The Bell Jar veio pela primeira vez a público em Inglaterra, no dia 14 de janeiro de 1963, editado pela Heinemann, com autoria atribuída a Victoria Lucas. O motivo que terá levado Sylvia Plath a recorrer a um pseudónimo, prende-se com a óbvia coincidência existente entre personagens, eventos e lugares ali descritos, e a realidade biográfica da autora. Essa confusão entre realidade e ficção tem servido, ao longo dos anos, a uma vasta panóplia de equívocos que mais não fizeram do que dissimular o lugar da sua obra poética e narrativa na literatura anglo-americana contemporânea.
A Campânula de Vidro -
Sylvia Plath
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Este romance apresenta-se em duas partes. A primeira descreve a vida da jovem Esther que, com 19 anos, obteve, pelo excelente desempenho académico e para aperfeiçoar, ainda mais, o seu talento literário, uma bolsa universitária e um estágio numa revista em Nova York. Nesta primeira parte, a jovem espera uma revelação, algo que lhe mostre que o mundo é algo mais em termos espirituais, relacionais, afectivos - enfim, algo mais -, mas a revelação não surge. E, usufruindo dessa bolsa, vivendo nesse suposto mundo mais rico, Sílvia é obrigada a constatar o óbvio, que o mundo que a rodeia é pouco, de um lado formalismos idiotas, rançosos e até racistas, e do outro bebedeiras e indivíduos sem valor. A protagonista faz um esforço para se integrar, mas a conclusão a que parece chegar, dê as voltas que dê, é que aquilo que o mundo é em termos espirituais, ou intelectuais, é muito menos do que precisa para sobreviver. Na segunda parte do romance vemos, através de vários flash backs, a jovem perdida, incapaz de superar a sua angústia, vendo o mundo, a vida, os outros, a si própria através desse estado de desesperança, sem vontade. Acaba internada em um hospital psiquiátrico. As primeiras qualidades que me apraz lembrar quanto ao estilo deste romance são, sem dúvida, a capacidade de Silvía Plath de escrever apelando a todos os sentidos: visão, audição, cheiros, tacto; a extrema fluidez da sua escrita; a capacidade de transportar o leitor para o que se passa dentro da sua cabeça, torpor, alheamento sufocante, visão sobre os outros, compondo retratos muito sugestivos, vivos. Quanto à característica mais presente para mim -, não é propriamente a doença, mas a inadequação da protagonista ao mundo. Não é que ela negue desde o início o que vê, ou se isole, não, a protagonista quer mesmo adaptar-se, contentar-se com o mundo, até acompanha as outras jovens, participa e acha o mundo está certo, mas precisaria de mais alguma coisa, espera do mundo outras dimensões que não passem por compras, bebedeiras e flirts. Não existe autenticidade, nenhum desejo de algo mais do que a vida mais prosaica, nada. Aquilo que vê à sua frente os outros serem é o que há. Não existe mais nada. E essa constatação íntima abre uma ferida dentro dela por onde a loucura se espalha. O que está em causa não é alguém que não aceita os padrões colectivos. O que está em causa é que a protagonista espera mais dos homens, das mulheres, da vida, do colectivo, do mundo. Por isso ela é feminista sem defender o feminismo, simplesmente pela forma como pensa e vive pensando por si, analisando e criticando o mundo de forma independente. O que desde sempre a perturba é a vida insípida, é não ter tempo para si, para pensar, para ser, para escrever. O que a perturba é vir a viver um casamento hipócrita, falso, é ficar encafuada a uma pobreza intelectual obscena. A protagonista simplesmente não se adequa porque quer mais, quer diferente, quer algo autêntico e o mundo não tem isso para lhe dar. Essa impossibilidade de crescimento abre uma ferida enorme dentro da personagem uma sensação de nada valer a pena, de beco sem saída e até de apatia, que se abeira da loucura de um modo extremamente racional, porque não é por não ver como as coisas são que enlouquece, mas por ver bem demais como elas são. As experiências que tem em termos de relações humanas são deprimentemente pobres, e ela sente isso no corpo, analisa-o e conclui que não quer viver naquela mediocridade. A questão é essa, e talvez seja por isso que o romance acaba com a personagem a não pôr de lado voltar a enlouquecer. É que aquilo que a deprime de forma tão fortíssima é real e ela sabe que a vida pode voltar a empobrecer e ela voltar a deprimir. Daí não poder dizer com certeza que não voltará a sentir-se desse modo a que para facilitar se chama loucura. Aliás, sabendo que Sylvia se matou, como se matou, e como foi capaz ao mesmo tempo de proteger os filhos, não se pode deixar de pensar que Sylvia, tal como a personagem, foi ferozmente lúcida na sua loucura. Uma das certezas com que fico deste livro é que não é por a protagonista ser diferente no sentido de estar contra os valores do seu mundo - que enlouquece. Não. A protagonista é o sítio onde a loucura tem lugar apesar dela. Em muitos excertos do livro a personagem descreve de modo minucioso, asséptico, o que lhe está a acontecer, a sua apatia, a sua falta de vontade, o seu desinteresse perante tudo e todos, a tristeza que se vai avolumando dentro dela, deixando-a como que dentro de uma campânula. A narradora descreve de forma muito rica e viva essa vivência do mergulho em todos os sentidos na loucura ao mostrar-nos o seu alheamento, falta de vontade por tudo, incapacidade de se alimentar, indiferença em relação a tudo e a todos. A personagem olha para si como para um pedaço de carne à distância a ver-se ser, como se não lhe dissesse respeito quem esse ser é. O romance não é panfletário. A protagonista põe tudo em causa porque se limita a ser ela própria, o que ela é já coloca em causa toda uma sociedade. Nudez mental completa, sem cedências, nem subterfúgios, construindo uma dignidade literária à força de um estilo narrativo incisivo, penetrante, lúcido. Excelente livro.
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