Ecologia
Joana Bértholo (Portugal, 1982-)
Caminho, 2018, 504 p. ð
O mundo como o conhecemos é resultado do triunfo do mercado e do fracasso da própria humanidade. Frente ao avanço de pautas neoliberais, aos resíduos de ditaduras e flertes autoritários, à ilusão da liberdade de consumo e à monetização de gestos, cliques e curtidas, era só uma questão de tempo até que alguém se pusesse a especular "E se a linguagem também fosse transformada em commodity? Por competência do universo e para alegria deste Toni, esse alguém calhou de ser a Joana Bértholo, escritora portuguesa capaz de fazer as palavras soarem como novas, cheias e vazias de tudo. ð
Muito além de imaginar que tipo de mundo surgiria a partir do momento em que começássemos a pagar pelas palavras, Bértholo explora como nossa sociedade adoecida seria capaz de fomentar uma realidade tão atroz. Afinal, este mundo monotemático, monocorporativo, monoideológico, monomercantil, de monovalores onde uma única palavra pode custar mais que o salário de uma família inteira e esbanjá-la é o gesto distintivo das elites obscenas, este mundo, dizia, não parece nada distante do que até hoje temos sido reiteradamente programados a aceitar sem luta; na ficção de Bértholo quem é pobre, não fala, de maneira que resistir passa a ser, literalmente, um gesto de imaginação. ð
Através de múltiplos arcos de personagens (e as melhores crianças já escritas), Ecologia é um romance vasto e bem articulado que leva o tempo necessário para que a nova-velha ordem mundial atinja seu ocaso. Entre os escombros, se prestarmos atenção, escondem-se linguagens que prescindem de palavras, mas que são, elas mesmas, fonte e esperança de um novo marco civilizatório. (Alguém aí falou em 'Ecossocialismo'?) ð
Não é todo dia que um livro abraça o juízo e chove dentro da gente, favorito da primeira à última página. Ecologia faz justiça a seu título: é uma terra que fala, é o estudo dos ecos; é a voz da autora, a minha voz e a de todes vocês orquestradas contra o esvaziamento, a dessensibilização, o consumismo e a carência de Diálogo. Acho que recomendo, hein?