príncipe não seria culpa nem temor de realizar sua vingança, mas um questionamento sobre a validade desse tipo de procedimento. A cena em que especula sobre a validade dos atos e onde termina a vida, seriam nada mais do que o questionamento sobre a utilidade da vingança. Se assim procedesse, se se deixasse contaminar pelo desejo de vingança, pela violência, estaria apenas acrescentando mais um elo à cadeia que governa a vida desde sempre e que é cada vez mais difícil de romper. Feita a vingança, outros se vingariam e depois outros e assim por diante, até o fim dos dias. Onde essa entrega à violência pode nos levar?

O desejo mimético, ou seja, a violência, rivalidade, inveja, só nos faria destruir tudo a nossa volta. Por mais autônomos que nos imaginemos, a força comportamental mais influente é a cópia. Nós copiamos o comportamento uns dos outros, eu diria, inercialmente, pois somos educados assim e isso faz com que esse padrão seja uma regra para toda a vida. A violência contagia e é copiada, mesmo quando tentamos rejeitá-la ou procuramos nos distanciar de um rival. Girard explica que os rivais, à medida que supõem se diferenciar um do outro, mais se assemelham, cedendo à violência e à disputa. Extrapolando (e considero esse um dos aspectos mais empolgantes em sua formulação, porque abre um campo de entendimento bastante interessante aos fenômenos políticos), o sentimento se espalha pela sociedade, levando a conflitos extremos, que só podem ser resolvidos pelo sacrifício ritual de uma vítima (inocente, embora ninguém perceba isso e é justamente esse desconhecimento que assegura a validade do procedimento), o bode expiatório.

Nesse ponto entra o aspecto mais polêmico de Girard: o cristianismo. Segundo ele, todas as religiões arcaicas viveriam nesse ciclo. Os rituais seriam transformações elaboradas desse verdadeiro assassinato primordial, que garantiu a coesão social no passado, diante da possível cisão num conflito. O cristianismo, com a figura de Jesus, explicitaria pela primeira vez esse mecanismo da violência, mostrando que a vítima era inocente e que, portanto, a única saída seria renunciar conscientemente à violência. Jesus era inocente, mas foi crucificado como uma declaração de que Deus deseja que cessemos com a violência em busca de um caminho completamente diferente do que foi nossa história até hoje.

Esse pensamento é tão poderoso que ajuda a entendermos como um fato corriqueiro o aumento da violência, afinal ela é mimética e o conflito vai crescendo cada vez mais até atingir um ponto em que um novo sacrifício seja “exigido” para pacificar tudo novamente. Vários eventos históricos podem ser explicados a partir dessa teoria. E o cristianismo seria o ponto de inflexão em que a humanidade poderia alcançar um novo entendimento sobre sua história. Mas tudo depende da correta compreensão desses aspectos e do cristianismo em si. Girard tem uma interpretação muito verossímil sobre os textos bíblicos e que ajuda a esclarecer diversas passagens pouco claras. Não é preciso pensar muito porque um pensamento tão impressionante é absolutamente ignorado dentro das universidades e não se conhece ninguém em nosso país que o siga declaradamente. Seu catolicismo o torna intragável pela horda de “pensadores” ateus e agnósticos que domina a “inteligência brasileira”; ou melhor, ele é totalmente inaceitável. E deve permanecer assim.

De qualquer forma, como disse no início, o pensamento de Girard tem inúmeras implicações e é bastante complexo por isso. Embora não o seja em sua formulação inicial, vamos compreendendo que aquela tese simples leva a outras e mais e mais fenômenos podem ser explicados por ela. Recomendo a leitura, pois estou fascinado por esse autor.
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