Maria Estela Guedes ou a escrita no papel do chão Por Nicolau Saião. Nestes poemas de MEG sente-se pairar a sombra de Rembrandt e da sua mensagem lucidamente antilírica — se entendermos como lirismo essa escrita impressionista (um pouco desfasada da realidade mais legítima e soberana) que por aí vai dando cobertura a um romantismo de pacotilha, ultra-sentimental e, por isso mesmo, refalso e, no fundo, claramente pedante. MEG revisita Rembrandt, o pintor que nos deu um realismo avant la lettre excursionando pela sua própria rota interior, essa que contém os sinais de um país transterreno. O Rembrandt das noites semiveladas e das carnes escorchadas, mas também o criador fascinado e fascinante dos interiores repletos de real encanto, está aqui, como se nos antolha que também ali esteja o perfil sóbrio de Milton com todos os seus horizontes perdidos e reencontrados. Ali, aqui, nesta terra martirizada da Guiné, mas também na terra encantada de uma menina de 12 anos que através da sua sensibilidade e da sua inteligência soube forjar as tintas com que fotografaria a seu tempo uma grande e bela comoção posta em poemas que nos levam de viagem pelo seu paraíso disperso pelos anos que se evolaram. Está ali a escrita, a paixão e o conhecimento da escrita, que é signo maior lavrado nas paredes de um amor pelos ritmos da memória, deliberadamente posto em equação. E está aqui também a interrogação do ser humano, da mulher que (se) recorda, que escreve, que do baú deslumbrante e deslumbrado do seu espírito e da sua nostalgia soube retirar os mais belos sinais de uma infância e adolescência para depois e para todo o sempre. Idade de mulher... Por isso também Prometeu aqui comparece — esse Prometeu que os grandes pintores, os grandes poetas, podem encenar nos seus quadros/poemas diurnos ou sob a lua dos tempos que vão transcorrendo — pois que o fogo do entendimento ela o acalenta a cada pincelada (verso), a cada retrocesso e reincursão, a cada nova inflexão, a cada lugar revisitado. Neste livro/poema, cujas jornadas incessantemente se questionam tanto quanto se afirmam — pois que é esse o movimento perene da poesia, ir e vir como se fossem as ondas de um mar na noite ou na claridade — a penumbra ilumina-se a dado passo para ganhar um sentido além da devastação e da amargura. Trata-se duma legítima e nostálgica evocação mas igualmente, o principalmente, duma transfiguração. Conhecedora das mansões em que se radica a Arte Real, a autora deixa que a sua poesia se perpasse duma transmutação forjada pela forma e pela qualidade da escrita praticada. Espiritualização da matéria e materialização do espírito, para tudo dizer. Rembrandt, Milton, Prometeu: o mistério das coisas e dos seres, a sua representação virtual e a chegada ao conhecimento. Ou pelo menos à busca intemerata do conhecimento (da sabedoria?) e de tudo o que ele nos pode ofertar — como claramente acontece neste Poema de carne e de sangue espiritual, livro seminal, secreto e luminoso duma mulher/menina poetisa e maga em terras africanas de outrora e deste tempo quotidiano, que é, para nosso prazer e nossa honra de leitores, Maria Estela Guedes. Atalaião, Março de 09 NS
Chão de Papel -
Maria Estela Guedes
Apenas livros ltda
2009
47 páginas
1h 34m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
Estatísticas
Avaliações
2.8 / 4- 5 estrelas0%
- 4 estrelas0%
- 3 estrelas75%
- 2 estrelas25%
- 1 estrelas0%