O autor vai muito além de uma corriqueira história de stalker e faz um retrato da vida numa metrópole nos anos setenta. Uma cidade habitada por pessoas solitárias onde cada apartamento é como um universo paralelo, onde cada núcleo familiar vive sua vida, tão próximos de seus vizinhos, mas tão isolados. E é observando o cotidiano dessas pessoas que Johana, descobre o prazer do voyeurismo e se vê obcecada pelo vizinho Stu, com quem dá início a uma inusitada amizade por telefone. Apesar da bizarrice da situação, torci muito por eles. Ela, uma reclusa com dificuldades de socialização, ele, um homem comum, que insiste num relacionamento sem reciprocidade com uma bailarina que é um poço de egocentrismo. Através do romance entre os protagonistas o autor fala da dificuldade que temos em nos relacionar, mostrando para as outras pessoas apenas aquilo que queremos que elas conheçam e escondendo quem somos de verdade. Nem sempre por intenções maliciosas, mas por medo, insegurança, baixa auto estima. Não era o que eu esperava, mas o livro me surpreendeu positivamente, reflexivo, melancólico, mas também divertido em alguns momentos. Felice é um dos grandes expoentes da literatura gay nos Estados Unidos, esse livro foge ao seu gênero usual e fiquei curioso em conhecer mais de seu trabalho, principalmente pela sua sutileza em explorar os sentimentos humanos.