Divagações
Primeiramente eu gostaria de pedir desculpas aos possíveis estudantes de Psicologia que venham até esse livro. Infelizmente minha resenha não é um resumo do conteúdo, e nem mesmo uma resenha propriamente dita. São somente divagações interconectadas com outras coisas da minha cabeça, fruto de leituras prévias. Conheci Carl Rogers resolvendo uma questão de concurso que perguntava sobre um dos postulados da sua teoria humanista. Errei a questão, não o conhecia. Parto agora em busca de um conhecimento maior da sua obra pois me interessei, e começo aqui em ''Terapia Centrada no Paciente'', uma pesquisa psicológica vigorosa desenvolvida nos anos 40/50. Como jurista sempre tive mais afeto à Sociologia do que a Psicologia, embora ambas auxiliem o Direito. Pensei portanto que era um pensamento de Habermas, mas Rogers já havia tratado do Eu e do Outro em conexão. O ser humano é um ser dinâmico que se constrói a partir da sua própria percepção da realidade. Assim, eu posso experimentar um sentimento de medo ao ver um palhaço, enquanto meu amigo experimentará alegria. O mesmo referencial, atitudes diferentes. São essas constantes e infinitas construções da realidade que permitem a construção do meu Eu, inclusive como o Outro me olha. Por que eu deveria ligar se alguém me chama de feio? Ou de inteligente? Qual a carga que uma opinião de uma outra pessoa que não seja eu me afeta? Rogers responde que só nos construímos em relação ao outro, o que também não era novidade em sua época, visto que isso faz parte da teoria de Hegel. Parte dos postulados humanistas, ao meu ver, carregam uma visão naturalista (?) do ser humano. Rogers fala sempre em organismo, e pouco em mente. Ele chega a descrever processos químicos do cérebro e do corpo nas suas explicações. Isso não é ruim, ele sempre interpreta o sentido da ação simbólica. E aí, embora seja Jung que seja conhecida pelo simbolismo, Rogers também se utiliza deles. Os seres humanos se constroem a partir de uma rede simbólica de interações. Parte metafísica talvez do livro é quando Rogers diz que a palavra não existe, a palavra é um símbolo por si só. Ora, esses são os entes do discurso aristotélico, ou o sentido dos números para os pitagóricos. Enfim, o livro é voltado basicamente para psicólogos, e eu não sou um, logo não me interessei pelas demais pesquisas. O fato é que nunca mais frequentarei uma sessão de terapia da mesma forma que antes de ler o livro. Aliás, penso que o conceito de transferência na clínica vai além da clínica. As relações pessoais são relações de transferência: quando me deparo com alguém eu o amo, odeio, dependo, penso. Afinal, quem não quer um amigo para desabafar? Ou um amor para contar? Talvez até mesmo algo odioso para servir de inspiração, quem sabe...

