Esta edição bilingüe do Novo Testamento apresenta a já aclamada tradução em português e o texto bíblico em inglês mais aceito no mundo. Trata-se de uma edição altamente recomendada para quem quer aprender português ou inglês, assim como para quem já tem um conhecimento dos dois idiomas e deseja compararas as duas leituras da Palavras de Deus.
Novo Testamento NVI PORTUGUÊS-INGLÊS - Nova Versão Internacional
NVI
Já há algum tempo sentia vontade de ler os livros do Novo Testamento na íntegra e na sequência.
LIVRO DO APOCALIPSE Anos atrás, tomei a decisão de ler todos os livros do Novo Testamento. Comecei lendo os quatro evangelhos, durante meu período diário de meditação. Ao começar os Atos dos Apóstolos, contudo, fui experimentando uma dissonância que só cresceu quando cheguei às cartas de Paulo. E foi assim que minha leitura devocional se tornou crítica, e fui tomado pela assombrosa descoberta de que boa parte das pessoas que hoje se consideram cristãs estão na verdade seguindo os ensinamentos de São Paulo. Agora, ao terminar essa custosa leitura, voltei a refletir sobre essas estranhas contradições entre os ensinamentos de Jesus Cristo e as sucessivas deturpações que esses ensinamentos foram sofrendo ao longo dos séculos. Chego a pensar que o problema todo começou com Paulo: ao permitir interpretações e extrapolações da mensagem de Cristo, a Igreja foi lentamente se afastando do cristianismo original, a ponto de admitir cristãos queimando hereges durante a Idade Média e, em pleno século XXI, cristãos fazendo arminha e adorando ideários fascistas. Se dependesse de mim, ficaríamos apenas com os quatro evangelhos, ou menos que isso: bastam o sermão da Montanha e os dois mandamentos que Jesus nos deixou (“amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”) para nos manter bem ocupados durante toda a vida, e além. Nessa leitura que fiz anos atrás, ao chegar ao livro do Apocalipse eu estava começando a ler “A Ciência Sagrada” (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/05/a-ciencia-sagrada-swami-sri-yukteswar.html), de Swami Sri Yukteswar, maravilhosa obra que se propõe a demonstrar que existe uma mesma Verdade por trás dos ensinamentos da Bíblia cristã e das escrituras hindus. Como o livro começava citando trechos do livro do Apocalipse, me decidi a só empreender a leitura do último livro da Bíblia depois de percorrer todas as páginas de “A Ciência Sagrada”. Contudo esse acabou se revelando o livro mais complexo que tive a oportunidade de ler, e li a primeira metade nada menos que cinco vezes, a cada vez retornando ao começo por achar que ainda não havia compreendido por completo. Nesse longo processo os meses foram se transformando em anos. Em 2020, afinal terminei a leitura dessa grande obra-prima de sabedoria (que pretendo reler uma vez por ano), e então me lembrei do livro do Apocalipse. Por uma estranha sincronicidade, portanto, li o livro das Revelações justamente em plena pandemia do Covid-19, que muitos têm interpretado como inequívocos sinais do iminente Apocalipse. É muito significativo que a palavra “apocalipse” nos evoque imagens do fim do mundo. Contudo o significado original da palavra grega é simplesmente “revelação”. Trata-se de um texto de imagens muito vívidas e impactantes, que uma interpretação literal poderia realmente transformar em um roteiro hollywoodiano para o Juízo Final. Auxiliado pelas chaves fornecidas pela leitura de “A Ciência Sagrada”, entretanto, pude vislumbrar muitas passagens que podem ser interpretadas à luz da yoga, como o persistente simbolismo dos números sete (os chakras ou centros energéticos do corpo) e vinte e quatro (os atributos da Natureza). Essas chaves, confesso, não me permitiram devassar os significados ocultos do livro do Apocalipse, cujo hermetismo vem desafiando os estudiosos ao longo dos séculos. Contudo essa primeira leitura me deixou com duas fortes impressões: 1) trata-se de um texto simbólico e não literal, como aliás boa parte da Bíblia e 2) fala de nossa vida hoje, e não do fim do mundo. Para exemplificar essas impressões, limito-me a citar a célebre passagem dos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, que ao menos em minha leitura pareceram falar muito mais sobre a vida material, sobre o dia a dia, que sobre figuras míticas cavalgando pelos céus no dia do Juízo. Esses quatro cavalos de que fala o apóstolo João, ao meu ver, relacionam-se com os quatro sofrimentos da vida descritos pelo Buda. Assim como o Reino dos Céus está dentro de cada um de nós, conforme ensina Jesus, creio que também o Apocalipse (Revelação) é um caminho iniciático a ser trilhado no interior de cada ser humano. O Apocalipse é aqui e agora. https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/06/livro-do-apocalipse.html 08.06.20 Agora, com a proximidade do Natal, resolvi enfim iniciar a aventura. Para meu uso estou fazendo anotações de cada livro, que passo a compartilhar aqui. É preciso que eu diga que busco ler a Bíblia não com os olhos do homem religioso, que segue os preceitos e dogmas de sua religião. Leio com os olhos do homem espiritualizado, o mais independente possível de qualquer igreja. Busco na Bíblia o meu Cristo, um Cristo que faça sentido e que seja real para mim. Que fique claro, portanto, que minhas anotações pessoais não passam disso: pontos de vista estritamente individuais. Compartilho minhas impressões de leitura na esperança de que sejam úteis para algum outro buscador. Paz! (25.12.09) O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS A primeira e mais poderosa impressão que ficou foi a do quanto a essência das escrituras sagradas de todas as religiões não apresenta divergências, só coincidências. As diferentes organizações religiosas são traduções da mesma verdade básica essencial, pontos de vista diferentes apenas na perspectiva, não no que está sendo visto. É como na história indiana dos sábios cegos que foram descrever um elefante que estava bem no meio deles. Como os sábios eram cegos, tiveram que apalpar para descobrir o que estava diante deles. E foi assim que um “viu” uma rocha (a barriga do elefante), outro um grosso tronco de árvore (a pata), outro uma palmeira (a orelha), outro uma enorme jibóia (a tromba), outro ainda um cipó (o rabo). Cada um percebeu um objeto diferente, mas era o mesmo objeto para todos. O problema é que ninguém dentre os sábios era capaz de enxergar o objeto como um todo, apenas uma pequena parte dele. A verdade está presente em todas as religiões. O que muda é o “sotaque”, o “jeito de falar”, a maneira de expressar essa verdade. E poucas vezes essa Verdade maior foi expressa com tanta elegância e economia quanto por Jesus: “Amai a Deus sobre todas as coisas e amai ao próximo como a ti mesmo.” Amar ao próximo como a si mesmo significa enxergar além do véu da diversidade e perceber como tudo está conectado com tudo, como todos estamos interligados na grande teia da vida. Amar a Deus acima de tudo é a revelação da mesma verdade, em uma outra faceta: todos somos Um. Os dois mandamentos do Cristo são como duas faces da mesma moeda, e a moeda do Cristo é o Amor. Simples!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Como é que pode a gente ter confundido tanto a mensagem??? Outra consideração importante é distinguir entre “religião” ou “sentimento religioso” (ou ainda “espiritualidade”) e “organização religiosa”. Creio que muitos dos conflitos religiosos ocorrem porque há confusão entre religiosidade e organização religiosa. A religiosidade (prefiro o termo espiritualidade) é o sentimento humano de conexão com o todo, com o universo. É algo essencialmente individual. Uma organização religiosa é um esforço coletivo para justamente “organizar” e conduzir essa conexão de cada um com o todo. Podemos dizer que a religiosidade é de Deus e a organização religiosa é do homem... E como tudo o que é humano, está sujeito a falhas. A principal delas, em minha opinião, é a seguinte: toda organização religiosa nasce para cuidar de Deus, do divino, mas em pouco tempo acaba voltando suas energias e recursos para cuidar principalmente de si própria, do terreno. Esse conflito, para minha imensa surpresa, foi claramente descrito no Evangelho de Mateus. É bem famosa a passagem em que Jesus outorga a Pedro as “chaves do céu” e o elege como responsável por fundar na terra a igreja: “...tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt 16, 18) Bem menos comentada é a passagem imediatamente seguinte. A primeira ação de Pedro como recém-empossado chefe da igreja é tentar dissuadir Jesus de cumprir o seu destino de ser morto e ressuscitar. E é assim que o próprio Cristo renega a igreja que havia acabado de mandar fundar: “Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda! Satanás; tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus e sim das dos homens.” (Mt 16, 23) Que mistério é esse? Que desígnio secreto cumpria o Cristo ao fundar a igreja humana e logo depois tachá-la como “pedra de tropeço”? Não pode ser coincidência que tenha sido justamente Pedro, o fundador da igreja, quem negou Cristo por três vezes, em outra cena famosa. O próprio Jesus dá a pista para uma possível resposta. Mais adiante (não consegui localizar o trecho agora), ele afirma para Pedro: “poderás ser pedra de tropeço para os homens, mas jamais para mim”. Muitas interpretações podem ser feitas dessas passagens. A que agora faço delas é que de alguma forma sempre é cumprida a vontade de Deus. Durante minha adolescência, eu não conseguia entender como a igreja parecia às vezes tão distante do Cristo, e como tantas e tantas vezes ela pareceu até mesmo contrária aos seus ensinamentos. Hoje já aceito que isso tenha ocorrido não por acaso ou por um erro, por um desvirtuamento das ideias originais do Cristo. Tudo segue um propósito oculto, que não deixa de existir só porque meus diminutos olhos não podem enxergá-lo. Que tenham existido as Cruzadas e a Inquisição, todo o período de ignorância da Idade Média, todo o luxo e brigas pelo poder temporal, hoje creio, tudo faz parte de uma história que os homens pensam que escrevem, quando são apenas personagens. Hoje já aceito esse mistério. Mas não desisti de desvendá-lo: “Nada ficará oculto que não seja revelado.” (25.12.09) O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS Terminei hoje o evangelho segundo São Marcos, lendo sem pressa, um capítulo a cada um ou dois dias. E esse foi o primeiro e importante aprendizado: não se deve ter pressa ao estudar um texto sagrado! Senti exatamente a mesma sensação que tenho ao estudar o Baghavad Gita (que leio pela terceira vez, dois a quatro versos por dia): há tanta sabedoria contida naquelas páginas que minha vida inteira de dedicação exclusiva seria pouco para acessá-la! Erra, portanto, quem lê as escrituras na velocidade da vida moderna, pois deixará de perceber o essencial. Não são livros para serem compreendidos pelo intelecto, e sim pelo coração. Muito útil tem sido para mim a distinção hindu entre “mente” (“manasa”, a mente ligada à percepção dos sentidos) e “discernimento” (“buddhi”, o verdadeiro discernimento). Em minhas próprias palavras, chamo essa dicotomia de “inteligência racional” e “consciência”. Essa foi a maior descoberta de minha vida até aqui: a consciência é um processo totalmente diverso da inteligência!!! É possível ser muito inteligente e fazer complexas associações cognitivas e, no entanto, ser completamente “tapado” em termos de consciência! Uma coisa não tem nada a ver com a outra, e a confusão entre as duas tem gerado muito sofrimento e erros. “Inteligência” todo mundo sabe o que é, não é preciso defini-la. E o que seria, então, a “consciência”? “Consciência”, para mim, é um estado mental próximo da mente de Deus. Quanto mais nos aproximamos da mente de Deus, mais enxergamos o mundo como Ele o vê: livre da ilusão da dualidade, essencialmente um, essencialmente bom, essencialmente feliz. Existem vários níveis de consciência (muito bem descritos e documentados nas escrituras, vide por exemplo “savikalpa samadhi” e “nirvikalpa samadhi”). O nível mais alto já manifestado em nosso mundo coincide com a iluminação, e é o estado manifestado por seres como Cristo, Krishna e Buda. Creio que a meta maior da vida (não somente humana) é elevar-se em consciência. Esse é o objetivo e o sentido da vida. Mas como fazer isso? As escrituras são fontes preciosas de ensinamento, na verdade está tudo lá bem detalhadinho. Só que não basta ler o que está escrito, é preciso viver. Nessa leitura do evangelho de Marcos, algumas questões saltaram aos olhos. A primeira envolve o mistério dessa missão de Jesus, tão enigmática. Esse estranhamento foi colocado de forma deliciosa na ópera rock “Jesus Christ Superstar”, em uma cena em que Judas pergunta a Jesus: “Every time I look at you I don't understand Why you let the things you did get so out of hand. You'd have managed better if you'd had it planned. Why'd you choose such a backward time in such a strange land? If you'd come today you could have reached a whole nation. Israel in 4 BC had no mass communication. Don't you get me wrong. I only want to know.” TRADUÇÃO: “Sempre que olho pra você não consigo entender Porque deixou as coisas que fez saírem tanto de controle Você teria gerenciado melhor se tivesse planejado Porque escolheu um tempo tão atrasado em uma terra tão estranha? Se tivesse vindo hoje teria atingido toda a nação. Israel em 4 BC não tinha comunicação em massa Não me entenda mal. Eu só queria saber.” É mesmo um mistério! Quando em vida, Jesus se empenha em pregar apenas para os judeus. Há inclusive uma tocante cena (8, 24-30) em que uma mulher siro-fenícia pede a Jesus para curar sua filha, e Jesus recusa, pois ela não é judia. Só pela insistência é que a mulher consegue a graça que almejava (uma importante dica: com Deus, é preciso insistir muito, insistir sempre!). Pois bem, Jesus só pregava para os judeus. E justamente os judeus até hoje não aceitam Jesus! É tudo muito misterioso. Mas uma pista importante pode ser encontrada no final do evangelho de Marcos. Após a ressurreição, o Cristo aparece para seus apóstolos e encerra a proibição de pregar para os não judeus: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.” (16, 15) Em meu entendimento atual, isso só pode ser um plano meticulosamente traçado. Era necessário que a história ocorresse exatamente assim, que Jesus fosse temido e invejado pelos rabinos, que eles tramassem a sua morte. Tudo foi como tinha de ser. Isso muito me conforta quando penso nas atuais mazelas e conflitos que envolvem os seguidores de Cristo. A luz há de surgir mesmo em meio às trevas mais espessas... Há muito mais que eu gostaria de falar sobre essa leitura, mas aí já estaria escrevendo o meu próprio testamento rarara! Só um ponto ainda, algo que me fez exultar de alegria. É um trecho bem no final do evangelho de Marcos (16, 9-11): “Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete demônios. E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam. Estes, ouvindo que ele vivia e que fora visto por ela, não acreditaram.” Meu primeiro interesse nos evangelhos, na verdade, nasceu com a descoberta do evangelho de Maria Madalena. A leitura desse documento apócrifo gerou uma revolução em mim, mudou totalmente a minha maneira de enxergar a Bíblia, a tradição cristã e, principalmente, a mensagem do Cristo. Há muitas referências em outros evangelhos apócrifos (principalmente o de Felipe) que atestam que Madalena foi a discípula mais próxima de Cristo, a que melhor compreendeu os seus ensinamentos. A Madalena “prostituta arrependida” foi uma invenção da igreja católica no século VI. É uma mentira, pura e simplesmente. Na própria Bíblia “oficial” os evangelhos demonstram a importância de Madalena. Quando Jesus foi preso e cruficicado, os discípulos homens fugiram com o rabo entre as pernas. Só as mulheres ficaram: Maria (mãe de Jesus), Madalena e uma terceira, que aqui é citada como Salomé. E quando o Cristo ressuscita, para quem aparece primeiro? Para Madalena!!! Essa história toda já é bem batida para mim. O que me fez pular de alegria foi o versículo: “apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete demônios.” O que significa isso: expulsar sete demônios??? Ora, será mera coincidência que o nosso corpo possua sete centros energéticos (chakras) que precisam ser desobstruídos na caminhada para a iluminação??? Ter sete demônios expelidos significa ter os sete chakras desobstruídos, e então alcançar o patamar mais elevado de consciência!!! Viva Maria Madalena!!!! Viva viva viva!!! (20.01.10) O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS O início dessa leitura coincidiu com um episódio que me fez pensar. Assisti nos mesmos dias ao documentário “Zeitgeist”, ou pelo menos a parte dele. Discordei tão profundamente da visão do autor que não quis prosseguir. Ao menos os primeiros quarenta minutos do filme são dedicados simplesmente a “provar” que Jesus não existiu! A base para o autor fazer essa afirmação é uma interpretação totalmente simbólica dos evangelhos, que por essa perspectiva fazem referência apenas a fenômenos astronômicos. Por exemplo: no dia 25 de dezembro o sol está no ponto mais baixo do horizonte e as Três Marias (os três reis magos) alinhadas com outra estrela (Belém) apontam exatamente para o ponto onde o sol está. Então o nascimento de Jesus seria uma metáfora para um acontecimento celeste. Outro exemplo: a precessão dos equinócios também é bastante citada (está na moda agora por conta da profecia maia sobre 2012, mas já é um fenômeno velho conhecido de astrólogos e astrônomos). O nascimento de Jesus coincide com o início da Era de Peixes (é mesmo interessante que o símbolo dos primeiros cristãos fosse dois peixes (o mesmo símbolo do signo astrológico). Antes de Jesus tivemos a Era de Áries (o carneiro), representada por Moisés, que destronou o bezerro de ouro, símbolo da Era de Touro que veio antes. E agora vivemos os últimos anos da Era de Peixes, quase já entrando na tão falada Era de Aquário... tudo isso, na cabeça do autor do documentário, é só para mostrar que o cristianismo está chegando ao fim. Outra “prova” da não-existência histórica de Jesus é a série de coincidências entre a sua história e a de outras “divindades solares”: Horus, Mithra, o próprio Moisés, Krishna. Como defende o filme “Zeitgeist”, a vida de Cristo não passa de um plágio de Moisés! Achei profundamente educativa a experiência de assistir a esses quarenta minutos iniciais desse filme! E certamente não foi por acaso a coincidência com essa minha leitura dos evangelhos. Pois de cara percebi o seguinte: é possível provar QUALQUER COISA usando símbolos e analogias!!! Parei de assistir pois fiquei com raiva, me sentindo plenamente capaz de contestar tudo o que o diretor disse e usando exatamente os mesmos argumentos que ele!!! Isso me fez ficar mais atento em minha própria leitura dos evangelhos, mais humilde, mais receptivo. Pois cada vez mais se torna evidente que os textos a respeito da vida de Cristo são mesmo repletos de simbolismos e significações ocultas... O evangelho de Lucas é talvez o mais distanciado dos quatro e, curiosamente, um dos mais completos. Há muitos trechos que só encontramos aqui, como a história do nascimento de João Batista e outros episódios. Lucas foi provavelmente um grego, discípulo de São Paulo e também o provável autor dos Atos dos Apóstolos. Ele escreveu seu evangelho para o mundo helênico, ou seja, sua mensagem é mais abrangente e não está direcionada só para os judeus. Essa leitura foi marcada por mais perguntas que respostas. A maior delas diz respeito ao caráter propositalmente enigmático de muitas mensagens de Jesus. São as famosas parábolas. Ora, Jesus vai pregar para o povo. Mas fala em parábolas. Depois os apóstolos querem entender o que ele disse, e Jesus afirma: “A vós outros é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; aos mais fala-se por parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam.” (8, 10) Isso é misterioso demais! Qual é o sentido de ir para a praça pregar para o povo, e dizer somente mensagens cifradas e incompreensíveis sem o “código” que as desvende? Essa afirmação de Jesus é repetida em outros lugares, e me fez pensar muito. Uma explicação possível é o caráter “iniciático” das revelações. Em muitas tradições místicas há o critério do segredo, do sigilo, da transmissão das “verdades” somente através de ritos específicos, em momentos específicos. Há um bom motivo para que assim seja: em sua caminhada espiritual, o pupilo vai recebendo os ensinamentos à medida que é capaz de absorvê-los adequadamente. Se recebesse todas as informações de uma só vez, elas seriam perdidas pela falta de capacidade de lidar com elas. Talvez essa passagem do evangelho sinalize para isso, para uma transmissão de conhecimentos de forma iniciática de Jesus para os discípulos. Mas há outras interpretações possíveis... Uma delas é bem curiosa. Existe a hipótese de que somente as parábolas foram proferidas por Cristo. As interpretações e explicações, de acordo com essa hipótese, ficaram por conta dos discípulos e de quem veio depois. Aparentemente corrobora essa hipótese a existência do evangelho apócrifo de Tomé, onde constam apenas as parábolas, sem qualquer explicação para elas. Com base na leitura desse evangelho de Tomé, é possível interpretar as parábolas de forma totalmente diversa. Um brilhante teólogo brasileiro (infelizmente não recordo o nome) chegou a ver uma mensagem de reforma agrária na famosa parábola do semeador!!! Muitas perguntas, muitos mistérios... ...e ao menos uma luminosa certeza! Está lá escrito com todas as letras: “Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro em vós.” “O reino de Deus está dentro de você.” Quem tiver ouvidos, que ouça! (23.02.10) O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO Guardaram o melhor vinho para o final!!! O texto do evangelista João é lírico, rico em simbolismo, pleno de amor!!! Não é à toa que João foi “o discípulo que Jesus amou”. Novamente a leitura foi marcada por singulares sincronicidades. É mesmo curioso o império da consciência! Uma mulher que acabou de descobrir que está grávida enxerga gestantes para onde quer que olhe. Um homem brigão descobre oponentes em todos que encontra. Eu estou buscando Jesus, e Jesus está se mostrando para mim. E como! No espaço de uma semana: liguei a tevê e estava passando um documentário que garantia que Jesus não morreu na cruz, foi para a Índia e acabou sendo sepultado na Caxemira. Abri o e-mail e recebo o link para um outro documentário que garante que os túmulos de Jesus, de sua esposa e filho foram encontrados em Jerusalém. Abri um livro e encontro uma bombástica descrição de uma missa, que mudou definitivamente minha forma de ver o maior ritual católico. “Quem procura, acha.” Sem dúvida! Nesse documentário da tevê, uma reflexão me marcou muito. Para os judeus, Jesus não foi o Messias, e por isso morreu na cruz. Para os muçulmanos, Jesus foi um profeta e por isso não pode ter morrido na cruz, pois isso implicaria no fracasso de sua missão. Para os cristãos, Jesus foi o Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou três dias depois. Para os rosacruzes, Jesus foi resgatado na cruz por Nicodemos e depois fugiu para a Índia. E por aí vai... O resultado disso é que a figura de Jesus é hoje o cerne da discórdia entre as religiões! Se os homens atentassem mais para a mensagem de Jesus e menos para suas próprias elocubrações a respeito dele, Jesus poderia se tornar o grande unificador, o ponto de encontro entre as religiões. E a mensagem de Jesus está clara como nunca no evangelho de João: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.” (13, 34-35) O próprio Jesus disse: podemos saber quem realmente é seu discípulo ou não, não pelas vestes sacerdotais que usa, ou pelo estilo de seu penteado, nem mesmo pela fé que professa! Segue Jesus quem ama! Quem ama é o verdadeiro seguidor de Cristo. O meu coração ainda acredita que isso vai acontecer um dia. Afinal, “nada ficará oculto que não seja revelado”. A conclusão a que cheguei é que os evangelhos, por sua própria natureza, são textos simbólicos, analógicos, metafóricos. Não é à toa que Jesus gostasse de falar através de parábolas. Isso equivale a dizer que as pessoas podem encontrar o que quiserem nos evangelhos. O que você quiser enxergar lá, você vai achar. Afinal, “quem procura, acha”. Cada um enxerga o que quer. Não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos. Por isso, vou falar sobre o que eu quis enxergar no evangelho de João. Na cena da última ceia, viajei muito. Pois lá está escrito: “Ditas estas coisas, angustiou-se Jesus em espírito e afirmou: Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá.” (13,21) Alvoroço entre os apóstolos. Finalmente Pedro pergunta: Senhor, quem é? “Respondeu Jesus: É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado. Tomou, pois, um pedaço de pão e, tendo-o molhado, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes.” (13,26) Ora, ora, ora. No ritual católico da comunhão, quem é que fica com o pão molhado???? É o padre!!! E não para por aí. Logo em seguida há a clássica cena da traição de Pedro. Talvez a tradução tenha sido especialmente infeliz, mas vejam o que está escrito em João: “Replicou Pedro: Senhor, por que não posso seguir-te agora? Por ti darei a própria vida. Respondeu Jesus: Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade vos digo que jamais cantará o galo antes que me negues três vezes.” (13, 37-38) Jamais cantará o galo sem que Pedro traia o Cristo três vezes. Ora, se o galo canta todo dia, então a “pedra” trai diariamente! Não será difícil enxergar essas traições diárias na Igreja de hoje... Eu poderia achar que foi pura implicância de minha parte. Mas no final do evangelho olha o que encontramos. O Cristo já havia ressuscitado e dava suas últimas orientações. Então chega para Pedro e pergunta uma vez: Pedro, tu me amas? Então cuida de meu rebanho. Não satisfeito com a resposta de Pedro, Jesus faz novamente a mesma pergunta e o mesmo pedido. E assim como Pedro trai três vezes, o Cristo pergunta e pede pela terceira e derradeira vez: “Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo que, quando eras moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres.” (21, 17-18) Entendi desse trecho um tocante apelo não ao Pedro original, mas a cada homem que depois de Pedro assumiu a responsabilidade de ser um sacerdote, um pastor de almas. Padre, não traia o Cristo! Pastor, cuida dos seguidores de Jesus! Eu sei que vou amar Pedro profundamente! Pois estou buscando enxergá-lo realmente. Chegará o momento de perceber suas maravilhosas qualidades. No momento, o que está gritando é a “sombra” de Pedro, o seu lado sinistro. Pois aí chegamos à terceira coincidência que citei acima, a leitura de “Ressurreição” de Tolstoi. Há uma cena inesquecível, onde é realizada uma missa dentro de um presídio. É claro que o gênio russo carregou nas tintas para dar o seu recado: a missa é uma traição à mensagem do Cristo!!! Pois tudo na missa brada que Deus está fora do homem, o reles e desprezível pecador. Mas foi o Cristo quem falou: “o reino de Deus está dentro de vós”. Mas nem tudo foi indignação contra as más obras das instituições religiosas, que tanto fizeram para nublar, confundir, rechear com vis mentiras a mensagem do Cristo. Inspiradora foi a promessa de Jesus: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.” (14, 26) “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir.” (16, 13-14) E quem é esse Espírito Santo, que não fala por si, mas tudo diz??? Numa abordagem védica, está claro que o Espírito Santo é paramatma, a centelha divina que habita todos os seres vivos. Esse é o reino de Deus dentro de cada um, a porta que leva à divindade. Assim como o Pai é Brahman, o Absoluto, que “ninguém nunca viu”, que não pode ser mensurado. É como o céu, que sabemos que está lá, mas ninguém pode tocar, ninguém pode dizer onde começa ou termina. Assim como o Filho é Baghavan, a manifestação de Deus como personalidade humana. É por isso que ninguém vai ao Pai senão pelo Filho. Não que seja obrigatório ser cristão para entrar no céu (visão absurda que levou Dante a colocar Sócrates e Homero no inferno só porque nasceram antes de Cristo!). É porque o Absoluto é inalcançável. Precisamos do Filho para mostrar o caminho que está dentro de nós (o Espírito Santo). Curiosamente, quando eu comecei a estudar o Gita, recorri à trindade cristã para entender a concepção védica de Brahman, Baghavan e Paramatma. Agora recorri aos Vedas para entender a trindade do Evangelho! “E não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que era a natureza humana.” (2, 25) “Estas coisas tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (16, 33) (12.03.10)
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