Passeando entre as estantes da biblioteca, e flertando os livros ali dispostos nas prateleiras, encontrei o livro "Encantar o mundo pela palavra", cujo título me chamou a atenção no instante em que os meus olhos o encontraram Este fez com que me perguntasse, como isso seria possível, encantar através das palavras? Mas ao terminar de lê-lo eu entendi, pois me dei conta de que já não era mais a mesma pessoa, me tornei outra, totalmente encantada pela palavra.
Através de uma conversa poética entre Rubem Alves e Carlos R. Brandão, foi possível ter um olhar antes não percebido sobre esse universo das letras. Todo o diálogo entre os autores, que a todo tempo é carregado de muita sensibilidade e sentimento, traz o seus olhares diante do mundo, histórias sobre suas experiências de vida, pensamentos, ideias, poesia... muita poesia, e sempre os relacionando ao mundo das palavras.
Poemas dos próprios autores, e de outros grandes nomes, como Guimarães Rosa, Adélia Prado, Fernando Pessoa, são compartilhados com o leitor no decorrer da conversa, o que enriquece as histórias e permite que o encantado tenha mais proximidade com poesias. Alves e Brandão, levam o leitor a se sentir em casa. Enquanto lia, me senti como se fosse uma criança, sentada no tapete da sala, ouvindo maravilhada as histórias narradas por alguém que viveu muita coisa. Em alguns momentos eu pausava a leitura só para degustar e refletir sobre o que havia acabado de ler. E me senti admirada com pensar deles diante das palavras. Foi como se novas janelas tivessem sido abertas na minha mente, dando vista para um lindo jardim, antes não visto e pronto para ser explorado.
É comum pensar que as palavras existem simplesmente para comunicar algo. Não que esteja errado. Mas, a questão é que as palavras vão além da comunicação, o seu sentido é mais profundo, e esta presente em tudo nas nossas vidas.
"Ela [palavra] é sempre uma coisa que constrange e classifica. Ela diz quem é bom, quem é ruim, quem vai ser salvo, quem não vai. Mas também é algo que toca o coração das pessoas e emociona." Brandão.
Essa citação me fez pensar numa frase muito conhecida: "A palavra tem poder". Poder... busquei no dicionário essa palavrinha de apenas cinco letras, e me deparei com um significado enorme.
Se olharmos para a história do mundo, veremos muitas coisas que foram construídas, mas também destruídas através delas. Veremos pessoas que marcaram o tempo, através de suas palavras, alguns de forma positiva, como Jesus, Shakespeare, Martin Luther King, Gandhi. Mas outros também de forma negativa, como Hitler, Stalin, Bin Laden, entre tantos outros. Seus feitos e influência diferem um do outro, mas a ferramenta utilizada por todos, foi exatamente a mesma.
Vendo esses exemplos, parece que a palavra é algo distante das nossas vidas, simples mortais. Como se essa poção mágica pertencesse somente a pessoas influentes e importantes. Mas as palavras são poderosas justamente porque existe para qualquer pessoa, e por ser escolha de cada um dar ou não sentido a elas. Ou seja, captamos o externo, através de uma experiência vivenciada, uma música ouvida, ao contemplar uma obra de arte, um abraço, entre tantas outras coisas. Interiorizo com o meu eu, guardo, ou devolvo ao mundo.
Quando os autores falam da palavra, não restringem apenas ao que se esta escrito, ou ao que se é falado, pois elas estão intrínsecas em tudo. Como um gesto, um olhar, uma paisagem. Uma pessoa pode não ser alfabetizada, mas ela pode se encantar com as palavras de um poema, com o som de uma sonata. E transformar esse sentimento, em outras palavras que expressem o sentido que lhe foi dado.
Antes dessa leitura, eu havia imaginado que poesias não haviam sido feitas pra mim, porque muitas vezes não conseguia interpretar o que o autor queria dizer com aquelas palavras, e isso me frustrava. Por isso, me mantive afastada delas por algum tempo, até Rubem Alves me fazer entender o que não consegui sozinha...
"O poema é a voz do inconsciente. O inconsciente entende. Pode ser que a cabeça não entenda, mas o inconsciente entende, porque é a lógica dos sonhos" R. Alves.
Tenho certeza que não compartilhei nem o começo do que você, caro leitor pode encontrar nesse livro. Garanto que será uma leitura rica e muito prazerosa. Um prato cheio para refletir grandes coisas, através das pequenas. E para finalizar essas linhas, nada melhor do que um belíssimo poema de Carlos R. Brandão, para abrir as portas do inconsciente de cada um de nós.
Eu conto porque creio nas palavras. Creio na sua pesada amorosa substancia. Creio que como os gestos e é ela outra coisa mais ou menos do que um gesto? a minha fala cria laços. Eu, que me dou quando confesso minha vida, uma fração silenciada antes dela, enlaço o outro. Trago-o para mim. Não apenas eu nunca serei o mesmo, porque narrei a ele, mas ele também nunca será o mesmo [...]. Agora somos.