Alga viva -

    Júlia Vita

    Córrego
    2019
    120 páginas
    4h 0m
    ISBN-13: 9788570390219
    Português Brasileiro

    Da orelha de Marcus Fabiano Gonçalves, professor da UFF e poeta: Quem diz vegetal quase sempre fala terra, embora não no caso da alga, e menos ainda daquela que se saiba viva. Submersa e movente, sua respiração alude à ancestralidade e ao meio aquoso de nosso aconchego amniótico. De classificação incerta, a alga sequer tem seiva, mas sua figura elege certo desvio que ressitua a percepção geral da planta em paragens até mais originárias que o próprio chão, pois se a vida vem da água, dela também procede aquela substância mais fluida do poema: o caldo primordial da experiência linguística. Qualquer poeta, mesmo os mais eminentes, acumula poemas medianos e até ruins, e quase sempre, ao estrear, os têm em abundância ainda maior. Isso é da própria natureza de quem tateia sua assinatura autoral em meio à garrulice que, ainda mais hoje, a tantos seduz com as facilidades de um falso democratismo a proporcionar o sonho do livro próprio, para fastio e indiferença dos leitores. A despeito disso, e apesar de pertencer ao mesmo recorte geracional de uma epidemia de poetas anódinos e miméticos, o que surpreende em Júlia Vita é que seus melhores conseguimentos dessa coletânea inaugural são justamente os poemas mais difíceis, aqueles que reclamam paciente pausa analítica para se acompanhar tessituras maranhosas onde uma sintaxe fraturada entranha-se pelo cipoal de objetos, imagens e juízos, amalgamando a cristalina enunciação do verbo à turbidez elusiva de um farto armazém de afetos, onde não faltam, além do apurado lirismo, irônicas revisões do feminismo de pacotilha e das imposturas patrocinadas pelas máquinas de propaganda partidária e suas clientelas. Alga viva é com certeza um livro que carrega as marcas de sua precocidade. Entretanto, há domínios da experiência humana onde quem não chega cedo já está irremediavelmente atrasado. A primeira sensação de ser colhido pelo visgo desse enredo todo aciona memórias de um sobressalto causado pelo sargaço que de repente nos colhe dentro d’água. Egressa e autoexcluída dos circuitos neoparnasianos e pseudovanguardistas da poesia carioca contemporânea, a dicção de Júlia Vita esmera-se em alimentar boas expectativas, justamente aquelas que restituem à autoria da arte poética a condição essencial de uma singularidade distinguível. E granjear voz própria em meio ao coro gregário desses (des)contentes apassivados pela cantilena lamuriosa dos que se pretendem mártires, definitivamente não é algo que deva passar desapercebido, sobretudo nessa complexa conjuntura geracional. À diferença das velhas novidades serializadas pela fabricação da consagração, seguindo García Lorca, de Júlia Vita pode-se com certeza dizer: ¡tiene duende!

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