Uma obra antiga que merece ser lida.
Dickens retrata a natureza humana com uma precisão cirúrgica, e é no mínimo melancólico constatar o quão pouco a humanidade evoluiu estruturalmente desde 1859. Plus ça change, plus c'est la même chose. A narrativa captura com maestria a dualidade de um período que, embora tenha sido um marco de extrema relevância para os direitos humanos, foi construído sobre uma carnificina. A romantização da Revolução Francesa é brutalmente desconstruída. A promessa de "Liberdade, Igualdade, Fraternidade (ou Morte)" falhava miseravelmente no teste da universalidade. Fica evidente a hipocrisia de grande parte dos revolucionários, que na prática operavam como feras sedentas de sangue — um aspecto que a perturbadora cena do afiar das lâminas na pedra de amolar retrata de forma irretocável. A destituição sumária dos direitos dos "emigrantes" prova que o novo regime apenas transferiu o monopólio da tirania. Nos mesmos moldes das dinâmicas políticas modernas, o tribunal revolucionário deixou claro que, na prática, "alguns são mais iguais do que os outros". Os Defarge personificam perfeitamente essa corrupção moral. O ódio absoluto que o casal inspira culmina na morte de Madame Defarge, que entrega uma catarse necessária após tanta destruição injustificada. Literariamente, o livro foca na correspondência de personagens a traços de personalidade e ideologias, sacrificando um pouco a complexidade psicológica. Contudo, essa engenharia narrativa entrega contrastes poderosos. O sacrifício final de Sydney Carton é genuinamente belo; a redenção de um homem cínico através de um ato voluntário de amor é o antídoto perfeito à matança coletiva e sem sentido do Terror. O que impede a obra de atingir a excelência absoluta é o papel excessivamente passivo de Lucie Manette. Ela não possui agência real, funcionando apenas como um plot device vitoriano e uma âncora moral inerte que passa a maior parte do caos desmaiando ou aguardando o resgate, em total contraste com as forças brutais que movem a trama.
