O livro-ensaio Dialética do Marxismo Cultural, escrito pela doutora em Filosofia Iná Camargo Costa, tem um objetivo muito claro: traçar as raízes dessa teoria da conspiração cooptada pela ala radical, cristã e conservadora da política brasileira. Do submundo do Curso Online de Filosofia (COF), ministrado pelo autodidata Olavo de Carvalho, ao plano eleitoral do atual presidente da República Jair Bolsonaro, o conceito ganhou a Opinião Pública e passou a ser repetido ad nauseam em debates desprovidos de rigor científico, mas também de sanidade, rs. Ressalto que o presente texto não tem a intenção de se aprofundar sobre o sentido dado pela tal ala desprovida de racionalidade ao conceito; basta dizermos que, munidos de interpretações propositadamente errôneas de autores marxistas, como Gramsci ou os autores da Escola de Frankfurt, “associa[m] significados (...) bizarros para gerar pânico e mobilizar pessoas através disso (FERNANDES, 2018, s.p).
Para uma boa discussão sobre o Marxismo Cultural e os seus efeitos na esfera pública brasileira, veja o vídeo do canal Tese Onze, da doutora em Sociologia Sabrina Fernandes. < https://www.youtube.com/watch?v=crv-p9Rjhbo >.
Assim, trataremos das origens históricas do termo, conforme apresentado por Costa (2020). Em Dialética do Marxismo Cultural, que é dividido em três partes, a autora credita o surgimento do conceito ao movimento nazista, através do 'Mein Kampf', escrito por Hitler, em 1925. Segundo a pesquisadora, além da desmobilização da classe trabalhadora, vulnerável às crises capitalistas e à pauperização decorrente desta, o nazifascismo teria sido apoiado pela chamada “pequena burguesia” (numa tradução sem rigor, a classe média alemã): “derrotados, ressentidos, fracassados, endividados e/ou falidos, desenraizados, inseguros, forjadores de identidades, mistificadores, truculentos etc” (COSTA, 2020, p. 14-15). Tal contexto histórico social, associado ao discurso racista (contra o judeu) e anticomunista, possibilitou a união de um povo em torno de um projeto de superioridade racial, de conquista e dominação, encabeçado por Hitler.
“A combinação de ressentimento, racismo e anticomunismo produz o caldeirão onde germinará o entusiasmo dos fanáticos por Hitler, na sua fase de ascensão, mas sobretudo os arregimentados a partir do ano de 1933, quando o líder do movimento assumiu o poder totalitário (claro que com o “docemente constrangido” apoio do grande capital em crise).” (COSTA, 2020, p. 20).
Segundo Costa (2020), na “autobiografia” de Hitler estaria contido os principais ingredientes do então chamado Bolchevismo Cultural. O livro em si é contraditório e seria “uma declaração de guerra ao marxismo e a sua expressão máxima que seria o bolchevismo” (p. 16).
Trecho do Mein Kampf, citado em 'Dialética do Marxismo Cultural':
A “imprensa judaico-marxista” deve ser eliminada. A “arte bolchevique” também proibida em todas as suas formas (HITLER, 1974, p. 194), pois destroem, sistematicamente, a cultura, preparando para o bolchevismo político. Aqueles que as pregam – “apóstolos” – são uma fraude, enganadores (HITLER, 1974, p. 194 e 196).
Segundo Costa (2020), uma vez no poder, o movimento nazista empreendeu uma cruzada contra toda a manifestação artística a qual intitulou de “bolchevismo cultural” ou “arte degenerada”. Foram afetados pela perseguição artistas e obras da República de Weimar, nacionais e estrangeiros, com “destaques para as de origem soviética” (p. 24), sem, contudo, mal versarem obras francesas, inglesas e estadunidenses.
Artistas foram presos ou correram para o exílio. Muitos outros foram para campos de concentração, assassinados posteriormente. Havia uma lista negra com nomes a serem eliminados. 25 mil obras do Instituto de Pesquisa Sexual foram roubadas e serviu como ‘alimento’ para a primeira fogueira, organizada pelos nazistas, para se desfazerem dos trabalhos nos chamados “bibliocausto” (p. 24). Teria dito Goebbels (apud COSTA, 2020, p. 25), ministro da Propaganda, “vocês, jovens, já têm a coragem de encarar o brilho cruel, de superar o medo da morte e reconquistar o respeito pela morte – é esta a tarefa desta nova geração. Fazemos muito bem de lançar às chamas o demônio do passado.”
A SEGUNDA PARTE DO LIVRO descreve o papel dos EUA na construção do mito “marxismo cultural”, diante da paranoia norte-americana quanto a uma insurreição comunista dentro de suas fronteiras. Segundo Iná Camargo Costa (2020), o chamado RED SCARE, “guerras” declaradas e campanha midiática para promover o medo e o ódio aos comunistas, teve três grandes momentos:
O primeiro RED SCARE, financiado pelo Estado e por Henry Ford, teve início com o estopim da Revolução Russa até o ano de 1927.
O segundo abrangeu da metade da década de 1930 até a década de 1960.
E a terceira fase do RED SCARE teve início com a ascensão do neoliberalismo e persiste, tendo em Steve Bannon e Jordan Peterson seus maiores expoentes norte-americanos.
Em seu trabalho, Costa (2020) faz rápida menção ao governo Bolsonaro, o qual teria contratado a assessoria de Bannon. Quanto a Olavo de Carvalho, há uma breve menção. “Em outras palavras: não passa de extensão à neocolônia (por opção) da pauta metropolitana, graças ainda aos bons serviços da alfândega ideológica instalada no Estado da Virginia, responsável pela péssima tradução dos dogmas americanos. Isto também explica a profundidade de pires das suas manifestações por estas plagas.” (p. 41 e 42).
A TERCEIRA PARTE do livro-ensaio de Iná Camargo Costa se propõe como “arma de ataque” à Teoria da Conspiração. Ciente da profundidade com que ela se manifesta na Opinião Pública, Costa (2020) acredita ser necessário assumir o rótulo, entendendo que um verdadeiro marxista cultural tem como prioridade a “esfera da cultura pautada pela luta de classes em todos o seus desdobramentos, e seu olhar deve estar direcionado preferencialmente para os artistas e obras que, ao longo da história do capitalismo, tematizaram as lutas pela emancipação dos trabalhos em todas as sua modalidades, sem prejuízo do interesse por aquelas obras que (...) desmascaram os comportamentos da classe dominante” (COSTA, 2020, p. 50-51).
Assim, para Costa (2020), dois momentos teriam vital importância, no Brasil: 1) as obras que falam sobre a temática da escravidão; 2) e a “luta contra a escravidão salarial” (COSTA, 2020, p. 51)
No link abaixo, o texto está mais detalhado, como numa espécie de dossiê, onde irei, ao longo do tempo, acrescentar conteúdo que versa sobre esse tema.