Em alguns estudos sistemáticos sobre tipos de narradores, geralmente se encontra afirmações sobre a impossibilidade de se confiar nos fatos narrados e isso se dá principalmente em narradores-testemunhas, isto é, narradores que são personagens e que nos relatam a história por meio de uma voz em primeira pessoa. Ao meu ver, isso se entende a qualquer tipo de narrador. Toda ficção carrega em seu seio, em seu âmago, uma construção. Erigida ou não sobre mentiras, ela ainda é um relato subjetivo, e como tal, sujeita às distorções das impressões (Bernardo Carvalho). Portanto, mesmo em uma busca pela fidelidade do relato, essa construção facilmente se desmancha com a primeira onda a resvalar.
No caso deste romance, o penúltimo de Alain Robbe-Grillet, essa ideia de uma verdade, de uma confiabilidade, é subvertida e elevada ao paroxismo na direção oposta: nada é confiável. Se o autor retoma um tema tão caro à literatura, como o do duplo, ele parece fazer em prol de uma confusão, de uma distorção enviesada para um caminho opaco, volúvel e muito enérgico. Tal energia é gerada pelas alternâncias, seja de vozes, como de nomes. Vozes pronunciadas por narradores diferentes. Eles se distanciam e se aproximam do protagonista, que também se confunde na sua própria identidade, estendendo tal confusão a nós, leitores. A energia não cessa. Grillet é provocador ao ponto de inserir notas de rodapé que questionam diretamente os fatos narrados, colocam dúvidas e corrigem detalhes. Quem estaria ciente da narrativa? Ninguém. É essa a seiva que circula no interior deste romance labiríntico.
Labirinto este, ainda corpulento de erotismo, ainda fiel à sacanagem. A experimentação estética parte mais da forma, ao contrário do romance posterior (Um Romance Sentimental), que eleva tal erotismo a um tipo de absurdo. Esse tema, recorrente em Grillet, seja o romancista, seja o cineasta, parte de uma curiosa escavação da depravação humana, bem como, da cisão entre o anormal e normal. Afinal, para as personagens de Grillet, o normal é apenas uma questão de ponto de vista. O orgasmo é alcançado pelo corpo de outrem. É sempre no outro, seja no seu sofrimento ou prazer se é que esses subjetivos estariam em oposição na imaginação libertina deles
Para quem gosta de respostas prontas, ou apenas respostas; talvez não seja um romance muito apetecível, pois ele não as dará. E a chave encontra-se nessa ludicidade. Não há nada de complicado, é o posto da complexificação, é a simplicidade de um parque de diversões, cuja área autor e leitor podem brincar juntos. Inseparavelmente juntos. Se tudo escurecer, a culpa não é do autor, foi você quem decidiu desligar o disjuntor