Menciono, de vez em quando, para os meus inscritos (ig: @podkelvin), alguns críticos literários, como o Harold Bloom, o Rodrigo Gurgel e muitos outros. Mas hoje meu objetivo será abordar um crítico brasileiro chamado Sérgio Augusto. E, gente, esse cara é fenomenal. O nome desse livro é "Vai Começar a Sessão" e ele é na verdade uma coletânea de artigos geniais.
Estamos muito acostumados àquela crítica de cinema estilo Quadro em Branco, Plano Crítico, etc. que apesar de não ser ruim, é muito aquém do que vamos presenciar neste livro, que constitui uma coleção de ensaios muito interessantes do crítico de cinema brasileiro Sérgio Augusto. O livro começa com uma introdução de Paulo Roberto Pires, que vai desenhar mais ou menos quem é o Sérgio Augusto. As qualidades que o Paulo descreve aqui, no entanto, não chegam nem aos pés do que vamos realmente ver quando começamos de fato a ler o texto dele. O estilo do Sérgio é um misto xe clareza e ao mesmo tempo sofisticação. Sérgio é um grande sintetizador de conteúdo, mas sintetizar, nesse caso, não significa tornar-se simplório. Muito pelo contrário, através de um texto dinâmico ele consegue usar termos difíceis e misturá-los a uma linguagem ágil e agradável. Outra qualidade muito interessante é a sua capacidade multirreferencial e enciclopédica, essa memória incrível o levou a ser apelidado de Sérgio Augoogle. Ele trabalhou com gêneros variados, então não se espante se no mesmo texto ele em que ele mencionar um Duro de Matar acabe citando Cidadão Kane como se a relação entre os dois filmes fosse muito óbvia. Ademais, ser crítico de cinema, muito longe do que muitos podem imaginar, de forma alguma significa algum distanciamento do universo da literatura ou da filosofia, pois ele consegue habilmente citar um Albert Camus enquanto faz uma crítica de cinema, e ainda engatar um Nietzsche para deixar o texto bem amarrado. Acompanhem o trecho a seguir:
"O filme noir tem direito a ?femme fatale, boate, brumas, troca de identidades, carros ominosos e aquelas fatalidades que às vezes aproximam o gênero das tragédias de Shakespeare e das danações de Dostoiévski?. James Dean? ?Um rebelde pós- existencialista, um filho bastardo (e beatnik) de Albert Camus, que, não custa lembrar, também morreu ?on the road?.?
Os artigos que o Sérgio escreve são muito interessantes e a maioria deles não é exatamente aquela crítica ou resenha específica de uma obra. Em cada artigo, ele prefere abordar temas, e através desses temas, ele lança mão de diversas obras, mostrando uma erudição muito fodástica a cada parágrafo. Além do mais, interessante mesmo são as indicações de outros críticos que ele apresenta em diversos textos. Anotei todos. No texto em que ele fala sobre a Pauline Kael, uma crítica muito famosa, a forma como ele a descreve como magnética e hiperbólica me deixou tão curioso que tive que parar um pouco a leitura para pesquisar os textos dela. Fiquei mais deslumbrado ainda no trecho em que ele cita que o Quentin Tarantino, um dos meus diretores favoritos, era completamente fissurado na Pauline Kael.
Em outro texto, ele comenta sobre o filme "Apocalipse Now", um filme que fez parte da minha transição de consumidor de cinema pop Marvel/DC para um cinema mais sofisticado. Ele fala um pouco sobre a versão definitiva do filme, o corte do diretor, e explica com argumentos muito contundentes o porquê de essa versão ser infinitamente superior (o episódio da plantação fez toda a diferença). O filme é dirigido pelo Copolla, que não por acaso também é diretor de O Poderoso Chefão, outro filme que tem espaço reservadíssimo no meu coração.
E em diversos textos ele pega figuras que nunca tretaram de forma direta e traça um panorama interessante, de modo a fazer parecer que os personagens históricos tretaram de verdade. Em um desses textos, ele coloca Hitler e Charles Chaplin em contraste. O Chaplin aqui, apesar de se revelar um formidável combatente do nazismo, também se mostra um pouco diferente daquele herói que imaginamos, pois descobrimos o quão [*****] ele era com seus assistentes. Chaplin foi acusado de ser comunista e também de ser ateu, tudo por causa do seu famoso filme "O grande ditador". E o motivo ele explica neste trecho:
"Num assomo de estupidez, o jornal Daily News acusou Chaplin de comunista. Fazendo também o jogo dos nazistas, a Legião Nacional de Decência, entidade religiosa que exercia uma espécie de censura informal a filmes e outras modalidades de entretenimento, não recomendou O grande ditador por considerá- lo ?uma obra de propaganda ateísta?. Só porque em determinada cena Hannah (Paulette Goddard) pergunta ao barbeiro se ele acredita em Deus, e o barbeiro responde ?Bem??, sem poder concluir a frase porque Hannah o interrompe com outra observação."
O Sérgio repete esse mesmo jogo quando coloca em rivalidade duas críticas de cinema famosas, a Pauline Kael (já mencionada) e a Susan Sontag. A Sontag é autora de um livro ótimo chamado "Diante da Do dos Outros", que inclusive mostra uma perspectiva mais à esquerda dentro do que eu abordei no meu podcast "BBB 2021 e as consequências do sentimentalismo tóxico". Kael valoriza a cultura pop, já a Sontag aprecia muito mais a alta cultura. Para Kael, escrever é um prazer, algo tão fácil como descascar uma banana; já para a Sontag, escrever era, no dizer do Sérgio Augusto, uma tortura flaubertiana, ou seja, uma preocupação constante a palavra certa a empregar em cada maldito parágrafo. Eram como água e óleo, não se misturavam, mas foi interessante constatar que a Kael, mesmo defendendo bastante a cultura pop, no fim da carreira acabou constatando que ajudou a criar um monstro. Acompanhem o trecho:
"Kael, extremamente segura de si, teimosa e onipotente, não abria mão de suas convicções, não fazia autocrítica. Certa vez, coisa rara, teve uma dúvida: seria o cinema uma arte? Quando bom, era. Bom, de acordo com os seus preceitos. Já estava aposentada quando a um repórter se confessou arrependida de ter defendido com tanto ardor a cultura pop e valorizado seu lixo como uma preciosa proteína artística. ?Ninguém podia prever que o lixo cultural fosse se tornar a única cultura que hoje nos resta?, justificou- se."
E ele não cria só rivalidades imaginárias nos seus artigos, mas também alianças que nunca existiram, como Trotski e John Wayne. Trotski morreu com uma picareta enfiada no crânio por Ramon Mercader, um assassino à mando da ditadura stalinista. John Wayne quase teria o mesmo destino, se não tivesse a sorte de ser americano. O Stálin, mesmo sendo esse ditador implacável, também aparece sob uma faceta interessante na ótica do Sérgio, pois ele, ao contrário do que podemos acreditar, estava muito longe de ser esse brucutu arquetípico que Bolsonaro parece encarnar no imaginário coletivo. Stálin na verdade era um homem muito culto, devorava clássicos da literatura, um leitor compulsivo, um apreciador de música erudita. Entretanto, ele foi implacável na censura; o Goebels, chefe da propaganda nazista, é uma criança inocente perto dele. Além disso tudo, era também muito moralista e chegou a proibir até mesmo coisas triviais como o beijo de língua.
Em outros artigos, Sérgio revela um conhecimento filosófico estupendo. Ele faz a ponte entre Nietzsche e o livro "A Revolta de Atlas", e coloca o John Galt como um ubersmensch arquetípico do Nietzsche. Mas ele vai muito mais além do cinema, da filosofia ou da literatura, flertando até mesmo com a antropologia. Em um texto, ele comenta um pouco sobre cinefilia de Claude Levi-Strauss. O Levi-Strauss foi um antropólogo que marcou algumas leituras da minha adolescência. Eu era fissurado em Freud, o que me levou a Carl G. Jung e, como numa bola de neve, acabei lendo Levi-Strauss e me deparando com uma explicação muito genial sobre o surgimento do sistema binário (tudo isso aludindo a tribos africanas). No texto do Sérgio Augusto, o Levi-Strauss aparece como um intelectual de gostos bem populares, como os westerns, que por sinal eu também adoro. O Strauss assistia filmes sem nenhuma pretensão intelectual, o que o interessava era muito mais uma experiência completamente sensorial. Por isso detestava qualquer cinema que se pretendesse difícil, como a Novelle Vague francesa, os filmes do Ingmar Bergman e etc. Ao comparar a experiência do cinema com a leitura, o Strauss comenta que são atividades completamente diferentes, no cinema nos forçamos a absorver os meandros de uma história no espaço de duas horas, já a leitura pode ser terminada a um tempo que seja mais favorável. Por isso ele considera o cinema uma experiência única.
Nas partes finais do livro, alguns artigos que me chamaram atenção falam sobre algumas sex simbols, musas do cinema, como a Marilyn Monroe e a Sharon Tate. A disfuncionalidade sexual da Marilyn Monroe é muito bem explorada, assim como o transtorno borderline que a levava à depressão ? podemos aprofundar esse ponto em um livro muito interessante da Dra. Ana Beatriz Barbosa, chamado "Corações Quebrados", em que ela explica muito bem como o borderline da Monroe a levou ao suicídio.
Em outro texto, ele fala da Sharon Tate. Ou melhor, não só fala da Sharon Tate, como fala que chegou a conhecê-la pessoalmente e a conversar com ela. A Sharon Tate, para os que não conhecem, foi esposa do famoso diretor Roman Polanski e a morte dela repercutiu na história, pois se tratou de um assassinato brutal arquitetado por Charles Manson, um psicopata que ficou famoso na história do mundo por nunca participar de fato dos assassinatos, sendo apenas o mandante. Essa história, inclusive, foi tema do último filme do Quentin Tarantino: o Era Uma Vez em Hollywood, que também virou livro (e, logo, logo, vamos resenhar o Tarantino escritor). Nesse filme, o Tarantino repete a mesma façanha de Bastardos Inglórios, reescrevendo a história e salvando a Sharon Tate. O Sérgio Augusto relata que, na viagem em que ele conheceu e conversou com a Sharon Tate, ela se revelou uma pessoa muito culta. Além de muito bonita, ela também era fissurada em clássicos da literatura e sempre estava com um calhamaço na mão.
Em suma, o Sérgio Augusto, neste livro, se revela um profundo conhecedor não só de cinema, mas da arte de um modo amplo, mostrando com as telas podem ser encaradas sob o mais diversos pontos de vista, não se limitando a uma questão de falar sobre o cenário ou fazer aquela crítica tradicional e linear. O livro tem inúmeros artigos empolgantes, que, se eu fosse explanar aqui, acho que ficaria o dia inteiro escrevendo. Sérgio Augusto é um autor que definitivamente entrou no rol dos meus preferidos e espero poder ler mais coisas dele futuramente.