Uma nuvem paira sobre a psicanálise e sobre a sua transmissão por décadas a fio. O chamado “freudolacanismo” condensa um programa de continuação dogmático e unificado ao redor da autoridade de seus pais fundadores. Dentro dessa doutrina, indagar os psicanalistas lacanianos sobre definições claras e objetivas a respeito dos conceitos que organizam nosso campo, ou ainda, sobre o que se faz em uma análise, deixa evidente que o que de fato se apresenta a nós é uma profunda divergência. Infelizmente, "clareza" não parece ser um vocábulo do dicionário dos analistas que sustentam essa continuidade, onde parece ser preferido uma miríade de repetições vazias, ainda mais quando o assunto é recheado de aforismos. Parece ser desnecessário explicá-los, e esse linguajar característico - o famoso “lacanês” - acaba afastando aqueles que iniciam neste campo. É fato, esse obscurantismo lacaniano, tema desta primeira revista, transita na contramão da proposta de Lacan com seu Ensino. Ele teria deixado como legado a tarefa de inserção da psicanálise no debate das luzes. Ainda assim, cada vez mais se reforçam os obstáculos a uma transmissão racional, crítica e democrática. Falamos para os abastados. Sendo assim, e pensando na psicanálise porvir, a revista "Borda" é criada sob o desejo de oferecer uma outra leitura da teoria lacaniana, descentrada do Um, situando-se à margem não apenas de modo periférico e destoante, mas também como borda em uma topologia própria. Com efeito, um de seus intentos é endereçar ao leitor chaves de leitura para que este possa se aproximar de áreas supostamente apagadas do texto lacaniano. Bem como as matemáticas, os textos que se seguem se organizam sob o ideal de funcionarem como ferramentas, como instrumentos de trabalho que possibilitem uma diferente abordagem da psicanálise. Não por acaso, o bastião da nossa orientação é o corte topológico. Sustentamos assim, acima de tudo, que a legítima tarefa do psicanalista francês foi se debruçar contra o imperativo das ciências biológicas, do individualismo moderno e da metafísica. Três focos que parecem ainda hoje assombrar nossa comunidade. Desse modo, propomos aqui retomar o caminho formal, lembrando que esta é uma aposta de transmissão acessível que impede o avanço do irracionalismo predominante em nosso meio. Que fique claro, em hipótese alguma, este projeto não se supõe como a verdade sobre o que disse Lacan. O que não quer dizer que não nos apoiamos em uma decisãoconceitual rigorosa, política e cheia de consequências práticas. Entregamos, portanto, uma proposta teórica que se pretende sustentar em uma série de publicações dedicadas a este mesmo ideal. Radicalizando seus fundamentos – linguística, lógica, topologia e antifilosofia –, há de se pensar, por fim, uma crítica imanente que torne visível não os floreios quase religiosos da sagrada escritura, mas sim as gritantes inconsistências internas ao nosso campo, para que daí possamos propor uma conjectura lógica, sistemática e argumentativa. Acreditamos que esta é a única forma de constituir uma comunidade. Ao leitor, deixamos um aviso: a escolha da ordem dos textos aqui presentes não se trata de acaso. A investigação do leitor não modesto permitirá deduzir o percurso.
Revista Borda N.0 (0) - O obscurantismo lacaniano
não informado
BORDA
2020
111 páginas
3h 42m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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